segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

O Uivo da Coyote repercutindo por aí


Isabela Sanches, estudante da Universidade Estadual de Londrina, decidiu fazer seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) sobre a revista Coyote. Não é um longo estudo crítico, mas é o melhor texto escrito sobre a revista até hoje. Só uma pequena correção: não se trata exatamente de uma publicação de jornalismo literário, mas, sim, de criação literária. Gosto da idéia de que nós, editores, somos uma espécie de maestro, regendo as vozes de múltiplos criadores, de tempos e espaços diversos. E não tem como esconder a satisfação de perceber um trabalho de longos 10 anos repercutindo por aí, especialmente entre as novas gerações.

Ademir Assunção



A revista Coyote publica há 10 anos textos literários inéditos, radicais em suas abordagens, fugindo do comodismo de release e do padrão de mercado presente no jornalismo atual. Para isso, contou sempre com o retorno de artistas e também de leitores em geral, fiéis à publicação.

Criar uma revista que falasse sobre literatura e arte já era o sonho dos jornalistas Ademir Assunção, Marcos Losnak e Rodrigo Garcia Lopes quando ainda cursavam jornalismo na Universidade Estadual de Londrina (UEL) e desde então eles vêm se empenhando em diversos projetos culturais. Entre as publicações está a  e K’AN, realizada pelos três no começo dos anos 1980. 

Assunção e Lopes foram também editores da revista Medusa, de Curitiba, ao lado de Eliana Borges e Ricardo Corona, nos anos 1990. Finalmente, em 2002, surgiu a Coyote, editada em Londrina. E, como explica Rodrigo Garcia Lopes, a revista “só existe graças à nossa teimosia e ao Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic) da prefeitura local. É este importante programa público que garante os custos mínimos para a impressão e circulação da revista”.

A Coyote sempre buscou criar sua própria linguagem, sobretudo no aspecto gráfico, que é um dos seus diferenciais e também marca registrada da publicação. Quanto aos temas tratados, a revista investe na divulgação de literatura e arte, que são pouco visadas pela grande imprensa. “Somos bastante fiéis ao projeto gráfico e editorial desde o primeiro número. Buscamos sempre a fatia mais radical da literatura brasileira e internacional. Radical na linguagem e nas abordagens”, coloca Garcia Lopes.

“Não dá tanto lucro quanto um best-seller
Qualquer pessoa interessada por cultura, especialmente em literatura e poesia, é um potencial leitor da Coyote. A revista editada em Londrina recebe muito feedback de artistas, escritores, poetas, jornalistas, formadores de opinião e leitores em geral; no entanto, o grande problema encontrado pelos seus editores é outro, o de fazer com que a publicação chegue até o seu público.

A Coyote é distribuída para todo o país apenas em livrarias. Ela já foi muito disposta também internacionalmente, mas hoje sua circulação é menor devido aos gastos de divulgá-la. E, para garantir que a revista continue chegando aos leitores, foi feita uma parceria com a editora Iluminuras, que ajuda na sua distribuição. Rodrigo Garcia Lopes, com sua experiência em publicações culturais, explica os empecilhos de se trabalhar com publicações independentes:

“Todos aqueles que fazem revistas independentes sabem que o maior nó é a distribuição. Muitas livrarias se recusam a vender a revista, sabe-se lá o motivo. Certamente porque não dá tanto lucro quanto um best-seller. Mas há leitores interessados em todos os cantos do país. Quando o mercado só se interessa por lucros estratosféricos, publicações como a Coyote acabam prejudicadas.”

Revista não possui anúncios
Mesmo com as dificuldades, a revista se mantém, ainda que não garanta o sustento de quem trabalha com ela. Cada um dos editores participa de outros projetos para garantir o seu sustento. Nas palavras de Garcia Lopes,“nenhum de nós sobrevive da revista. Ao contrário: não ganhamos um tostão. Fazemos por pura teimosia e amor à arte, para usar um velho clichê, azul e desbotado”.
A insistência de manter a revista viva possibilitou à Coyote superar um grande problema que as publicações culturais encontram no Brasil, o da longevidade. A publicação completa 10 anos em 2012, chegando a 24 números lançados. “Historicamente, no Brasil, revistas literárias não passam do quinto número. Nós poderíamos ter lançado quase o dobro, se trabalhássemos com condições um pouquinho melhores”, coloca Garcia Lopes.

Por se tratar de uma revista não-comercial (a Coyote não possui sequer anúncios), de pequena estrutura, que veicula apenas conteúdos altamente culturais, a revista recorre a apoios financeiros para sobreviver. Ao longo dos anos, a Coyote se inscreveu em vários editais culturais, só conseguindo recursos do Promic, de Londrina. O último edital onde seus editores buscaram apoio foi um do Ministério da Cultura focado para revistas culturais, mas foi perdido.

“Não queremos chover no molhado”
Mesmo já sendo conhecida e reconhecida nacionalmente, ainda que com pouca tiragem e problemas de periodicidade que enfrenta, a Coyote quer consolidar ainda mais sua presença na cultura londrinense, paranaense e nacional. Essa é uma luta diária, a história mostrou revistas importantes deixando de existir, como a Oroboro, Medusa, Et Cecetera, Inimigo Rumor, ou migrando totalmente para a internet, como é o caso da Sibila. Para não ter o mesmo futuro dessas publicações, a Coyote investe cada vez mais em seu conteúdo e identificação com os leitores.

Para 2012, foi preparada uma edição comemorativa do aniversário de 10 anos da Coyote. Também está em processo de pesquisa com webdesigners a criação do site da revista, que irá disponibilizar todos os números anteriores, criando uma versão online da revista, além de desenvolver um sistema de vendas diretas para aqueles que quiserem obter a edição impressa.

E, com certeza, há muita história para ser contada, como as entrevistas inéditas de Paulo Leminski, Roberto Piva, Marjorie Perloff, Eugen Bavcar, Moacyr Scliar; textos inéditos de Daniel Wallace, Domingos Pellegrini, Pedro Juan Gutierrez, João Gilberto Noll, Sebastião Nunes e Wilson Bueno; ou ainda a tradução de poetas nômades do Oriente Médio. Mas, sobretudo, já coube à Coyote revelar vários autores novos, que, em seguida, foram publicados por editoras, entre eles João Filho, Jorge Cardoso e Nilo Oliveira. 

Essa é uma filosofia que a Coyote busca seguir: “ao lado de inéditos de autores já consagrados, publicamos sempre autores novos e até totalmente desconhecidos. Brasileiros ou estrangeiros. Não queremos chover no molhado”, é o que garante Rodrigo Garcia Lopes.

Novos critérios de criação e avaliação
Pelas páginas da revista já passaram cerca de 340 colaboradores: de escritores a fotógrafos, de artistas gráficos a tradutores, de ensaístas a artistas em geral de Londrina e de vários estados brasileiros (Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, Pará, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Minas Gerais, Pernambuco, Ceará, Maranhão, Pernambuco, Bahia e Mato Grosso, entre outros) e de países como Canadá, China, Síria, Peru, Inglaterra, Chile, México, Coréia, Eslovênia, República Dominicana, Romênia e Egito, Argentina, Uruguai, Chile, Cuba, França, Irlanda e Estados Unidos.
Mais do que abrir as portas para diversos artistas, das mais diversas regiões, a Coyote tem contribuído também para que os trabalhos artísticos de escritores e artistas londrinenses ganhem visibilidade e prestígio. A revista já publicou mais de 30 autores e artistas da cidade, entre eles Marco Fabiani, Ponti Pontedura, Vinícius Lima, Mitiyo Sugimoto, Beatriz Bajo, Haruo Ohara, Fernanda Magalhães, Celia Musilli, Nelson Sato, Beto, Márcio Américo, Káren Debértolis, Maurício Arruda Mendonça, Rogério Ivano, Domingos Pellegrini, Rodrigo Garcia Lopes, Ygor Raduy, Mario Bortolloto, Augusto Silva, Neuza Pinheiro, Walter Ney, Alexandre Horner, Gabriel Giannattasio, Samantha Abreu, Carlos Zago, Leo Pinto e Nelson Capucho, entre outros. Cumprindo, mais uma vez, o que seria a função primordial de toda revista literária, a de introduzir a obra de escritores de talento jovens ou pouco conhecidos.

A principal missão da revista tem sido justamente essa, abrir suas páginas para abrigar escritores inéditos; divulgar obras de escritores mais conhecidos, mas que andam esquecidos; estimular a reflexão crítica através de ensaios, dossiês e entrevistas; publicar traduções de autores internacionais para ampliar as referências estéticas brasileiras, propondo ainda novos critérios de criação e avaliação para os artistas.
A “ditadura das imagens”
Diante de tantas possibilidades, com tantos artistas despontando, e em tempos de excesso de informação, a revista investe na filtragem do material a ser publicado, atividade que, ao que parece, a grande imprensa trata com displicência. É importante que as publicações culturais divulguem e discutam novos rumos. Com isso, a Coyote já marcou presença em congressos como o Encontro Nacional de Revistas Culturais Independentes, realizado em 2008, no qual a revista foi um dos destaques da programação. Em 2010, no Fórum das Letras, em Ouro Preto, a Coyote esteve presente num debate sobre revistas independentes.

A reflexão sobre o papel de uma revista literária e o cuidado na hora de filtrar os seus assuntos, trouxe às páginas da Coyote o resgate e apresentação de nomes importantes das letras e das artes, de épocas e lugares diferentes, instigando a leitura, a reflexão e a criação literária. Por ser uma revista de criação, uma de suas balizas é abrir espaços para textos inéditos e é importante ressaltar que essa característica é cumprida, praticamente tudo que se publica na Coyote é inédito. Tamanho zelo com a publicação fez com que a própria imprensa reconhecesse a importância da Coyote, a Folha de S.Paulo, por exemplo, apontou aCoyote, no ano de 2010, como “uma das mais importantes revistas literárias do país”.

Opiniões como esta não só comprovam o prestígio da revista como aumentam a sua responsabilidade de manter a qualidade editorial e conteúdo estético. O projeto da Coyote aposta na necessidade da pesquisa de linguagens poéticas e na capacidade da imaginação criativa e de invenção que a literatura possibilita às pessoas, como uma resposta alternativa à “ditadura das imagens” que vivemos na sociedade atual. Rodrigo Garcia Lopes declara que romper com o mercado garantiu a Coyote maior autonomia: “Desvinculado dos interesses comerciais imediatos da indústria editorial, e exatamente por isso, revistas literárias como a Coyote gozam de uma liberdade muito maior, se tornando, de fato, um espaço para experimentações com a linguagem”.

Um fórum de ideias e reflexões
A atividade editorial e cultural da revista Coyote sempre esteve pautada pelas palavras de um importante poeta e crítico do século 20, Ezra Pound, que escreveu em seu livroABC da Literatura: “Uma nação que negligencia as percepções de seus artistas entra em declínio. Depois de um certo tempo ela cessa de agir e apenas sobrevive.” Esta afirmação dimensiona bem a importância da cultura e da arte para a criação da identidade de um povo e de um país. Importância que a Coyote já descobriu e que renova a cada nova publicação.
Nos últimos anos, no Brasil, tem se travado um intenso debate sobre a criação de políticas públicas de fomento à leitura. Este debate se dá em consequência dos índices preocupantes de analfabetismo funcional em nosso país. Tal fato justifica, por si só, a relevância de revistas literárias que deem voz aos escritores, poetas e críticos contemporâneos e, ao mesmo tempo, estimulem o hábito de leitura, especialmente entre os mais jovens. Historicamente, as revistas literárias sempre exerceram o papel de fórum de ideias, debates e criações. Movimentos como o modernismo, a poesia concreta, a poesia marginal, entre outros, fizeram nascer revistas que tinham como função serem difusoras e multiplicadoras de cultura e criação literária.
A literatura assume uma importância fundamental, pois, ao tratar diretamente com a própria língua nacional, ela recria constantemente e organicamente o fundamento da comunicação entre seus falantes. Neste contexto, revistas literárias como a Coyote assumem um papel insubstituível de dar voz aos novos escritores, poetas e artistas em geral que trabalham com a língua, esse mecanismo de construção da identidade nacional. “É importante propiciar um diálogo crítico-criativo com outras tradições literárias, propor outras possibilidades estéticas, que vão além das canonizadas pela crítica e pela indústria cultural, bem como tornar-se um polo de aglutinação de escritores”, exalta Rodrigo Garcia Lopes, com a mesma postura que os demais editores apresentam e acreditam para a publicação. Em suma, a Coyote busca se portar como uma espécie fórum de ideias e reflexões, contribuindo, com isso, para o crescimento da leitura e da ampliação de horizontes da língua portuguesa no Brasil.

O exercício da cidadania
A Coyote pretende ser uma resposta enfática a um bordão bastante comum nos anos 90 disseminado entre críticos, jornalistas e até mesmo escritores: a de que não existia literatura de qualidade sendo feita no Brasil. As páginas da revista comprovam que esta afirmação é equivocada, mostrando que há uma criação artística riquíssima sendo produzida atualmente. O problema, mais uma vez, está na difusão do conteúdo cultural produzido, que se mostra demasiadamente limitada.

É necessário fazer com que a cultura chegue até as pessoas, para que ela não caía no esquecimento. É nisso que as publicações literárias acreditam. No futuro, quando um estudioso ou um leitor curioso quiser saber como era a literatura brasileira produzida no início do século 21, terá em revistas como a Coyote um rico material de pesquisa para historiadores, sociólogos, professores e críticos literários.

O desafio agora, segundo os editores da Coyote, é manter a periodicidade da revista de literatura e arte com a mesma abordagem ousada, criativa e cosmopolita, coerente com a própria história de Londrina. A importância da continuidade de um trabalho como este é o de formar um público leitor crítico e desenvolver o gosto pela leitura, aumentando os referenciais culturais e estéticos do cidadão, contribuindo, assim, para o fortalecimento cultural de Londrina, bem como para o exercício da cidadania através da circulação e democratização de informações artísticas e estéticas.
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[Isabella Sanches é estudante de Jornalismo, Londrina, PR]

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