segunda-feira, 31 de outubro de 2011

leveza


 o poema as vezes é sabre
lâmina fina como o vento
ou folhas suspensas
sobre um verde
quase água
quase pluma
levita sobrevoa se espraia
na voragem do dia
como os dedos da moça
ao atiçar o clic
no instante exato da fotografia

arturgomes


quinta-feira, 27 de outubro de 2011

hoje no sesc campos - ReVirando a Tropicália

Sesc Rio apresenta:
70 Anos que Não se Foram
Artur Gomes e Dizzy Ragga
participação especial do tecladista Júnior Brasil
ReVirando a Tropicália
Espaço Plural – 19:00h
Entrada Franca


foto: helo landin


 me encanta mais teus olhos
que o plano piloto de brasília
o palácio do planalto o alvorada
me encanta mais as mãos da namorada
que a bandeira do brasil
o céu de anil a tropicalha

quero muito mais a carNAvalha
que a palavra açucarada
procuro  a palavra sal
do suor da carne bruta
a flor de lótus do cio da fruta
mesmo quando for somente espinhos
me encanta muito mais
os pés que a lata chuta
por entender que a vida é luta
e abrir novos caminhos

me encanta mais na lama o lírio
a flor do láscio
os olhos da minha filha
que o ouro dessas quadrilhas
que habitam esses palácios

arturgomes

terça-feira, 25 de outubro de 2011

carybé ilustrador - exposição - oficina graffiti - sesc campos

o manejo do stress através da respiração - sesc campos

Juiz critica monopólios na mídia e aponta manipulação em cobertura da RBS

O presidente da Associação dos Juízes do Rio Grande do Sul (Ajuris), João Ricardo dos Santos Costa, criticou a cobertura que o jornal Zero Hora fez de um seminário sobre liberdade de imprensa e Poder Judiciário, em Porto Alegre. A matéria sobre o evento omitiu a parte do debate relacionada aos monopólios de comunicação. “Esse é um caso paradigmático: em um evento promovido para discutir a liberdade de imprensa, a própria imprensa comete um atentado à liberdade de imprensa ao omitir um dos principais temas do evento", diz o juiz em entrevista à Carta Maior.
No dia 21 outubro, a Associação Nacional dos Jornais (ANJ) e a Associação dos Juízes do Rio Grande do Sul (Ajuris) promoveram, em Porto Alegre, um seminário para discutir liberdade de imprensa e Poder Judiciário. O convite para o encontro partiu da ANJ que já promoveu um debate similar junto ao Supremo Tribunal Federal (Ver artigo de Venício LimaDireito à comunicação: o “Fórum” e a “Ciranda”). Os interesses temáticos envolvidos no debate não eram exatamente os mesmos. Enquanto que a ANJ e as suas empresas afiliadas estavam mais interessadas em debater a liberdade de imprensa contra ideias de regulação e limite, a Ajuris queria debater também outros temas, como a ameaça que os monopólios de comunicação representam para a liberdade de imprensa e de expressão.

O jornal Zero Hora, do Grupo RBS (e filiado a ANJ) publicou no sábado (24/10/2011) uma matéria de uma página sobre o encontro. Intitulada “A defesa do direito de informar”, a matéria destacou as falas favoráveis à agenda da ANJ – como as da presidente da associação, Judith Brito, e do vice-presidente Institucional e Jurídico da RBS, Paulo Tonet – e omitiu a parte do debate que tratou do tema dos monopólios de comunicação. Na mesma edição, o jornal publicou um editorial furioso contra o governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, acusando-o de querer censurar o jornalismo investigativo (Ver matéria: Tarso rechaça editorial da RBS e diz que empresa manipulou conteúdo de conferência). No mesmo editorial, o jornal Zero Hora apresentou-se como porta-voz da “imprensa livre e independente” e afirmou que “a credibilidade é a sua principal credencial”.

Agora, dois dias depois de o governador gaúcho acusar a RBS de ter manipulado o conteúdo de uma conferência que proferiu no Ministério Público do RS, omitindo uma parte que não interessava à construção da tese sobre a “censura ao jornalismo investigativo”, mais uma autoridade, desta vez o presidente da Ajuris, João Ricardo dos Santos Costa, vem a público criticar uma cobertura da RBS, neste caso, sobre o evento promovido em conjunto com a ANJ. A omissão da parte do debate relacionada ao tema do monopólio incomodou o presidente da Associação de Juízes. 

“Esse é um caso paradigmático: em um evento promovido para discutir a liberdade de imprensa, a própria imprensa comete um atentado à liberdade de imprensa ao omitir um dos principais temas do evento que era a discussão sobre os monopólios de comunicação”, disse João Ricardo dos Santos Costa em entrevista à Carta Maior.

Na entrevista, o presidente da Ajuris defende, citando Chomsky, que “o maior obstáculo à liberdade de imprensa e de expressão são os monopólios das empresas de comunicação”. A “credibilidade” reivindicada pela RBS no editorial citado não suporta, aparentemente, apresentar a voz de quem pensa diferente dela. “O comportamento do jornal em questão ao veicular a notícia suprimindo um dos temas mais importantes do debate, que é a questão dos monopólios, mostra justamente a necessidade daquilo que estamos defendendo”, destaca o magistrado. 

Carta Maior: Qual foi o objetivo do seminário sobre Liberdade de Imprensa e Poder Judiciário e quais foram os principais temas debatidos no encontro realizado dia 21 de outubro em Porto Alegre?

João Ricardo dos Santos Costa: A Ajuris foi procurada pela Associação Nacional de Jornais (ANJ) para promover um evento com o objetivo de debater liberdade de imprensa e o Poder Judiciário. A relação se justifica pelo grande número de questões que chegam ao Judiciário envolvendo a atividade jornalística. Essas questões envolvem, muitas vezes, decisões que limitam a divulgação de certas matérias. Pois bem, fomos procurados para fazer esse debate que gira em torno de dois valores constitucionais: a liberdade de expressão e a independência do Judiciário. Para alguns haveria um aparente conflito entre esses dois princípios. Nós nos dispomos, então, a construir por meio do debate o que significa a convivência desses dois valores em sociedade democrática. Esse foi o grande desafio que esse evento pretendia enfrentar.

Há duas posições veementes neste debate. De um lado há aqueles que não admitem nenhum tipo de cerceamento à informação; de outro, há aqueles que não admitem qualquer tipo de restrição ao trabalho do Judiciário. Do ponto de vista constitucional, cabe ao Judiciário solucionar todos os conflitos, inclusive os que envolvem a imprensa. A imprensa não está fora das regulações judiciais. Há um embate muito forte entre essas duas posições. Se, de um lado, a ANJ buscou explorar o tema da liberdade de imprensa sob a ótica da atividade judicial, nós buscamos fazer um debate sobre a questão constitucional da liberdade de imprensa, no que diz respeito à distribuição de concessões aos veículos de comunicação.

Carta MaiorPor que a Ajuris decidiu abordar o tema da liberdade de imprensa sob essa ótica?

João Ricardo dos Santos Costa: Chomsky tem dito que o maior obstáculo à liberdade de imprensa e de expressão são os monopólios das empresas de comunicação. Não só ele, aliás. Vários pensadores contemporâneos dizem a mesma coisa. Para nós, esse é o cerne da questão. Hoje não há pluralidade, não há apropriação social da informação. O que existe é o interesse econômico que prepondera. Os editoriais são muito mais voltados aos negócios. Hoje mesmo, o editorial de um jornal local [Zero Hora/RBS] expressa preocupação com a vitória de Cristina Kirchner na Argentina dizendo que seria um governo populista que teria explorado o luto [pela morte de Néstor Kirchner] para se reeleger. 

Há toda uma preocupação sobre o que representa esse governo para os negócios das empresas de comunicação, em especial no que diz respeito ao conflito entre o governo argentino e o grupo Clarín. A sociedade brasileira só tem conhecimento do lado da empresa de comunicação. A visão do governo argentino sobre esse tema nunca foi exposta aqui no Brasil.

E aí vem uma questão fundamental relacionada à liberdade de imprensa. O problema não é o que os meios de comunicação veiculam, mas sim o que omitem. Esse é o grande problema a ser superado.

Carta Maior: E esse tema foi debatido no seminário?

João Ricardo dos Santos Costa: No nosso evento, eu lembro de uma fala do deputado Miro Teixeira. Ele disse que a história da censura envolve o cerceamento de grandes pensadores da humanidade, como Descartes, Locke, Maquiavel, Montesquieu, entre outros. Citou isso para exemplificar os danos sociais dessa censura. Mas hoje o que nós observamos é que os grandes pensadores contemporâneos são cerceados não pelos censores que existiam antigamente, mas pelos próprios detentores dos meios de comunicação. Os grandes meios de comunicação não veiculam, não debatem hoje os grandes pensadores da humanidade. Nomes como Amartya Sen, Noam Chomsky, Hobsbwan, entre outros, não têm suas ideias discutidas na mídia, não são procurados para se manifestar sobre as grandes questões sociais. Não são chamados pela grande mídia para dar sua opinião e o que acaba prevalecendo é o interesse do capital financeiro, que é aquele que não vai pagar a conta da crise.

Eu dou esse exemplo para demonstrar a gravidade do problema representado por esse monopólio, esse interesse econômico preponderante sobre o direito à informação. Esse interesse diz incessantemente para a sociedade que a única saída para superar a crise atual é por meio do sacrifício dos mais pobres e dos setores médios da população. Não se toca na questão do sacrifício do setor financeiro. Este setor não pode ter prejuízo. Quem vai ter prejuízo é a sociedade como um todo, mesmo que isso atinja direitos fundamentais das pessoas. 

Então, esse debate sobre a democratização dos meios de comunicação é extremamente importante e deve começar a ser feito de forma transparente para que a sociedade se aproprie do que realmente está acontecendo e que possa ter autonomia em suas decisões e mesmo influenciar a classe política que hoje está entregue aos grandes financiadores de campanha que são os mesmos que fornecem a informação enlatada que estamos recebendo. Nós, da Associação dos Juízes do Rio Grande do Sul, estamos propondo esse debate para a sociedade.

Carta MaiorEsse debate que o senhor relatou não apareceu na cobertura midiática do encontro pelo grupo RBS, que participou do mesmo. O jornal Zero Hora dedicou uma página ao encontro, com uma matéria intitulada “A defesa do direito de informar”, sem fazer nenhuma menção a essa parte do debate envolvendo os temas do monopólio e da democratização dos meios de comunicação. Como é que a Ajuris, que propôs esse debate, recebe esse tipo de cobertura?

João Ricardo dos Santos Costa: O comportamento do jornal em questão ao veicular a notícia suprimindo um dos temas mais importantes do debate, que é a questão dos monopólios, mostra justamente a necessidade daquilo que estamos defendendo. É como eu disse antes: o problema maior é aquilo que é omitido, aquilo que não é revelado. Esse é um caso paradigmático: em um evento promovido para discutir a liberdade de imprensa, a própria imprensa comete um atentado à liberdade de imprensa ao omitir um dos principais temas do evento que era a discussão sobre os monopólios de comunicação. Nós não vamos nos omitir em tratar desse assunto por mais dolorido que ele possa ser. É evidente que não é um assunto que deva ser banalizado. Ele é o mais importante de todos. Estamos tratando de pluralidade de pensamento. 

Carta Maior: No debate, o deputado federal Miro Teixeira defendeu que a liberdade de imprensa é um direito absoluto. Qual sua opinião sobre isso?

João Ricardo dos Santos Costa: Eu compartilho a ideia de que não há nenhum direito absoluto, não pode haver. Neste contexto de monopólio, menos ainda. Liberdade absoluta de imprensa em um contexto onde sequer a Constituição Federal é cumprida. no sentido de proibir a existência de monopólios. É algo completamente daninho à democracia. Outra coisa com a qual eu também não concordo , envolvendo esse debate, é a afirmação do ministro Marco Aurélio Buzzi (do Superior Tribunal de Justiça) de que nós temos liberdade até para matar. Nós não temos liberdade para matar. Não vejo, dentro da nossa organização jurídica e de sociedade, que tenhamos liberdade para matar. Do fato de, no Código Penal brasileiro, “matar alguém...pena de tanto a tanto” aparecer como uma expressão afirmativa, não se segue o direito de matar. Nós não podemos matar e não podemos violar o Direito. Não temos essa liberdade. Não temos a liberdade de tirar a liberdade das outras pessoas. O direito individual não chega a esse radicalismo que se pretende com essa afirmação de que a liberdade de imprensa é um direito absoluto.

Carta Maior: A ANJ realizou recentemente, no Supremo Tribunal Federal (STF), um seminário semelhante a este realizado no Rio Grande do Sul. Há, portanto, uma óbvia preocupação com a posição do Poder Judiciário neste debate. Qual é, na sua avaliação, o papel do Judiciário neste contexto?

João Ricardo dos Santos Costa: O fato de se debater, em primeiro lugar, é um grande caminho para amadurecer esses institutos que, aparentemente, estão colidindo, na sociedade. É lógico que o Judiciário, nesta e em outras grandes questões da sociedade brasileira, tem sido provocado a se pronunciar. Muito pela ineficiência do Poder Legislativo. O STF tem decidido sobre questões que o Legislativo se mostra incapaz de resolver: união homoafetiva, aborto, demarcação de terras indígenas, células-tronco, entre outros. A pressão envolvendo esses temas está vindo para cima do Judiciário. E o Judiciário, por sua formatação de autonomia e independência, ele se mostra menos vulnerável a pressões. Decidir é da essência do Poder Judiciário, desagradando um dos lados em litígio. 

Quando esse lado é muito poderoso, os danos à instituição podem ser pesados. Numa decisão, por exemplo, que contraria os interesses de um monopólio de comunicação, esse monopólio joga todo esse seu poder para atingir a credibilidade do Judiciário como instituição. Creio que aí aparece um outro grande debate que deve ser feito sobre até que ponto esse tipo de postura não corrói a nossa democracia.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Tem aldeia no hip hop

Primeiros rappers Guarani Kaiowá lançam disco inspirado no ritmo afro-americano

Cristiano Navarro de Dourados (MS) no Brasil de Fato
Na apresentação de um trabalho de escola sobre meio ambiente, Bruno começou a rimar. No ano de 2005, o improviso com as palavras era apenas uma brincadeira que o aluno Guarani Kaiowá da escola Araporã, da terra indígena de Dourados, gostava de fazer com seus colegas no recreio. Hoje Bruno é o líder do Brô MC’s, primeiro grupo de rap indígena no Brasil a lançar um disco.

Brô MC’s, primeiro grupo de rap indígena no Brasil a lançar um disco
Foto: Divulgação
E o que canta o Brô MC’s? Segundo eles mesmos, canta rap com compromisso. “A gente canta nossa realidade, porque a mentira não cola com a nossa cara”, afirma Bruno.
Com mais de 11 mil pessoas vivendo em 3,5 mil hectares, a reserva indígena de Dourados está longe da imagem idílica de uma aldeia espaçosa de natureza exuberante e muito próxima da realidade das favelas das grandes cidades. Consumo de drogas, trabalho infantil e altos índices assassinatos estão presentes no cotidiano dos jovens do Brô. E no entorno de sua aldeia, a restrição do acesso aos seus territórios, o preconceito e o racismo da sociedade envolvente. “A gente tenta mostrar a verdade do que a acontece na aldeia, na nossa comunidade. O pessoal da aldeia quando vai para a cidade sofre muito preconceito, os lugares que fecham a porta na cara dos índios. Isso a gente coloca no rap. Na verdade o rap já um protesto” explica Clemerson, irmão de Bruno.
Mas o caminho até o primeiro disco demo foi longo. Os irmãos Clemerson e Bruno iniciaram sua carreira artística descobertos durante as gravações do filme Terra vermelha, do diretor Marco Bechis, sobre a luta pela reconquista do território, quando compuseram a primeira letra “Saudação da Aldeia”. Mais tarde, em parceria com o grupo Fase Terminal, a música recebeu uma base e outro nome, “Yankee No”. “A música era um canto que o pajé do Panambizinho fazia nas gravações do filme. Daí, eu vi e modifiquei pra levada do rap”, conta Bruno.
Capaz em tudo”
Em seguida ao filme, uma oficina de hip hop organizada pela Central Única de Favelas (Cufa) aproximou outros dois irmãos, Kelvin e Charlie. Assim os quatro formaram o primeiro grupo de rap indígena brasileiro. Ao final da série de oficinas os rappers gravaram um disco demo em cima de bases de outras músicas.
No início da gravação do CD os caciques passaram a criticá-los. “Diziam que esse não era o nosso futuro. Meu avô, que é cacique, veio me perguntar por que a gente gravou isso. Foi aí que eu peguei um CD e falei ‘senta aqui que eu vou mostrar pra você. Presta a atenção nas letras. O que tá falando é coisa da nossa realidade, da nossa cultura’. E depois eu mostrei para todas as lideranças da região e mostrei a música e a letra. Numa reunião onde estavam todas as lideranças eles falaram: ‘está certo é isso mesmo que acontece’”, relata Clemerson. “Os mais velhos entenderam e sabem que a gente tem que mostrar que o índio é capaz em tudo. E pode ser professor, agente de saúde, advogado ou cantor de rap. E que nosso povo não é só isso ou aquilo, a gente é o que pode fazer a diferença”, completa o irmão.
Higor Lobo, do grupo Fase Terminal e membro do Cufa, que produziu o disco da banda, conta que a formação feita na aldeia não se dedicou apenas ao aprendizado das “técnicas” do rap, mas também à leitura crítica da realidade. Hoje, o produtor, que também é geógrafo e militante do movimento hip hop desde 1995, percebe “uma formação crítica consistente nas letras”.

Multicultural
Misturando letras em guarani e português, o grupo também introduziu instrumentos da música de sua etnia. “As músicas surgem em conjunto, sentado na roda, trocando altas ideias. E a bases foram usadas de outros grupos, de que a gente só modificou usando os instrumentos da aldeia mbaraka, para a base ficar legal, para diferenciar e ter a nossa cara. Porque o grupo sai da aldeia e leva o conhecimento daqui para fora”, explica Bruno.

Bruno: “A gente canta nossa realidade, porque a
mentira não cola com a nossa cara - Foto: Divulgação
Se no Brasil o Brô MC’s é um grande surpresa no meio do movimento hip hop, em outros países da América Latina, não. O antropólogo Spensy Pimentel, autor do Livro vermelho do Hip-Hop, chama atenção para a penetração do movimento. “A internet tem nos permitido descobrir, pouco a pouco, o quanto o movimento hip hop espalhouse pela América Latina. Até onde eu descobri, há grupos de rap cantando em língua indígena em lugares como Bolívia (aymara) e Chile (mapuche). Independente da questão linguística, a identificação étnica/racial com a matriz indígena aparece em inúmeros contextos. Há muito rap em favor das comunidades zapatistas de Chiapas, por exemplo, não necessariamente feito por quem mora nas comunidades”.
Além do ineditismo, Lobo destaca o fato de o grupo trabalhar contra os estereótipos negativos e preconceituosos. “O hip hop serve como ferramenta de acesso para as demandas deles e acesso para os não indígenas. A partir do Brô se cria outra perspectiva de protagonismo. São eles mesmos falando dos problemas deles, pra eles e pra os não índios”.

Natural
Lobo esclarece que o interesse pelo hip hop surgiu espontaneamente e não é apenas dos quatro integrantes do Brô. “Do ano de 2000 ao ano de 2008 havia um programa de rádio muito popular chamado “Ritmos da batida”, do Naldo Rocha. Logo todo o pessoal começou a ouvir o som e procurar as roupas do rap”.
Uma década depois, entre os jovens da aldeia, o movimento hip hop avança. O sucesso do Brô fez nascer uma série de grupos de break, grafite e novas bandas rap. “Tem grupos novos na aldeia e em outras também. Grupos de break e até um pessoal que tirou o desenho do papel para por na parede”, diz Bruno.
E o sucesso do Brô tem ultrapassado os limites do seu povo. “Agora a gente toca nas rádios, principalmente no programa Blackout, na rádio AM Tupinambá. Os pedidos vêm de fãs da cidade, especialmente das universidades locais”, comenta Clemerson, entusiasmado.
Além da realidade urbanizada da aldeia de Dourados com a qual convivem os rappers, outro tema é importante para o grupo. “Nossas letras falam muito das lideranças que morreram nas áreas de conflito. Muitas vezes a gente recebe notícias, relatos e vídeos contando como foram esses confl itos. Como o vídeo que assistimos sobre o confl ito em Paranhos e aí mostraram a expulsão das famílias que foram retiradas. Os pistoleiros chegaram atirando, contra os velhos, contra as crianças e xingavam os Guarani dizendo que eram porcos, que só queriam a terra para sujar. Isso para gente é tema pra música”.

Além do MS
Fora do Mato Grosso do Sul, o Brô se apresentou em Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo, onde ganhou o respeito de artistas reconhecidos. “A gente tem parceiros que moram longe. Lá em São Paulo, a gente conheceu o Xis, que acolheu o grupo. Em Brasília, o Gog ajudou a gente para caramba. Foi bem bacana ouvir ele dizer: ‘segue em frente, que essa é a realidade que vocês têm que mostrar para o mundo e através disso mudar a vida de outras pessoas’”, lembra Bruno. Alguns destes parceiros citados pelo rapper devem aparecer no próximo disco do grupo. Além dos parceiros, o próximo disco deve ter produção e distribuição profissionais e 80% das faixas serão cantadas só em Guarani.
Perguntados sobre influências, os nomes que surgem são Racionais MC’s, Gog, MV Bill, A Família, Dexter, Fase Terminal, no Brasil. Internacionais são Notorious B.I.G., Tupac Shakur, Eminem e até um artista mais pop como Chris Brown. Outros ritmos, não. “A gente é rap na veia”, brinca Clemerson. “Mas claro, tudo na levada do Guaxiré [dança típica]”, ressalta o irmão.

Aumenta pressão social contra projeto que altera Código Florestal

Articulação social através de Comitês em Defesa da Floresta cresce, assim como manifestações de cientistas, juízes, artistas e intelectuais

Vinicius Mansur, no Brasil de Fato
de Brasília (DF)
  
A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e a Academia Brasileira de Ciências (ABC) encaminharam aos senadores, em 11 de outubro, um documento solicitando alterações no Projeto de Lei da Câmara (PLC) 30/2011, que reforma o Código Florestal. O texto afirma que “o Senado Federal tem o importante papel de corrigir os equívocos verificados na votação da matéria na Câmara dos Deputados” e alega inconstitucionalidades e a falta de justificativas científicas em algumas mudanças previstas no projeto atual. 
A Associação dos Juízes para a Democracia (AJD), também na semana passada, reforçou o coro dos cientistas e disse, por meio de nota à imprensa, “não ao PLC 30/2011, por sua patente inconstitucionalidade material, à luz dos dados científicos desvelados”. A AJD pediu ao Senado que, pelo menos, conceda à ciência o prazo solicitado, de no mínimo de dois anos, para a elaboração de estudos técnicos de impactos ambientais, antes de qualquer alteração do Código. 
Semana passada foi a vez de célebres nomes brasileiros do cinema, da TV, da academia e da moda emitirem sua opinião, na TV e na internet, através de uma série de depoimentos intitulados “Mensagem aberta aos senadores e aos brasileiros”, sob a coordenação do cineasta Fernando Meirelles. Estão na lista Gisele Bündchen, Rodrigo Santoro, Wagner Moura, Regina Casé, Denise Fraga, Marcos Palmeira, Gero Camilo, Fernanda Torres, Felipe Camargo, Ricardo Abramovay, José Eli da Veiga, entre outros. Trechos destes depoimentos já estão circulando na web e na TV, mas, na sexta-feira (21) todos eles já estavam disponíveis na internet para livre circulação. 
Comitês 
Por outro lado, a organização da sociedade civil está sendo fomentada pelo Comitê Brasil em Defesa das Florestas e do Desenvolvimento Sustentável, que reúne mais de 200 entidades estudantis, religiosas, sindicais, ONGs e movimentos sociais. “Estamos em fase de expandir o enraizamento desta articulação”, afirmou o secretário executivo da Comissão Brasileira Justiça e Paz, Pedro Gontijo. 
Até agora já foram fundados os comitês do Distrito Federal, Curitiba, São Paulo, São Carlos (SP), Rio de Janeiro, Ceará e Minas Gerais. Este último foi lançado em Belo Horizonte no dia 17 de outubro, com a presença de Marina Silva, lotando o auditório da PUC Minas. Bahia, Pernambuco e Rio Grande do Sul tem o lançamento de seus comitê previstos para os dias 24 de outubro, 10 e 21 de novembro, respectivamente. Mato Grosso e Piauí também lançarão seus comitês, mas as datas ainda não estão estabelecidas. 
“O Senado deve perceber o aumento da pressão social contra alterações no Código Florestal. A sociedade está atenta e se organizando contra os ataques à legislação ambiental”, pontuou Gontijo.

sábado, 22 de outubro de 2011

Argentina: livros que são o país

Há poucos dias foi aberta no Centro Cultural da Memória Haroldo Conti - onde funcionou o famigerado centro de tortura da Escola de Mecânica da Armada (ESMA) - a exposição ‘200 anos, 200 livros’. Um grupo de 23 intelectuais, de diversas tendências e diferentes campos de ação, elaborou a lista dos livros que, no seu entender, desvendam o país. A exposição faz parte dos festejos de 200 anos da independência argentina. O artigo é de Eric Nepomuceno.
Em Buenos Aires, num dos blocos que integram o soturno e solene conjunto onde um dia esteve a Escola de Mecânica da Armada, a ESMA, o mais notório centro de torturas da ditadura argentina, hoje funciona o Centro Cultural da Memória Haroldo Conti. O conjunto de edifícios cor de cinza, todos mais ou menos da mesma altura – três andares de pé direito alto –, cercados por jardins e bosques bem cuidados, tem o ar lúgubre e marca um tempo de terror. 

Lá dentro passaram opositores à ditadura militar, de ativistas de organizações armadas a estudantes desarmados, de líderes sindicais a profissionais liberais, de jovens a velhos, e ali muitas mulheres seqüestradas tiveram bebês que sumiram, doados a famílias de policiais e militares. Dali saíram dezenas de presos levados para os vôos da morte: dopados, eram enfiados em aviões e atirados vivos no mar ou no rio da Prata. 

Dos pouco mais de cinco mil presos que passaram pela ESMA, os sobreviventes não somam 200. 

Depois da chegada de Nestor Kirchner à presidência, e do advogado Eduardo Luís Duhalde à secretaria nacional de Direitos Humanos, em 2003, o conjunto de blocos tornou-se um lugar de preservação da memória, e também de reivindicação sem tréguas. Não à toa o Centro Cultural da Memória leva o nome de Haroldo Conti, um grande escritor, que foi das primeiras vítimas – seqüestrado, destroçado – da ditadura inaugurada pelo general Jorge Rafael Videla, o almirante Emilio Massera e o brigadeiro Orlando Agosti, no nefasto março de 1976.

Há poucos dias foi aberta nesse Centro Cultural da Memória a exposição ‘200 anos, 200 livros’. Um grupo de 23 intelectuais, de diversas tendências e diferentes campos de ação, elaborou a lista dos livros que, no seu entender, desvendam o país. A exposição faz parte dos festejos de 200 anos da independência argentina. Fica aberta até o dia 12 de janeiro de 2012.

É claro que, como em toda seleção, a lista provoca alguma polêmica. Críticos e escritores estranharam a ausência de escritores como Tomás Eloy Martínez e José Bianco, ou de poetas como Alberto Girri e Miguel Angel Bustos, para citar quatro exemplos. Os ausentes, porém, não ofuscam os presentes. Jorge Luis Borges, Julio Cortázar, Juan Gelman, Hector Tizón, David Viñas, Rodolfo Walsh, Roberto Arlt, Horacio Quiroga, Juan José Saer, Manuel Puig, Haroldo Conti, Osvaldo Soriano, Daniel Moyano e Ricardo Piglia estão ao lado de outros escritores, poetas, historiadores, jornalistas, filósofos, autores de histórias em quadrinhos, e – como não? – Evita e Juan Domingo Perón.

A mostra tem uma estrutura curiosa: foram desenhadas sete linhas ferroviárias, atravessadas por um rio. Cada linha traz o nome de um autor: David Viñas, Ricardo Piglia, Jorge Luis Borges, Ezequiel Martínez Estrada, Rodolfo Walsh, Nestor Perlongher, Raúl Scalabrini Ortiz. Algumas estações levam a outras. O rio que as atravessa e une é Haroldo Conti.

Entre os 200 livros da mostra, e que desvendam a história da Argentina, está o relatório da comissão que investigou o terrorismo de Estado, o ‘Nunca más’. Entre os autores há dois que apoiaram Videla em março de 1976, Jorge Luis Borges e Ernesto Sábato. Borges, aliás, apoiou todos os golpes militares da Argentina, a começar pelo que derrubou Perón em 1955. Internacionalista, louvou o general Augusto Pinochet no Chile. Já Sábato acabou voltando atrás, e se juntou aos que condenaram a ditadura. 

Mas estão também os que viveram em carne própria o terrorismo de Estado. Hector Tizón, Daniel Moyano e Osvaldo Soriano, por exemplo, amargaram anos de exílio. Mesmo destino teve David Viñas, porém mais bárbaro: antes de ele ir embora mataram sua filha e seqüestraram sua neta recém-nascida. Juan Gelman soube, no exílio, do seqüestro de seu filho e de sua nora grávida. Ela foi levada para o Uruguai, numa operação do Plano Condor, onde teve, na prisão, uma menina que foi entregue a um chefe de polícia. Quase duas décadas depois, o poeta recuperou os restos do filho assassinado. Da nora, nunca mais nada. Gelman só recuperou a neta 24 anos mais tarde. 

Há três nomes que reúnem toda a importância de realizar essa mostra no lugar onde ela está, marca máxima da barbárie. 

Ali, na ESMA, foi visto pela última vez o corpo morto de Rodolfo Walsh, estrela luminosa do jornalismo e da literatura argentina. O poeta Francisco Urondo escapou do que estaria à sua espera naquelas masmorras, porque foi morto em Mendoza. Haroldo Conti foi destroçado em outro centro de tortura, não muito longe dali 

De alguma forma, o reencontro dos três simboliza uma história que ninguém conseguiu nem consegue calar. A história do país. 

Os 200 livros que contam a história da Argentina

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

artur gomes e dizzy ragga


Artur Gomes e Dizzy Ragga
ReVirando a Tropicália
Dias 26 e 27 outubro – 19:00h
Espaço Plural – Sesc Campos
Entrada franca

fulinaimagem

1

por enquanto
vou te amar assim em segredo
como se o sagrado fosse
o maior dos pecados originais
e a minha língua fosse
só furor dos canibais
e essa lua mansa fosse faca
a afiar os verso que ainda não fiz
e as brigas de amor que nunca quis
mesmo quando o projeto
aponta outra direção embaixo do nariz
e é mais concreto
que a argamassa do abstrato

por enquanto
vou te amar assim admirando o teu retrato
pensando a minha idade
e o que trago da cidade
embaixo as solas dos sapatos

2

o que trago embaixo as solas dos sapatos
bagana acesa sobra o cigarro é sarro
dentro do carro
ainda ouço jimmi hendrix quando quero
dancei bolero sampleando rock and roll
pra colher lírios há que se por o pé na lama
a seda pura foto síntese do papel
tem flor de lótus nos bordéis copacabana
procuro um mix da guitarra de santana
com os  espinhos da Rosa de Noel




 black billy

ela tinha um jeito gal
fatal – vapor barato
toda vez que me trepava as unhas
como um gato
cantar era seu dom
chegava a dominar a voz
feito cigarra cigana ébria
vomitando doses dos eu cnto
uma vez só subiu ao palco
estrela no hotel das prateleiras
companheira de ratos
na pele de insetos
praticando a luz incerta
no auge do apogeu
a morte não é muito mais
que um plug elétrico
um grito de guitarra uma centelha
logo assim que ela começa
algo se espelha
na carne inicial de quem morreu

arturgomes

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Soledad, a mulher do Cabo Anselmo

Quem foi, quem é Soledad Barrett Viedma? Qual a sua força e drama, que a maioria dos brasileiros desconhece? De modo claro e curto, ela foi a mulher do Cabo Anselmo, que ele entregou a Fleury em 1973. Sem remorso e sem dor, o Cabo Anselmo a entregou grávida para a execução. Com mais cinco militantes contra a ditadura, no que se convencionou chamar “O massacre da granja São Bento”. Esse crime contra Soledad Barrett Viedma é o caso mais eloquente da guerra suja da ditadura no Brasil. O artigo é de Urariano Mota.
Nota da Redação: O programa Roda Viva, da TV Cultura de São Paulo, entrevistou nesta segunda, às 22 horas, o ex-militar José Anselmo dos Santos, o Cabo Anselmo, ex-participante de um motim na Marinha, nos anos 60, que, após um período de exílio em Cuba, voltou para o Brasil, foi preso e delatou perseguidos políticos ao delegado Sérgio Paranhos Fleury, do DOPS. A lista de denunciados incluiu sua companheira, Soledad Viedma, que acabou torturada e morta pela ditadura. A TV Cultura escolheu o Cabo Anselmo como entrevistado para marcar a estreia de Mario Sergio Conti, ex-diretor da Veja e atual diretor de redação da revista Piauí, na condução do programa. 

A escolha se dá justo no momento em que se discute no Brasil a instalação da Comissão da Verdade, que enfrenta muita resistência de setores que insistem em manter na penumbra fatos ocorridos em um dos períodos mais tenebrosos da história do Brasil. Publicamos a seguir um artigo do escritor Urariano Mota, autor de um livro sobre Soledad Viedma. 


********************************

Em 1970, de volta ao Brasil, Anselmo foi preso pela ditadura militar. Em troca da liberdade, delatou perseguidos políticos ao delegado Sérgio Paranhos Fleury, do Dops. A lista de denuciados incluía sua namorada, Soledad Viedma, que acabou morta devido à tortura. 

Quem lê “Soledad no Recife” pergunta sempre qual a natureza da minha relação com Soledad Barrett Viedma, a bela guerreira que foi mulher do Cabo Anselmo. Eu sempre respondo que não fomos amantes, que não fomos namorados. Mas que a amo, de um modo apaixonado e definitivo, enquanto vida eu tiver. Então os leitores voltam, até mesmo a editora do livro, da Boitempo: “mas você não a conheceu?”. E lhes digo, sim, eu a conheci, depois da sua morte. E explico, ou tento explicar.

Quem foi, quem é Soledad Barrett Viedma? Qual a sua força e drama, que a maioria dos brasileiros desconhece? De modo claro e curto, ela foi a mulher do Cabo Anselmo, que ele entregou a Fleury em 1973. Sem remorso e sem dor, o Cabo Anselmo a entregou grávida para a execução. Com mais cinco militantes contra a ditadura, no que se convencionou chamar “O massacre da granja São Bento”. Essa execução coletiva é o ponto. No entanto, por mais eloquente, essa coisa vil não diz tudo. E tudo é, ou quase tudo. 

Entre os assassinados existem pessoas inimagináveis a qualquer escritor de ficção. Pauline Philipe Reichstul, presa aos chutes como um cão danado, a ponto de se urinar e sangrar em público, teve anos depois o irmão, Henri Philipe, como presidente da Petrobras. Jarbas Pereira Marques, vendedor em uma livraria do Recife, arriscou e entregou a própria vida para não sacrificar a da sua mulher, grávida, com o “bucho pela boca”. Apesar de apavorado, por saber que Fleury e Anselmo estavam à sua procura, ele se negou a fugir, para que não fossem em cima da companheira, muito frágil, conforme ele dizia. Que escritor épico seria capaz de espelhar tal grandeza? 

E Soledad Barrett Viedma não cabe em um parêntese. Ela é o centro, a pessoa que grita, o ponto de apoio de Arquimedes para esses crimes. Ainda que não fosse bela, de uma beleza de causar espanto vestida até em roupas rústicas no treinamento da guerrilha em Cuba; ainda que não houvesse transtornado o poeta Mario Benedetti; ainda que não fosse a socialista marcada a navalha aos 17 anos em Montevidéu, por se negar a gritar Viva Hitler; ainda que não fosse neta do escritor Rafael Barrett, um clássico, fundador da literatura paraguaia; ainda assim... ainda assim o quê?

Soledad é a pessoa que aponta para o espião José Anselmo dos Santos e lhe dá a sentença: “Até o fim dos teus dias estás condenado, canalha. Aqui e além deste século”. Porque olhem só como sofre um coração. Para recuperar a vida de Soledad, para cantar o amor a esta combatente de quatro povos, tive que mergulhar e procurar entender a face do homem, quero dizer, a face do indivíduo que lhe desferiu o golpe da infâmia. Tive que procurar dele a maior proximidade possível, estudá-lo, procurar entendê-lo, e dele posso dizer enfim: o Cabo Anselmo é um personagem que não existe igual, na altura de covardia e frieza, em toda a literatura de espionagem. Isso quer dizer: ele superou os agentes duplos, capazes sempre de crimes realizados com perícia e serenidade. Mas para todos eles há um limite: os espiões não chegam à traição da própria carne, da mulher com quem se envolvem e do futuro filho. Se duvidam da perversão, acompanhem o depoimento de Alípio Freire, escritor e jornalista, ex-preso político: 

“É impressionante o informe do senhor Anselmo sobre aquele grupo de militantes - é um documento que foi encontrado no Dops do Paraná. É algo absolutamente inimaginável e que, de tão diferente de todas as ignomínias que conhecemos, nos faltam palavras exatas para nos referirmos ao assunto. 

Depois de descrever e informar sobre cada um dos cinco outros camaradas que seriam assassinados, referindo-se a Soledad (sobre a qual dá o histórico de família, etc.), o que ele diz é mais ou menos o seguinte:

‘É verdade que estou REALMENTE ENVOLVIDO pessoalmente com ela e, nesse caso, SE FOR POSSÍVEL, gostaria que não fosse aplicada a solução final’.

Ao longo da minha vida e desde muito cedo aprendi a metabolizar (sem perder a ternura, jamais) as tragédias. Mas fiquei durante umas três semanas acordando à noite, pensando e tentando entender esse abismo, essa voragem”.

Esse crime contra Soledad Barrett Viedma é o caso mais eloquente da guerra suja da ditadura no Brasil. Vocês entendem agora por que o livro é uma ficção que todo o mundo lê como uma relato apaixonado. Não seria possível recriar Soledad de outra maneira. No título, lá em cima, escrevi Soledad, a mulher do Cabo Anselmo. Melhor seria ter escrito, Soledad, a mulher de todos os jovens brasileiros. Ou Soledad, a mulher que apredemos a amar. 

(*) Urariano Mota, 59 anos, é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente, é colunista do Direto da Redação e colaborador do Observatório da Imprensa. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Os corações futuristas (Recife, Bagaço, 1997), um romance de formação, que se passa sob a ditadura de Emílio Garrastazu Médici (1969–1974), e de Soledad no Recife (São Paulo, Boitempo, 2009).

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

O mundo do trabalho e a literatura

Com nova série de livros, Expressão Popular busca a compreensão de que a literatura é uma forma de se conhecer melhor a humanidade e o ser humano

Miguel Yoshida* no Brasil de Fato
De acordo com a linha da Expressão Popular, editora que completa 12 anos de existência e que tem como principal objetivo facilitar o acesso à produção do conhecimento acumulado ao longo da história da sociedade pela e para a classe trabalhadora, abriu-se uma nova série de publicações dentro de sua coleção de literatura, a série “Literatura e trabalho”.
Compreendendo que entre os diversos elementos que compõem a realidade, as produções artísticas ocupam um importante papel nas diferentes formações histórico-sociais, e que a literatura é uma forma privilegiada de conhecimento dessa realidade (até mesmo quando a nega), em julho deste ano foi inaugurada a referida série – coordenada pelos professores Claudia de Arruda Campos, Enid Yatsuda Frederico, Zenir Campos Reis e Walnice Nogueira Galvão – com dois livros: o já conhecido romance de Aluísio Azevedo, O cortiço, e a antologia de textos Vozes da ficção: narrativas do mundo do trabalho.
O cortiço, publicado em 1890, é um clássico dos romances naturalistas do Brasil, situado entre as melhores obras em prosa da literatura nacional. O eixo narrativo da obra gira em torno da vida dos trabalhadores no espaço de um cortiço em Botafogo, de propriedade de um imigrante português, cujo objetivo final é ascender socialmente.
Para isso, ele engana e explora de maneira brutal Bertoleza, escrava supostamente alforriada; cobra o aluguel das casinhas do cortiço e das tinas para as lavadeiras; lucra com a venda de alimentos e outros gêneros em sua venda à entrada da estalagem; e surrupia na calada da noite materiais de construção para empregá-las na edificação do seu cortiço: “Era João Romão quem lhes fornecia tudo, tudo, até dinheiro adiantado, quando algum precisava. Por ali não se encontrava jornaleiro, cujo ordenado não fosse inteirinho parar às mãos do velhaco”.
O romance vem precedido do brilhante ensaio de Antonio Candido, De cortiço a cortiço(cedido para a edição pelo autor e pela editora Ouro sobre Azul), onde encontramos um resumo da sua importância: “Aluísio foi, salvo erro meu, o primeiro dos nossos romancistas a descrever minuciosamente o mecanismo de formação da riqueza individual. Basta comparar seu livro com as indicações sumárias de Macedo, Alencar ou Machado de Assis, nos quais o dinheiro aparece com frequência, mas adquirido por herança, dote ou outra causa fortuita”.
As características próprias da estética dominante naquele fim de século encontram-se de modo marcante nessa obra de Aluísio Azevedo – por exemplo, a determinação do sujeito pelo meio, raça e época, além de uma descrição carregada dos elementos instintivos dos personagens –, erigindo-a em expoente máximo do naturalismo brasileiro.

Condição do trabalho
Vozes da ficção: narrativas do mundo do trabalho reúne 16 textos (contos, na sua maioria) que tratam, sob diferentes aspectos, da condição do trabalho e do trabalhador, sobretudo em finais do século 19 e início do 20. Essa antologia tem como principal objetivo apresentar ao público escritores importantes da literatura brasileira, mas pouco divulgados, esquecidos, e, em boa medida, conhecidos apenas por especialistas da área, como é o caso de Valdomiro Silveira, Simões Lopes Neto, Coelho Neto, Manuel de Oliveira Paiva, Inglês de Sousa, Alberto Rangel, Afonso Arinos e Hugo de Carvalho Ramos.
Além desses autores, a antologia traz também contos de Machado de Assis, Euclides da Cunha, João do Rio e Lima Barreto. O fio condutor de Vozes da ficção é o da condição do trabalhador de diferentes ofícios, retratado por diferentes olhares, tendo como pano de fundo um largo período em que ocorreram diversas transformações na formação social brasileira.
Em ambas as publicações, seja pelo distanciamento temporal, seja pelo léxico regional, a dificuldade de compreensão é parcialmente superada pelo cuidadoso trabalho editorial dos organizadores da coleção, que construíram um glossário esclarecedor, buscando com isso tornar a leitura mais acessível sem alterar o texto.
Relevante também é a inclusão nas duas publicações de um pequeno, mas significativo texto, Ler – compartilhar, que trata do processo de leitura. Para reflexão.
Dessa forma, a publicação desses dois volumes inaugurando a série “Literatura e trabalho” atinge os objetivos da Editora Expressão Popular, que é propiciar ao conjunto de seus leitores – militantes de movimentos sociais, sindicatos e partidos, estudantes e professores universitários e todos aqueles comprometidos com a construção de uma nova sociedade – o conhecimento de obras importantes da literatura e, com elas, a compreensão de que a literatura é uma forma de conhecimento que traz a possibilidade de não apenas se compreender melhor a realidade de que trata, mas também de se conhecer melhor a humanidade e o ser humano.

*Miguel Yoshida é mestrando em Letras na Universidade de São Paulo (USP)

sábado, 15 de outubro de 2011

Apoio à Ocupa Wall Street faz prefeito de Nova York recuar

O movimento Ocupa Wall Street venceu a queda de braço com o prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, sua polícia e uma poderosa empresa do setor imobiliário ao defender a ocupação da chamada Praça Liberdade com uma massiva demonstração de solidariedade que obrigou a prefeitura a suspender a ordem de expulsão do local, minutos antes da polícia intervir. Cerca de duas mil pessoas foram para a praça durante a madrugada para evitar a expulsão. O artigo é de David Brooks, do La Jornada.
O movimento Ocupa Wall Street venceu a queda de braço com o prefeito de Nova York, sua polícia e uma poderosa empresa do setor imobiliário ao defender a ocupação da chamada Praça Liberdade com uma massiva demonstração de solidariedade que obrigou a prefeitura a suspender a ordem de expulsão do local, minutos antes da polícia intervir. Ao longo da noite de quinta-feira, centenas de pessoas chegaram à praça. Ao amanhecer, já eram cerca de duas mil que lotaram a área para resistir à ordem do prefeito Michael Bloomberg de levantar o acampamento às 7 horas para realizar “trabalhos de limpeza e manutenção”, com a advertência de que, caso houvesse resistência, a polícia interveria. Ocupa Wall Street e seus simpatizantes consideraram que o tema da limpeza era só um pretexto para expulsá-los da praça ocupada desde o dia 17 de setembro.

Na manhã de sexta, a polícia começou a multiplicar sua presença na área, instalando barreiras ao redor da periferia do pequeno parque, enquanto os manifestantes, com escovas e esfregões, afirmavam que não só não se moveriam, como, após resistir, marchariam a Wall Street para fazer uma limpeza na desordem do setor financeiro.

Empresário de hip-hop oferece-se para pagar a limpeza
Durante toda a sexta-feira, o sistema de comunicação pública com a prefeitura foi saturado por milhares de chamadas de simpatizantes de todo o país denunciando a ação de Bloomberg. Além disso, segundo os ativistas, uma petição com mais de cem mil assinaturas foi entregue em seu escritório. Dirigentes sociais e alguns líderes políticos expressaram sua opinião e propuseram promover uma negociação entre os manifestantes e a empresa imobiliária que é dona da praça, Brookfield Properties (onde a noiva do prefeito é integrante da direção), para chegar a um acordo para manter a praça sob ocupação. O empresário de hip hop, Russell Simmons indicou que estava dispostos a pagar a limpeza caso o prefeito desistisse da ordem.

Ao aproximar-se a hora da desocupação, sindicalistas dos setores de transporte, automotriz, serviços, professores, entre outras categorias, apareceram para se integrarem à defesa da praça. A central operária AFL-CIO emitiu à noite um chamado para seus filiados defenderem Ocupa Wall Street. Também chegaram estudantes, líderes sociais e políticos e mesmo alguns conselheiros do governo municipal, religiosos e veteranos de guerra, entre outros, que expressaram sua solidariedade ou se integraram ao protesto. Havia tensão no ar, mas também um sentimento coletivo e enérgico de força.

Cerca de 40 minutos antes da hora marcada pela expulsão, a prefeitura anunciou que, por enquanto, estava suspensa a ordem de início da limpeza. Uma onda de regojizo estourou na praça com abraços, gritos de alegria e um coro que levantou as consignas de somos os 99%, todo o dia, toda a semana, ocupemos Wall Street. Também cantaram a música We’re not going to take it (não vamos permitir).

O prefeito informou que a empresa retirou, na última hora, sua solicitação de assistência da força pública para realizar a limpeza, e que políticos haviam pressionado a empresa. Muita gente, porém, considerou que isso é só parte da verdade e que Bloomberg e seus assessores se deram conta de que tinham cometido um grave erro, como comentou um dos defensores da praça. A prefeitura informou que a empresa também disse que confiava que podia chegar a um acordo com os ocupantes para manter a praça, ressaltando porém que se tratou apenas de uma suspensão temporária da ordem. Mas para os manifestantes foi mais uma vitória.

Bill Buster, um porta-voz designado pelo Ocupa Wall Street, declarou ao La Jornada que o que ocorreu na manhã de sexta-feira foi outra mostra incrível do apoio do povo estadunidense e dos nova-iorquinos. Bloomberg e a polícia não intercederam, no final, por causa da massa física das pessoas aqui, do apoio massivo da população, de celebridades, de políticos e de todos os que estão dispostos a vir aqui para enviar uma mensagem, mesmo que isso implique serem golpeados e presos pela polícia.

Ele explicou: “somos um movimento popular, estamos trabalhando a favor de todos, estamos mudando o curso da política para todos, e todos são bem vindos. Aqui escutamos uns aos outros, ninguém busca tirar vantagem de nada nem de ninguém. E esperamos ver uma mudança no governo...Se não podemos conseguir isso de maneira pacífica, o governo também não tem opção...ou mudam ou serão trocados. Não é aceitável a manutenção das coisas como estão, com as empresas e os ricos controlando tudo, inclusive comprando os políticos. É obsceno, e não há lugar para isso na política estadunidense”.

O porta-voz, esgotado após uma longa noite que ameaçava ser a última para o acampamento, acrescentou que a mobilização é uma chamada para a população despertar. E as pessoas estão se levantando por todos os Estados Unidos.

Pouco depois, entre 200 e 400 pessoas iniciaram a marcha anunciada até Wall Street para lavar esse desastre. Foram impedidos, mais uma vez, ao chegar à entrada da famosa rua. Durante duas horas, houve breves e mínimos enfrentamentos entre manifestantes e polícia, como pelo menos dez detidos, em diferentes partes do distrito financeiro, no que se converteu num jogo de “agarra-me se puderes”.

Enquanto isso, relatou-se que o acampamento de Ocupa Denver foi dissolvido pela polícia na madrugada de sexta. Ocupa Wall Street informou que houve também ações repressoras contra esse movimento de protesto, com prisões, em sete cidades, incluindo Seattle, San Diego, Kansas City e em vários lugares do Texas. O movimento convocou ações em nível internacional, neste sábado, 15 de outubro. Nos EUA, os bancos serão o principal alvo. Nós ocuparemos em todas as partes, advertiram os manifestantes.

Tradução: Katarina Peixoto