segunda-feira, 11 de julho de 2011

Lessa detona Abilio Diniz

Num artigo irrefutável, Carlos Lessa, ex-presidente do BNDES, não deixa pedra sobre pedra em relação à operação Pão de Açúcar/Carrefour. O banco perde, consumidores perdem, a indústria perde e o contribuinte perde. Quem ganha? Só Abilio
 
O economista Carlos Lessa, ex-presidente do BNDES e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, talvez seja um dos últimos nacionalistas brasileiros. Quando comandou o banco, no primeiro mandato do presidente Lula, lançou uma ideia simples e inquestionável: os empréstimos do BNDES, um banco público, capitalizado por recursos do Tesouro Nacional – de todos os brasileiros, portanto – deveriam ser condicionados à geração de empregos no Brasil. Lessa não pôde levá-la adiante. Foi demitido por pressão do então ministro do Desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan, que era também dono da Sadia e, anos depois, foi escolhido pelo banco para receber uma bolada e protagonizar uma megafusão nacional hoje questionada pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica: a da Brasil Foods (soma entre Sadia e Perdigão).
 
A queda de Lessa abriu espaço para a ascensão de Luciano Coutinho, que tem sido o grande artífice de novos oligopólios em diversos setores da economia – dos frigoríficos ao varejo, passando pela telefonia. A operação mais recente e mais questionada de Luciano Coutinho é a que pretende unir o Pão de Açúcar, de Abilio Diniz, e o Carrefour, com R$ 4 bilhões do BNDES. Num artigo devastador, publicado no Estado de S. Paulo, Lessa não deixa pedra sobre pedra em relação à fusão.
 
O economista atacou todos os pontos da operação, começando pelos aspectos legais. “Tudo leva a crer que a operação é juridicamente contestável e, levada aos tribunais, seria extremamente nociva para os parceiros atuais e os novos (Carrefour e BNDES). Isso, aparentemente, não foi levado em conta pelo BNDES, que não apenas avançou num comprometimento prévio com Abilio Diniz como lhe pôs nas mãos o poderoso argumento de R$ 3,7 bilhões”, disse Lessa. Isso porque existe um acordo de acionistas entre os grupos Pão de Açúcar e Casino que impediria a operação.
 
Carlos Lessa lembra ainda que o hoje nacionalista Abilio Diniz vendeu sua empresa ao grupo Casino há alguns anos, quando lhe foi conveniente. “Obviamente, a fusão é magnífica para o interesse privado do dr. Abilio, que, em entrevista, declara que quer continuar levando a companhia que tem o DNA dele. Porém, isso não o impediu de, há alguns anos, assinar com o grupo Casino o direito de, em 2012, trocar, por R$ 1, a possibilidade de o grupo Casino consolidar os resultados do grupo Pão de Açúcar, diluindo o seu DNA. Quando assinou o acordo, era pré-datada a diluição do DNA brasileiro”, afirma.
 
O ex-presidente do BNDES também manda um recado para a ministra-chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, que, prematuramente, afirmou não haver dinheiro público na operação, uma vez que a mesma seria conduzida pela BNDESpar, o braço de participações do banco. “É importante advertir a ministra-chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, que o BNDESPar é o braço do BNDES em operações no mercado de capitais e que é uma subsidiária 100% de propriedade do banco oficial. Este, como a ministra deve saber, é 100% do Tesouro. Assim sendo, são recursos públicos que, pela missão do BNDES, devem ser aplicados em projetos que gerem emprego e renda para os brasileiros”, afirmou.
 
Por fim, o que ganham os consumidores ou as indústrias instaladas no Brasil? “Fusões podem ser meritórias, porém essa operação do Pão de Açúcar não nacionaliza o grupo de varejo, apenas aumenta o poder de arbítrio do dr. Abilio, restaurando seu DNA. Não é uma operação geradora de crescimento da economia. E, ao contrário do que declarou o ministro do Desenvolvimento, da Indústria e do Comércio, Fernando Pimentel, não gerará saldo comercial positivo. O ministro declarou que o grupo Carrefour iria, associado ao Pão de Açúcar, "ampliar exportações brasileiras" (?!). O atual Pão de Açúcar é uma rede varejista que importa muito mais do que exporta, gerando um saldo comercial negativo”, argumentou.
 
“Cabe ao Cade julgar se essa concentração do varejo vai baratear o custo de vida ou a lucratividade maior será um jogo perverso em relação às famílias brasileiras. De qualquer forma, o BNDES não é vocacionado a maximizar seu lucro (não é um banco de investimento); é um banco de desenvolvimento cuja primeira função é ampliar o emprego e a renda dos brasileiros. Tenho a preocupação de que se produza um desgaste na imagem do BNDES, o que seria um subproduto perverso da cogitada operação”, concluiu.
 
Será que, depois de todos esses argumentos, corroborados por outro ex-presidente do banco (o tucano Luiz Carlos Mendonça de Barros), Luciano Coutinho insistirá com a operação?
 

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