sexta-feira, 29 de julho de 2011

CURTA CRIATIVO 2011



Estão abertas as inscrições para a quarta edição do Curta Criativo.
O concurso de curtas-metragens, que é promovido pelo Sistema FIRJAN, por intermédio do SESI Cultural, tem identificado novos talentos da indústria cinematográfica  e fomentado a produção audiovisual do estado do Rio.

A iniciativa é aberta à participação de alunos e ex-alunos de graduação e pós-graduação em Cinema, Comunicação, Design, Mídias Digitais, Artes Visuais, Novas Mídias, Belas Artes e Produção Cultural, além de estudantes de cursos técnicos e livres de Cinema, de instituições do estado do Rio.

Não é permitida a inscrição de funcionários e estagiários do Sistema FIRJAN, conforme informação divulgada no regulamento do concurso.

Os interessados podem se inscrever nas categorias animação, ficção ou documentário até o dia 20/09 e obter informações no site do Sistema FIRJAN (www.firjan.org.br/sesicultural).

As premiações para os curtas vencedores, que serão avaliados por um júri presidido pela produtora Lucy Barreto, incluem o pagamento de R$ 10 mil (1º colocado) e R$ 8 mil (2º colocado) em cada categoria, além de estágios, exibição do filme em festivais e auxílio para aluguel de equipamentos.

Para saber mais, ligue para o telefone 0800 0231 231 ou acesse o site do Sistema FIRJAN, o Facebook (www.facebook.com/sesiculturalrio) e o Twitter (@sesiculturalrio).

Alinhado ao Mapa do Desenvolvimento, que indicou as indústrias criativas como segmento-âncora para o desenvolvimento do estado do Rio, o Curta Criativo tem sido considerado uma importante iniciativa para o reconhecimento da criatividade e da inovação, características empresariais indispensáveis para o Sistema FIRJAN.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

pontal foto gfrafia

clic nos links abaixo para ver os vídeos 

Aqui,
redes em pânico
pescam esqueletos no mar
esquadras - descobrimento
espinhas de peixe
convento
cabrálias esperas
relento
escamas secas no prato
e um cheiro podre no
AR

caranguejos explodem mangues em pólvora
Ovo de Colombo quebrado
areia branca inferno livre
Rimbaud - África virgem
carne na cruz dos escombros
trapos balançam varais
telhados bóiam nas ondas
tijolos afundando náufragos
último suspiro da bomba
na boca incerta da barra
esgoto fétido do mundo
grafando lentes na marra
imagens daqui saqueadas
Jerusalém pagã visitada
Atafona.Pontal.Grussaí
as crianças são testemunhas:


Jesus Cristo não passou por aqui

Miles Davis fisgou na agulha
Oscar no foco de palha
cobra de vidro sangue na fagulha
carne de peixe maracangalha
que mar eu bebo na telha
que a minha língua não tralha?
penúltima dose de pólvora
palmeira subindo a maralha
punhal trincheira na trilha
cortando o pano a navalha
fatal daqui Pernambuco
Atafona.Pontal.Grussaí
as crianças são testemunhas:



Mallarmè passou por aqui.

bebo teu fato em fogo
punhal na ova do bar
palhoças ao sol fevereiro
aluga-se teu brejo no mar
o preço nem Deus nem sabre
sementes de bagre no porto
a porca no sujo quintal
plástico de lixo nos mangues
que mar eu bebo afinal?



Artur Gomes
http://juras-secretas.blogspot.com/

portal fulinaíma informa


Riverdies dia 7 de agosto no Café Aurora em São Paulo:
 R. Treze de Maio, 112 – Bixiga São Paulo, Brazil
Independen-SE Rock Fest


Das 116 às 23 horas.
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As relações de Jaqueline Serávia e Hayan Rúbia nos tempos da Faculdade
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artur gomes
fulinaíma produções
(22)9815-1266

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Globo recebe R$ 30 milhões de governo e prefeitura do Rio para organizar festa da Fifa.



Saiu no UOL a seguinte manchete:

A matéria de Vinícius Segalla afirma o seguinte:
A Geo Eventos, empresa de eventos das Organizações Globo e do Grupo RBS, vai receber R$ 30 milhões do governo estadual e da prefeitura do Rio de Janeiro para organizar o evento em que será realizado o sorteio preliminar das eliminatórias da Copa do Mundo de 2014, o chamado "Preliminary Draw".
A empresa foi contratada em regime de exclusividade pelo Comitê Organizador Local (COL) da Copa do Mundo de 2014 para produzir e captar patrocínios para a cerimônia. O sorteio acontecerá no dia 30 de julho, às 15h, na Marina da Glória (zona Sul do Rio), e será transmitido ao vivo para cerca de 200 países.
Segundo a matéria apenas dois patrocinadores se interessaram pelo evento: a prefeitura e o governo do estado do Rio de Janeiro. Cada patrocinador dará 15 milhões de reais para a Globo.

A hipocrisia da Globo
Na semana passada o jornal O Globo dedicou-se exclusivamente a atacar o 52º. Congresso da UNE realizado em Goiânia com a presença de cerca de 10 mil estudantes. Segundo O Globo, o fato do congresso da UNE ter recebido dinheiro estatal faz a entidade representativa dos estudantes ser “chapa-branca”.

Entretanto, agora sai a notícia de que a Globo receberá R$ 30 milhões dos cofres públicos para realizar uma festa. Até onde se sabe, não há registro na história deste país de uma festa que tenha custado tanto aos cofres públicos.

Para O Globo, dinheiro público não deve servir para financiar processos democráticos e pedagógicos como o Congresso da UNE. Para O Globo, o dinheiro público deve servir apenas para financiar festas e engordar os cofres das empresas privadas de comunicação.
Ou será que a Globo se considera “chapa-branca” por receber dinheiro da prefeitura e do governo do estado do Rio de Janeiro?
Globo recebe R$ 30 milhões de governo e prefeitura do Rio para organizar festa da Fifa.

fonte: Fatos Sociais

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Projeto Multi Mídia: Cine Vídeo

Pontal Atafona – filme de Artur Gomes com trilha sonora da Banda Riverdies

O IFF Instituto Federal Fluminense Campi-Centro, Campos dos Goytacazes, (Rua Dr. Siqueira, 273), lança na próxima segunda 1 de agosto, o projeto Cine Vídeo, com o objetivo de desenvolver com Oficinas, Mostras e Festivais de Curtas, a criatividade dos estudantes da instituição na área do áudio visual.

A  idealização e coordenação do projeto é do poeta, ator e vídeo maker Artur Gomes.

Leia mais aqui

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quinta-feira, 21 de julho de 2011

O Futebol analisado sob outra ótica: relações de poder, segundo Gabriel Kuhn

Javier Zanetti, capitão da Inter de Milão em 2005, leu carta de apoio aos rebeldes mexicanos
Poderes do futebol 


A obra de Kuhn reproduz uma carta que o subcomandante Marcos,
do Exército Zapatista de Libertação do México, dirigiu em maio de 2005 
a Massimo Moratti, presidente da Internazionale de Milão, em agradecimento 
por seus jogadores terem doado dinheiro, ambulância 
e uniformes de futebol aos rebeldes mexicanos. 

Um livro sobre futebol e ideologia lançado em inglês no início deste ano merece tradução imediata em português. Trata-se de Soccer vs. the State – Tackling Football and Radical Politics, obra do ex-jogador, escritor e líder anarquista austríaco radicado na Suécia Gabriel Kuhn, publicada pela PMPress dos Estados Unidos. Uma tradução livre do título seria O futiba vs. o Estado – Dando um Carrinho no Futebol e na Política Radical.

Kuhn faz inicialmente uma história sobre as verdades e os mitos do futebol como um esporte das classes trabalhadoras. Ele nota como o mito da ligação dos operários industriais com o futebol tem fundamento na história de um esporte que, embora desenvolvido nas aristocráticas escolas inglesas no século 19, em poucas décadas se tornou a atividade preferida dos trabalhadores ingleses, que o espalharam igualmente entre os trabalhadores da Europa e da América Latina. Também observa como o futebol deu lugar ao críquete e ao rúgbi em países dominados pela Grã-Bretanha, como a Índia e a África do Sul, para onde não foram trabalhadores, e sim militares e altos funcionários britânicos.

Nos Estados Unidos, o soccer foi introduzido no século 19 em universidades como Harvard, que logo o substituíram pelo rúgbi e pela sua derivação, o futebol americano. Lá, o nosso futebol continuou popular entre os trabalhadores imigrantes, primeiro de origem europeia e depois latino-americana.

O esporte também é popular na classe média alta e especialmente entre as mulheres americanas. Kuhn chama a atenção para o fato de que, no Brasil, o primeiro time de futebol oficial a admitir brasileiros foi o Mackenzie, uma instituição americana, na passagem do século 19 para o 20. Conta ainda como o esporte esteve estreitamente ligado ao sindicalismo de esquerda nos EUA.

De início, na Europa e na América Latina as lideranças socialistas, anarquistas e comunistas viam o futebol como um jogo que desviava a atenção das camadas populares quanto à situação econômica, social e política. Logo, porém, parte de tais lideranças se deu conta de que o futebol era não só um modo de expressão cultural e artística dos trabalhadores, mas também uma maneira de organizá-los. Na Alemanha do início do século 20 surgiram duas federações, uma de times socialistas, outra de times anarquistas. Ambas foram depois proibidas pelos nazistas. O Uruguai também viu nascer, nos anos 1920, uma liga anarquista. Muitos clubes hoje profissionais e populares foram fundados por trabalhadores esquerdistas, em especial na Europa e na América Latina. Na África, houve equipes criadas por nacionalistas e anticolonialistas.

Kuhn discute ainda outro aspecto: como o futebol funcionou como “ópio do povo”. Um dos pioneiros a tirar proveito dos triunfos no esporte foi Mussolini na Itália fascista, que desfrutou da aura de heroísmo da seleção italiana, vencedora das Copas de 1934 e 1938. Isso se repetiria nos regimes autoritários da América Latina e da África. É notável o depoimento de uma presa política argentina ao lembrar que, em pleno cárcere, quando a seleção de seu país se tornou campeã mundial em 1978, ela abraçou... seu próprio torturador!

O livro narra também como o Partido Comunista Francês, no auge de sua popularidade, no início da segunda metade do século 20, chegou a manter um semanário exclusivo sobre o futebol, em que procurava convocar torcedores, jogadores amadores e profissionais para a luta política contra a mercantilização do esporte.
Chuteiras e véus

Um grande espaço do livro é dedicado às mulheres, que mantinham times de futebol já na Inglaterra do século 19. Um time profissional inglês feminino, em excursão pelos Estados Unidos no começo do século 20, colecionou vitórias contra times masculinos. Depois, o futebol de mulheres se tornou praticamente proibido até os anos 1970. Hoje é imensamente popular em países como Estados Unidos, Alemanha, Suécia, China e até Irã, embora suas praticantes sejam oficiosamente proibidas pela Fifa de participar de competições internacionais, pois a entidade não aprova o curto véu que insistem em usar.

A obra de Kuhn reproduz uma carta que o subcomandante Marcos, do Exército Zapatista de Libertação do México, dirigiu em maio de 2005 a Massimo Moratti, presidente da Internazionale de Milão, em agradecimento por seus jogadores terem doado dinheiro, ambulância e uniformes de futebol aos rebeldes mexicanos. Na ocasião, o capitão do time italiano, o argentino Javier Zanetti, declarou em carta: “Acreditamos num mundo melhor, num mundo não globalizado, enriquecido pelas diferenças culturais e pelos costumes de todos os povos. É por isso que queremos apoiá-los nesse combate para manterem suas raízes e lutarem por seus ideais”.
Mas a preocupação maior de Kuhn é documentar a luta política de esquerda contra a comercialização e a elitização do futebol, assim como contra o chauvinismo, o racismo, o machismo e a homofobia de setores da torcida em todos os países. O autor enfatiza, ainda, a luta em favor da prática do futebol (as pessoas não deveriam se limitar a ver, mas deveriam também jogar) e das ligas alternativas, em especial as organizadas por esquerdistas e anarquistas como ele. Por exemplo, times de comunistas e de anarquistas chegaram a se enfrentar em Berkeley, centro universitário da Califórnia, Estados Unidos.

De interesse particular para os brasileiros é a entrevista com Danilo Cajazeira, do Autônomos FC de São Paulo. Conta Cajazeira: “O Autônomos FC foi fundado em maio de 2006 por um grupo de punks que estavam cansados de ser questionados por outros punks a respeito de sua paixão pelo futebol e de ser questionados por torcedores de futebol a respeito de sua paixão pelo punk. Pensamos que seria melhor simplesmente misturar as duas coisas e avaliamos que a paixão pelo faça-você-mesmo do punk, misturada com a paixão pelo futebol, só nos fortaleceria”.
E prossegue: “Nunca houve necessidade de pôr nossos princípios por escrito, porque sempre tivemos certeza deles: antirracismo, anti-homofobia, antimercantilização, solidariedade, autogestão. A ambição do clube era jogar futebol e divulgar a mensagem de que, se todo mundo pode jogar futebol, todo mundo pode participar do desenvolvimento da sociedade. Hoje temos dois times de futebol de campo de homens e um time de futebol de salão de mulheres, e a cada jogo mais gente aparece”.
A grande esperança de Cajazeira é organizar na América Latina uma copa do mundo alternativa, como a realizada anualmente na Europa. “Recentemente fiquei sabendo do Club Social, Atlético y Deportivo Ernesto Che Guevara, na Argentina. Já discutimos para agendar um encontro para trocar experiências e organizar a Copa Alternativa Sul-Americana.”
Renato Pompeu / Rede Brasil Atual

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Será que essa resposta do Andrés Sánchez vai ao ar?

por Luiz Carlos Azenha no VioMUndo

Num evento hoje, no futuro Itaquerão, o prefeito Gilberto Kassab confirmou os R$ 420 milhões em isenção fiscal para a construção do estádio do Corinthians.
Além disso, a obra receberá R$ 400 milhões em dinheiro do BNDES.

Na confusa entrevista coletiva que aconteceu após o evento, um repórter da Globonews perguntou ao ministro Orlando Silva sobre a questão do dutos da Petrobras, já tendo perguntado antes, ao prefeito Gilberto Kassab,  sobre o dinheiro do BNDES.
Andrés Sánchez, o presidente do Corinthians, interrompeu:

“Qualquer cidadão pode pegar empréstimo do BNDES. A tua empresa, onde você trabalha, diga-se de passagem, pega bastante”.

Será que vai ao ar?

profanalha nu rio


Num domingo desses de sol de primavera, fui com minha amiga Helô Landim rever o Pontal em Atafona. Há algum tempo ir ao Pontal era ir beber uma gelada no Palafita do Espanhol ou no Bar do Ronaldo, ou comer uma muqueca no restaurante do Ricardinho. Hoje ir ao Pontal e não ir lá onde o rio Paraíba do Sul beija o oceano atlântico saboreando uma  lour gelada no Bar do Neivaldo não tem a mínima graça.

No vídeo acima imagens captadas no Pontal por Helô e Federico Baudelaire, num instante em que Neivaldo preparava o seu café da manhã e um passeio com poesia ao vivo no Largo do Machado com imagens de Jiddu Saldanha ao som do meu brother de Brasíia Engels Espíritos com o seu sopro selvagem.

Este poema foi publicado pela primeira vez na Antologia Transgressões Literárias, organizada por Deneval Siqueira Filho, provocando a ira de Arlete Sendra, para quem ele pode ser tudo menos poesia. E agora?

Profanalha NU Rio

a flecha de São Sebastião
como Ogum de pênis fala
perfura o corpo da Glória
das entranhas ao coração

do Catete ao Largo do Machado
onde aqui afora me ardo
como bardo do caos urbano
na velha aldeia carioca
sem nenhuma palavra bíblica
ou muito menos avaria

orgasmo é falo no centro
lá dentro da candelária

arturgomes
PORTAL FULINAÍMA

terça-feira, 19 de julho de 2011

No New York Times, sobre a FIFA: “A cultura é a mesma de uma gangue”

For FIFA Executives, Luxury and Favors [Para executivos da Fifa, luxo e favores]

By DOREEN CARVAJAL
Published: July 17, 2011
New York Times via VI O MUNdo

Paris – Os titãs do futebol mundial estão acostumados às mordomias. Batedores. Proteção policial. Hotéis cinco estrelas. Jantares luxuosos. Diárias de 500 dólares por dia, e 250 dólares adicionais para suas esposas ou namoradas.

Os 24 integrantes do comitê executivo da FIFA — a associação que governa o futebol e organiza a Copa do Mundo — formam a elite de um clube masculino, faturando salários e bônus anuais de até  300 mil dólares, além de várias outras mordomias. Para isso, tudo o que precisam fazer é aparecer em alguns encontros privados, anualmente, para discutir regras, sanções e questões legais e, mais importante, para eventualmente votar no país que vai sediar o campeonato mundial.

Agora esta elite está sob pressão como nunca, com um deles, Mohamed bin Hammam, do Catar, acusado de pagar propinas para membros de escalões mais baixos na tentativa de derrubar o antigo presidente da FIFA, Sepp Blatter. Ao mesmo tempo, permanecem em aberto questões sobre como a Rússia e o Catar foram escolhidos para sediar as copas de 2018 e 2022.

Mas o topo da FIFA é um santuário tão dourado que poucos especialistas acreditam que a debatida investigação ética interna do caso Bin Hammam, marcada para os dias 22 e 23 de julho em Zurique, vai levar a mudanças fundamentais.

“Não é [um espaço] democrático, nem governado pela transparência”, disse Gunter Gebauer, um professor de filosofia esportiva da Universidade de Berlim, na Alemanha. “É uma cultura masculina de dar e receber e fazer e prestar favores. É uma cultura que em alguns aspectos é a mesma de uma gangue”.

De fato, enquanto Bin Hamman enfrenta uma investigação ética, ele é apenas um dos nove integrantes do comitê que foram acusados de receber propinas nos últimos dois anos, a maioria referentes a votos para escolher a sede da Copa do Mundo.

Na FIFA, parece ter havido nos últimos anos uma linha fina separando uma cultura de proteção mútua e outra de corrupção aberta. Essa ambiguidade assustou Graham Taylor, ex-jogador de futebol britânico que gerenciou uma das equipes nacionais do Reino Unido, quando ele serviu brevemente no comitê assessor técnico da FIFA, de 18 membros, no início dos anos 90. Durante um encontro do comitê na Suiça que foi aberto com “um jantar de cinco estrelas, seguido por um almoço de cinco estrelas” depois de uma reunião no dia seguinte, ele achou estranho o ritual pelo qual os integrantes do comitê formaram uma fila.

“Nós fizemos fila como meninos e recolhemos nosso dinheiro”, disse Taylor. “Um homem na fila me disse que eu deveria pedir a devolução do dinheiro da passagem aérea, embora ela já tivesse sido paga pela FIFA. Ele disse: ‘Peça tudo de volta e abra uma conta bancária na Suiça. Depois de alguns anos o dinheiro vai acumular’”.

Apesar das nuvens que se acumulam sobre a organização, alguns informantes na família FIFA insistem que a organização está limpando a casa. Chuck Blazer, um norte-americano no comitê executivo que denunciou Bin Hamman no caso da propina, disse que o trabalho do comitê de ética demonstra que ele é independente e tem “dentes reais”, já que confrontou Bin Hamman e outro poderoso executivo da FIFA, Jack Warner.

Nações que competem por eventos reclamam que os padrões éticos da FIFA são tão ambíguos que membros do comitê não conseguem distinguir entre fazer negócios ou fazer negociatas. Particularmente, eles citam o programa “legado” da FIFA, que encorajou nações-candidatas a sediar torneios a financiar projetos de desenvolvimento do futebol. A Austrália, por exemplo, contribuiu com cerca de 300 mil dólares para que o time sub-20 de Trinidad e Tobago disputasse um campeonato em Chipre. A contribuição foi dada através de Warner, que pediu demissão em conexão com as acusações contra Bin Hammam.

“Foi um grande erro quando eles falaram que, para se candidatar, era necessário deixar um legado e quando ‘legado’ foi definido”, disse Blazer. “As pessoas cairam em armadilhas ao lidar com essa questão”.

Embora Blazer tenha sido apontado como alguém que denunciou corrupção, no domingo ele enfrentou críticas por um arranjo pelo qual sua empresa num paraíso fiscal, a Sportvertising, recebeu 10% dos contratos de patrocínio e direitos de TV da Confederação de Futebol da América do Norte, Central e do Caribe (CONCACAF). O arranjo foi primeiro denunciado por Andrew Jennings, um jornalista investigativo do Reino Unido que tem trabalhado com a BBC. A companhia de Blazer, registrada nas ilhas Cayman, recebeu pagamentos de milhões de dólares anualmente, de acordo com Jennings.

Blazer disse que o contrato foi parte de seu “pacote de compensação” e uma fórmula bem sucedida para “dar incentivos e resultados”, quando a confederação ainda não tinha renda.

Durante sua campanha para ganhar para o Reino Unido a Copa do Mundo de 2018, Lord David Triesman disse que testemunhou pessoalmente pedidos óbvios de propina. Ele diz que está confuso pelo fato de a FIFA não investigar os integrantes do comitê executivo ou acusações feitas por ele.

“Não sei como isso é possível no mundo moderno, porque vivemos em um mundo transparente”, Triesman, o ex-presidente da federação de futebol britânica, disse em uma entrevista. “Para um conselho relativamente pequeno, houve suficientes críticas para você imaginar que ele se perguntariam ‘estamos fazendo direito?’”.

Ao testemunhar diante de um comitê parlamentar sobre esportes e cultura no Parlamento britânico, Triesman disse que foi pressionado por quatro integrantes do comitê executivo da FIFA em diferentes oportunidades, inclusive com um convite aberto: “Venha e me diga o que tem para mim”.

De acordo com Triesman, os pedidos foram de 2,5 milhões de dólares para a academia de uma escola em Trinidad — com o dinheiro entregue através de Warner — a direitos de televisão para um jogo amistoso entre Inglaterra e Tailândia para homenagear a coroação do rei da Tailândia.

Na semana passada, o comitê parlamentar britânico divulgou seu relatório final, declarando que estava chocado com as acusações de corrupção e alertando que “a FIFA tem dado a impressão de que pretende varrer as acusações para debaixo do tapete”.

Desde que foi fundada em 1904 em Paris, a FIFA se tornou uma organização extremamente rica, com reservas de cerca de 1,3 bilhão de dólares e lucro no ano passado de 1,2 bilhão de dólares em direitos de televisão e marketing em todo o mundo. Ela também se beneficia da isenção fiscal na Suiça para organizações esportivas, uma ajuda considerável que começa a levantar debate político nos cantões suiços à luz dos vários escândalos de corrupção.

“Eles tem as mesmas vantagens das associações de canto locais, mas são muito maiores”, disse Roland Buechel, um integrante do Parlamento suiço. “Não posso concordar com isso se eles não se comportarem adequadamente”.

Por causa das isenções fiscais, Buechel se disse particularmente preocupado com um item do mais recente relatório anual da FIFA, divulgado em junho, que incluia “benefícios de curto-prazo para executivos”, sem especificar quais. Um total de 32,6 milhões de dólares, 55% a mais que no ano anterior, foram pagos a integrantes-chaves do gerenciamento da FIFA, inclusive a membros do comitê executivo.

Como o dinheiro foi dividido, exatamente, é um segredo, o mesmo se aplicando a informações básicas da FIFA, como os salários dos executivos — mais um exemplo da falta de transparência da entidade, que trabalhou com a One World Trust, uma organização sem fins lucrativos, em 2007, para avaliar seus padrões de transparência mas não adotou muitas das recomendações do grupo.

“Há uma forte diferença entre o que a organização diz que está fazendo e a forma como ela funciona”, disse Michael Hammer, diretor-executivo da One World Trust, uma organização baseada em Londres que desenvolve padrões de governança e de decisões executivas.

Hammer disse que o dinheiro da FIFA “foi usado como forma de influenciar a maneira como a organização toma suas decisões”, começando com os salários do comitê executivo — criados por Blatter em 1998, logo depois de sua eleição. “As pessoas tinham incentivos para trabalhar com o presidente de forma a não perder sua renda”, ele disse.

Os lucros e as mordomias criaram uma atmosfera na qual a elite dos integrantes da família FIFA começaram a pensar em si como especiais, de acordo com especialistas e pessoas envolvidas com as nações que disputaram sedes de eventos de futebol.

Alguns integrantes do comitê executivo viajaram para países que disputavam eventos exigindo projetos de desenvolvimento, disse Bonita Mersiades, uma ex-chefe de assuntos corporativos para o projeto da Copa do Mundo na Austrália: “Este é um grande eufemismo para dinheiro. Você nunca sabe o que acontecerá com esse dinheiro”.

Os integrantes do comitê executivo viajam como dipl0matas, evitando as alfândegas e atravessando as cidades em caravanas protegidas pela polícia. As nações que disputam a Copa enchem estes homens de presentes: abotoaduras de pérola, bolsas Burberry e caixas de vinho fino.

“Eles são colocados nos hotéis mais luxuosos, transformados no que se chama de ‘clubes FIFA’”, disse Alan Tomlinson, um professor e diretor do Centro de Pesquisas em Esportes da Universidade de Brighton, na Inglaterra. “É uma versão moderna dos velhos castelos medievais, patrulhados por guardas do lado de fota. Quando vi os membros do comitê executivo da FIFA entrando e saindo destes clubes, eles pareciam muito desconfortáveis ao encarar o mundo real”.

Desde que foi suspenso do comitê executivo, Bin Hammam tem evitado entrevistas, justificando apenas com uma nota: “Não estou em posição de falar”. Mas ele publicou recentemente uma declaração em seu blog pessoal reclamando de vazamentos e de uma investigação comprometida.

Sua esperança, ele escreveu, é que qualquer decisão a respeito do caso fique dentro da família FIFA — o comitê de ética — e não seja baseada “na vontade das pessoas de fora”.

PS do Viomundo: Acabo de ler Jogo Sujo, de Andrew Jennings. Talvez por falta de conhecimento do mundo do futebol, fiquei estupefato.

PS do Viomundo2: Aos leitores-pesquisadores que procuram o relatório final da CPI do Senado sobre o futebol, em 2000, aqui.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Brasil: Um país de ricos e miseráveis

 
Por Raquel Júnia, no sítio da revista Caros Amigos: Via Blog do Miro

O lançamento do programa Brasil sem miséria, na semana passada, pela presidente Dilma Roussef, propõe um exercício de imaginação. "Já pensou quando acabarmos de vez com a miséria?", dizem as peças publicitárias sobre a nova estratégia governamental. As propagandas associam ainda o crescimento do país ao fim da pobreza extrema, meta que o governo pretende cumprir. São consideradas como miseráveis absolutas as pessoas que vivem com até R$ 70 reais mensais. Pelos dados divulgados pelo governo no lançamento do programa, há 16,2 milhões de pessoas nessa situação e outras 28 milhões em situação de pobreza. Pelos dados do Programa para as Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), de 2010, o Brasil está entre os sete países mais desiguais do mundo, apesar de estar também entre os sete gigantes da economia mundial. Os dados mostram que as contradições e os desafios são muitos. É possível que o exercício de imaginação proposto pelo governo federal se torne realidade?

De acordo com o decreto que institui o Brasil sem miséria, o programa tem três objetivos, todos destinados à população extremamente pobre: elevar a renda per capita; ampliar o acesso aos serviços públicos; e propiciar o acesso a oportunidades de ocupação e renda, por meio de ações de inclusão produtiva. Constituem ações do programa a expansão de políticas já existentes como ‘Bolsa-família', ‘Luz para todos', ‘Rede Cegonha' e ‘Brasil Alfabetizado', entre vários outras. A inovação, segundo o governo, está ,sobretudo, no fato de que pessoas que até então não são contempladas por nenhuma dessas políticas por fazerem parte de "uma pobreza tão pobre que dificilmente é alcançada pela ação do Estado" passarão a ser, já que será feita uma busca ativa para encontrá-las. Estão previstas também ações diferenciadas para a cidade e para o campo, onde a previsão é garantir assistência técnica. "Assim, todo o país vai sair lucrando, pois cada pessoa que sai da miséria é um novo produtor, um novo consumidor e, antes de tudo, um novo brasileiro disposto a construir um novo Brasil, mais justo e mais humano", diz a apresentação do programa.

Para o economista Marcio Pochmann, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o programa é uma inovação na política social brasileira por estabelecer uma linha de pobreza para a qual foram definidas metas de atuação da política pública. Pochmann destaca que desde a redemocratização até a atualidade, os governos sempre tiveram metas para a área econômica, como metas de inflação e de superávit fiscal, mas metas para a área social como um todo ainda não haviam sido estabelecidas. "Evidentemente que cada uma das áreas em separado tem as suas próprias metas, como metas de vacinação ou de universalização da escola, mas não havia uma meta social que desse conta de uma síntese do ponto de vista da ação governamental. Essa forma de atuação da área social não permitiu, por exemplo, que nós tivéssemos uma coordenação na área social. Então, é uma inovação o estabelecimento de uma linha de pobreza e, ao mesmo tempo, o compromisso do governo de tirar as pessoas dessa condição de extremamente pobres", avalia.

O pesquisador ressalta que o programa visa atingir um número considerável de pessoas, praticamente um a cada dez brasileiros. "É o segmento que diz respeito ao núcleo duro da pobreza brasileira, de difícil acesso e que, portanto, exigirá uma maior capacidade de intervenção do governo. Nesse sentido, é fundamental as ações estarem cada vez mais articuladas do ponto de vista federal, estadual e municipal", analisa. "O Brasil, quando era a oitava economia mundial em 1980, já poderia ter superado a extrema pobreza. Não havia razão para que o Brasil tivesse extrema pobreza, a razão era política. E hoje somos a sétima economia do mundo, não há razão para termos essa quantidade expressiva de pobres. Não é que não tenha alimentos, o problema é político", completa.

Marcio Pochmann observa que a definição governamental de superar a condição de miserabilidade não quer dizer que o país chegará a uma condição na qual não haverá mais miseráveis, mas significará um avanço muito significativo nesse sentido. "Certamente haverá miseráveis pelas vulnerabilidades impostas por uma economia de mercado, mas do ponto de vista estatístico isso será residual", aposta. Para o pesquisador, países desenvolvidos mostram que, do ponto de vista estatístico, inexistem miseráveis. "São condições de ordem econômica que permitiram, por intermédio da política pública, praticamente a resolução da condição de miséria. Evidentemente que a pobreza existe, mas cada vez mais é uma pobreza relativa", diz.

Pochmann acrescenta que o modelo de desenvolvimento do Brasil é cada vez mais combinar o progresso econômico com avanço social. "Não há menção de superação do modo de produção capitalista, pelo contrário, é um aprofundamento do desenvolvimento capitalista, mas com travas de garantias de maior justiça na distribuição dos frutos do processo econômico", afirma.

Política de gotejamento

Para Virgínia Fontes, professora-pesquisadora da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz) e da Universidade Federal Fluminense, a propaganda do governo de que todos sairão ganhando com o Brasil sem Miséria, não é mentirosa, já que há um ganho, embora muito pequeno, para os setores pobres e ganhos maiores para os setores ricos. "Isso está expresso como promessa e de fato aconteceu ao longo dos últimos oito anos, tanto na medida em que houve expansão do mercado interno, que é o mais evidente e mais imediato, mas, sobretudo, no aprofundamento da dívida interna", diz.

A professora ressalta que, mesmo diante de todas as críticas, é preciso considerar que, com o programa, há ganhos mínimos para as pessoas pobres no contexto de um país de extrema desigualdade como o Brasil. "Uma política de gotejamento como esta, que distribui gota de água para regiões muito áridas socialmente, surte algum efeito, já que é melhor ter gota d'água do que não ter água nenhuma. Do ponto de vista da redução da miséria absoluta, ele atinge alguma coisa, mas não altera as condições da desigualdade e irá continuar sem alterar essas condições". Para ela, essas mudanças mínimas não significam garantia de direitos. "É uma gota calibrada: não tem processo de reajuste, não tem compromisso com produção qualificada de trabalho socializado, tem um compromisso estritamente mínimo, que é dar uma renda minimíssima para os setores de pior condição. É melhor isso do que nada, mas isso não é um direito. A construção de direitos está bloqueada pela oferta de programas", aponta.

Com R$ 20 bilhões é possível acabar com a miséria?

Paralelamente às ações do Brasil sem miséria, o governo afirma que está montando também um completo mapa sobre a pobreza do Brasil. Pelos dados preliminares do ultimo censo demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) de 2010, que embasaram a criação da proposta, aproximadamente 46% desses brasileiros extremamente pobres vivem na área rural. Além disso, 59% estão na região Nordeste e cerca de 70% dos extremamente pobres são pretos ou pardos. Os dados mostram ainda que 39,9% da população indígena do Brasil é extremamente pobre.

No lançamento do programa, foi anunciado que o montante de recursos empregados para as ações será em torno de R$ 20 bilhões anuais. Entretanto, em 2010, os recursos gastos apenas para o pagamento do Bolsa Família ficaram em torno de R$ 13 bilhões. Para Pochmann, diferentemente de outras decisões governamentais, o recurso não é o determinante dessa opção. "No passado se estabelecia um programa e se dizia: ‘vai se gastar tanto'. Em determinado momento se dizia que os recursos não seriam suficientes: ‘bom, é esse recurso que temos e infelizmente não será possível atender ao compromisso daquele programa'. Então, o recurso é que determinava a capacidade de intervenção, sem recurso não tinha ação. Hoje, o que determina a capacidade de intervenção não é o recurso, embora, claro, sem o recurso não tenha ação. Mas o determinante é o compromisso que o governo tomou. Ele diz que vai superar a pobreza extrema; se não superar, é o item em que o governo fracassou. E, então, a oposição terá mais força em seu argumento", opina.

A professora-pesquisadora da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz) Ialê Falleiros tem uma opinião diferente sobre os recursos destinados ao programa. Para ela, o montante de recursos empregados não demonstra uma priorização dessas políticas sociais. "R$ 20 bilhões, isoladamente, parece interessante, mas quando olhamos o que é o orçamento federal, vemos que um valor muito maior do que esse é destinado para pagar a dívida pública", critica, mostrando uma reportagem do Pnud sobre o programa cujo título é ‘Brasil sem miséria e lucro para empresários'. De fato, do total do orçamento do governo federal previsto para 2011 e aprovado pelo Congresso no final de 2010 - R$ 2,07 trilhões -, R$ 678,5 bilhões serão destinados para o pagamento da dívida pública. "Então qual é o recado que esse programa quer passar do ponto de vista político, já que em termos econômicos ele é uma falácia? É o mesmo recado que os organismos internacionais vêm propondo em relação ao mundo: fazer parecer que tudo é uma coisa linda, porque todos estão engajados em colaboração, setores públicos e privados, todas as classes em sinergia em torno da proposta de colaboração para melhorar o mundo", observa.

De acordo com a professora, há uma tentativa de afastamento das visões críticas que faz parecer, por exemplo, que os pesquisadores que questionam esse tipo de política estão contra melhorar a vida das pessoas. "Não é possível ser contra beneficiar as pessoas que mais precisam, mas ao mesmo tempo, se não tivermos esse olhar ampliado para além dessa visão triunfalista do desenvolvimento, nós realmente não vamos enxergar essas nuances", pontua.

Virgína fontes lembra que no momento da posse da presidente Dilma o valor mencionado para combater a extrema pobreza girava em torno de R$ 40 bilhões, o dobro do que foi anunciado agora. "Isso indica que deve ter tido muita queda de braço entre os setores que vão ser contemplados com recursos públicos. Porque a discussão era de eventualmente chegar a R$ 40 bilhões do programa de bolsas, no sentido de avançar significativamente para uma melhoria mínima das condições de vida de praticamente toda a população brasileira. De fato, é uma melhoria mínima e é possível perceber isso pelo programa lançado agora", afirma.

Remendo

Na avaliação de Virgínia, com esse programa, o governo federal busca atualizar na retórica a luta popular que, na prática, ele tenta desmantelar. Segundo ela, o slogan principal do governo ‘País rico é país sem miséria', expressa uma contradição do modelo de produção. "Essa luta contra a miséria tem um lado ligado à própria expansão do capital internacional, da atuação do banco mundial, de uma nova filantropização. Mas também resulta de pressões e lutas de setores populares fortes. Só que, para não ter miséria nesse modelo, é preciso ser cada vez mais rico, o que significa que atacar a miséria é garantir a produção crescente da concentração da riqueza", contesta.

Destacando que o capitalismo é um modo de produção que gera crises permanentemente, ela situa o Brasil sem miséria. "Do ponto de vista da lógica das crises do capitalismo, esse programa significa um grande remendo para tapar uma parte da tragédia social que foi sendo construída ao longo dos séculos XX e XXI, com a expropriação massiva da população e a formação, pela expansão do capital, de uma massa de mão de obra gigantesca, disponível para fazer qualquer negócio. Essa massa corria o risco de derrubar tudo, então, para que não derrubem tudo e se garanta que a concentração siga de maneira mais tranquila, se faz uma política dessas. Não é uma política que reforce as condições de auto-organização da população, mas sim da burguesia", define. Entretanto, de acordo com a pesquisadora, existe a possibilidade de o programa desencadear também processos de contestação. "Imaginando que ele dê completamente certo, essa população, até porque consegue respirar, pode reaprender a gritar e a gritar em novo tom", diz.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Lessa detona Abilio Diniz

Num artigo irrefutável, Carlos Lessa, ex-presidente do BNDES, não deixa pedra sobre pedra em relação à operação Pão de Açúcar/Carrefour. O banco perde, consumidores perdem, a indústria perde e o contribuinte perde. Quem ganha? Só Abilio
 
O economista Carlos Lessa, ex-presidente do BNDES e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, talvez seja um dos últimos nacionalistas brasileiros. Quando comandou o banco, no primeiro mandato do presidente Lula, lançou uma ideia simples e inquestionável: os empréstimos do BNDES, um banco público, capitalizado por recursos do Tesouro Nacional – de todos os brasileiros, portanto – deveriam ser condicionados à geração de empregos no Brasil. Lessa não pôde levá-la adiante. Foi demitido por pressão do então ministro do Desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan, que era também dono da Sadia e, anos depois, foi escolhido pelo banco para receber uma bolada e protagonizar uma megafusão nacional hoje questionada pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica: a da Brasil Foods (soma entre Sadia e Perdigão).
 
A queda de Lessa abriu espaço para a ascensão de Luciano Coutinho, que tem sido o grande artífice de novos oligopólios em diversos setores da economia – dos frigoríficos ao varejo, passando pela telefonia. A operação mais recente e mais questionada de Luciano Coutinho é a que pretende unir o Pão de Açúcar, de Abilio Diniz, e o Carrefour, com R$ 4 bilhões do BNDES. Num artigo devastador, publicado no Estado de S. Paulo, Lessa não deixa pedra sobre pedra em relação à fusão.
 
O economista atacou todos os pontos da operação, começando pelos aspectos legais. “Tudo leva a crer que a operação é juridicamente contestável e, levada aos tribunais, seria extremamente nociva para os parceiros atuais e os novos (Carrefour e BNDES). Isso, aparentemente, não foi levado em conta pelo BNDES, que não apenas avançou num comprometimento prévio com Abilio Diniz como lhe pôs nas mãos o poderoso argumento de R$ 3,7 bilhões”, disse Lessa. Isso porque existe um acordo de acionistas entre os grupos Pão de Açúcar e Casino que impediria a operação.
 
Carlos Lessa lembra ainda que o hoje nacionalista Abilio Diniz vendeu sua empresa ao grupo Casino há alguns anos, quando lhe foi conveniente. “Obviamente, a fusão é magnífica para o interesse privado do dr. Abilio, que, em entrevista, declara que quer continuar levando a companhia que tem o DNA dele. Porém, isso não o impediu de, há alguns anos, assinar com o grupo Casino o direito de, em 2012, trocar, por R$ 1, a possibilidade de o grupo Casino consolidar os resultados do grupo Pão de Açúcar, diluindo o seu DNA. Quando assinou o acordo, era pré-datada a diluição do DNA brasileiro”, afirma.
 
O ex-presidente do BNDES também manda um recado para a ministra-chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, que, prematuramente, afirmou não haver dinheiro público na operação, uma vez que a mesma seria conduzida pela BNDESpar, o braço de participações do banco. “É importante advertir a ministra-chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, que o BNDESPar é o braço do BNDES em operações no mercado de capitais e que é uma subsidiária 100% de propriedade do banco oficial. Este, como a ministra deve saber, é 100% do Tesouro. Assim sendo, são recursos públicos que, pela missão do BNDES, devem ser aplicados em projetos que gerem emprego e renda para os brasileiros”, afirmou.
 
Por fim, o que ganham os consumidores ou as indústrias instaladas no Brasil? “Fusões podem ser meritórias, porém essa operação do Pão de Açúcar não nacionaliza o grupo de varejo, apenas aumenta o poder de arbítrio do dr. Abilio, restaurando seu DNA. Não é uma operação geradora de crescimento da economia. E, ao contrário do que declarou o ministro do Desenvolvimento, da Indústria e do Comércio, Fernando Pimentel, não gerará saldo comercial positivo. O ministro declarou que o grupo Carrefour iria, associado ao Pão de Açúcar, "ampliar exportações brasileiras" (?!). O atual Pão de Açúcar é uma rede varejista que importa muito mais do que exporta, gerando um saldo comercial negativo”, argumentou.
 
“Cabe ao Cade julgar se essa concentração do varejo vai baratear o custo de vida ou a lucratividade maior será um jogo perverso em relação às famílias brasileiras. De qualquer forma, o BNDES não é vocacionado a maximizar seu lucro (não é um banco de investimento); é um banco de desenvolvimento cuja primeira função é ampliar o emprego e a renda dos brasileiros. Tenho a preocupação de que se produza um desgaste na imagem do BNDES, o que seria um subproduto perverso da cogitada operação”, concluiu.
 
Será que, depois de todos esses argumentos, corroborados por outro ex-presidente do banco (o tucano Luiz Carlos Mendonça de Barros), Luciano Coutinho insistirá com a operação?