quinta-feira, 26 de maio de 2011

Funeral de casal extrativista reúne mil e fecha estrada no Pará

Felipe Milanez no sitio CartaCapital


José Cláudio e dona Maria foram executados na quarta-feira 24, após denunciarem a atuação de grupos madeireiros. Familiares temem que a impunidade prevaleça. Texto e fotos: Felipe Milanez

Por Felipe Milanez, de Marabá*

O cortejo fúnebre e o enterro dos líderes extrativistas José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo da Silva, na manhã desta quinta-feira, em Marabá (PA), foi transformado em um grande ato público pela reforma agrária, que fechou uma rodovia e a Estrada de Ferro de Carajás por ao menos seis horas. Cerca de mil pessoas participaram do funeral do casal, executado a tiros na manhã da quarta-feira 24, em Nova Ipixuna, município a 390 quilômetros de Belém, a capital paraense.

O velório foi realizado na casa de um irmão de José Claudio, num espaço que, em dias comuns, funciona um bar. De lá, centenas de pessoas percorreram um trajeto com pouco mais de 6 quilômetros até o Cemitério da Saudade, em Marabá, a quarta cidade mais violenta do Brasil, com taxa de 125 homicídios para cada 100 mil habitantes, segundo o “Mapa da Violência 2011”. O grupo parou a rodovia PA 150, a mesma que, a quilômetros dali, foi palco da morte de 19 trabalhadores sem-terra em 1996, no episódio que ficou conhecido como Massacre de Eldorado dos Carajás. O cortejo também passou pela ponte sobre o rio Tocantins, onde, em 1986, nove garimpeiros foram mortos pela Polícia Militar.

Sob sol forte, algumas pessoas passaram mal e uma senhora chegou a desmaiar. Em meio às manifestações de tristeza e revolta, uma mulher tomou o microfone para dizer: “Agora, caiu Maria e caiu Zé Cláudio. Mas, ao mesmo tempo, se levantaram outras cem Marias e ouros cem Zé Cláudios para dar continuidade ao trabalho deles, para defender a floresta.”

Após o funeral, estava prevista uma reunião entre autoridades do governo e líderes de movimentos sociais no assentamento em que o casal assassinado vivia. Entre os amigos e parentes, o temor é que a impunidade prevaleça. Sobretudo após a Secretaria de Segurança Pública do Pará afirmar que desconhecia as ameaças contra José Cláudio, apesar de a imprensa ter noticiado o fato. O ouvidor agrário nacional, Gercino José da Silva Filho, também disse que o casal não constava em nenhuma relação de ameaçados em conflitos agrários. “Ele e seu advogado nos procuraram em novembro do ano passado, mas quando íamos nos reunir, eles cancelaram. Depois não marcaram outra data. O assunto morreu.”

As declarações geraram desconforto entre os participantes do funeral. “Nosso cotidiano era de ameaça permanente. Acordávamos quase todo dia com os cachorros assustados, com picapes rondando a casa”, comenta Laísa Santos Sampaio, de 45 anos, irmã de Maria e vizinha do casal assassinado.

Também ameaçado de morte, Charles Trocate, líder do Movimento Sem Terra (MST) na região, manifestou pesar e preocupação. “Ninguém deseja morrer, muito menos por morte mandada, morte executada por profissionais da morte.” O advogado da Comissão Pastoral da Terra (CPT) José Batista diz que as organizações sociais vão continuar pressionando o governo para denunciar os crimes ambientais e os conflitos fundiários na região. “A luta agora é para que não haja impunidade.”

O cotidiano de dona Maria era marcado por ameaças

A ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, enviou um comunicado de condolências à família, mas não compareceu ao velório. Para justificar a ausência, comunicou que estaria à frente de uma operação de combate ao desmatamento em Sinop, no Mato Grosso. Como representante da pasta, o secretário nacional de Extrativismo e Desenvolvimento Rural Sustentável, Roberto Vizentin, declarou “absoluto repúdio” à morte do casal ambientalista. “Eles viviam num assentamento agroextrativista, especialmente criado para o manejo sustentável dos recursos florestais, mas não era bem assim que as coisas funcionavam. O casal sempre denunciou a atuação de madeireiras na região.”

Entre as medidas anunciadas pelo secretário está a intensificação das ações de fiscalização em Nova Ipixuna. “Não se trata de promover uma caça-às-bruxas aos assentados que são pagos para derrubar a floresta, até porque eles constituem o elo mais fraco dessa criminosa cadeia produtiva. Mas vamos fechar o cerco àqueles dispostos a comprar e revender as árvores derrubadas”, afirmou Vizentin a CartaCapital. “Para os assentados, a estratégia é desenvolver ações para fortalecer a economia florestal sustentável, para que esses trabalhadores tenham uma fonte segura de renda e não precisem derrubar a mata para sobreviver.”

Para Laísa, o exemplo da irmã e do cunhado prova ser possível viver da floresta sem destruí-la. “Eles eram filhos de castanheiros extrativistas. A raiz deles era a ideologia da floresta. Minha irmã sempre dizia que a economia da floresta era viável. Cada árvore derrubada vale de 80 a 100 reais, ao passo que um litro de óleo de castanha vale bem mais, pode custar até 150 reais”, comenta.

Impunidade
Nos últimos 25 anos, 1.614 pessoas foram assassinadas no Brasil em decorrência de conflitos no campo. Até hoje, apenas 91 casos foram julgados – e resultaram na condenação de 21 mandantes e 72 executores. Isso significa que a Justiça no Brasil levou às grades um criminoso para cada 17 pessoas assassinadas em todos esses anos.

O levantamento, feito pela reportagem de CartaCapital com base em números fornecidos pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), indica a situção de impunidade existente no País. Os números contabilizados se referem aos crimes ocorridos entre 1985 e 2010.

Somente na última década, 376 pessoas foram assassinadas em decorrência de conflitos no campo motivados denúncias como desmatamento e assentamentos. O Pará é, disparado, o recordista de ocorrências: entre 1985 e 2010 foram registrados 408 casos (cerca de 35% dos incidentes no Brasil), com 621 vítimas. Destes casos, apenas 15 tiveram julgamentos, com 11 mandantes e 13 executores condenados. Hoje, porém, apenas o fazendeiro Vitalmiro Bastos de Moura, que encomendou a morte da missionária americana Dorothy Stang em 2005, está preso por estes crimes.

José Cláudio sabia que estava marcado para morrer

Suspeito de ser o mentor do crime, Regivaldo Pereira Galvão foi condenado a 30 anos de prisão, mas aguarda o recurso apresentado em sua defesa em liberdade. O pistoleiro Rayfran das Neves Sales, condenado a 28 anos de prisão, acusado de ser o executor do assassinato, cumpre pena em regime semi-aberto desde 2010.

História que se repete
O assassinato dos extrativistas José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo da Silva são os mais recentes casos de ocorrências envolvendo conflitos de terra no estado. O casal foi alvejado em Nova Ipixuna, a 390 quilômetros de Belém, região onde vivia há 24 anos.

Integrantes do Conselho Nacional das Populações Extrativistas, organização criada pelo ambientalista Chico Mendes – morto em 1988 pelo fazendeiro Darly Alves da Silva e seu filho, Derli -, defendiam o manejo sustentável da floresta, denunciando extração ilegal de madeira, desmatamento e carvoarias ilegais.

Ameaças
Há cerca de um mês, um grupo suspeito teria invadido a propriedade do casal e disparado tiros para o alto e contra animais. Além disso, em um vídeo de novembro de 2010, gravado durante uma palestra sobre a preservação da floresta amazônica, José Cláudio afirmou que sofria ameaças.

“A mesma coisa que fizeram no Acre com Chico Mendes querem fazer comigo. A mesma coisa que fizeram com a Irmã Dorothy querem fazer comigo. Eu estou aqui conversando com vocês, daqui um mês vocês podem saber a notícia que eu desapareci. Me perguntam: tenho medo? Tenho, sou ser humano, mas o meu medo não me cala. Enquanto eu tiver força pra andar eu estarei denunciando aquele que prejudica a floresta”, disse.

*Colaborou Gabriel Bonis, Matheus Pichonelli e Rodrigo Martins.

domingo, 22 de maio de 2011

A batalha do Código Florestal

Teremos ainda uma longa luta para que os bens da natureza tenham uma função social para todos os seres vivos desse território


 Editorial da edição 429 do Brasil de Fato

Na semana passada houve uma verdadeira batalha econômica, política e ideológica, travada entre diferentes interesses das classes sociais brasileiras, tendo como palco a Câmara dos Deputados. O objetivo: quem pode se apropriar dos bens da natureza de nosso território.

Qual é a situação atual? Há uma legislação em vigor, o Código Florestal brasileiro, que determina a manutenção de áreas de reservas (intocadas) de 80% de cada estabelecimento na Amazônia, e 35% no bioma do cerrado. E há as condicionantes de que nas beiras dos rios, riachos e no topo dos morros e montanhas é preciso preservar e recuperar, como forma de proteger nossa água potável.

Os capitalistas sempre agrediram a natureza, burlando a lei para buscar o lucro máximo, retirando a madeira, fazendo carvão, e colocando seus bois e a soja.

Muitos deles foram apanhados pelo Ibama em seus crimes ambientais e as multas somam mais de R$ 8 bilhões. Só 1% foi pago.

E claro, há muitos pequenos agricultores nas regiões Sudeste e Sul, que por falta de consciência, desconhecimento ou oportunismo, também desmataram até a beira dos rios e no topo das montanhas nos últimos 100 anos. Mas não são muitos; segundo levantamento governamental apenas 8% dos pequenos agricultores.

Com o avanço dos interesses do capital financeiro e das grandes empresas transnacionais do agronegócio sobre nossa agricultura, o Código Florestal representa uma barreira para expansão de sua sanha lucrativa. Por isso precisam derrubar os limites do código, para colocar o cerrado e amazônia à mercê da soja, do boi etc.

Por outro lado, os fazendeiros inadimplentes com as multas, entre eles 27 deputados federais da direita, entrarão no Serasa a partir de 11 de junho e não poderão acessar mais recursos públicos ou de crédito.

Ascendeu a luz amarela. Gastaram milhões para eleger sua bancada ruralista. Fizeram acordos posteriores e ofereceram seus votos para eleger o presidente da Câmara. Apostaram no apoio da Rede Globo e outros grandes jornais. Todo o circo montado para que o relatório do deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP), que atendia seus interesses, tivesse votação célere, e a sociedade não se atentasse aos interesses que estão em jogo.

O governo encomendou uma pesquisa e percebeu que 95% da população brasileira é contra qualquer mudança que implique em desmatamento de nossa natureza. E a partir daí, começou a mexer-se.

Apresentou uma emenda alternativa ao relatório de Aldo Rebelo, e mesmo assim, dois deputados falsificaram a proposta ao levá-la ao plenário.

Tudo isso gerou indignação, e a maior parte da bancada do PT, PSOL e PV mobilizou-se para impedir a votação. Assim, ficamos livres, por enquanto, da votação das mudanças propostas pelo relatório de Aldo Rebelo. Os parlamentares direitistas querem votar logo porque sabem que têm a maioria da Câmara amarrada e não querem que a sociedade brasileira se mobilize. Por isso, o tempo funciona contra seus interesses.

Na semana passada houve também uma reunião em São Paulo com mais de 50 entidades nacionais, desde a CNBB, Greenpeace, setores da Contag, CUT, movimentos sociais do campo, da Via Campesina, e entidades ambientalistas, movimentos feministas. Todos contra o relatório de Aldo Rebelo. Lançaram um manifesto nacional e prometem aumentar a mobilização em suas bases.

O que está em jogo é se os bens da natureza que temos no nosso território devem ser usados em benefício de toda a sociedade ou liberados apenas para que a sanha do lucro fácil seja apropriado por fazendeiros, empresas estrangeiras e seus prepostos no Congresso Nacional.

A emenda do governo é mais sensata e pelo menos se contrapõe às mudanças mais espoliativas do relatório de Rebelo, embora não seja o ideal. Por isso, esperamos todos que haja um debate com toda a sociedade sobre as propostas em disputa. E quando for a votação na Câmara, que os interesses do povo brasileiro se sobreponham aos interesses da banca ruralista, financiada pelo poder econômico, pagos com mais de R$ 800 milhões na campanha eleitoral, como a imprensa divulgou na ocasião.

E depois, quando for ao Senado, esperamos que os senadores tenham mais juízo ainda. Afinal, lá há apenas 13 senadores ruralistas de um total de 81. E por fi m, quando for à sanção presidencial, que a presidenta Dilma tenha mais juízo ainda e coragem em vetar tudo o que afete os interesses do povo.

E se o povo for derrotado em todas essas instâncias, cabem ainda ações de inconstitucionalidade, como promete fazer o Ministério Publico Federal. E aos movimentos sociais cabe lutar com suas bases por um plebiscito nacional que de fato discuta com todo povo, e ele decida sobre como quer usar os bens da natureza no Brasil.

Portanto, teremos ainda uma longa luta para que os bens da natureza tenham uma função social para todos os seres vivos desse território, e não apenas lucro para meia dúzia de oportunistas.

sábado, 21 de maio de 2011

O mundo à espera de Madri

Espanha vai às ruas por uma “sociedade nova que dê prioridade à vida acima dos interesses econômicos e políticos”, inspirando outros movimentos e países. Para um modelo de revolução que levou apenas três meses para cruzar o abismo econômico e social demarcado pelo mar Mediterrâneo, parece um tanto óbvio que espalhar-se dentro das fronteiras da União Europeia é o menor dos saltos. Uma semana depois, poucos duvidam da #revoluçãoespanhola. 

Wilson Sobrinho, correspondente da Carta Maior em Londres

“Ninguém espera a #revoluçãoespanhola”, diz, citando Monty Phython e o formato hashtag consagrado no Twitter, um dos cartazes favoritos na praça Puerta del Sol em Madrid, onde milhares de manifestantes protestam contra o desemprego, a crise econômica e o sistema político espanhol. Embora chamar os acontecimentos atuais no país de “revolução” seja um certo atropelo no momento, a frase sintetiza com alguma precisão o movimento nascido para ser um evento de um dia de duração e que agora causa arrepios na espinha dos políticos ao ameaçar reencenar roteiros vividos em Tunísia, Egito, Iêmen, Barein, Siria, Marrocos, Líbia e outros. Desta vez, à margem norte do Mediterrâneo.

Há, em um relato feito pelo independente PeriodismoHumano.com, uma boa pista sobre a gênese do que vem acontecendo no país ibérico. “Tudo isso surge de uma iniciativa espontânea de um grupo de pessoas que decidiu dormir na praça depois de uma manifestação. Era fácil assim! Poderia ter sido eu ou você, mas foram essas 40 pessoas que iniciaram tudo”, disse uma voz anônima em meio aos manifestantes de Madri, na praça-tornada-quartel-general temporário dos descontentes, que agora já somam uma multidão.

No domingo passado, milhares de pessoas foram às ruas do país – uma semana antes das eleições municipais. Convocados pelo movimento Democracia Real Já, sob o slogan “não somos mercadorias nas mãos de banqueiros e políticos”, 130 mil pessoas protestaram em dezenas de cidades espanholas. “Esta mobilização foi o princípio de uma série de longo prazo”, dizia um comunicado publicado na terça-feira, quando os passos levavam a crer que a ocupação das praças seguiria em crescimento. “O que nos move é a firme convicção de aprofundar o caminho que começamos”.
“Somos pessoas que viemos livre e voluntariamente”, reforça outro manifesto publicado em tomalaplaza.net, site que reúne relatos das manifestações através da Espanha e em outros países onde cidadãos espanhóis se solidarizam. O texto, traduzido para mais de uma dezena de línguas por voluntários via internet, defende “uma sociedade nova que dê prioridade à vida acima dos interesses econômicos e políticos. (..) [Queremos] Demonstrar que a sociedade não adormeceu e que seguiremos lutando pelo que merecemos mediante a via pacífica”.
“É uma vitória inquestionável que uma organização criada há três meses seja capaz de mobilizar dezenas de milhares de pessoas em mais de 50 cidades da Espanha sem o apoio de nenhum partido político, de nenhum sindicato e de nenhum grande meio de comunicação”, analisa em seu blog o jornalista Ignacio Escolar, que graças à cobertura do evento que vem fazendo está recebendo 200 mil visitas por hora em seu site (
www.escolar.net).

Era quarta-feira à noite quando o El País concedia “um salto de qualidade notável nas manifestações”. Nos primeiros dias, dizia o jornal madrileno “eram os jovens e as pessoas em contato com as redes sociais que foram à Puerta del Sol”. Agora juntam-se à aglomeração os “adultos, gente cuja informação chega através dos meios de comunicação tradicionais”. “A chama dos indignados se mantém viva. E não parece que irá se apagar até domingo. Tudo indica que irá além. Há muita gente que está farta”, reconhece o diário.

Com o crescimento do acampamento, grupos de trabalho foram formados – com voluntários cuidando da limpeza, da alimentação, do fornecimento de sinal de internet e da organização geral. Até uma enfermaria foi montada na praça Puerta del Sol. Além, claro, das discussões políticas.

Entre as ideias defendidas na praça, segundo relato de Periodismo Humano, estão a reforma da lei eleitoral, propondo o fim do financiamento privado das campanhas; maior participação popular na formatação dos orçamentos públicos; reformas trabalhistas, políticas e fiscais, com o aumento do imposto de renda nas camadas mais ricas da população; aumento do salário mínimo e maior controle sobre a atividade dos bancos. Sugestões que se somam a uma carta de propostas exposta pelo Democracia Real Já, que defendem medidas que preservem os serviços públicos de qualidade e reduzam os gastos militares, para ficar em dois exemplos.

Impasse
Diante de eleições regionais no domingo, a Junta Eleitoral Central votou pela proibição de manifestações durante o final de semana, sob o argumento de que o resultado das urnas poderia ser influenciado e distorcido pela presença dos manifestantes nas praças do país.

Em uma enquete conduzida pelo
jornal Público, 95% das pessoas se mostraram contrárias à decisão da Junta Eleitoral. E mesmo pessoas ligadas à polícia – a quem caberá a missão de desalojar os “indignados” (como a imprensa espanhola vem chamado os manifestantes) – já se declararam contrárias à ideia de removê-los. “Seria um erro tremendo, um erro absoluto a polícia desocupar a praça”, disse o vice-secretário da Confederação Espanhola de Polícia, Lorenzo Nebrera, em um texto produzido pela Europa Press na tarde desta sexta-feira.

É improvável, porém, que a decisão desfaça os acampamentos e que os manifestantes voltem para casa. Pelo contrário, uma convocação de mobilização para os primeiros minutos da madrugada de sábado corre a internet, e a hashtags #nonosvamos é uma das favoritas.

“Queremos lembrar que não nos identificamos com nenhum partido político, nenhuma organização sindical ou social”, responderam os manifestantes em um comunicado, para logo em seguira convidar “todas as pessoas que queriam participar, que venham à [praça Puerto del] Sol ou às praças de suas cidades”.

Enquanto os populares cantam e gritam à espera do sábado que os proíbe de estar na rua, sem sinal algum de recuo, um fato inescapável que deve se verificar no decorrer dos próximos dias está exposto na capa do jornal Público. “Ontem era uma tendência. Hoje uma realidade. O movimento cidadão que desde domingo passado se concentra nas praças da Espanha, encontrou eco e vozes em todos os cantos do mundo”, observa o jornal. “De Los Angeles a Sidney passando pela Cidade do México, Helsinki, Budapeste e Roma. São mais de 230 [cidades com manifestações]”.
A maioria das manifestações formadas por cidadãos espanhóis demonstrando apoio aos seus pares. Porém, na Itália já há um embrião formado por italianos dispostos a levar as suas próprias angústias às ruas. “Decidimos unir as nossas convocatórias com as de Democracia Real Já porque a nossa situação não é muito diferente do que a espanhola”, disse um ativista, com manifestações programadas para Roma, Turin, Bolonha, Milão, Bari, Perugia, Trieste, Florença.

Para um modelo de revolução que levou apenas três meses para cruzar o abismo econômico e social demarcado pelo mar Mediterrâneo, parece um tanto óbvio que espalhar-se dentro das fronteiras da União Europeia é o menor dos saltos. Uma semana depois, poucos duvidam da #revoluçãoespanhola.

Clique aqui e confira o mapa das manifestações
http://www.thetechnoant.info/campmap/


Fotos: Julio Albarran (http://www.blogger.com/goog_884726682
 

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Fez-se vingança, não justiça

Agora estaremos sob o poder de um Imperador sobre quem pesa a acusação de assassinato


Leonardo Boff no sitio Brasil de Fato

Alguém precisa ser inimigo de si mesmo e contrário aos valores humanitários mínimos se aprovasse o nefasto crime do terrorismo da Al Qaeda do 11 de novembro de 2001 em Nova Iorque. Mas é por todos os títulos inaceitável que um Estado, militarmente o mais poderoso do mundo, para responder ao terrorismo se tenha transformado ele mesmo num Estado terrorista. Foi o que fez Bush, limitando a democracia e suspendendo a vigência incondicional de alguns direitos, que eram apanágio do pais. Fez mais, conduziu duas guerras, contra o Afeganistão e contra o Irã, onde devastou uma das culturas mais antigas da humanidade nas qual foram mortos mais de cem mil pessoas e mais de um milhão de deslocados.

Cabe renovar a pergunta que quase a ninguém interessa colocar: por que se produziram tais atos terroristas? O bispo Robert Bowman de Melbourne Beach da Flórida que fora anteriormente piloto de caças militares durante a guerra do Vietnã respondeu, claramente, no National Catholic Reporter, numa carta aberta ao Presidente: ”Somos alvo de terroristas porque, em boa parte no mundo, nosso Governo defende a ditadura, a escravidão e a exploração humana. Somos alvos de terroristas porque nos odeiam. E nos odeiam porque nosso Governo faz coisas odiosas”.

Não disse outra coisa Richard Clarke, responsável contra o terrorismo da Casa Branca numa entrevista a Jorge Pontual emitida pela Globonews de 28/02/2010 e repetida no dia 03/05/2011. Havia advertido à CIA e ao Presidente Bush que um ataque da Al Qaeda era iminente em Nova York. Não lhe deram ouvidos. Logo em seguida ocorreu, o que o encheu de raiva.

Essa raiva aumentou contra o Governo quando viu que com mentiras e falsidades Bush, por pura vontade imperial de manter a hegemonia mundial, decretou uma guerra contra o Iraque que não tinha conexão nenhuma com o 11 de setembro. A raiva chegou a um ponto que por saúde e decência se demitiu do cargo.

Mais contundente foi Chalmers Johnson, um dos principais analistas da CIA também numa entrevista ao mesmo jornalista no dia 2 de maio do corrente ano na Globonews. Conheceu por dentro os malefícios que as mais de 800 bases militares norte-americanas produzem, espalhadas pelo mundo todo, pois evocam raiva e revolta nas populações, caldo para o terrorismo. Cita o livro de Eduardo Galeano, “As veias abertas da América Latina”, para ilustrar as barbaridades que os órgãos de Inteligência norte-americanos por aqui fizeram. Denuncia o caráter imperial dos Governos, fundado no uso da inteligiência que recomenda golpes de Estado, organiza assassinato de líderes e ensina a torturar. Em protesto, se demitiu e foi ser professor de história na Universidade da Califórnia. Escreveu três tomos “Blowback” (retaliação) onde previa, por poucos meses de antecedência, as retaliações contra a prepotência norte-americana no mundo. Foi tido como o profeta de 11 de setembro. Este é o pano de fundo para entendermos a atual situação que culminou com a execução criminosa de Osama bin Laden.

Os órgãos de inteligência norte-americanos são uns fracassados. Por dez anos vasculharam o mundo para caçar Bin Laden. Nada conseguiram. Só usando um método imoral, a tortura de um mensageiro de Bin Laden, conseguiram chegar ao su esconderijo. Portanto, não tiveram mérito próprio nenhum.

Tudo nessa caçada está sob o signo da imoralidade, da vergonha e do crime. Primeiramente, o Presidente Barak Obama, como se fosse um “deus” determinou a execução/matança de bin Laden. Isso vai contra o princípio ético universal de “não matar” e dos acordos internacionais que prescrevem a prisão, o julgamento e a punição do acusado. Assim se fez com Hussein do Iraque, com os criminosos nazistas em Nürenberg, com Eichmann em Israel e com outros acusados. Com bin Laden se preferiu a execução intencionada, crime pelo qual Barak Obama deverá um dia responder. Depois se invadiu território do Paquistão, sem qualquer aviso prévio da operação. Em seguida, se sequestrou o cadáver e o lançaram ao mar, crime contra a piedade familiar, direito que cada família tem de enterrar seus mortos, criminosos ou não, pois por piores que sejam, nunca deixam de ser humanos.

Não se fez justiça. Praticou-se a vingança, sempre condenável. “Minha é a vingança” diz o Deus das escrituras das três religiões abraâmicas. Agora estaremos sob o poder de um Imperador sobre quem pesa a acusação de assassinato. E a necrofilia das multidões nos diminui e nos envergonha a todos.

Leonardo Boff é teólogo e escritor.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Só choveu na horta da Kátia



por Leandro Fortes, em CartaCapital e Viomundo

A senadora Kátia Abreu, do Tocantins, era um dos orgulhos do DEM até se bandear para o recém-criado PSD, do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, do qual, inclusive, poderá ser a primeira presidenta. Enquanto era um dos expoentes do ex-PFL, Kátia aproveitou-se como pôde da sigla. Nas eleições de 2010, criou uma falsa campanha nacional para, via caixa do partido no Tocantins, arrancar dinheiro de produtores rurais em todo o Brasil e eleger o filho, Irajá Abreu (DEM-TO), para a Câmara dos Deputados, e outros nove deputados estaduais para sua base política local. Tudo sem que a direção nacional do DEM tivesse conhecimento.

A ideia de convocar os “cidadãos e militantes” do agronegócio Brasil afora para bancar a campanha dos ruralistas foi posta em prática graças à capilaridade e ao poder econômico da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), presidida pela senadora. De posse do cadastro da instituição, ela usou o serviço de mala direta para mandar boletos bancários de 100 reais cada, a fim de garantir recursos extras para a eleição e reeleição de candidatos ruralistas. Nas eleições de 2010, a senadora coordenou as finanças da campanha do candidato José Serra, do
PSDB, à Presidência. Ou seja, usou uma entidade de classe para faze política partidária. Oficialmente, a CNA “atua na defesa dos interesses dos produtores rurais brasileiros junto ao governo federal, ao Congresso Nacional e aos tribunais superiores do Poder Judiciário, nos quais dificilmente um produtor, sozinho, conseguiria obter respostas para as suas demandas”.

A questão não se resume apenas a um dilema ético-institucional. Para convocar os produtores a bancar as campanhas dos ruralistas, Kátia Abreu tornou-se protagonista de um vídeo de 1 minuto e 32 segundos, ainda disponível no YouTube, intitulado “Ajude-nos nessa missão”. O programa foi criado para ser veiculado, na internet, dentro do site
http://www.agropecuariaforte.com.br/ atualmente fora do ar, produzido pela equipe da senadora para divulgar as agendas de campanha dos candidatos ruralistas e os interesses dos latifundiários a serem defendidos durante as eleições passadas.

O mais interessante é que, a certa altura do vídeo, a senadora apela aos produtores para “garantirmos a presença, no Congresso Nacional, de parlamentares dispostos a assumir, sem medo, as grandes causas do campo”. Para tal, conclama a todos a “eleger e reeleger” deputados e senadores ligados ao agronegócio “independente (sic) do estado ou do partido”.

Em seguida, explica que todo o dinheiro doado seria depositado “em conta exclusiva do meu partido”, para, segundo ela, “ter mais controle sobre a arrecadação”. A tal conta exclusiva pertencia ao diretório regional do DEM do Tocantins, do qual ela, por coincidência, era também presidenta. De fato, ela manteve total controle sobre a arrecadação.

De acordo com o site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), 6.485 eleitores atenderam ao pedido da senadora e lá depositaram 648,5 mil reais. Outras 330 empresas também atenderam ao apelo e, juntas, doaram outros 66 mil reais para a campanha a favor da “agropecuária forte”. Acontece que o dinheiro irrigou somente a horta da turma tocantinense de Kátia Abreu. Os demais candidatos defensores do agronegócio no resto do País nunca viram brotar um só centavo em suas contas de campanha.

Ainda segundo o registro do TSE, feito a partir da prestação de contas do diretório do DEM em Palmas, revela-se que somente dez candidatos receberam recursos oriundos do fundo ruralista criado pela parlamentar: nove deputados estaduais do Tocantins, que formam a base da senadora no estado, e seu filho Irajá Silvestre Filho, deputado federal eleito. Para facilitar a eleição do rebento, a mãe conseguiu, inclusive, mudar o sobrenome dele: o jovem passou a chamar-se, nas eleições passadas, Irajá Abreu. Dos 1,4 milhão de reais arrecadados
pelo DEM do Tocantins (dos quais 714 mil reais vieram da campanha de Kátia Abreu), 200 mil reais foram para a campanha de Irajá Abreu.

Titular da Comissão de Meio Ambiente da Câmara dos Deputados, onde atua como lobista do latifúndio nacional, Irajá Abreu chegou a ser autuado, em Palmas, por desacatar policiais militares, após ser multado por se recusar a retirar o carro de um estacionamento privativo de táxis. “Quem é você para me pedir documentação?”, bradou o filho da senadora para o PM que o interpelou. No episódio, o jovem ruralista, de 27 anos, ficou tão furioso que foi preciso chamar reforço policial para contê-lo.

Ao saber da história por CartaCapital, a direção nacional do DEM mostrou-se surpresa. De acordo com a assessoria de imprensa da sigla, o partido chegou a ser consultado, no ano passado, da viabilidade de se montar a tal campanha de arrecadação para candidatos ruralistas. Kátia Abreu, informa a direção do partido, foi “expressamente” desautorizada a fazê-lo. Internamente, avaliou-se que esse tipo de arrecadação poderia causar problemas na Justiça Eleitoral. Ainda assim, a senadora levou o projeto adiante, sem o conhecimento do
partido e sem jamais ter prestado conta do dinheiro arrecadado.

Apenas pelo site do TSE foi possível à direção nacional do DEM descobrir que o dinheiro da campanha “Ajude-nos nessa missão” foi distribuído para apenas quatro outros candidatos do partido no estado, além do filho da parlamentar. Os beneficiados foram Darlom Jacome Parrião, Antonio Poincaré Andrade Filho, Maria Auxiliadora Seabra Rezende e Silas Rodrigues Damaso. Também receberam apoio Amélio Cayres de Almeida, Wilmar Martins Leite Júnior e José Bonifácio Gomes de Souza, filiados ao PR, Ailton Parente Araújo (PSDB) e Gerônimo dos Santos Lopes Cardoso (PMDB). Kátia Abreu não atendeu aos pedidos de
entrevista.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Sindicatos não podem cair no canto dos bancos e PSDB, diz ministro

Mantido no coração do governo por Dilma Rousseff, Gilberto Carvalho, Secretário Geral da Presidência, em entrevista exclusiva à Carta Maior, afirma que área econômica tentará convencer centrais sindicais de que inflação está sob controle e não requer juros mais pesados, como defende o sistema financeiro. Mas avisa que também espera dos sindicatos que não sejam 'egoístas' ao negociar salários. Sobre aproximação de algumas centrais com PSDB, afirma: 'a oposição vai ter que comer um saco de sal, porque sindicalista não são bobo'.

BRASÍLIA – O ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, teve uma manhã difícil na sexta-feira (05/05). Não pelas reuniões e problemas que encara todos os dias desde 2003 no Palácio do Planalto. Na véspera, o Palmeiras, time dele, tinha levado uma surra de seis a zero. Foi alguém ainda abalado que atendera a um telefonema do ex-presidente Lula. Assunto sério, urgente? Se você gosta de futebol, como os dois, sim. O corintiano ex-presidente ligara para provocar o ministro, como tantas vezes fizera frente a frente, nos oito anos em que Carvalho chefiara seu gabinete.

Mantido no Planalto pela presidenta Dilma Rousseff, Carvalho é a presença mais forte e nítida do antigo chefe dentro do coração do governo, mas não por causa de futebol. O passado sindical e a proximidade com os amigos sindicais de Lula levaram Dilma, que não tem a mesma experiência e o mesmo traquejo, a entregar-lhe a missão de ser o interlocutor principal do governo com os movimentos sociais. "Nunca antes na história desse país, as centrais vieram tanto ao Planalto, como nestes últimos cinco meses. E vai continuar assim", brinca Carvalho, usando um bordão do ex-presidente.

Em entrevista exclusiva a Carta Maior, concedida naquela sexta-feira, o ministro conta que o governo chamou as centrais para mostrar como decidiu enfrentar a inflação, problema mais delicado do início da gestão Dilma. Para ele, os trabalhadores não podem cair no "canto da sereia a favor de medidas mais duras" liderado pelo sistema financeiro e achar que os preços estão fora de controle. Mas também vai pedir que as centrais compreendam a situação atual e não sejam "egoístas" em negociações salariais, o que poderia pressionar a inflação.

Sindicalista, Carvalho afirma ainda que considera "natural" a aproximação entre algumas centrais e o PSDB, como ocorreu nas comemorações do Dia do Trabalho. Mas acredita que é mais um desejo dos tucanos, que ainda teriam de "comer um saco de sal" para merecer a confiança dos neo-amigos, do que uma vontade dos trabalhadores. E dispara: "O que nós mais queremos é que, de fato, o PSDB faça uma inclinação para o povo".
O leitor confere abaixo a primeira parte da entrevista com o ministro.

A Secretaria Geral parece hoje mais exposta, participando mais, dentro do governo, do que no governo Lula. O que está acontecendo?


Gilberto Carvalho – Para mim, não é muito fácil analisar, porque estou no epicentro da questão. Evidente que há um estilo pessoal diferente. Sou mais conversador do que o (ex-ministro Luiz) Dulci, mais atirado, talvez, para o bem e para o mal. No essencial, o que muda de verdade é que a presidenta me encarregou de realizar um trabalho na relação com os movimentos que é complementar ao estilo dela. Enquanto o Lula chamava para si muitas destas relações, pela história dele, a presidenta Dilma tem consicência de que, mesmo sendo totalmente comprometida com os movimentos, ela não tem a mesma convivência histórica com eles. Então, ela fica mais retraída e me deu ordem para eu ter uma relação sistemática com eles. Houve ainda uma coisa circunstancial, a negociação do salário mínimo, que a presidenta me pediu para tocar, e aí eu acabei me expondo mais também.

Ontem, houve a segunda reunião sua da mesa permanente de diálogo com as centrais sindicais. O que você enxerga como agenda principal na relação com as centrais?
Gilberto Carvalho – Eles colocaram algumas prioridades e nós colocamos as nossas, mas isso tudo foi apenas elencado, ainda será debatido. As centrais querem discutir com muita força o fator previdenciário e a valorização dos aposentados, querem discutir a reforma tributária, sobretudo a desoneração da folha de salários, elas estão muito preocupadas com isso. Também querem debater a terceirização, que precariza as condições de trabalho, e o que eles chamam de violação dos direitos sindicais. Tem empresas demitindo sindicalistas, empresas que conseguem na Justiça proibir que os sindicalistas atuem dentro da fábrica, coisas que não tinham nem na década de 70, quando eu panfleteva na porta de fábrica. Nós, por nosso lado, propusemos uma discussão sobre a economia. Nas próximas reuniões da mesa, vai ter a participação do ministro (da Fazenda) Guido Mantega. Também já marcamos para 25 de maio uma reunião para discutir o plano de erradicação da miséria.

A maioria dos temas que você colocou são demandas das centrais, mas o que, para o governo, é importante negociar com elas?
Gilberto Carvalho - É esse conjunto aí, não tem uma coisa destacada. Nós propusemos discutir o plano da miséria, a questão da economia, em que nós queremos a participação deles. No caso das demandas das centrais, quando entrarmos na discussão dos conteúdos, vai haver a posição do governo, a posição deles e uma tentativa de acordo. Eu brinco dizendo que nunca antes na história desse país, as centrais vieram tantas vezes ao Planalto como nestes últimos cinco meses. E vai continuar assim. Nós vamos cansá-los de tanta reunião.

O que o governo quer discutir com elas sobre economia?


Gilberto Carvalho – A nossa preocupação é que o movimento entenda aquilo que o governo está fazendo contra a inflação. Há um canto da sereia muito grande que setores interessados propagam na imprensa hoje a favor de juros mais altos, de medidas mais duras, que o setor financeiro sobretudo tem interesse. E o governo acredita que não é bem assim, que tem de manejar o remédio em doses adequadas para evitar um efeito colateral recessivo muito grande. Nos interessa que os trabalhadores compreendam isso e possam vir a apoiar, nossa esperança é que venham a apoiar.
Vai ser complicado com as negociações salariais no segundo semestre...


Gilberto Carvalho – Nós sabemos que vamos ter um ano duro de negociação. Praticamente todos os acordos realizados com o setor público terminam neste ano. Vamos ter campanhas salarias no fim do ano, quando a inflação já estará caindo, mas no acumulado ainda estará alta. Então, vai ter que ter maturidade do movimento sindical, do governo e do funcionalismo público, para que, num ano específico como este, as pessoas não queiram, egoisticamente, o seu próprio bem e ponham em risco o andamento da carruagem em geral.

Como o governo vai se comportar em relação a uma questão que racha as centrais, que é o fim do imposto sindical?

Gilberto Carvalho – O governo não vai tomar uma posição. É real que havia um acordo, quando foram legalizadas as centrais, que previa a extinção do imposto, ficando apenas a contribuição voluntária de cada trabalhador ao sindicato. Mas, aí, as centrais mudaram de posição, e o governo tem que respeitar. O que esperamos é que haja um debate entre elas, que eles já estão fazendo, e que cheguem a um consenso. Se chegaram, da parte do governo, evidentente, não há nenhum problema em abolir o imposto sindical. Mas também o governo não vai forçar a barra para isso. Para nós, não é um ponto central nesse momento e diz respeito ao livre direito de organização dos trabalhadores.

Inflação no ar, desavenças no imposto sindical... O governo não teme a aproximação entre algumas entidades e a oposição, como vimos nas comemorações do dia 1 de maio?

Gilberto Carvalho – A aproximação das centrais sindicais do PSDB, particularmente, é mais uma tentativa do PSDB, do que um movimento das centrais em direção à oposição. E é um movimento natutral na democracia. Agora, como diz um velho provérbio, para você fazer um amigo, tem que comer junto um saco de sal. Eu acho que nós, de vários setores do governo, comemos esse saco de sal com o movimento sindical desde os anos 70 e 80. A oposição vai ter de comer esse saco de sal, leva tempo para consolidar uma aproximação. Não pode se iludir de que, em dois ou três atos, vai ganhar (o apoio do movimento). Nenhum sindicalista é bobo, conhece o que era o Brasil antes do Lula, conhece o Brasil agora. Então, o que nós temos a apresentar ao movimento sindical é esse Brasil em que eles foram chamados a participar, em que o trabalhador ganhou muito, e o que a oposição, o PSDB, fez historicamente. Não podemos subestimar o movimento sindical e achar que um canto de sereia vai mudar isso.

Mas e se essa aproximação for bem-sucedida?

Gilberto Carvalho - Os caras (da oposição) vão ter de mostrar serviço. E, se mostrarem, vai ser bom para os trabalhadores, não tem nenhum problema, não tem ciumeira. O que nós mais queremos é que, de fato, o PSDB faça uma inclinação para o povo. E se eles demonstrarem isso nos governos de estado em que estão e depois, um dia, ganharem o governo (federal) e fizerem isso, não tem nenhum problema, nós não somos donos da classe trabalhadora. Nós defendemos mais do que ninguém a autonomia da classe trabalhadora.


Foto: Antônio Cruz/ABr

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Bin Laden e a última aventura do Super Homem

 Para entender por que agora, justamente agora, nesta data entre todas as outras possíveis, decidiu-se realizar o “justiçamento” de Bin Laden, talvez seja necessário vincular sua morte repentina e desejada com dois acontecimentos aparentemente desconectados que surgiram na semana passada: o anúncio do Super Homem (na sua história n° 900) de que pensava ir às Nações Unidas para renunciar à cidadania norteamericana, e a divulgação pelo presidente Barack Obama da certidão de nascimento que comprova sua nacionalidade estadunidense. Terá sido uma suprema coincidência?

Pode ser uma suprema coincidência? Ou por acaso tem gato – ou super herói – nesta tuba?

O primeiro, que causou entre os fanáticos da guerra entre o bem e o mal quase tanta consternação como o assassinato do funesto e lúgubre chefe da Al Qaeda, ainda que menos júbilo, foi o anúncio do Super Homem (na história n° 900 do aniversário que celebra suas peripécias) de que pensava ir às Nações Unidas para renunciar à cidadania norteamericana.

O Homem de Aço que, desde sua primeira aparição inaugural na revista Action, em junho de 1938, veste-se com as cores da bandeira estadunidense e age em nome dos valores norteamericanos, chegou a essa decisão tão drástica depois de sofrer críticas do encarregado de segurança do governo estadunidense (um homem negro parecido com Colin Powell) por ter voado até Teerã para demonstrar, durante 24 horas, sua solidariedade com os manifestantes da Revolução Verde que protestavam contra o despotismo de Ahmadinejad e seus partidários.

O governo do Irã (na história em quadrinhos, é claro, já que duvido que os aiatolás reais se dediquem a ler dissimuladamente as aventuras de Superman) denunciou esse ato – por silencioso que fosse e motivado pela não violência – como uma ingerência do Grande Satã em seus assuntos internos, quase como uma declaração de guerra. Os autocratas do Irã me desagradam muito, mas não se objetar sua lógica de aceitar as palavras do próprio Homem de Aço que encarna há décadas o conjunto truth, justice and the American way (verdade, justiça e o modo americano de vida).

De modo que o Super Homem, para poder agir daqui em diante para além das fronteiras nacionais e os interesses circunstanciais de qualquer Estado, se viu obrigado a estabelecer sua independência frente a seu país adotivo. Porque, de fato, o Super Homem não nasceu nos Estados Unidos, mas sim no planeta Krypton, chegando bebê (sem passar por aduanas nem imigração) ao Kansas em uma pequena nave espacial, sendo acolhido neste território, no centro dos EUA, pelos Kent, fazendeiros que personificam personificam precisamente o american way”. Era Ka-El. Virou Clark Kent.

É difícil exagerar a indignação com que este ato audacioso de renunciar à cidadania, esta “bofetada” do Superman, foi recebida pelo povo norteamericano. Eu li blogueiros defendendo seriamente que o novo campeão do internacionalismo fosse deportado para seu planeta de origem (como se fosse um mexicano ilegal), e já circula um abaixo assinado para que os executivos da Time Warner (donos da empresa que comercializa o Super Homem) forcem os autores da história a se retratar. Além disso, vários comentaristas conservadores viram esse insulto do super herói como a prova definitiva da decadência do país mais poderoso da terra: até o ídolo que representa mais universalmente nosso modo de vida está nos dando as costas!.

Não sei se o presidente Obama segue atentamente as aventuras do Super Homem (sabe-se que é um fã do Homem Aranha, de cuja origem nova-iorquina não cabem dúvidas), mas alguém deve ter chamado a sua atenção sobre a perda de prestígio que significa a deserção de um tal titã. O que acontece, por exemplo, se o Homem de Aço, guia dos despossuídos, decide fechar Guantánamo ou usar seus olhos de raios X para liberar alguns Super Wikileaks, agora que já deve lealdade à bandeira norteamericana? O que acontece se ele se põe a serviço de uma potência como a China? – ainda que, pensando bem, não haja muita Verdade ou Justiça neste país, de modo que ele seguramente não aceitaria esse tipo de aliança.

Em todo o caso, os conselheiros de Obama devem ter lhe explicado que a defecção de Super Homem deveria ser tratada como uma imensa crise cultural e ideológica que inclusive poderia custar a reeleição ao presidente, uma vez que os republicanos já cozinhavam planos para acusá-lo de ter “perdido” o Super Homem (como ocorreu com Cuba ou Vietnã).

A resposta de Obama foi genial: ao matar Bin Laden, provava que os EUA não necessitava de um homem musculoso que voa e atravessa paredes para defender-se dos terroristas, pois, para isso, tem helicópteros e tropas especiais como os Seals, computadores e armas – como que não – de aço. Um modo de restaurar a confiança nacional que estava machucada e que dificilmente poderia tolerar outro menosprezo à sua auréola.

É claro que, antes de poder realizar aquela operação no Paquistão, Obama tinha que acertar outro assunto, um problema que o rondava há vários anos. Como iria apresentar-se perante o mundo e anunciar o assassinato de Bin Laden em nome dos Estados Unidos se uma insólita porcentagem de seu próprio povo duvidava que seu presidente era, de fato, norteamericano? Como criar o contraste com o trânsfuga Super Homem se Obama mesmo era acusado de ter nascido no estrangeiro, no Quênia, que, como se sabe, está muito mais longe do Kansas do que o planeta Krypton, por mais que os três lugares compartilhem a kafkiana letra K?

Isso levou Obama a divulgar, há alguns dias, sua certidão de nascimento, tapando a boca daqueles que o apontavam como um “alien” (alheio, estrangeiro, mas também extraterrestre, outro significativo paralelo entre o presidente e o super herói). Por certo que um conjunto de seus concidadãos segue acreditando que Obama não nasceu em território norteamericano. Insistem que o documento foi falsificado, que o hospital foi subornado e que a mãe (nascida originalmente nada mais nada menos que no Kansas) trouxe o menino de contrabando para o Wawaí, porque sabia que, dali a quarenta e tantos anos, aquele menino mulato seria presidente. Creio que a única maneira desses recalcitrantes aceitarem que Obama nasceu nos EUA seria ele branquear inteiramente a cara e toda a pele. Aí ele já não seria mais um “alien”.

Mas, para a maioria de seus compatriotas, Obama conseguiu em uma semana uma verdadeira e tripla proeza. Ao provar que era um presidente legítimo, pode, armado de seu certificado de nascimento e também do exército mais poderoso do globo, eliminar o sinistro inimigo número um dos Estados Unidos. E sem precisar da intervenção do Super Homem.

E agora?

Agora, proponho uma façanha de verdade: já que a razão pela qual Bush invadiu o Afeganistão era o apoio que os talibãs ofereciam a Bin Laden, não chegou o momento de retirar todas as forças norte-americanas desse país de montanhas e guerrilhas?

Estou seguro que o Super Homem, em parceria com as Nações Unidas e esgrimindo seu novo passaporte cosmopolita e global, ficaria feliz em ajudar no transporte rápido das tropas. Seria bonito vermos isso nas próximas aventuras do Homem de Aço, seria alentador que Obama e o Superman – ambos com suas origens no Kansas, ambos menosprezados por serem “estrangeiros” – colaborassem para criar pelo menos um pequeno oásis de paz no mundo onde infelizmente escasseiam hoje tanto a verdade como a justiça.

(*) Ariel Dorfman é escritor. Seu romance mais recente é “Americanos: Los passos de Murieta”.

Tradução: Katarina Peixoto


Fotos: Página/12