sexta-feira, 29 de abril de 2011

No reencontro com metalúrgicos, Lula vê imprensa 'de namorico' com Dilma

Ex-presidente promete "autocontrole" para restringir seu envolvimento política nacional. Ele quer priorizar transferência da experiência brasileira para a África

Por: Leticia Cruz, Rede Brasil Atual
No reencontro com metalúrgicos, Lula vê imprensa 'de namorico' com Dilma
Lula, no congresso dos metalúrgicos, disse que não existem divergências com Dilma e criticou imprensa (Foto: ©Jorge Araújo/Folhapress)

São Paulo – Na abertura do 8º Congresso da Confederação Nacional dos Metalúrgicos (CNM-CUT), nesta quarta-feira (27), o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva teve o primeiro reencontro com o movimento sindical desde que deixou o cargo. Em seu discurso, ele disse que setores da imprensa estão de "namorico" com o governo da presidenta Dilma Rousseff para tentar criar divergências entre ele e sua sucessora.

Lula rebateu o que ele classificou como boatos de que ele e a presidenta Dilma Rousseff estivessem em conflito. "Um setor da imprensa está de 'namorico' com o governo Dilma para causar divergência entre eu e ela", pontuou. A seguir, repetiu o que havia declarado em entrevistas anteriores: "Não existe divergências, porque o dia que eu e ela discordarmos, ela está certa".

Para ele, a mídia também distorce informações sobre a alta da inflação. "Estão inventando inflação. Eu ontem vi um pronunciamento da Dilma e do Guido Mantega (ministro da Fazenda), e sinto toda a firmeza. Nós não vamos permitir que a inflação volte. Nós, não só eles; como consumidores somos responsáveis para que não volte", insistiu.

Bem-humorado durante os 40 minutos de discurso, Lula admitiu que ainda não "desencarnou" completamente da Presidência da República. "Ainda não 'desencarnei' (da Presidência) totalmente, como vocês podem ver. Não é uma tarefa fácil a 'desencarnação'", brincou. "Assumi compromisso com a Dilma de que é preciso manter o processo de 'desencarnação' para não comprometê-la", afirmou o ex-presidente.

Apesar disso, Lula declarou que seu gradual afastamento da presidência deveria servir de exemplo. "Queria ensinar a alguns ex-presidentes para que se mantenham como eu e deixem a Dilma exercer o mandato dela", provocou. A referência velada teve como alvo o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Ele foi além nas críticas à oposição e foi ovacionado por isso. "O 'nunca antes na história deste país' era para provocar a oposição, porque eu sei o tanto que já falaram de mim, com discursos cheios de preconceito. (Eu) me determinei a provar que eu seria mais competente que eles para governar o país", orgulhou-se.

O ex-presidente ressaltou ainda, em diversos momentos de seu discurso, a proximidade do governo com o movimento sindical. "Duvido que, na história da humanidade, tenha (havido) um governo que executou a democracia como o Brasil. Nunca houve tantas conferências sindicais. Em outros países, sindicalista é visto como inimigo do governo."

Ele também celebrou o que considera ser uma ação de inclusão social implantada em seus dois mandatos e mantida na gestão de Dilma. "No Palácio do Planalto, que antes só recebia príncipes e banqueiros, agora continua recebendo príncipes e banqueiros, mas também os moradores de rua e deficientes físicos. É pra mostrar que eles podem entrar em uma igreja, num metrô ou num shopping center", disse.

Conselho a sindicalistas

Dirigindo-se aos sindicalistas que participavam do evento, o ex-presidente cobrou postura firme dos representantes dos trabalhadores em negociações com empresários. "A conquista do respeito é a condição básica para ter respeito", disse. "Se você entrar numa mesa de negociação de cabeça baixa, sem se respeitar, nenhum empresário vai ter dó de vocês", recomendou.

Em relação a futuros compromissos, o ex-presidente revelou que, apesar de sentir vontade de "sair em caravana e reuniões com a CUT (Central Única dos Trabalhadores)", precisa ter autocontrole para não ter comprometimento político. "Vou me dedicar à África. A experiência brasileira pode ajudar o continente africano e este será o meu trabalho daqui pra frente", disse.
 
 

quarta-feira, 27 de abril de 2011

I Encontro Estadual de Blogueiros do Rio de Janeiro


Data: 6, 7 e 08/05
Local: Memorial Getúlio Vargas (Praça Luís de Camões, ao lado do Hotel Glória - Metrô Estação Glória)

Presenças confirmadas de Altamiro Borges, Arthur William, Bemvindo Sequeira, Beto Mafra, Brizola Neto, Claudia Santiago, Cris Rodrigues, Eduardo Guimarães, Emir Sader, Hélio Paz, Jandira Feghali, José de Abreu, Luiz Carlos Azenha, Marcos Dantas, Paulo Henrique Amorim, Renato Rovai, Sergio Amadeu, Sr. Cloaca.

Acompanhe neste blog a evolução da organização e mais notícias sobre atrações. Deixe suas idéias em nossos comentários, colabore, pois esse evento é de todos os blogueiros e internautas em geral interessados em um Brasil e um mundo cada vez mais democrático e com maior acesso à pluralidade de opiniões e versões dos fatos.

Apoio:
Coordenadoria de Juventude da Prefeitura do Rio de Janeiro
RioTUR
Centro de Estudos da Mídia - Barão de Itararé
Rede Brasil Atual
DCE-Facha


Como se inscrever?
IMPORTANTE ESCLARECIMENTO: A INSCRIÇÃO SÓ ESTÁ CONCLUÍDA APÓS A INFORMAÇÃO JUNTO À ORGANIZAÇÃO DO EVENTO SOBRE SEU DEPÓSITO DA TAXA DE INSCRIÇÃO. SIGA RIGOROSAMENTE AS INFORMAÇÕES DESCRITAS ABAIXO.

As inscrições podem ser feitas até o dia 30/04 por aqui: http://www.jotform.com/migueldorosario/rioblogprog
Se quiser ajudar a divulgar, divulgue o link de inscrição no seu blog, acrescentando as seguintes informações:
A taxa de inscrição será de R$ 20,00. Enviar comprovante do depósito para o email (encontroblogsrj@gmail.com). No caso do Paypal, o comprovante é enviado automaticamente para a organização do encontro.

- Pagamento por depósito:
Caixa
...agencia: 0995
Conta: 00010392-9
Digito de Conta Poupança: 013

Banco do Brasil
agencia 0087-6
Conta Corrente 25018-x
Substitua o "x" pelo zero (0) em alguns sites de transferência.

- Para pagar com paypal (aceita todos os cartões):https://www.paypal.com/cgi-bin/webscr?cmd=_s-xclick&hosted_button_id=DFYTF3RY8JNN4
IMPORTANTE: Neste caso, o preço é de 24,00 porque tem uma taxa administrativa do site que faz o serviço.

Programação
I Encontro Estadual de Blogueiros do Rio de Janeiro

Local: Memorial Getúlio Vargas (Ao lado do Hotel Glória)
Sexta-Feira – 06/05

18 horas – Abertura do credenciamento

19 horas – Palestra: “Democratizar a comunicação para democratizar o Brasil”
Palestrantes: Altamiro Borges, Eduardo Guimarães, Emir Sader, Luiz Carlos Azenha, Paulo Henrique Amorim e Renato Rovai. 
Mediação: Miguel do Rosário (Blog Óleo do Diabo).


22 horas: Coquetel de Confraternização.

Sábado – 07/05

08:30 horas – Oficina: Construção de blogs e redes sociais (Miguel do Rosário e Sergio Telles)
Painel 1: Rentabilidade e regulamentação da profissão de blogueiro (Suzana Blass)
Painel 2: Direito Autoral (Helio Paz)
Painel 3: Experiências locais de blogs (Cris Rodrigues e Marcio Kerbel)


11 horas – Palestra: “O marco regulatório e o Conselho Estadual de Comunicação”.
Palestrantes: “Paulo Ramos, Marcos Dantas (ECO-UFRJ), Jandira Feghalli, João Brant (Intervozes).
Mediação: Sergio Telles (Blog Opiniões - Sergio Telles).


13 horas – Ato político "Contra o monopólio da mídia" em frente a sede da Globo na Glória.
14 horas - Almoço

15 horas – Palestra: “O plano nacional de banda larga e a universalização da internet”
Palestrantes: Brizola Neto, Cláudia Santiago (NPC), Sergio Amadeu e Ricardo Negrão (Rede Brasil Atual).
Mediação: Theófilo Rodrigues (Blog Fatos Sociais).


17 horas – Lanche.

18 horas – Palestra: "Arte e humor na Blogosfera"
Palestrantes: Sr. Cloaca, Bemvindo Sequeira, Beto Mafra e José de Abreu.
Mediação: Flávio Lomeu (@Porra_Serra_)


22 horas - Festa de Confraternização

Domingo – 08/05

09 horas – Palestra: "A televisão que queremos: TV privada; TV pública; TV estatal; e TV comunitária".
Palestrantes: Arthur William (Intervozes), Ivana Bentes (ECO-UFRJ), Rodrigo Vianna (Record) e Marcos Oliveira (TVComunitária e ABCCOM).
Mediação: Marcos Pereira (Portal Vermelho)


12 horas – Assembleia Final.
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#RioBlogProg - Política
Movimento dos Internautas Progressistas do Estado do Rio de Janeiro
Grupo de discussão sobre Política

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Edição especial Caros Amigos sobre MÍDIA

enviado por Valério Amorim, via RioBlogProg

Muito oportunamente,  a Revista Caros Amigos (para quem não conhece
carosamigos.terra.com.br/) está com uma edição especial nas bancas intitulada MÍDIA: A GRANDE BATALHA PARA A DEMOCRACIA. Veja o texto de apresentação a seguir:

"Sem mais delongas

Não dá mais para adiar: o Brasil precisa enfrentar e desmontar o oligopólio da mídia. Já está claro, para boa parte da sociedade, que o aperfeiçoamento e o funcionamento da democracia
– mesmo nos marcos do capitalismo – pressupõem a democratização
da comunicação social.


O modelo vigente de concessões da radiodifusão possibilita a concentração de emissoras de rádio e TV nas mãos de alguns poucos grupos empresariais, os quais controlam a informação, restringem a liberdade de expressão, infl uenciam decisivamente na vida cultural, política e social do povo brasileiro. Mais do que isso: o atual sistema burla a vontade popular expressa na Constituiçãode 1988 e representa uma ameaça efetiva para a diversidade cultural e política.

A sociedade brasileira é testemunha do partidarismo e da manipulação dos meios nas eleições. Não faz o menor sentido que o serviço público de radiodifusão, operado mediante concessão, seja utilizado por interesses particulares para favorecer partidos e candidatos do agrado dos grupos econômicos, religiosos e políticos.
Está na hora do Brasil aperfeiçoar os critérios de controle
social da mídia.


A sociedade é testemunha, também, do uso dos meios para criminalizar os movimentos sociais, as populações negras, faveladas e pobres em geral. Há muito tempo que a grande mídia tem sido conivente com as violências do Estado contra os segmentos populares,
ao mesmo tempo em que sonega e omite informações e fatos relevantes para o desenvolvimento nacional.


A presente edição especial da Caros Amigos fornece aos leitores uma coletânea de reportagens e artigos sobre a atual situação da comunicação, aponta os grandes nós e desafi os, compara com as saídas construídas em outros países e mostra as várias alternativas e frentes de luta para melhorar, aperfeiçoar e – principalmente – democratizar o sistema de comunicação no Brasil. Esperamos, com isso, contribuir para a reflexão e o debate."

RioBlogProg - PolíticaMovimento dos Internautas Progressistas do Estado do Rio de Janeiro
Grupo de discussão sobre Política

Inscreva-se ou mude suas configurações em:http://groups.google.com.br/group/rbp-politica?hl=pt-BR


PS do Blog: o episódio recente com o senador paranaense Roberto Requião, que por se interrogado se abriria mão  da sua aposentaria como ex-govbernador do Paraná, por um repórter da Rádio Band, e a sua atitude de pegar o grvador do Repórter e apagar a matéria, e pior ainda, o sorriso do senador José Sarney, presidente do senado ao comentar o fato, é uma demonstração de como se torna urgente mudanças no modelo vigenre sobre a Mídia no Brasil.

CARTA DOS BLOGUEIROS PROGRESSIS​TAS DE SÃO PAULO

“Sem comunicação social democrática não há democracia e comunicação social”

Nos dias 15, 16 e 17 de Abril de 2011, cidadãos e cidadãs de diversas partes do Estado e do país se reuniram na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo para fomentar o debate acerca dos caminhos da blogosfera.

O histórico I Encontro de Blogueiros Progressistas deste Estado reafirmou o seu caráter independente com uma perspectiva inovadora para a comunicação social do nosso país.

O evento teve a participação de blogueiros, twitteiros, representantes de movimentos sociais, parlamentares, educadores e juristas, focados no direito à democratização da comunicação e à liberdade de expressão.

Apoiamos incondicionalmente a Frente Parlamentar pela Liberdade de Expressão e o Direito à Comunicação com Participação Popular (FRENTECOM), liderada pelos Deputados Federais Luiza Erundina (PSB/SP) e Paulo Teixeira (PT/SP), presentes ao debate; bem como o Conselho Estadual de Comunicação (Consecom) e a criação da Frente Parlamentar pela Liberdade de Expressão e o Direito à Comunicação com Participação Popular (FRENTECOM/SP), ambos liderados pelo Deputado Estadual Antônio Mentor (PT/SP), e de imediato já propusemos a nossa participação nesta Frente Paulista.

Defendemos uma discussão ampla do Marco Regulatório, que envolve o Plano Nacional de Comunicação e o PNBL (Plano Nacional de Banda Larga), com o acesso de conexão à internet universal, de qualidade, e que fortaleça o sistema público de comunicação, sendo necessário regulamentar o que já consta em nossa Constituição.

No debate sobre militância virtual, observou-se a importância da participação cidadã na internet. Segundo pesquisa realizada pela empresa especializada em tráfego online ComScore, nas eleições de 2010 a blogosfera do país teve 70% dos brasileiros acessando blogs, enquanto no resto do mundo a média foi 50%. Para o relatório divulgado, a principal concentração de audiência dos blogs brasileiros foi na época das eleições, quando, entre outubro e novembro, quase 40 milhões de usuários acessaram os blogs à procura de comentários sobre os candidatos à eleição.

Outro tema relevante no evento foi a discussão da proteção jurídica, indicando formas de praticar a liberdade de expressão de maneira responsável, mantendo a reputação digital e se protegendo dos riscos legais inerentes aos membros da blogosfera.

Nas oficinas foram discutidos vários temas, como educação na blogosfera, ferramentas tecnológicas, comunicação comunitária e sustentação financeira dos blogs. Para conferir as propostas clique aqui.

Ao final do encontro, foi proposta a ideia de criação de uma cooperativa de blogueiros paulistas, visando a aglutinação dos blogs, a captação de recursos, e a proteção jurídica, com o objetivo de fortalecer a pluralidade de participação no ambiente virtual.

sábado, 23 de abril de 2011

Brisa - cinema possível

Brisa – um Filme de Jiddu Saldanha – Projeto Cinema Possível


Brisa é o primeiro filme do projeto Cinema Possível em HD, finalizado em Abril de 2011. No elenco: May Pasquetti, Artur Gomes e Jorge Ventura. Música de Marko Andrade, direção de Jiddu Saldanha. Poemas de Eliakin Rufino, Herbert Emanuel, Artur Gomes, etc... Este filme é dedicado àqueles que amam a poesia!

Jiddu Saldanha – Palavras do Diretor


meus lábios em teus ouvidos
flechas netuno cupido
a faca na língua a língua na faca
a febre em patas de vaca
as unhas sujas de Lorca
cebola pré sal com pimenta
tempero sabre de fogo
na tua língua com coentro
qualquer paixão re/invento

o corpo/mar quando agita
na preamar arrebenta
espuma esperma semeia
sementes letra por letra
na bruma branca da areia
sem pensar qualquer sentido
grafito em teu corpo despido
poemas na lua cheia


por que te amo
e amor não tem pele nome ou sobrenome
não adianta chamar
que ele não vem quando se quer
porque tem seus próprios códigos e segredos
mas não tenha medo
pode sangrar pode doer
e ferir fundo
mas é razão de estar no mundo
nem que seja por segundo
por um beijo mesmo breve
por que te amo
no sol no sal no mar na neve

                           
saiba mais sobre Brisa aqui: http://curtabrisa.blogspot.com




sexta-feira, 22 de abril de 2011

A IMPORTÂNCIA DOS BLOGS:TRÊS PERGUNTAS PARA SÉRGIO TELLES UM DOS ORGANIZADORES DO I ENCONTRO DE BLOGUEIROS DO RIO DE JANEIRO

Reproduzimos entrevista com Sérgio Telles, publicada no blog http://miracemarj.blogspot.com/


O blog traz hoje uma entrevista exclusiva com o blogueiro carioca Sérgio Telles, falando sobre o I Encontro de Blogueiros Progressistas do Rio de Janeiro, que discutirá diversos assuntos, com foco nas novas mídias e nas revoluções que elas podem provocar nos próximos anos. Vamos, juntos, tentar entender esse fenômeno na internet.

1) O que é e qual a importância do I Encontro de Blogueiros Progressistas do Rio de Janeiro?

O Rio de Janeiro foi o segundo estado mais representado no I Encontro Nacional de Blogueiros Progressistas, realizado em São Paulo. Tinhamos 30 participantes, e partiu de nossa sugestão (o Beto e eu, mais a Rosângela) de fazermos grupos regionais/estaduais, e fundamos, lá mesmo, o #RioBlogProg, que já surgiu com nome e algumas propostas que foram logo implantadas, como a lista de discussão e o blog.
 
Ao longo dos meses, tivemos a interessante oportunidade de atrair ativistas e geradores de conteúdo de todos os cantos de nosso Estado, como nenhum outro estado foi capaz até agora. Nesse tempo, fizemos algumas atividades, com destaque para o debate em dezembro do ano passado e a entrevista com o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes. No debate, juntamos cerca de 60 pessoas, algumas de Campos e outras cidades distantes da capital, que vieram mesmo sem nenhum apoio. Também atraímos pessoas dos vizinhos estados de São Paulo e Minas Gerais.
 
Com toda essa rede virtual pré-preparada, o Encontro Estadual é a oportunidade de efetivamente fazer a integração pessoal das pessoas que tiveram a oportunidade de conhecer o trabalho umas das outras, aprimorar sua forma de trabalhar, estabelecer parcerias, formar novos projetos. É um espaço também aonde serão decididas propostas para encaminhar ao II Encontro Nacional, que acontecerá em Brasília, de 17 a 19 de junho.
 
No Encontro, teremos a oportunidade de receber os principais nomes e articuladores em nível nacional sobre os temas mais importantes para o ativismo da comunicação e também para os profissionais que prestam serviço com seu blog ou site.
 
Abriremos falando da importância desse ativismo para a sustentação e aprofundamento da democracia, com a maior transparência, o maior contraponto à velha mídia, a divulgação de fatos independente da censura do capital, esta tão nociva à liberdade de expressão como a censura estatal, mas velada pelo interesse dos 4 grandes grupos de comunicação que se organizam no famoso "PIG - Partido da Imprensa Golpista".
 
No sábado, dia principal do evento, abriremos dividindo nossos inscritos em 4 atividades paralelas, dando oportunidade a quem tem dificuldade com lidar com um computador, a fazer uma oficina sobre o tema; falaremos também sobre rentabilidade e regulamentação da profissão de blogueiro; direito autoral e aplicações em Creative Commons e experiências locais de blogs, aonde blogueiros e ativistas que atuam preenchendo lacunas da grande mídia, como diversos pelo interior de nosso estado, terão espaço para expor seu trabalho, experiências e desafios.
 
Em seguida, em mesa que terei a honra de mediar, falaremos sobre o marco regulatório das comunicações e o Conselho Estadual de Comunicação. Nessa mesa, falaremos sobre a Frente parlamentar federal em defesa da liberdade de expressão e pelo direito à comunicação, com todas as lutas envolvidas, como a regulamentação dos artigos da Constituição de 1988 que tratam da comunicação, as novas possibilidades de mídias para movimentos sociais, de trabalhadores, comunitários, melhor distribuição do bolo publicitário, entre outras lutas. Essa mesma luta se reflete nos avanços que estamos tendo a nível estadual, que também será dada atenção especial.
 
Partiremos para o almoço, mas antes, um ato simbólico em defesa da liberdade de expressão e pelo direito à comunicação, na própria praça aonde ocorre o evento. Nela, também fica a sede do Sistema Globo de Rádio, incluindo a CBN. Juntar tantas pessoas num momento especial, lidando com temas tão pertinentes, a realização de um ato público torna-se um registro pra história do movimento dos blogueiros progressistas.
 
À tarde, retornamos com o importantíssimo tema do Plano Nacional de Banda Larga e a defesa da universalização do acesso à internet, uma questão que, para nós, é um fator fundamental para a garantia de cidadania e inclusão social, além de fundamental para permitir a redução das desigualdades sociais e regionais, especialmente entre cidades grandes e pequenas. É uma das bandeiras principais do movimento e considerada de extrema importância para que a informação alternativa tenha alcance competitivo contra a velha mídia, o que certamente contribuirá para uma sociedade menos conservadora e medrosa do que atualmente está, muitos reféns das versões distorcidas dos fatos sem a oportunidade de receber o contraponto.
 
Fecharemos o dia com um tema importante, mas que será tratado de um jeito típico do Rio de Janeiro: a arte e o humor na blogosfera. A gente luta, a gente é aguerrido, mas para disseminar o conteúdo produzido, arte, cultura e humor, nas suas mais variadas expressões, são fundamentais. Ter um blog/site com conteúdo variado aumenta a visibilidade e a referência em sites de busca, aumentando vertiginosamente sua visitação e permitindo transbordar o acesso ao seu conteúdo alternativo, ou seja, o blogueiro escreve menos "para nós mesmos" e atinge públicos diferenciados, toca a pessoas fora de nosso círculo, que já são consumidoras desse conteúdo tradicionalmente. Estamos ansiosos por esse momento que, contando com a transmissão online, será algo histórico em termos de visibilidade dos blogueiros progressistas.
 
O sábado a noite terá uma atividade cultural relacionada ao evento, ainda a definir. Será de muito bom gosto e ao estilo dos blogueiros, para o povo poder curtir junto um pouco dessa cidade especial que é o Rio de Janeiro.
 
No domingo, encerraremos os ciclos de debates tratando sobre "A TV que queremos", que certamente irá render um amplo debate por ainda ser o maior meio de massa e detentor de enorme fatia das receitas publicitárias e dos problemas de manipulação que a blogosfera e seus ativistas combatem firmemente via internet. Como concessão pública, as TVs deveriam ser bem diferentes do que são, e iremos tratar desse tema e como cooperar com as TVs alternativas, como a TV pública e as TVs comunitárias, para que elas tenham maior alcance de massa e exerçam o contraponto de opiniões tão desejado por todos.
 
Em seguida, teremos a assembléia final, aonde a Comissão Organizadora apresentará, juntamente com a plenária, as propostas levantadas durante todos os eventos, de maneira a elaborar um documento final do evento, que será entregue durante o II Encontro Nacional de Blogueiros Progressistas, em Brasília.
 
Esperamos que os participantes, além de ter a oportunidade de conhecer pessoalmente mais de uma centena de amigos virtuais, aprimorem seus conhecimentos e sua forma de produzir e disseminar conteúdo, para a evolução dos blogueiros de nosso estado.

2) Como identificar um blogueiro progressista?
Na verdade, um ativista da internet pode ser progressista e não ser blogueiro, necessariamente. O termo "progressista" remete à pessoas que enxergam o progresso da forma de fazer a comunicação, que lutam em contraponto à opinião única da velha mídia ou ainda que preenchem as lacunas da velha mídia, que é incapaz de fazer a cobertura em cidades menores, comunidades, periferias. Dessa forma de atuar, o blogueiro (ou internauta, ou usuário de mídias sociais) progressista interage com movimentos sociais, comunitários, com partidos políticos, com a sociedade organizada, com todos os meios de fazer a diferença e prestar serviço, gerar conteúdo e estar aonde a velha mídia não está ou se nega a estar, seja pela censura do capital, já citada acima, seja pelo desinteresse comercial de cobrir regiões ou eventos de "baixa demanda". E nisso, surgem bandeiras de luta comuns, diversas delas que serão tratados em nossos debates, entre outras diversas oportunidades de realizar sinergias em estar atuando em conjunto, e não mais como solitários guerreiros, como fizemos por muitos anos. E os avanços estão sendo muito evidentes.

3) Os blogs e as novas mídias vão provocar uma revolução nas comunicações mundiais?
Já estão provocando, certamente. A internet é um caminho sem volta, sua forma de interatividade é inigualável e a liberdade de expressão e possibilidade de se destacar por qualidade são muito melhores que em qualquer outra mídia até então existente. O blog é apenas um formato, muitas outras formas de expressão vão cada vez mais se fortalecer, como os podcasts (áudio) e os vlogs (vídeo) que cada vez permitem chegar a um público que não possui a paciência de ler um texto longo como essa entrevista que eu estou lhe dando, por exemplo. A questão é que a informação que antes dificilmente era contestada, hoje é capaz de ser desconstruída, se falsa, em poucos minutos, graças a uma enorme rede em todo o Brasil que possui todos os perfis de profissionais e que, em sua maioria, operam apenas pelo prazer de prestar o serviço de levar a verdade à sociedade.
 
Na última eleição, o episódio da bolinha de papel, ocorrido na Zona Oeste do Rio de Janeiro, foi um exemplo claro de como uma mentira construída pela velha mídia em conluio com seu candidato preferido (e, comprovado pelo Wikileaks, o candidato preferido do grande capital internacional), ao tentar falsear um traumatismo por conta de um objeto extremamente leve e que, comprovou-se posteriormente com imagens, pesava no máximo 5 gramas. A desconstrução iniciou-se com a interatividade do #RioBlogProg, que permitiu que um blogueiro de expressão local, porém pouco conhecido nacionalmente, o Flávio Loureiro, produzisse uma pequena postagem com informações coletadas com colegas de partido que estavam no local da confusão e passaram seus relatos, e que, por meio dos contatos que fizemos por conta do Encontro Nacional de Blogueiros Progressistas, tivemos a credibilidade de dar aval para que fosse publicado no "Vi o Mundo", do Luiz Carlos Azenha, e daí se disseminasse por toda a rede, pouco após o acidente, com o dito cujo ainda fazendo exames fajutos no hospital, com o ex-secretário de saúde da cidade.
 
 Ainda não sabíamos das imagens, mas já tinhamos informações suficientes para comparar o caso com o do goleiro Rojas, que virou a hashtag #serrarojas que foi sucesso mundial por 3 dias e também citadas pelo Presidente Lula e pela então candidata Dilma Rousseff, até que as imagens popularizaram a bolinha de papel como a verdadeira "vilã" do episódio, para toda a militância considerado como decisivo para a vitória de Dilma, até então o adversário se aproximava perigosamente e havia crescimento junto a grupos conservadores, que depois do #bolinhadepapelfacts voltou atrás e ajudou a eleger Dilma. Aliás, complementando a pergunta anterior, a campanha de oposição do ódio e da intolerância ajudou imensamente a que os blogueiros progressistas se unissem e se identificassem como tal, são todas as pessoas que se opõem à mentira, ao entreguismo e à intolerância pregada pela nossa oposição e lastreada pela velha mídia que afundou junto com seu candidato, merecidamente derrotado.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Paulo Teixeira: “A Folha não queria me encontrar. A matéria já estava pronta, toda editada”

por Conceição Lemes no Viomundo
O que acharia se lesse a primeira manchete na capa de um jornal, e a segunda, no caderno interno?



Pois isso aconteceu nesse domingo, 17 de abril, na Folha de S. Paulo. A vítima da vez: o deputado Paulo Teixeira (PT-SP), líder da bancada na Câmara Federal.
Curiosamente, na capa, o jornal ressalta: Procurado não deu resposta.  Depois no caderno interno, capricha: A Folha fez vários pedidos de entrevista ao deputado desde 16 de março, mas sua assessoria não deu resposta.

Desde 16 de março e a matéria só foi publicada em 17 de abril?! A Folha esperaria tanto?!  Nem criança acredita nessa história da carochinha. Repórter quando quer encontrar MESMO uma fonte, acha. E se é de Brasília, onde o deputado passa boa parte da semana, é mel na sopa. E com um mês de lambuja é covardia! Só Freud explica. Ou melhor, só a Folha explica.

“A Folha não me ouviu antes de fazer a matéria”, revela Paulo Teixeira. “O repórter Felipe Coutinho mandou e-mail para a minha assessoria de imprensa, perguntando sobre ‘microtraficantes’. A assessoria avaliou que não deveríamos entrar nesse debate num momento em que precisamos aprovar matérias importantes no Parlamento para a continuidade do processo de crescimento econômico com distribuição de renda. O repórter não disse que faria uma matéria sobre uma fala minha num evento.”

“Curiosamente, o mesmo jornalista ligou no meu celular ontem [domingo] para repercutir. Eu perguntei por que não o fez antes, a exemplo de todos os jornalistas da Folha, que me ligam diretamente no celular. Ele disse que não quis passar por cima da assessoria”, observa Teixeira. “Depois de ver a chamada da matéria na capa e a mobilização dos editores para comentá-la, percebi que a Folha não queria me encontrar, não queria realmente saber a minha opinião. Ela já tinha a matéria pronta, toda editada.”

Pena que o jornal tenha usado esse expediente num tema tão sério, que exige responsabilidade e ética. Afinal, estamos falando de saúde pública. Por isso, resolvi aprofundar a entrevista com o deputado Paulo Teixeira, para colocar os pingos nos is.

Viomundo – Deputado, a Folha cita uma palestra do senhor. É daí que foram tiradas as informações que estão na matéria?

Paulo Teixeira — A Folha teve acesso às informações por meio de um vídeo que foi postado na internet, não sei se com a fala integral ou parcial. De qualquer forma, a matéria não expressa o que eu penso, mostra apenas uma parte, com uma abordagem sensacionalista, parcial, com frases pinçadas de um contexto. Há quinze anos acompanho este tema, em diferentes foros mundiais. Não estimulo o uso de drogas, mas acho que o problema precisa de uma abordagem menos preconceituosa.

Viomundo — Na chamada de capa, a Folha diz que o senhor defende o uso da maconha e ataca o Big Mac, dando a impressão de que estimula o uso. É isso mesmo?

Paulo Teixeira — É uma insinuação inadmissível da Folha. Toda vez que falo sobre a política de drogas, faço questão salientar os prejuízos à saúde e demais danos sociais que a droga pode causar.

Falo inicialmente do álcool, que, para mim, é o problema mais grave da sociedade brasileira. Causa acidente de trânsito, brigas com morte, violência contra mulher. A sociedade brasileira precisa proibir a propaganda do álcool na TV. Em relação à maconha, falo dos riscos à saúde do usuário, da necessidade de prevenir o seu uso. Muitos usuários podem, inclusive, desencadear doenças psíquicas pelo uso.

A realidade atual é gravíssima. Drogas ilícitas são oferecidas à luz do dia. Esse mercado é muito capitalizado. Diante desse quadro, o que fazer para torná-lo menos  perigoso? Deixar os usuários consumir substâncias adulteradas? Permitir a crescente capitalização desse mercado?

Minhas propostas são retirar o usuário da esfera penal, descriminalizando o uso e a posse de drogas e esvaziar o poder econômico do tráfico. Em relação ao Big Mac, minha preocupação é estabelecer uma exigência para que os produtos alimentícios informem o teor de gordura, de sódio e gordura trans que contêm.

Viomundo —  A Folha diz que o senhor defende o plantio de maconha por cooperativas de usuários. O que falou sobre isso?

Paulo Teixeira — Eu me referi a experiências de Espanha e Portugal, entre outros países, onde o problema foi abordado de uma forma pragmática. No caso da Espanha, o  resultado foi importante para diminuir a exposição de usuários à convivência com traficantes e esquemas criminosos. Lá, especificamente, são permitidas cooperativas  de plantio formadas por consumidores. Essa estratégia enfraquece a economia da droga.

Em Portugal, os resultados foram muito positivos também. Depois da descriminalização ocorrida há dez anos, diminuiu a violência associada ao uso de drogas, diminuiu inclusive o consumo. Lá o conhecimento por parte da autoridade policial do porte de qualquer droga pelo usuário está fora da órbita criminal e submetido a infrações administrativas, como  advertências, cursos, multas, entre outras.

As experiências de Portugal e Espanha são apenas exemplos de estratégias mais pragmáticas. Não sei se servem para o Brasil, porém podem iluminar um novo caminho.

Viomundo – No Brasil, há especialistas que defendem a descriminalização da maconha. As cooperativas seriam o  caminho para viabilizar essa proposta?


Paulo Teixeira – Acho importante analisar as estratégias adotadas por outros países e os resultados. A experiência Portugal, que eu acabei de citar, é muito interessante. Ao descriminalizar o usuário, distinguindo-o claramente do traficante, descapitalizou grande parte do mercado de drogas ilícitas em geral. Com isso, ajudou a diminuir a violência associada a esse mercado, com resultados fantásticos em relação à diminuição das doenças associadas ao uso de drogas.

Todos os países estão discutindo a questão das drogas leves, como a maconha, e o Brasil não pode ficar fora desse debate. Há muita hipocrisia. Quase todo mundo conhece alguma história de alguém que se envolveu com drogas. Há casos de pessoas que são apenas usuários e vão parar na cadeia em razão de um flagrante armado ou fruto de uma legislação que ainda está longe da dos países que resolveram encarar o problema de frente.


Viomundo – Nós temos uma epidemia de crack, que é uma droga devastadora, vicia rapidamente… O fato de no momento as atenções estarem focalizadas principalmente nele atrapalha o debate sobre as drogas em geral?

Paulo Teixeira O crack é uma droga que se desenvolveu a partir do controle das substâncias químicas destinadas ao refino da cocaína. Assim, o crack é o refino da cocaína feito com substâncias muito pesadas e nocivas à saúde. Ele é produto da política de guerra às drogas.
Temos que prevenir o seu uso e tratar os eventuais usuários, o que não é fácil.
Por isso, acho importante que o tema das drogas seja discutido à luz do dia para que não cheguemos a esse absurdo que é o crack. É uma questão de saúde pública.

Viomundo — Drogas devem ser assunto de saúde pública ou de polícia?

Paulo Teixeira – O uso de drogas não pode ser assunto de polícia. Deve ser unicamente de políticas públicas.
Insisto: o usuário deve ser  tratado fora da esfera penal. Isso ajuda a mudar de mãos quem cuida do assunto. Em lugar da polícia e dos traficantes, teremos a família, a escola, as atividades culturais e esportivas e a saúde para cuidar dos usuários.

Viomundo – O senhor acompanha a discussão sobre as drogas há muito tempo. O que acha da nossa da legislação?

Paulo Teixeira – Realmente, é um tema, que me preocupa muito e trato bastante. Já participei de conferências no Canadá, nos EUA, no México, em vários países da América Latina, Europa e Ásia e em vários estados brasileiros. Acho que precisamos rever rapidamente a legislação brasileira.


Viomundo – O modo de o Brasil combater as drogas está dando certo?


Paulo TeixeiraNossa política sobre drogas é um entroncamento das políticas norte-americana e europeia. Temos muitos problemas, principalmente carcerários. Há uma grande massa de presos, que são pequenos infratores enquadrados na lei de drogas. Segundo os estudos, o perfil desses presos é o seguinte: réus primários, agiram sozinhos e sem emprego de armas. Os presídios são locais privilegiados para organização da violência no país. E esses presos, pequenos infratores por causa de drogas, são recrutados para ações criminais mais danosas à nossa sociedade.

Viomundo – Que outras consequências acarretam essa forma de se lidar com as drogas?Paulo Teixeira — A nossa realidade é preocupante em relação ao abuso de drogas. Temos um foco na repressão, que consome grande quantia de recursos e que dilui os esforços das forças de segurança no combate ao pequeno delito de drogas, impedindo que as ações se concentrem no crime organizado. Diante disso, não conseguimos diminuir o número de usuários. A aquisição dessas substâncias dá-se no mercado ilegal, resultando em perigos de todos os tipos. Como ainda está sob a lei penal, o usuário tem risco permanente de uma abordagem desproporcional da polícia.

Viomundo – A atual política está conseguindo prevenir o uso de drogas?

Paulo Teixeira – De acordo com estudos publicados, o consumo de drogas no Brasil aumenta a cada dia.

Viomundo – Estados Unidos ou Europa, qual a melhor direção?

Paulo Teixeira — A política de guerra às drogas é hegemônica no mundo. O Brasil desenvolve políticas mais criativas em comparação aos EUA. A Europa tem conseguido resultados muito mais favoráveis com a política de redução de danos. Creio que essa é a direção mais correta.

Redução de danos é uma estratégia que busca prevenir o uso de drogas, mas atende o usuário na perspectiva de conseguir resultados progressivos para a saúde e  a vida social dele enquanto ainda estiver nessa condição. Educar para evitar que seja infectado pelo vírus da Aids, da hepatite.  Educar também para evitar overdose, perda do emprego, de vínculos sociais. Essas são estratégias da política de redução de danos.

Oferecer tratamento para a superação do uso e tratar das motivações que levam o usuário ao abuso são outras estratégias dos programas de redução de danos.

Viomundo — Como deveria ser a política de combate às drogas?


Paulo Teixeira — Defendo uma política democrática, com livre circulação de informações, prevenção, melhor distribuição de renda, educação, cultura e lazer. Ampliar os horizontes das pessoas.

Em relação às drogas, temos de convencer os jovens sobre a repercussão em sua saúde pelo uso ou abuso. Buscar promover espaços para o fortalecimento político da nossa juventude, para que exerçam plenamente a sua cidadania. Temos de buscar convencê-los a não usar drogas. Mas, caso usem, evitar o abuso e maiores danos à sua saúde e à sua vida. Mas, antes de tudo, é preciso convencê-los e apoiá-los.

Viomundo — A matéria diz que o senhor tem uma visão diferente da presidenta Dilma. Seria uma forma de intrigá-lo e dificultar a sua posição como líder da bancada do PT na Câmara dos Deputados?


Paulo Teixeira — Tais posições são exclusivamente minhas. A presidenta  está concentrada no assunto, acelerando a atenção aos usuários, aumentando os leitos hospitalares… Esse esforço terá resultados positivos. Noutra ponta do tema, o governo vem aumentando a eficácia das ações contra o crime organizado. Não tenho divergências com a presidenta Dilma Rousseff . O repórter tentou usar a questão como fonte de potencial intriga, mas se esqueceu de que tanto a presidenta como eu estamos preocupados com a questão das drogas.

Viomundo — Para finalizar, o que o senhor diria aos pais?

Paulo Teixeira – Não adianta a gente enfiar a cabeça no buraco, fazer de conta que as drogas nunca vão afetar os nossos filhos. Talvez muitos pais não saibam, mas cada vez mais as drogas são adulteradas, ficando ainda mais perigosas à saúde.  Sabem que têm essa informação? Os traficantes. Sabem nas mãos de quem os jovens usuários  estão hoje em dia? Nas mãos dos traficantes e da polícia.

Se quisermos mudar o rumo das coisas, temos que começar a discutir essa questão às claras, sem hipocrisia nem preconceito.

Sou pai de seis filhos. Eu e a minha esposa sempre proporcionamos ambiente aberto para dialogar com nossos filhos. Sempre que eles tiveram crises de adolescência, paramos tudo para cuidar deles. Valorizamos suas iniciativas. Sou vinculado à Igreja Católica em São Paulo. Para a construção das minhas posições, consultei teólogos, bispos, padres e leigos na área religiosa. Construí minhas posições ouvindo também médicos, sociólogos, políticos, antropólogos, cientistas sociais e demais profissionais. Aconselho a todo o pai o diálogo.

Leia aqui por que os especialistas acham que a repressão está perdendo terreno na luta contra as drogas.
 

segunda-feira, 18 de abril de 2011

A violência do agrotóxico

Agropecuarista vê gado agonizar pela segunda vez, vítima de veneno agrícola alheio. Caso entrará em documentário de Silvio Tendler


 Vinicius Mansur Brasil de Fato

Há pouco mais de duas semanas (31/03) a equipe de filmagem do documentário sobre os agrotóxicos, dirigido por Silvio Tendler, estava em Paraipaba, Ceará, cerca de 90 quilômetros a noroeste da capital Fortaleza. Foram investigar as acusações contra a empresa do agronegócio, de origem holandesa, Companhia Bulbos do Ceará (CBC), por uso indiscriminado de agrotóxicos.

Em fevereiro, a Justiça do Ceará havia deferido liminar proibindo o uso de veneno pela CBC. Entre as explicações estão coceira na pele e problemas respiratórios na comunidade local, a provável contaminação da lagoa da Cana Brava - a 100 metros da fazenda e principal reservatório de água que abastece o município – além da morte, por contaminação comprovada em laboratório, de 18 cabeças de gado do agropecuarista Henry Romero.

Na manhã seguinte à visita da equipe de filmagem, 15 animais de seu Henry apareceram doentes – alguns agonizantes, como mostram vídeos gravados pelo agropecuarista, sob orientação do Ministério Público. Até o fechamento desta matéria, 12 já haviam morrido.



“O tempo todo que estivemos conversando com seu Henry na propriedade dele, um cara numa caminhonete, dentro da área da CBC, um funcionário, ficava cantando pneu pra cima e pra baixo. Nitidamente para nos coagir. Tanto que no final, seu Henry falou ‘fiquem tranquilos’ e nos escoltou até a saída”, relatou a documentarista Aline Sasahara.

As propriedades de seu Henry e CBC são vizinhas. Atualmente, separadas por uma “telinha transparente”, como descreve Aline.

Veneno à deriva

Seu Henry é cauteloso e não acusa a empresa de envenenamento direcionado. Entretanto, diz não ter dúvida de que seus animais são vítima do veneno lançado aos montes por seu vizinho:

“Já foi descartado qualquer tipo de doença. É veneno que partiu de lá e o que vai dizer qual veneno é a biopsia. Sabemos que eles nunca obedeceram a ordem de parar de pulverizar. Se eles plantam, eles pulverizam, porque não tem como colher essas culturas sem usar o veneno.”

Cada um dos dois pulverizadores usados pela CBC armazena 2 mil litros de veneno e possuí dois braços de 20 metros que fazem a pulverização suspendida. As duas máquinas juntas chegam a envergadura de 80 metros e são utilizadas para pulverizar uma área de aproximadamente 22 hectares, segundo Henry:

“A área deles é pequena, não chega a 180 metros de largura, então dá pra você imaginar: 80 metros de braço jogando o veneno à deriva.”

CBC

Criada em 2004, a CBC produz bulbos - caule arredondado do qual brotam flores ornamentais, como a Canna indica, Amaryllis e Caladium. Apesar de serem consumidos pelos EUA e Europa, é em Paraipaba que os bulbos e a CBC encontram as melhores condições para florecer: longo período de sol, Porto de Pecém a 50 quilômetros de distância, baixo custo da terra e mão-de-obra barata. Todas estas “vantagens”, entretanto, parecem não dispensar a necessidade do veneno: de acordo com a Agência de Defesa Agropecuária do Ceará (Adagri), a CBC utiliza 29 tipos de agrotóxicos, sendo dez altamente tóxicos ao meio e sem registro administrativo de órgãos ambientais estadual e federal. De acordo com a Superintendência Estadual do Meio Ambiente (Semace), a CBC também não possui licenciamento ambiental.

Para agravar a situação, a plantação da CBC se localiza em um platô, com incidência de fortes vento, e é rodeada por um povoado de quase 700 habitantes – muitos deles dependentes da empresa. Em épocas de forte safra, a CBC emprega até 150 trabalhadores. Assim, a população que sofre com a propagação do veneno pela terra, água e ar, pouco pode fazer.

“Todo mundo tem medo de falar, porque são vizinhos, porque trabalham lá ou tem parentes que trabalham. Seu Henry tem uma situação econômica muito melhor que a maioria das pessoas ali, então ele pode falar. Mas, a empresa está fazendo um trabalho junto aos moradores, dizendo que se ela fechar a culpa vai ser do seu Henry, que as pessoas vão perder emprego, que ele devia ficar quieto”, conta a documentarista Aline.

Seu Henry

Com aproximadamente 160 cabeças de gado leitero, há mais de 30 anos no ramo “sem usar agrotóxico e nenhum produto que venha causar algum transtorno para a natureza ou para os animais”, seu Henry levou um grande prejuízo. “Todos os dias estou mandando 500 reais de medicamento para a fazenda, mas não está resolvendo. Morreram animais que eu ainda estou pagando. Comprei no leilão”, reclama.

Contudo, o agropecuarista dá outras razões para seu abatimento. “Eu tenho esse apego aos animais, mas são só animais. E as pessoas lá? Tem um povoado de 130 casas, todas pessoas honestas, humildes que não podem falar nada. Segundo os profissionais químicos, o veneno é absorvido pela medula e vai acumulando, acumulando, até causar leucemia e outros problemas. E tem um caso aqui, a 80 metros do campo, que há uma escola que estudam 200 crianças, em dois turnos. Então, o que estão fazendo é um crime, uma ignorância brutal”, conclui.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Ao "mascarar desmatamento", mudança no Código Florestal ignora aquecimento global, diz analista

 Ruralistas negam intenção de ampliar área de cultivo e rechaçam papel da agricultura nas mudanças climáticas

Por: Virginia Toledo, Rede Brasil Atual

Ao "mascarar desmatamento", mudança no Código Florestal ignora aquecimento global, diz analista
Região Amazônica é uma das mais afetadas com a expansão de novas áreas agrícolas (Foto: Ministério do Meio Ambiente)

São Paulo -  Mudanças climáticas são muito mais determinantes no preço dos produtos agrícolas que a falta de áreas produtivas, segundo André Lima, consultor jurídico do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam). Por isso, ele acredita que a discussão sobre o Código Florestal precisa levar em conta os riscos de aquecimento global. Para representantes da bancada ruralista, o clima é secundário no debate.

A discussão a respeito da legislação ambiental no Congresso encaminha-se para permitir, entre outras alterações, a abertura de novas áreas para produção, o que poderia mascarar desmatamentos, segundo André Lima. Para ele, a argumentação do relator da matéria, deputado federal Aldo Rebelo (PCdoB-SP), de que o atual Código Florestal impede o crescimento da produção de alimentos no Brasil é "desonesto e enganoso". A proposta é apoiada pela bancada ruralista, que pressiona inclusive por anistia a proprietários rurais que não se adequaram à legislação no que diz respeito a áreas de preservação permanente (APPs).

O consultor jurídico argumenta que a comida do brasileiro tem muito pouco a ver com as commodities. Ele explica que as mudanças climáticas têm muito mais relação, pois mexem com as safras, com a sazonalidade e com o regime de chuvas. "O relatório leva a entender de que isso tudo é uma conspiração do mundo desenvolvido contra os países de agricultura tropical", lamenta Lima. Ele lembra ainda que, a cada ano, o país bate novo recorde de produção de grãos, usando até menos área para o plantio. Isso ocorre porque a produtividade aumenta.

O deputado Moreira Mendes (PPS-RO) sustenta que a proposta de alteração do Código Florestal não se preocupa com o aquecimento global por não se preocupar com o aumento da área de cultivo. "Ninguém está falando em aumentar área de produção", enfatiza o deputado.


"Essa história de que o clima está modificando por conta da agricultura é conversa mole pra boi dormir. O mundo sempre foi desse jeito. Isso é discurso sem fundamentação para inviabilizar a agricultura e a pecuária brasileira", defende o deputado em entrevista à Rede Brasil Atual.

Produção contra preservação


O geógrafo e professor da Universidade de São Paulo (USP), Ariovaldo Umbelino, destaca que o atual modelo de código florestal tem normas suficientes para conciliar produção e preservação. Falta o cumprimento de tais leis.

Umbelino acredita que os empresários do agronegócio querem modificar as leis porque eles próprios nunca as cumpriram. E exemplifica: "O setor de cana-de-açúcar em São Paulo é o que mais vai perder área agrícola se tiver de cumprir a lei".
Moreira Mendes, mesmo de opinião contrária à do professor sobre o Código Florestal, concorda com o dano ao setor sucro-alcooleiro. "O proprietário (paulista) vai viver permanentemente atormentado pela fiscalização. Isso, na prática, significa redução de 17% da área agricultável em São Paulo", pontua.


"Eles (empresários do agronegócio) só querem avançar. E para avançar precisa desmatar", afirma Raul Krauser, coordenador da Via Campesina e membro do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA). André Lima explica que nos últimos 15 anos a área desmatada chegou a 20 milhões de hectares e que cerca de metade desta área foi desmatada por grandes e médios produtores para expandir áreas agrícolas. Inclusive sobre a Amazônia e o Cerrado.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Japão: desastre nuclear é nível 7, como Chernobyl

É o nível mais grave, segundo a Escala Internacional de Acidentes Nucleares. Anúncio significa uma grande bofetada nos japoneses e vizinhos. Significa também a comprovação de que o governo e a operadora Tóquio Electricidade (TEPCO) estiveram mentindo todo este tempo, ao afirmar que a radioatividade que continua a escapar de Fukushima 1 não é prejudicial à saúde. O artigo é de Tomi Mori.

O governo japonês anunciou nesta terça-feira que o acidente nuclear na central nuclear Fukushima 1 é de nível 7, o mais grave, segundo a escala Escala Internacional de Acidentes Nucleares (International Nuclear Event Scale, INES) que serve de parâmetro para estes acidentes.

O anúncio foi feito como se tratasse apenas de uma questão técnica sem menor importância, alegando que foi necessário compilar dados estatísticos para chegar a essa conclusão.

É uma grande bofetada na cara da opinião pública mundial que acompanha a tragédia. E não apenas na cara dos japoneses, como também dos países vizinhos, como a Coreia do Sul e a China.

É também a comprovação de que o governo e a operadora Tóquio Electricidade (TEPCO) estiveram mentindo todo este tempo, ao afirmar que a radioatividade que continua a escapar de Fukushima 1 não é prejudicial à saúde.

Como todos sabem, milhares foram evacuados e outros milhares sê-lo-ão nos próximos dias, já que o governo decidiu também aumentar a área de evacuação. Só na localidade de Iitate, são cerca de 7 mil moradores. Alimentos foram contaminados. A água em várias localidades foi contaminada. Água contaminada foi despejada no mar e a própria operadora não consegue disfarçar que as fugas ainda não terminaram.

Se este que vos escreve deixar no lixo da calçada uma televisão ou um aparelho eletrônico e for apanhado em flagrante pela polícia, pode ser detido imediatamente. Mas esses senhores fizeram tudo isso e continuam a fazer, sem que ninguém seja responsabilizado. Mesmo os responsáveis por uma das maiores tragédias nucleares humanas continuam impunes, comendo, tranquilamente, o seu sashimi ou sushi com peixes que não são de Fukushima, obviamente.

A notícia desta terça-feira aumentou a apreensão em todos, e muitos estrangeiros estão a tentar sair desesperadamente do país. Os estrangeiros, em particular, têm mais dificuldade, devido à língua, de acompanhar o noticiário nacional.

O descrédito completo a que chegaram as autoridades, TEPCO e governo, obriga as pessoas a procuram por conta própria o que lhes parece ser mais aconselhável.

(*) Correspondente nem Tóquio do Esquerda.net



A Costa do Marfim e a volta da 'Françáfrica'
 

A Costa do Marfim e a volta da 'Françáfrica'
Laurent Gbagbo é encontrado e detido em quarto de hotel na Costa do Marfim, ao lado da mulher, Simone (Foto: ©Stringer/Reuters)

Eu prometera Portugal (cuja situação comentei no Jornal Brasil Atual - enviei também um clip para o Seu Jornal, da TV dos Trabalhadores). Mas vai agora a situação na Costa do Marfim.

Não sou eu que estou dizendo: são o The Independent, o El País, o New York Times, o Time, a Foreign Affairs, o The Guardian. A queda de Laurent Gbagbo em Abidjan é uma vitória militar da França, apoiada pelas forças da ONU, e secundada pelas forças que apoiavam Alassane Ouattara, o candidato declarado vencedor pela França, pelas potências ocidentais, pela ONU e os vários países da região - nessa ordem hierárquica.

Na prática, o desenlace dessa fase do enfrentamento armado na Costa do Marfim entre partidários dos dois candidatos, significa o retorno ao primeiro plano da política do país e da região da perspectiva da "Françáfrica". Essa expressão - Françafrique em francês - foi cunhada por Houphuet Boigny, o presidente/ditador daquele país africano e que o governou desde a década de 60, quando houve a independência, até sua morte, em 1993.

Boigny foi um jovem sindicalista e depois político marfinense, que, mais do que liderar, tornou-se o fiel da balança da independência. Primeiro, teve afinidades com os comunistas, sem se tornar membro do partido. Depois entrou para a política... francesa, tendo se tornado representante outre-mer no parlamento em Paris.

Com o processo de independência, firmou-se como um aliado da França e do Ocidente na região. Daí a idéia da Françáfrica. Agiu encarniçadamente contra a influência soviética e chinesa na África; opôs-se ao MPLA de Angola; favoreceu Kasabuvu e Moise Tshombe no Congo, contra Patrice Lumumba, que terminaria assassinado. Era próximo de todo o establishment conservador francês. Moveu a capital administrativa do país de Abidjan (que continua sendo o centro econômico) para sua cidade natal, Yamoussoukro.

Nesta fez construir a maior basílica do mundo, a de Nossa Senhora da Paz, mais larga, mais comprida e mais alta do que a do Vaticano. Construiu um Centro para Convenções Internacionais suntuoso. Visitei-o em 1996, e nele deparei com uma sala de conferências para mais de 300 pessoas, toda decorada exclusivamente com madeiras do Brasil, de mogno à araucária, de jacarandá a pau-rosa etc.

De certo modo, os conflitantes atuais, Gbagbo e Ouattara, são "crias" do reinado de Boigny, que, por sua vez, era garantido pela presença permanente de duas divisões do exército francês, em território marfinense - aliás, o maior exportador de cacau do mundo. Ouattara cresceu à sombra de Boigny; foi seu ministro, e tornou-se um quadro importante do FMI; já Gbagbo desenvolveu vínculos com os socialistas franceses - não rompidos até hoje, pois uma facção do PS continua a apoiá-la - e foi exilado na França durante vários anos.

Voltando ao país ainda antes da morte de Boigny, que o anistiou com a frase "a árvore perdoa o passarinho que a deixou", ou algo parecido, conseguiu eleger-se presidente em 2000. Era professor de história de inclinação marxista (cheguei a ve-lo uma vez, durante minhas visitas ao país como professor convidado de literatura brasileira). Chefiou num governo de tendência social-democrata, mas aos poucos foi mergulhando na intrincada e violenta política do país e na disputa entre grupos armados.

Depois de sua ascensão à presidência, eclodiu uma revolta separatista no norte do país, que faz fronteira com Burkina-Faso e o Mali. Na raiz dessa revolta está uma das políticas de Boigny, que atraía imigrantes dos países vizinhos com concessão de terras, para povoar o território e acrescer a produção agrícola.

Na região proliferou um movimento que sempre estranhou tanto a elite (afrancesada e católica) do sul do país quanto a política de proximidade com o PS de Gbagbo. Esse movimento tornou-se apoiador, há tempos, de Ouattara. Em 2002 o confronto virou uma autêntica guerra civil, com combates inclusive em Abidjan e nas cercanias, mas a partir do controle que manteve na capital Gbagbo conseguiu impor-se e consolidar-se no poder.

O processo de "paz", garantido por tropas da ONU,  levou à última eleição, no ano passado, com um resultado controverso. A Comissão Eleitoral deu a vitória a Ouattara (sempre apoiado pelo norte, pela França e seus aliados); a Comissão Constitucional, que tinha a última palavra, anulou votações na região norte e deu a vitória a Gbagbo.

A Comissão de Observadores da ONU inclinou-se por Ouattara, secundada por países africanos da região. Ficou a pergunta sobre se essa inclinação foi pre-determinada, além de insuflada pela França, cuja preferência por Ouattara era evidente desde sempre. Inclusive levantou-se hoje que este último e Sarkozy são amigos bastante próximos.

A violenta intervenção da França no conflito, desequilibrando-o em favor do candidato da oposição, foi apontada, além da defesa de interesses econômicos e geo-políticos, como atendendo a um interesse interno de Sarkozy, que tem estado mal nas pesquisas para a futura eleição nacional, ameaçado tanto pela esquerda quanto pela extrema-direita, além de em seu próprio território político de centro-direita, com a possibilidade da candidatura de Dominique Strauss-Kahn que, de membro do PS francês, evoluiu para diretor-presidente do FMI.

Sem os blindados e os helicópteros da ONU e da França, a resistência de Gbagbo teria, no mínimo, durado mais. E o argumento de que o ataque contra o palácio presidencial atendeu à necessidade de "proteger civis" e poupar suas vidas carece de credibilidade, dada a evidente preferência por Ouattara e a má-vontade em relação a Gbagbo, ambas manifestas há tempos.

Aliás, esse quadro refletiu-se em boa parte do comportamento da mídia, que erguia a voz num fortissimo con brio sempre que havia denúncias de violação dos direitos humanos por parte das tropas deste, e tocava piano baixíssimo sempre que as denúncias atingiam as tropas favoráveis a Ouattara, isso numa guerra hoje sabidamente sujíssima de parte a parte. A Al Jazeera chegou a publicar uma análise criteriosa desse comportamento da mídia internacional.

A guerra, na Costa do Marfim, ainda não acabou. Pode ser que venha a acabar, se Ouattara, o vencedor no campo do conflito, conseguir colocar-se na posição de magistrado, mediar conflitos num país dividido, neutralizar os grupos armados mais belicosos de seu próprio lado e agir no sentido de reconciliar as diversas facções políticas, étnicas e religiosas.

Significativamente, por exemplo, as comemorações mais ruidosas de sua vitória se deram no bairro de Abobo, densamente povoado por migrantes do norte do país.

Embora em condição de desigualdade, os dois contendores estão agora "frente a frente"  no Hotel du Golf, um dos mais requintados de Abidjan, transformado em quartel do oposicionista, protegido pela ONU, e agora também em prisão do derrotado e de sua família, formalmente também sob proteção da mesma ONU que ajudou a derrotá-lo.

Mas tudo isso vai depender agora também da disposição de Sarkozy e de seu movimento de ressucitar a "Françáfrica" de Boigny. Diante desse quadro turbulento e enevoado, soa grotesca a observação da secretária de estado norte-americana Hillary Clinton de que a queda de Gbagbo deve servir de lição para os ditadores do mundo que desrespeitam a vontade de seu povo. É uma frase de alguém que olha para a história de seu próprio país e só consegue ver um desenho animado de Walt Disney. Certamente, não dos melhores.