sexta-feira, 25 de março de 2011

A ausência de negros na visita de Obama

Ausência de negros chama a atenção na visita de Obama

da Afropress no VioMundo

S. Paulo – A quase total ausência de negros na agenda da visita do presidente americano Barack Obama, ao Brasil, no último fim de semana, continua repercutindo e causando estranheza. Até mesmo o reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares e presidente da Afrobrás, José Vicente – de perfil considerado moderado e conciliador – não se conteve.

Segundo Vicente, a Obama não terá escapado “a ausência de um único oficial brasileiro negro para lhe prestar continência na sua chegada em Brasília e ao Rio”. Embora correspondam a apenas 13% da população americana, a presença negra é expressiva entre militares nos EUA, inclusive nos que servem à Casa Branca.

“Obama certamente observou que também não havia, ao menos meia dúzia de jornalistas negros para entrevistá-lo”, acrescentou, na abertura do ano letivo dos cursos da Faculdade Zumbi dos Palmares, na noite de segunda-feira (21/03) no Memorial da América Latina, lembrando que o Brasil tem a maior população negra do mundo fora da África, com 95 milhões de afro-brasileiros, o equivalente a 51,3% da população.

Não é fácil…

Na mesa da solenidade, que teve como mestre de cerimônias a apresentadora do SBT, Joyce Ribeiro, o governador de S. Paulo, Geraldo Alckmin, e o ex-secretário de Justiça, Hédio Silva Jr., além de representantes de bancos como o City Bank, o Bradesco, e o HSBC, e empresas como o Carrefour e a Mercedes Benz do Brasil, que tem parcerias com a Palmares.

Ao declarar aberto o ano letivo, Vicente fez um histórico do Dia Interncional de Luta pela Eliminação da discriminação Racial, e lembrou o massacre de Sharpeville, na África do Sul, que motivou a ONU a criar a data em repúdio à violência racista do regime do apartheid.

O reitor da Unipalmares, que esteve no Theatro Municipal do Rio, para ouvir o presidente americano, lembrou que nos EUA, os negros receberam, após a abolição, acres de terra e uma mula, enquanto que no Brasil foram jogados na rua. “Não é fácil ser negro neste país, governador”, disse dirigindo-se a Alckmin e provocando a reação da platéia, que lotou a sala e o aplaudiu de pé.

Ausência

Além de Vicente, lideranças negras, que preferem manter seus nomes em sigilo, consideram que a visita de Obama ao Brasil – que o país, com maior população negra fora da África – acabou por evidenciar a força do mito da democracia racial, que para muitos havia se enfraquecido com o avanço da luta por igualdade no país.

Segundo essas lideranças, se não tivesse sido informado por sua assessoria sobre a realidade dos negros brasileiros, o presidente americano teria saído com a impressão do seu antecessor, George Bush.

Segundo a revista alemã, Der Spiegel”, Bush não sabia que havia negros no Brasil e, numa conversa com o então presidente Fernando Henrique Cardoso, ocorrida em novembro de 2001, em Washington, teria perguntado ao colega brasileiro. “Vocês também possuem negros?”

Na ocasião, a então assessora para assuntos de segurança nacional de Bush, Condoleeza Rice e FHC teriam saído em seu socorro: “Senhor presidente, o Brasil provavelmente possui mais negros do que os EUA. Dizem que é o país com maior número de negros fora da África”, teria dito FHC.

Globais e celebridades

Mesmo no Theatro Municipal do Rio, onde foram reservados convites para 2 mil convidados, além de algumas celebridades como Gilberto Gil, Emanoel Araújo, e o ator global Lázaro Ramos e personalidades do mundo acadêmico, contava-se nos dedos, o número de negros que estiveram presentes nas atividades da agenda do presidente americano.

Essas mesmas lideranças também manifestam estranheza pela total ausência da ministra da Igualdade Racial, Luiza Bairros, que em nenhum momento foi notada na agenda de Obama. A questão racial acabou sendo lembrada apenas no evento do Itamaraty, quando a presidente Dilma Rousseff propôs um brinde ao “sonho de Martin Luther King”.

A ministra da Igualdade Racial tampouco apareceu em uma foto sequer ao lado do presidente norte-americano, em contraposição às cenas de tietagem explícita do prefeito do Rio, Eduardo Paes, e do governador Sérgio Cabral, ambos visivelmente deslumbrados com o visitante.

Paes constrangeu o presidente americano a tirar uma foto com um filho de seis anos, quando Obama desembarcava do Air Force One e se dirigia ao hall da Base Aérea do Galeão, no sábado.
Na despedida, na segunda-feira, também no Galeão, a mulher de Cabral pediu ao presidente americano para posar para fotos, quando Obama – junto com a mulher Michelle, as duas filhas, a sogra – já se dirigia à escada do avião para embarcar rumo ao Chile.



Sucessão na FAO: credenciais

O geógrafo Josué de Castro ensinou-nos que “a fome e a guerra são criações genuinamente humanas”; não o fruto amargo da fatalidade ou da escassez. Podem e devem ser equacionadas pela mobilização de vontades e de recursos. Essa é a convicção brasileira ao postular a direção da FAO e temos a convicção que as credenciais acadêmica, administrativa e política de José Graziano da Silva dentro - desenhando e implementando o Fome Zero – e fora do Brasil – dirigindo Escritório Regional da FAO para America Latina e Caribe durante os últimos cinco anos – fazem dele o melhor nome para liderar a organização nos próximo anos.


Walter Belik (*) no sitio CartaMaior

Em 2011, os 191 países membros da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), o mais importante órgão multilateral voltado para a segurança alimentar, elegerão seu próximo diretor-geral. Com o apoio dos países sul-americanos e de língua portuguesa, o Brasil lançou José Graziano da Silva ao cargo, refletindo o compromisso do país com o desenvolvimento e a inclusão social e a participação do candidato nessa história.

A receita que deu certo no Brasil combina o socorro à exclusão social com a construção de linhas de passagem para superar a lógica que a reproduz. Dois exemplos dessa via de mão dupla. O Bolsa Família fixou um piso mínimo para a sobrevivência de um conjunto de domicílios que já chega a 12,7 milhões. Ao mesmo tempo, a partir de 2003, sem prejuízo ao agronegócio, o Brasil aumentou em seis vezes o volume de crédito à agricultura familiar; multiplicou por dez o investimento em assistência técnica ao setor; tornou obrigatória a aquisição de pelo menos 30% da merenda escolar junto à pequena agricultura local – o que adicionou uma receita anual de R$ 1 bilhão aos produtores familiares.

Se isoladamente essas ações promovem mudanças positivas na vida de milhões de pessoas, implantadas em conjunto materializam uma dinâmica capaz de desenhar um processo de desenvolvimento que reconcilia o imperativo social e o produtivo.

O Brasil aprendeu essa lição, em parte graças ao apoio da FAO que contribuiu na implantação do Fome Zero. E pretende agora retribuir e compartilhar essa experiência inovadora, bem como a de outros países em desenvolvimento que, com propostas semelhantes, também conseguiram avançar em direção a um desenvolvimento inclusivo.

Alguns líderes de países pequenos ou com escassos recursos naturais podem achar que é impossível replicar o êxito brasileiro. Certamente, as medidas que deram certo no Brasil precisam ser adaptadas a situações específicas, no entanto duas lições básicas persistem independentemente da escala: a certeza que assegurar que todos se alimentem adequadamente não é assistencialismo, mas um investimento em capital humano que gera importantes benefícios; muitas técnicas usadas para uma produção agrícola mais sustentável também diminuem o custo da produção.

Essa é a convicção que move o Brasil e dezenas de outros governos. Na América Latina e Caribe, 10 países já consagraram em lei o compromisso com a segurança alimentar. Compromisso esse que necessita ser concretizado dada a urgência colocada pelo quadro internacional de alta dos preços agrícolas. Na África, 18 nações começam a desfrutar dos conhecimentos de ponta em agricultura tropical acumulados pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA), adaptando-as às condições locais.

A crise internacional e uma das formas nas quais se manifesta que é a alta dos preços internacionais tem um impacto direto na situação social de todos os países, colocando os mais pobres em situação dramática. A FAO tem um importante papel a cumprir, ajudando a alcançar um consenso sobre como tornar o sistema de comércio internacional de alimentos mais justo, além de fomentar políticas que possam garantir o direito à alimentação para todos.

O grande obstáculo é a fragilidade do arcabouço institucional que deve coordenar essa caminhada. O geógrafo brasileiro Josué de Castro ensinou-nos que “a fome e a guerra são criações genuinamente humanas”; não o fruto amargo da fatalidade ou da escassez, mas da história. Podem e devem ser equacionadas pela mobilização de vontades e de recursos. Essa é a convicção brasileira ao postular a direção geral da FAO e temos a convicção que as credenciais acadêmica, administrativa e política de Graziano da Silva dentro - desenhando e implementando o Fome Zero – e fora do Brasil – dirigindo Escritório Regional da FAO para America Latina e Caribe durante os últimos cinco anos – fazem dele o melhor nome para liderar a organização nos próximo anos.

(*) Professor do Instituto de Economia e Coordenador do NEPA – Núcleo de Estudos e Pesquisas em Alimentação da Unicamp.

Nenhum comentário:

Postar um comentário