terça-feira, 22 de março de 2011

AS EDITORAS NÃO QUEREM PUBLICAR AUTORES INDEPENDENTES



“O problema da burocracia e dos burocratas do meio editorial, qualquer imbecil sabe, é a falta de argumentos sustentáveis, aliada à repetição papagaiada de respostas ocas, desprovidas de sentido e escoradas em regras e critérios que ninguém entende ou explica.”

Por Elenilson Nascimento no blog Literatura Clandestina

Uma matéria assinada pelo jornalista Durval Feitosa, sobre a importância do livro e a difícil relação das editoras com “novos autores”, publicada no “Caderno 2”, do jornal “Estado de Minas”, neste último sábado, 19/03, que também usou na ilustração a capa do meu livro de crônicas “Olhos Vermelhos” (2006), descreveu a via crusis de vários autores brasileiros “sem mídia”, no qual fui elegantemente citado. A reportagem citou também a discussão referente à “aventura cultural da mestiçagem na literatura”, que confirma o discurso do secretário Auto Filho e o descaso do Ministério da Cultura.

Na matéria, aproveitei para colocar em público, mais uma vez, o preconceito existente contra os autores independentes: “Boa parte da imprensa e das editoras não estão empenhados em, de alguma forma, por exemplo, fazer uma ‘bienal de livros com autores desconhecidos’ para mostrar que no Brasil existe muito mais do que a lista de autores que as revistas semanais mostram. Não se trata evidentemente disso. Nós não podemos, em circunstância alguma, ser penalizados pelo fato de sermos autores ainda desconhecidos do grande público, cada vez mais conduzidos a consumir literatura da moda. Somos também excelências com os nossos textos, mas infelizmente, totalmente rechaçados em detrimento de autores da moda, assuntos comum de todos e vampiros e lobos bonzinhos”.

Contudo, segundo um dos “empresários” do ramo, que nem vale à pena citar o nome aqui, de uma das maiores editoras do país, não existe boicote nenhum “contra os autores independentes em relação aos grandes nomes de mercado”: “Quando calhou desses nomes atenderem a isso (o projeto da Bienal), eles foram convidados. Por exemplo, se pensarmos na representação de Angola, vamos ter um nome bem conhecido - que é o Agualusa, que é dono de uma editora (a Língua Geral). Ele não está aqui por ser um nome conhecido, mas pelo que desempenha dentro deste processo conceitual”, disse o mercenário, digo, empresário das letras.

Mas poder-se-ia pensar, ainda, em outra dificuldade: o que tais autores independentes, como seus livros de tiragem pequena, podem oferecer ao grande público? Boa parte deles é ainda inédita no Brasil e carece de distribuição, mas eu mesmo, apesar de já ter alguns livros editados, não consigo expor meu trabalho numa grande livraria. E se formos continuar mantendo este raciocínio, muitos autores independentes bons, como Elenilson Nascimento, Albarus Andreos, Giovani Iemini, Ana Lúcia Merege, Flávio O. Ferreira, M. M. Soriano, Artur Gomes, Jéssica Balbino, Alexandre de Castro Gomes, Daniel Matos, Andréa C Migliacci, Marcelo Nocelli, Eliane Silvestre e muitos outros, jamais seriam publicados em lugar algum.

Estamos conscientes do risco, mas procuramos minimizá-lo publicando em blogs, em pequenas tiragens e divulgando por conta própria pela internet e em feiras de literatura.

As editoras, antes de somente divulgar o mais do mesmo, deveriam revelar as diversas culturas dentro dos vários Brasis, reconhecendo os seus hábitos, costumes e a sua própria cultura e comprometer-se com a democratização e mobilização do acesso universal ao livro, à leitura e à produção literária. Mas, não é isso o que acontece. Cadê vez mais somos bombardeados com livros de autores da escola BBB e cia. E numa entrevista recente a um jornal cearense, um curador de uma dessas bienais da vida declarou ter escolhido os autores - brasileiros e estrangeiros - para o encontro no ano passado, levando em conta a "qualidade da obra" e a "diversidade estética e geracional". Mas quais foram os escolhidos? Resposta: Fiuk, Bruna Surfistinha, Ana Maria Braga e etc. E a estranheza que se possa ter em relação à maior parte dos nomes não é demérito da parte deles e sim reflexo de nosso descompasso cultural.

O problema da burocracia e dos burocratas do meio editorial, qualquer imbecil sabe, é a falta de argumentos sustentáveis, aliada à repetição papagaiada de respostas ocas, desprovidas de sentido e escoradas em regras e critérios que ninguém entende ou explica. Porque não investir em novos autores? Porque é muito difícil fazer com que o leitor abra a cabeça para outras letras e esse é o tipo de argumento equivalente ao cachorro que corre atrás do próprio rabo e não sai do lugar. Portanto, desacomodem-se, descruzem os braço, gritem e erguei-vos todos os bons autores!

Até o bruxo-mago-autor-imortal Paulo Coelho mandou um sinal de fumaça nos dando uma força. Mas porque as editoras não querem publicar autores (ainda) fora da mídia?

imagens: reprodução

Um comentário:

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