quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Violência e corrupção: crise da polícia no Rio de Janeiro

A saída do chefe da Polícia Civil, Allan Turnowski na terça-feira trouxe à tona os métodos violentos e corruptos utilizados pelos agentes

Por Patrícia Benvenuti*

A atual crise da segurança pública no Rio de Janeiro, que culminou com a saída do chefe da Polícia Civil, Allan Turnowski, na terça-feira 15, trouxe à tona os métodos violentos e corruptos utilizados pelos agentes do estado em suas funções.

A crise iniciou com a Operação Guilhotina, deflagrada na sexta-feira 11 em conjunto com a Secretaria de Segurança Pública do estado. Ao todo, foram expedidos 45 mandados de prisão contra policiais civis e militares envolvidos com tráfico de drogas, armas e munições, milícias e com a máfia dos caça-níqueis. Eles também são acusados de venda de informações e roubo durante operações nos complexos do Alemão e da Penha. Até o momento, 38 pessoas foram presas, entre elas o delegado Carlos Oliveira, que foi subchefe da Polícia Civil e considerado braço-direito de Turnowski.

Para o pesquisador da Justiça Global Rafael Dias, as provas coletadas pela Polícia Federal comprovam as violações apresentadas por organizações de direitos humanos desde a época das operações. “Essas evidências que vieram à tona ajudam, de alguma maneira, a quebrar aquela imagem da polícia como algo bom, como se estivesse combatendo o tráfico”, afirma.

Em entrevista, o pesquisador fala sobre a situação atual das comunidades e a necessidade de reformas na polícia, a fim de combater a corrupção existente na instituição.

Após as operações policiais, a Justiça Global divulgou, junto com outras organizações de direitos humanos, uma série de denúncias a respeito de violações contra moradores. Como se deu o processo de apuração dessas denúncias?

Logo depois da ocupação do Complexo do Alemão e da Penha, as organizações de direitos humanos foram até lá [comunidades] ouvir os moradores e, a partir disso, a gente construiu um relatório com denúncias sobre situações de violações de direitos humanos naquelas localidades. Ouvimos, por parte dos moradores, que houve invasão de casas. Os moradores foram sistematicamente invadidos, e os direitos violados também. As pessoas foram roubadas pelos agentes da polícia, houve tortura, agressão, uma vasta gama de violações. Então copiamos os informes do que aconteceu naqueles dias e nos dias que precederam [às ocupações] e enviamos para relatorias da ONU e de direitos humanos informando a situação em que se encontravam as comunidades.

E com a Operação da Polícia Federal agora, a denúncia que fizemos ganha materialidade, ou seja, a própria Polícia Federal, nas escutas telefônicas que fez, captou conversas de policiais falando dessas invasões e dos roubos a que os moradores foram submetidos. Houve também uma busca dos policiais, como se fosse um saque de guerra. O saque foi indiscriminado: os policiais tentavam saquear o dinheiro do tráfico de drogas localizado no Complexo do Alemão e na Penha, mas também invadiram indiscriminadamente as casas dos moradores. Até a fala do coronel da Polícia Militar, Mário Sergio Duarte, naquele momento, era dizer que a ordem era vasculhar casa por casa. Então a gente percebe que houve ali uma violação coletiva do direito dos moradores.

Qual a situação nas comunidades após as ações policiais no final do ano passado?

A Polícia Militar saiu das comunidades que, agora, estão sendo ocupadas por uma força de pacificação composta por agentes do Exército, das Forças Armadas. Existe também um batalhão de campanha lá, que integra os policiais, mas quem está fazendo o policiamento ostensivo armado atualmente são soldados do Exército. E já houve denúncias de maus-tratos e violência relacionados a esses agentes das Forças Armadas. A gente acompanha com muita preocupação porque houve uma intensa violação dos direitos humanos contra os moradores, que acontece até hoje.

Quais são as principais denúncias contra essas forças de segurança?

As principais denúncias são agressões, injúrias contra os jovens das localidades e abuso de autoridade.

Já houve denúncias de violência policial em áreas onde UPPs estão implantadas. Essas denúncias contra as forças de pacificação são semelhantes?

Lá [nos Complexos do Alemão e da Penha] ainda não existem UPPs, essa força de pacificação seria preparatória para as UPPs. Então há uma diferença. Mas em outras áreas em que existem UPPs também ouvimos relatos de que existe abuso de autoridade, proibição de manifestações culturais, policiamento cotidiano da vida daquela comunidade. Dessa maneira, é um modelo muito parecido.

Como funcionava o “garimpo” feito por policiais?

O que a gente viu nas notícias que foram divulgadas e também antes da Operação Guilhotina, com os moradores, é que os policiais entravam em todas as casas da comunidade, não discriminavam o que era casa de traficante ou casa de moradores e buscavam armas, dinheiro, drogas, joias. Pertences que tinham algum valor eram saqueados. Esse tipo de lógica da segurança pública, de guerra, leva a isso, a um saque indiscriminado, que é uma violação de direitos humanos e também uma ação criminosa.

Os fatos revelados pela Polícia Federal coincidem, então, com os relatos dos moradores durante as ocupações?

[Os fatos] batem totalmente com o que foi denunciado e falado pelos moradores. E naquele momento a operação foi elogiada pela mídia corporativa, que não chamava a atenção para o que estava acontecendo, violação dos direitos humanos e uma organização criminosa por parte dos policiais que, agora, com a operação da Polícia Federal, ficou evidente com provas, escutas telefônicas. Por isso ficou insustentável a permanência do chefe da Polícia Civil [Allan Turnowski], que caiu.

Qual a relação entre essas denúncias e a crise na segurança pública que culminou na saída do chefe da Polícia Civil do estado?

Em grande parte, ele [Turnowski] não saiu por causa da violação contra os moradores, mas pelo nível e pelas redes de corrupção de que a própria polícia fazia parte. A relação da polícia com as milícias, esse tipo de conluio das forças policiais é que levou à queda do chefe da Polícia Civil. Não necessariamente as violações porque o estado produz violações de direitos humanos e nem por isso o secretário de segurança pública ou outros agentes do estado são responsabilizados. A situação política ficou insustentável por causa da abrangência e da evidência das redes criminosas que atuavam na cúpula da polícia. Uma das provas foi a corrupção que aconteceu no Alemão, mas há a relação do braço-direito do chefe da Polícia Civil [o delegado Carlos Oliveira] com as milícias, com informantes repassando ordens para o tráfico.

É importante chamar a atenção também para que um dos heróis da chacina de 2007 do Complexo do Alemão também era repassador, vendia armas para o tráfico. Essas evidências que vieram à tona ajudam, de alguma maneira, a quebrar aquela imagem da polícia como algo bom, como se estivesse combatendo o tráfico. Essa dicotomia, de certa maneira, acabou. A própria polícia ajuda nas engrenagens do tráfico, é uma relação que alimenta o próprio tráfico de drogas.

Como você avalia, a partir dessas denúncias, a cobertura que os meios de comunicação realizaram na época das ocupações?

Essa hegemonia do discurso midiático também, de alguma maneira, se quebrou. [Os meios] queriam passar que era uma operação bem-sucedida. Houve uma inovação dos equipamentos utilizados, o emprego de blindados da Marinha, e a imprensa cobriu isso de forma entusiástica, como a conquista de um território que não tivesse soberania do Estado. Por outro lado, houve grandes violações de direitos humanos, o que não é novidade. Então essa nova ação da polícia no Complexo do Alemão e a forma como foi apresentada parecia algo de novo, mas ela repetia o mesmo esquema que já se viu, de relação da polícia com o tráfico, a relação criminosa da polícia. Isso é algo a ser levado em conta e que, naquela época, não foi. Houve um elogio que escondeu essas coisas que se repetem na política de segurança do Rio de Janeiro.

A Justiça Global lançou uma nota defendendo a responsabilização do governo do estado em relação a esses crimes praticados por policiais.

Na sua avaliação, quais foram os erros do poder público e o que deve ser feito para combater a corrupção dentro da polícia?

Isso levanta a discussão sobre a reforma da polícia. De certa maneira, as nossas políticas apresentadas pelo poder público e pelo governo federal passam por cima do debate que, a meu ver, é central, que é a reforma da polícia, de que polícia nós queremos, que segurança pública nós queremos. Isso é um fator primordial para que não haja corrupção nas forças policiais. A discussão da transparência, do controle externo, das ouvidorias externas, da corregedoria independente, tudo isso é fundamental porque temos hoje um modelo militarizado de segurança pública que produz mais violência em vez de preveni-la.

Diversas organizações de direitos humanos, como a própria Justiça Global, apontam que é preciso mudar o modelo de segurança pública porque, se não houver uma mudança estrutural, os erros vão se repetir. Esse modelo atual, que aposta na militarização, no discurso e nas ações de guerra em grande magnitude e não na ação policial baseada na inteligência, está fadado a repetir esses erros que nós estamos vendo.

A gente também não pode ficar refém, esperando as ações da Polícia Federal. Essas ações são importantes, mas não são suficientes. Você vê grandes casos de corrupção como esse dentro da cúpula da Polícia Civil. O que se pretende é uma reforma ampla dessas instituições, uma reforma estrutural com participação social nesses debates.

*Matéria publicada originalmente no Brasil de Fato


MP acata representação contra lei que “vende” 25% dos serviços do SUS a planos de saúde

do Grupo Pela Vidda-SP no VioMundo

O Ministério Público do Estado de São Paulo (MPE) recebeu, no dia 15 de fevereiro, representação de sete entidades da sociedade civil contra a Lei Complementar Nº.1.131/2010, que permite direcionar 25% dos leitos e outros serviços hospitalares para os planos e seguros de saúde privados. A lei abrange 26 hospitais estaduais que atualmente têm contrato de gestão com Organizações Sociais (OS) no Estado de São Paulo.

Assinam a Representação o Instituto de Direito Sanitário Aplicado – Idisa, o Conselho de Secretários Municipais de Saúde do Estado de São Paulo – Cosems/SP, o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor – Idec, o Sindicato dos Médicos de São Paulo – Simesp, o Fórum das ONG Aids do Estado de São Paulo, o Grupo Pela Vidda-SP e o Grupo de Incentivo à Vida – GIV.
O Promotor de Justiça de Direitos Humanos e Saúde Pública do MPE, Arthur Pinto Filho, já iniciou Procedimento (Nº 79/2011) para analisar a Representação que pede ação judicial contra a lei paulista, sob a alegação de que fere os princípios da Constituição Federal, da Lei Orgânica da Saúde (lei nº 8.080/1990) e da Constituição do Estado de São Paulo

Para o promotor, “a representatividade das entidades que acionaram o MP demonstra claramente que a sociedade não quer essa Lei, o maior e mais violento ataque que o Sistema Único de Saúde (SUS) recebeu desde quando foi criado, na Constituição de 1988. O que a lei busca é tirar de cada hospital do SUS gerido por Organização Social até 25% de sua capacidade e entregar para os planos de saúde, de mão beijada, pois não tiveram nenhum custo ou investimento nessas unidades”.

Os 26 hospitais estaduais administrados por OS realizam por ano aproximadamente 250 mil internações e 7,8 milhões de outros procedimentos, como atendimentos de urgência, hospital dia, cirurgias ambulatoriais, hemodiálises e exames. A Representação destaca que a no va lei estadual permitirá a venda de a té 25% desta capacidade para os planos de saúde, ou seja, subtrai do SUS mais de dois milhões de procedimentos, incluindo 62.000 internações, hoje destinados exclusivamente aos usuários do sistema público.

Segundo a presidente do Cosems – SP, Maria do Carmo Cabral Carpintéro, “não há ociosidade nos hospitais do SUS de São Paulo que justifique entregar 25% para planos privados; os municípios têm fila de espera de atendimento, têm demanda reprimida. O SUS já atende quem tem plano de saúde, sem distinção. No momento em que o Estado assina um contrato com o plano privado , e passa a cobrar por isso, haverá privilégios e discriminação.”

As entidades argumentaram junto ao MPE que a lei complementar nº.1.131/2010 desconsidera a existência de legislação (Lei n º 9656/98) que prevê o ressarcimento ao SUS, toda vez que um usuário de plano de saúde é atendido em hospital público. Cabe à Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) cobrar o ressarcimento e à secretaria estadual da saúde de São Paulo contribuir para a identificação dos procedimentos e internações passíveis de cobrança.

Ao visar a arrecadação de recursos com a venda de serviços do SUS, a lei estadual cria a chamada “fila dupla” de atendimento, pois os usuários dos planos de saúde terão assistência diferenciada e preferência na marcação e no agendamento de consultas, exames e internação. Também presente na audiência no MPE, o secretário-geral do Sindicato dos Médicos de São Paulo, Carlos Alberto Izzo, lembrou as experiências já em curso de convênios entre hospitais do SUS (no caso, hospitais universitários) com planos de saúde: “ o plano só aceita firmar o convênio se o hospital atender de forma diferenciada o seu cliente, nenhuma operadora vai querer ostentar a fila do SUS como parte de sua rede credenciada”.

Foi levantado, ainda, que a Lei Complementar Nº.1.131/2010 está em vigor, mas precisa ser regulamentada. O MPE acompanhará o “piloto” da aplicação da Lei que, segundo a Secretaria de Estado da Saúde , será uma contratualização entre planos de saúde e o Icesp – Instituto do Câncer do Estado de São Paulo , uma Organização Social criada pelo Governo do Estado em 2008 em parceria com a Fundação Faculdade de Medicina, com capacidade de atendimento de 90 mil pacientes por ano. Diferente dos vizinhos Incor e HC-FMUSP, o Icesp ainda não pratica a fila du pla, pois não podia, até então, firmar convênios com planos de saúde. “Essa lei é inconstitucional e inadequada. Se for regulamentada nesses termos, daremos entrada a uma ação civil pública conjuntamente com as entidades”, disse Arthur Pi nto Filho.

As entidades pretendem agora ampliar a mobilização. “Vamos colher mais assinaturas institucionais de adesão à Representação e pretendemos convocar, pelo Fòrum de ONGs, um ato público em São Paulo no dia 7 de abril , Dia Mundial da Saúde, contra a Lei 1131”, disse Mário Scheffer, presidente do Grupo Pela Vidda, que tomou a iniciativa de reunir as entidades que acionaram o Ministério Público.



Por revisão de aumento de tarifa, ativistas acorrentam-se à prefeitura de SP

Por: Jéssica Santos de Souza, Rede Brasil Atual


Seis ativistas permanecem acorrentados à entrada da prefeitura de São Paulo para pressionar por negociação (Foto: Ana Morbach/Divulgação)

São Paulo - Os ativistas do Movimento do Passe Livre (MPL) acorrentaram-se à sede da prefeitura de São Paulo no início da tarde desta quinta-feira (17). Eles reivindicam o agendamento de uma reunião com o prefeito Gilberto Kassab para negociar a redução da tarifa de ônibus urbanos no município.

Uma reunião estava agendada para às 12h desta quinta, no Museu do Transporte, nas proximidades da estação Armênia do Metrô, na região central da capital. Como nenhum membro da administração municipal compareceu, eles deslocaram-se até a Secretaria de Transportes e, depois de um encontro informal com o secretário adjunto, Pedro Luiz de Brito Machado, rumaram até a prefeitura.

Seis dos ativistas conseguiram alcançar até o prédio para se acorrentar ao edifício. Na sequência, a Guarda Civil Metropolitana interditou a área, impedindo a aproximação de outros manifestantes. A área está sendo mantida cercada para conter as pessoas que chegam ao local para aderir ao protesto.

Inicialmente, até mesmo a vereadora Juliana Cardoso (PT) foi impedida de entrar. "A loucura do Kassab está impedindo o Parlamento de entrar nesta Casa (sede da administração)", criticou. Ela diz se sentir humilhada por ser uma "representante da população". Posteriormente, Juliana foi autorizada a ingressar.

A prefeitura deve tentar negociar a retirada dos manifestantes, mas sem se comprometer com possibilidades de reduzir a tarifa.

A bancada do PT na Câmara de Vereadores protocolou nesta quinta um mandado de segurança para ter acesso à planilha de custos da Secretaria Municipal. As informações vem sendo cobradas desde 5 janeiro, quando o aumento foi implantado. As informações são do vereador José Américo (PT).

Em breve, mais informações.

A foto original está publicada na página do MPL no Facebook



POESIA Poemas mortais
ANELITO DE OLIVEIRA -

A Frederico Barbosa
Luís Eustáquio Soares
Narlan Mattos
Jairo Faria Mendes
Joca Wolff
Jomard Muniz de Brito
e Jorge Salomão


1.

É melhor retornar à poesia
É melhor desistir de problematizações supostamente inteligentes para corresponder a demandas de pessoas supostamente inteligentes que são, no fundo, profundamente estúpidas
É melhor não problematizar ideias supostamente interessantes que são, no fundo, profundamente desinteressantes
É melhor retornar à poesia
Seja lá o que isso signifique
Apenas pelo fato de que não consiste em problematizações supostamente inteligentes de que ninguém, obviamente, tomará conhecimento
É melhor retornar à poesia
É melhor retornar ao lugar de onde parti ao lugar onde alguém desinteressado está a ver a vida
Seja lá onde for
É melhor suspender ansiedades burocráticas
É melhor não esperar por nada
Retornar apenas
À poesia
É melhor retornar e não sair mais de lá
Ficar lá
Sozinho
Em meio às coisas sem importância nenhuma
Lá dentro do mundo
Alheio aos espetáculos urbanos


2.


Às vezes alguém compra pão
Numa padaria qualquer que encontra pela frente
Ao final da tarde
Para encontrar algum sentido na vida
Ainda
Às vezes alguém
Sem fome nenhuma
Entra numa padaria qualquer
E pede 100 gramas de salgado
Sem se importar com nomes
Apenas salgados
E uma xícara de café
Para encontrar algum sentido na vida
Ainda
Mesmo que seja por alguns minutos
Só isso


3.


Quando diremos a verdade?
Quando dizer a verdade será melhor que estar empregado?
Quando diremos a verdade mesmo se por isso formos demitidos?
Quando dizer a verdade será melhor que dizer mentiras estratégicas?
Quando diremos apenas a verdade,
Não mais que a verdade,
Só a verdade?


4.


Fede maconha, mas ninguém fuma maconha na rua, na cidade, na região, no estado, no país, em lugar nenhum,
Ninguém assume que fuma maconha aqui, todos são santos, não só não fumam maconha, não usam droga nenhuma, são contra todas as drogas, a começar pela maconha, são contra a discriminalização das drogas no país, inclusive da maconha.
Fede maconha no meio da noite, mas ninguém fuma maconha por aqui, todos são santos, todos são sérios, todos são puros,
E é estranho, portanto, que esteja fedendo maconha nesta hora, que esse cheiro forte atravesse a janela e entre aqui neste quarto, enigmaticamente,
Como se nada tivesse acontecendo.
Como sempre, nada nunca acontece por aqui.
Sempre estivemos em Dogville.


5.


Nada precisa de perfeição.
Como está, está perfeito, tal como pode ser. Mas queremos beleza,
E por beleza entendemos o que somos – beleza é a imagem que cultivamos.
Tudo que não somos, que não é como somos, não nos agrada.
E passamos grande parte da vida a lutar contra o mundo.
Não é uma coisa, ou algumas, que não estão de acordo com nossa ideia de beleza.
O mundo todo é horrível aos nossos olhos.
Mesmo o que dizem que é belo, que todos admiram, acaba por nos desagradar mais
cedo ou mais tarde.
Por isso, destruímos tudo a nossa volta.
A cada olhar, a cada toque, a cada respiro, acionamos nosso ódio contra o mundo.
Não suportamos nada nem ninguém.
No fundo, o que nos dá prazer na vida é a capacidade de matar
Com que nascemos.


6.


Waly tentava escrever o mundo, que não era, nunca foi, passível de ser escrito, escrevível.
Waly ultrapassava o mundo sempre que tentava escrever o mundo – o mundo escapava, automático, nos seus olhos.
Waly, o desejante, ultrapassava o mundo
Ou era – é possível pensar – ultrapassado pelo mundo sempre que tentava, às pressas, escrever o próprio mundo.
Escrevia o caos no lugar do mundo, o outro lado do cosmos, o que estava lá, abaixo do mapa, desconhecido.
Com razão, admirava Merleau-Ponty, o mundo não é alcançável. Alias, nenhuma coisa é alcançável nesta vida – mundo é, na verdade, “mundo”.
Waly queria tirar as aspas não só do mundo, mas de todas as coisas. Waly queria desaspar tudo a sua volta, sobretudo as pessoas, como quem desossa animais, para que tudo fosse agressivamente vivaz.
Nas suas mãos vorazes, tudo urrou - palavras, imagens, sensações – por um instante mais além do que cotidianamente é, tudo deixou de ser e voltou a ser, todavia,
O quase, o suportável, a promessa.
Waly esbarrava na razão e lá se indignava e de lá falava quando tentava, na sua colérica solidão, escrever este mundo.



7.


Não estamos preparados para morrer, tampouco para viver.
Nossa pretensão humana chega ao ponto de ignorar a coisa ridícula que somos, a coisa ignorante que somos, a coisa limitada que somos.
Não estamos preparados para nada.
Ninguém nos preparou para nada.
Um gesto grosseiro nos trouxe aqui. Outro gesto, igualmente grosseiro, nos levará daqui.
Se há algo que queremos evitar é a nossa própria condição humana num mundo cínico. Se há algo que queremos esquecer é o que temos sido.
Temos sido a enganação. Para o mundo. Para os outros. Para nós mesmos. Temos sido o que não somos.
A enganação se consolidou como nossa única condição de ser. Enganar, enganar-se, para ser feliz.
Uma felicidade enganosa.
A enganação é a nova feição da nossa ignorância. A enganação é a velha feição da nossa ignorância.
Ignorantes, desconhecemos nossa própria infelicidade. Ignorantes, rimos, felizes, da cara da nossa infelicidade. Ignorantes, temos vivido a infelicidade como felicidade.
Temos sido a enganação.
Não estamos preparados para morrer, tampouco para viver.
Morreremos ignorantes, como temos vivido, ignorantes.


no blog http://anelitodeoliveira.blogspot.com/



Demissão gera crise no jornal baiano “A Tarde”
Para superar a crise, jornal A Tarde reintegra repórter

por Pedro Caribé, do Observatório do Direito à Comunicação

Demitido pelo jornal A Tarde no último dia 8 de fevereiro por pressões do mercado imobiliário, o repórter Aguirre Peixoto aceitou retornar ao trabalho sem qualquer punição, abono sobre os dias que não trabalhou e usufruto imediato de banco de horas por 13 dias. O anúncio oficial do retorno foi feito nesta terça-feira, dia 15, às 12h, e atenua uma das maiores crises de credibilidade do jornal A Tarde perto de completar 100 anos.

Municiados pelas redes sociais, membros da redação realizaram mobilização singular na história do veículo e do jornalismo baiano para a direção desfazer da demissão. As máquinas chegaram a parar por duas horas e meia durante um dia, três assembleias foram realizadas com média de duração de duas horas, uma comissão foi responsável por estabelecer diálogo com a direção e a possibilidade de estado de greve só foi desfeita na segunda-feira, dia 14, quando Peixoto começou a negociar seu retorno.

A presidente do Sindicato dos Jornalistas da Bahia (Sinjorba), Marjorie Moura, há 17 anos no jornal, recorda de revoltas pontuais, mas nada que se iguale as reivindicações atuais. Já Celso Schroeder, presidente da Federação Nacional dos Jornalistas, vai além, para ele nos últimos dez anos essa é mais simbólica manifestação da categoria no país: “O mais comum era o contrário, abatimento e frustação”.

O veículo passa por uma crise financeira e transformou o desligamento de Peixoto como primeiro passo de reformulação. A família Simões, dona do impresso, se desligará em breve da direção de jornalismo, uma nova consultoria irá aportar no antigo vespertino e ficará incumbida de rever as diretrizes jornalísticas. Durante a crise o editor-chefe Florisvaldo Matos pediu demissão após quase três décadas de redação, pois não foi consultado pela direção.

A Tarde busca se adequar a redução das vendas e dos anunciantes, em especial do mercado imobiliário. Para a presidente do Sinjorba os empresários diminuíram os anúncios após série de reportagens envolvendo corrupção entre a prefeitura e o mercado imobiliário na autorização de licenças para construção, a Transcon. Também em crise política e financeira, a prefeitura teve que paralisar as licenças concentradas na orla soteropolitana.

Marjorie atesta que nos últimos anos se tornaram recorrentes matérias sobre o setor imobiliário engavetadas ou reformuladas a pedido dos chefes da redação. A sede do jornal situada no moderno centro comercial de Salvador, a Avenida Tancredo Neves, está na mesa de negociação com as construtoras. Avaliado em mais de R$ 100 milhões, a venda do terreno pode dar novo gás aos negócios dos Simões.

Aguirre Peixoto responde a quatro interpelações judiciais por escrever matéria sobre ilegalidade na licença ambiental no Parque Tecnovia do Governo do Estado em parceria com empreiteira Patrimonial Saraíba, responsável pelas ações contra o repórter. O empreendimento é situado na Avenida Paralela, uma das mais longas e movimentadas da capital, detentora de uma considerável reserva de Mata Atlântica, paulatinamente destruída para construção de condomínios de luxo.

Histórico

O A Tarde é tido como maior sobrevivente de longo ciclo de repressão ao jornalismo local. Quando instaurado o AI-5 em 1968 o então líder Jornal da Bahia, do ex-comunista João Falcão, passou a ser perseguido pelo então prefeito da capital, Antonio Carlos Magalhães, e sofreu boicote dos anunciantes até ser vendido em 1976 e fechar as portas na década de 1990 como um pasquim popularesco. O A Tarde não se manifestou à repressão ao Jornal da Bahia e herdou boa parte dos seus leitores.

Na década de 1990 o A Tarde se tornou símbolo de autonomia em relação a ACM e o empresários que o circundavam, passou a se desvencilhar de história conservadora e adotar uma linha editorial mais progressista, como na eleição de Lídice da Mata à prefeitura da capital em 1992. Em 2009 a Justiça lhe concedeu uma indenização de R$ 10 milhões mais juros e correção monetária, por discriminação publicitária sofrida durante o governo César Borges (1999-2002).

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