terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Méanrreatan Conéquition

É um programa chato, com uma pauta desinteressante, apresentadores sem apelo, e que insiste em cultuar uma relação de deslumbre com a cultura e a sociedade norteamericanas, perpetuando a exaltação a "coisas do Primeiro Mundo!". Ele fazia sentido durante os anos de hegemonia neoliberal, em que os políticos no poder e boa parte do país estavam convencidos que o destino do Brasil era seguir a reboque dos EUA, e em posição subalterna.


- por Maurício Caleiro, no blog Cinema & Outras Artes

Nem Chiquititas, nem Otávio Mesquita, nem Ataíde Patrese e seu microfone de ouro: o programa mais jeca da história da TV brasileira é o Méanrreatan Conéquition.

Além de jeca, é anacrônico, tendo em vista que sua razão de existir é a exaltação do modo de vida – perdão, uêi ófi láife – de um país que se encontra em plena decadência econômica, cultural e imperial.

Pois longe se vai o tempo em que se acreditava na “América” como a terra prometida. O sonho americano transformou-se num pesadelo real, que inclui, além dos preconceitos étnicos de praxe, um sistema de saúde excludente e desumano, a criminalização da pobreza e da negritude, e uma economia que respira por aparelhos.

No, literalmente, front externo, a política americana, mesmo comandada por um presidente laureado com o Nobel da Paz, consiste numa trama belicista aberta (como no Iraque e no Afeganistão) ou dissimulada (como na Colômbia, na reativação da 4ª Frota e nos golpes de estado fomentados aqui e acolá) cujo fim é alimentar a indústria de armamentos – que segue de vento em popa em plena crise - e cujo principal efeito colateral é a morte, a granel, de jovens inocentes. Nada de novo sob o sol.

Mais os quatro patetas embasbacados continuam lá, na bancada do Méanrreatan, com aquela postura de súdito colonizado falando sobre a sede do império e aquela empáfia deslumbrada de jeca tatu em noviorque (ou, o que é ainda pior, em Nova Jersey, no caso do inacreditável Caio Blinder - aquele que ficou triste porque as Olímpiadas não vão ser em Chicago, mas no Rio).

Muda o sentido do fluxo de imigração – agora os brasileiros retornam em massa, fugindo da crise norteamericana -, muda o pêndulo da economia mundial em direção à China (que detém milhões da dívida norteamericana), diminui o peso imperial dos EUA com a ascensão dos países emergentes – Brasil, inclusive.

Mas toda semana tem Méanrreatan Conéquition teimando em nos informar sobre Wall Street e o falido mercado financeiro, Brodway e o chatérrimo teatro mainstream americano, além daqueles artistas plásticos exóticos de noviorque cujo único mérito indiscutível é a cara-de-pau para afirmar que o que fazem é arte.

Os apresentadores, sempre empenhados em gritar ao mesmo tempo e o mais alto possível, são escolhidos a dedo. Para chefiar a trupe de deslumbrados, Lucas Mendes. Fosse eu um Houaiss ou, melhor, um Aurélio, e a mim coubesse escrever um dicionário, o primeiro sinônimo de “insosso” seria “Lucas Mendes”. O homem é mais serviçal do que um mordomo zumbizado.

Caio Blinder, que tem a personalidade de uma mosca e a quem um ex-colega de bancada, Paulo Francis, chamava de inseto e tapava os ouvidos com os dedos enquanto ele falava (diga-se o que dizer de Francis, era um reacionário dos piores, mas ao menos tinha cultura, personalidade e humor, quesitos em falta na bancada do Méanrreatan Conéquition).

Ah, tem também aquele economista com cara de moleque, que acha as demandas do mercado mais importantes do que as das pessoas, e o indefectível dioguinho. Mas sobre este me recuso a falar, afinal este é um blog familiar e temos de manter um certo nível. A única pergunta que não resisto a fazer é: se ele gosta tanto de noviorque, porque não fica por lá mesmo, escrevendo no Times? Não precisa responder...

Méanrréatan Conéquition é um programa chato, com uma pauta desinteressante, apresentadores sem apelo ou wit, e que insiste em cultuar uma relação de deslumbre com a cultura e a sociedade norteamericanas, perpetuando a exaltação a "coisas do Primeiro Mundo!". Ele fazia sentido durante os anos de hegemonia neoliberal, em que os políticos no poder e boa parte do país estavam convencidos que o destino do Brasil era seguir a reboque dos EUA, e em posição subalterna.

Os tempos são outros, e se a TV brasileira não se antenar com os rumos contemporâneos, quem vai ficar defasada e deixar de se comunicar com seus espectadores - que já migram em massa para a internet - é ela.

O fato de o Méanrreatan Conéquition ter-se tornado objeto de humor e escárnio é apenas mais um dentre tantos indicativos de que a hegemonia neoliberal chegou ao fim e um multiculturalismo de fato - e não apenas de discurso - toma forma. Passa da hora da TV brasileira atentar para o fenômeno.

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