sábado, 8 de janeiro de 2011

A classe média na seção de cartas dos jornais

A julgar pela seção de cartas dos jornais, Lula não terá paz tão cedo. Como se ainda fosse o
Presidente da República, segue sendo atacado por aqueles que se orgulham de estar entre os 4% que consideram seu governo ruim ou péssimo. Muitas das reclamações são injustas, revelam preconceitos, ódios de classe e ressentimentos. Juntas, ajudam a compor um interessante painel do pensamento que orientou a classe média nos últimos oito anos.
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Para dar uma simples mostra da ignorância ou má fé deste segmento social, selecionei algumas das cartas publicadas no jornal Correio Popular, de Campinas, entre os dia 1º e 7 de janeiro deste ano. Gosto de lembrar que a crítica a qualquer governo ou governante será sempre saudável e necessária. Mas não o tipo de crítica que difama, distorce ou condena. Esta apenas evidencia a falência moral de um grupo que se julga dono do poder e do conhecimento.

Dia 1

O aposentado Anésio Scandiuci comenta o meu artigo intitulado Lula e o Povo, publicado no jornal no dia 29/12/10. Segundo ele, eu deveria me envergonhar por estar entre os 87% que aprovam o governo. Quer eu queira ou não, Fernando Henrique Cardoso foi quem realmente apresentou um projeto de nação ao Brasil. Nunca na história desse país houve tantas irregularidades como há hoje. A culpa é do Lula.

Comentário: Ao Sr. Anésio talvez falte informação ou bom senso. Nem é preciso ser petista para reconhecer que Lula realizou um governo infinitamente melhor que o de seu antecessor. Os números o comprovam. E projeto de nação foi tudo o que FHC não fez, com seu entreguismo e suas privatarias.

Dia 2

O aposentado Irineu Semionatto diz que a Era Lula responde por oito anos de desgoverno, cinismo, afronta à inteligência e à paciência dos brasileiros. Para ele, FHC entregou “o país estruturado, inflação degolada e controle fiscal acertado”. Lula se encarregou de jogar esta herança no lixo e só fez viajar, gastando o nosso dinheiro em benefício próprio.

Comentário: O Sr. Irineu demonstra um enorme desconhecimento sobre os anos FHC. O sociólogo tucano pode até ter tido suas virtudes, mas dizer que entregou o país estruturado beira o inacreditável. O leitor tem a memória muito curta ou apenas reproduz o que lê nos jornais. Se Lula viajou tanto quanto seu antecessor foi justamente para resgatar a imagem do Brasil lá fora – no que foi muito bem-sucedido.

O economista Alberto Buscaglione sugere que Lula faça uma viagem – com o próprio carro – pelas rodovias federais, que estão em péssimo estado. Ele sugere que Lula percorra a Tamoios, que ficou abandonada nesses oito anos de mandato. Motivo: o presidente passou esse tempo todo preocupado em usufruir das mordomias do cargo.

Comentário: A vergonhoso papel se presta o economista Alberto quando credita ao governo Lula o abandono da rodovia Tamoios. Ele se esquece (ou finge não saber) que esta rodovia não está sob os cuidados federais, mas sim sob a responsabilidade do governo do estado de São Paulo – que não é petista, mas tucano. Que tal fazer o convite ao ex-governador José Serra?

Dia 3

O empresário João Henrique Poppi diz que “Lula já vai tarde, graças a Deus”. Ele deu refúgio ao assassino Cesare Battisti, afagou o ditador Hugo Chávez e protegeu o Irã. Deu provas de irresponsabilidade suficientes para ser afastado do poder. Quem o apoia também é irresponsável. O tempo mostrará o quanto Lula foi nefasto para o País.

Comentário: E o tempo mostrará que o sr. João Henrique é um golpista.

O representante comercial João Bento diz que o governo Lula não foi “um mar de rosas”. Além de fazer vistas grossas para a corrupção desenfreada, Lula insistiu em manter relações diplomáticas com países como Venezuela e Bolívia.

Comentário: O sr. João Bento tem razão em um ponto: houve corrupção no governo Lula. Ele erra, porém, quando afirma que Lula fez “vistas grossas”. O governo não apenas investigou como puniu corruptos de todos os partidos, inclusive do PT. Quanto ao fato de Lula ter “insistido” em manter boas relações com os países vizinhos: é o mínimo que se pode esperar de um governo democrático. Querer o contrário é, isso sim, estar próximo das ditaduras.

A psicóloga Eliana França Leme diz que um dos defeitos de Lula é tripudiar sobre os adversários. Cita uma frase dele: “Foi gostoso terminar o mandato vendo os Estados Unidos em crise”. Para ela, as palavras de Lula “denunciam uma inveja indomável” do Primeiro Mundo.

Comentário: A nobre psicóloga padece do complexo de vira-latas, do qual falava Nelson Rodrigues. Saudosa do tempo em que nossos embaixadores eram obrigados a tirar os sapatos para entrar nos Estados Unidos, ela não se conforma com o sucesso obtido por nossa altiva diplomacia internacional. Além disso, ela distorce a fala do Lula, tirando-a do contexto em que foi dita.

O advogado Fernando Luís Coutinho Neves enxerga uma curiosa relação entre Cesare
Battisti
e Lula. A decisão do governo brasileiro de negar a extradição do “terrorista italiano” tem uma explicação: se Battisti fosse extraditado por cometer homicídio e terrorismo com motivos ideológicos, o mesmo raciocínio poderia ser usado para incriminar os petistas que hoje estão no poder.

Comentário: Este advogado deveria se envergonhar em defender visão de mundo tãoultrapassada e distorcida das lutas de libertação travadas no século XX. Ao insinuar que a presidenta Dilma Rousseff poderia ser acusada de terrorismo pelo fato de ter participado da resistência armada à ditadura, o sr. Fernando se equipara aos golpistas – eles sim responsáveis por disseminar o terror entre a sociedade civil.

Dia 4

O técnico de segurança Denner Abraão Siqueira diz que apenas os leigos não conseguem enxergar as falcatruas do governo Lula. Segundo ele, o presidente “realmente deve ter achado muito fácil governar o Brasil, pois pouco ficou no País, sempre viajando”. O leitor não se conforma como alguém pode acreditar nos institutos de pesquisa que dão 87% de aprovação ao presidente Lula.

Comentário: o sr. Denner não entende como é que 87% dos brasileiros podem aprovar o governo Lula porque, provavelmente, não conversa com o povo nas ruas, não viaja pelo país, assina a Veja e convive apenas com os seus iguais, nos clubinhos fechados que tanto agradam a classe média.

O aposentado Jayme de Almeida Rocha Neto diz que o acolhimento de Cesare Battisti pelo governo Lula “fere o brio dos bons brasileiros”. Ele lamenta que, além dos nossos terroristas (vide a presidenta eleita), agora teremos que conviver com o terrorista dos outros.

Comentário: Para o aposentado, “bons brasileiros” eram aqueles que censuravam, prendiam, torturavam e assassinavam os “maus brasileiros” que discordavam do regime militar. Básico.

Dia 5

O empresário Rubens Atensia Junior diz que o povo brasileiro não está habilitado a votar e acha preferível um regime militar do que uma “ditadura partidária”. Diz ainda que Lula se beneficiou da herança deixada por FHC e lamentou que o governo tenha feito “assistencialismo com o erário proveniente dos impostos pagos pelos que trabalham e produzem”.

Comentário: Quando alguém, numa discussão, começa a dizer que os pobres são sustentados pelos impostos dos “cidadãos de bem” que trabalham e produzem, tenho ímpetos de enfiar o dedo na garganta.

A aposentada Maria Augusta Amaecing Langbeck afirma que o sonho de parte dapopulação não era ter Dilma como presidente, já que a expectativa era eleger alguém com “passado irrepreensível”. Ela espera que a oposição dê “sequência ao seu papel, ficando alerta para que seja banida a corrupção instalada pelo governo do PT”.

Comentário: Pobre Maria Augusta... Para ela, nunca houve corrupção antes do governo Lula. Que o diga o “passado irrepreensível” de FHC, Collor e Sarney.

Dia 6

O analista de sistemas Adilson Romualdo do Carmo lamenta que a credibilidade brasileira perante o mundo tenha sido maculada pelo Lula. Ele cita o caso do asilo concedido ao “facínora” Cesare Battisti. Com isso, Lula mostra o quanto os petistas nutrem “apreço pelos malfeitores em geral”. Ele elogia a Itália – este sim um país democrático e respeitador das leis. Para ele, “Lula já vai tarde”.

Comentário: O sr. Adilson deveria perguntar aos italianos o que eles pensam do corrupto Silvio Berlusconi antes de tecer elogios rasgados à frágil democracia italiana. Olha o complexo de vira-latas aí...

O advogado Jair Benatti diz sentir vergonha de ser brasileiro. O culpado é o Lula, que enviou dinheiro público para ajudar Fidel Castro e não construiu nenhum porto, aeroporto ou hospital no Brasil.

Comentário: O sr. Advogado nunca ouviu falar em cooperação internacional? Sabe que há empresas brasileiras instaladas em Cuba? É claro que o Lula enviou dinheiro público ao Fidel, sr. Benatti. Queria que ele enviasse dinheiro do próprio bolso? Tenha dó...

O aposentado Washington S. Castro diz que estamos encerrando um período em nossahistória que será lembrado como o mais vexatório de todos os tempos. Nos últimos oito anos convivemos com todo o tipo de falcatruas orquestradas pelo PT. E a tendência é que “a farra desse governo tipo Robin Hood tupiniquim continue por longo tempo”. O culpado é o povo brasileiro, que não reage.

Comentário: O sr. Washington até que tenta disfarçar seu preconceito, mas não consegue. Ao definir o governo Lula como “Robin Hood tupiniquim” está querendo dizer, indiretamente, que Lula “rouba dos ricos para dar aos pobres”. Não era assim que agia o herói dos livros? Que bom se fosse assim, sr. Washington. Que bom se fosse...

Dia 7

O engenheiro André Coutinho diz que agora que Lula deixou a presidência e está lendo jornais, finalmente vai saber qual é a realidade do Brasil. Quem sabe com isso ele não descubra o mal que fez ao país nesses últimos oito anos?

Comentário: Depois da infância pobre no sertão nordestino; depois de amargar longo período de desemprego em São Paulo; depois da experiência visceral como operário e sindicalista; depois de fundar o maior partido de esquerda da América Latina; depois de se eleger presidente e passar oito anos percorrendo o Brasil e o mundo, Lula ainda não conhece a realidade do País. Somente agora, na lógica inacreditável do engenheiro Coutinho é que Lula, através da leitura dos jornais, saberá qual é a realidade brasileira. Patético.

por Bruno Ribeiro fonte: 3 setor

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