sábado, 4 de dezembro de 2010

DEBATE ABERTO

A conjuntura internacional e a direita

A lógica da política não é mero penduricalho da economia. Se a economia
estadunidense desce a ladeira, a extrema direita norte-americana constrói o
paradigma de um ideário e de um comportamento tipo exportação na política.

Luiz Marques in www.cartamaior.om.br

Os Estados Unidos perderam a “liderança intelectual e moral” que
conquistaram ao tornar o american way of life baseado no consumo individual
um ideal para todas as sociedades modernas. Os social-ambientalistas
mostraram ser impossível a generalização de um modo de vida baseado em um
desenvolvimento não-sustentável, na ilusão de que os recursos da natureza
sejam infinitos. Os EUA, contudo, não perderam a “liderança econômica e
militar” no mundo. Aliás, cada vez menos “econômica”
à medida que o centro
da economia mundial desloca-se para a Ásia e cada vez mais “militar” como
observou-se no Iraque com o objetivo de controlarem a torneira do petróleo
no Oriente Médio (G. Arrighi, J. Silver, “Caos e governabilidade no moderno
sistema mundial”,
Contraponto ed., RJ, 2001). A vitória de Barack Obama para
a Casa Branca sinalizou uma resposta à essa visível perda de prestígio do
Tio Sam.

O fato é que, modernamente, a crise de hegemonia do poder unipolar tem sido
substituída pela criação dos mercados regionais que hoje cumprem a tarefa de
organização do conjunto da economia capitalista. Nenhuma expressão, neste
sentido, tergiversa e encobre tanto o fenômeno em curso pelo uso midiático
como a chamada “globalização”, por funcionar à maneira de uma cortina de
fumaça e impedir que se veja a importância estratégica da formação da União
Européia e do Mercosul. Sem tais articulações seria o caos.

A lógica da política não é mero penduricalho da economia, porém. Se a
economia estadunidense desce a ladeira, a extrema direita norte-americana
constrói o paradigma de um ideário e de um comportamento tipo exportação na
política. Recém realizadas, as eleições legislativas revelaram a potência
dos valores esgrimados pela vertente extremista do Partido Republicano, o
movimento Tea Party, que deu uma surra no Partido Democrata conferindo
maioria aos conservadores nos governos estaduais, na Câmara e um quase
empate no Senado onde os democratas tinham uma supremacia avassaladora, de
60 a 20 representantes.

“É de se notar que as guerras nas quais os EUA continuam a se atolar e
desperdiçar fortunas não foram mencionadas na campanha: tornaram-se
consensuais”,
escreveu o articulista da Carta Capital (10/11/2010). O
belicismo, refúgio da dominação exercida manu militari por Washington, anda
agora junto com um programa que propõe um corte nos gastos públicos (não
naqueles que sustentam a militarização), desregulamentações generalizadas
(para fomentar a dinâmica de acumulação privada), inviabilização da reforma
da saúde (pelo contingenciamento dos recursos financeiros) e a asfixia do
ensino público (para fazer da educação uma mercadoria). Enfeixa o conjunto
de dispositivos, que têm como âncora a questão fiscal, o empenho pela
redução demagógica de impostos (para os ricos, bem entendido).

Ao tentar a concertação com a agenda dos republicanos, Obama acentuou seu
isolamento em relação à população jovem, às minorias e aos pobres que não se
sentiram motivados para sair de casa, aumentando o índice de abstenção num
sistema em que o voto é facultativo e, os eleitores, necessitam ser
motivados para participar do processo eletivo. O resultado foi a fragorosa
derrota dos democratas nas urnas, que liberou o Federal Reserve (Fed, banco
central) para inflar a base monetária e acirrar a disputa cambial nas
relações internacionais com a desvalorização do dólar.

Tal “política econômica”, simbolizada no corte de gastos em detrimento de
investimentos estatais para retomar o crescimento e combater o desemprego,
remete ao receituário que muitos analistas julgavam na lata de lixo da
história. Inútil lembrar a catástrofe, a maior desde a quebra da Bolsa de
Valores de Nova York em 1929, cujas cicatrizes doloridas seguem abertas
suscitando sofrimento e miséria. As nuvens no horizonte reiteram a tendência
à estagnação econômica dos EUA e duras batalhas entre as nações em torno do
câmbio.

A vitória de Dilma no pleito presidencial ocorreu nessa conjuntura
contraditória, que aporta angústia ao Norte em contraposição à esperança
despertada ao Sul pela ascensão da (centro-) esquerda na América Latina.
Considerando que o Tea Party manifesta-se contra todos os órgãos de
cooperação, a ONU, o G-20 e ainda a OMC e o FMI, sem mencionar seu repúdio à
ajuda para países em dificuldade e aos acordos ambientais para proteger a
camada de ozônio, dá para depreender os efeitos cataclísmicos do direitismo
que vem do frio.

A utopia conservadora aponta para a dissolução do “contratualismo” que está na base do projeto acalentado pela modernidade, na direção de um “pós-contratualismo” que desfaria contratos de proteção aos indivíduos, grupos, classes e até continentes em situação de vulnerabilidade social e econômica. O ponto de chegada redundaria em um “fascismo societal”
(Boaventura de Sousa Santos, “Reinventar la democracia, reinventar el
Estado”,
Clacso, Buenos Aires, 2006).

Para além da defesa de uma economia de mercado, como os neoliberais, os
novos conservadores almejam uma SOCIEDADE DE MERCADO, em maiúsculas, em que
a propriedade reine acima de qualquer ponderação social ou humanitária e em
que a mercantilização seja a medida de todas as coisas. Na literatura da
Ciência Política, essa linha de pensamento atende pelo nome de
“anarco-capitalismo”, a corrente antiestatal do liberalismo que concebe o
Estado como uma besta-fera nociva às ações, por definição, virtuosas da
livre iniciativa. A mais leve intervenção sobre a racionalidade mercantil é
tida como indevida pelos que acusam o primeiro presidente negro dos EUA de
“socialista”, “anticolonialista” e “anti-empresarial” empurrando o ganhador
do Nobel da Paz para um caminho que ele não parece capaz de evitar: a guerra
com o Irã. Sem ousadia para enfrentar as forças da reação e expor o núcleo
elitista das críticas que o vitimam, Obama age como o personagem de uma
tragédia grega, impotente frente ao inexorável destino.

O padrão político da direita representada pelo Tea Party foi sintetizado na
palavra-de-ordem “Obama tem de fracassar”, através de uma plataforma que
transformou temas de foro íntimo, a exemplo do aborto, da fé religiosa, do
homossexualismo e da perseguição aos imigrantes em eixos para a demarcação
de campos ideológicos. O obscurantismo e o medievalismo de sua tática de
persuasão do eleitorado expressou antes e depois uma total aversão aos
assuntos públicos e à cidadania, ao mesmo tempo que afastou-os o quanto
possível do indigesto debate sobre o papel do Estado em um contexto marcado
pela desigualdade social, no qual urgem políticas de promoção da igualdade
de oportunidades e de empregos.

No Brasil, essa atitude preconceituosa e xenófoba foi reatualizada na
campanha tucana, em especial no segundo turno das eleições presidenciais e
no discurso de José Serra depois de encerrada a apuração. O “até logo”, “não
foi dessa vez”,
no arrogante pronunciamento do prócer derrotado pela vontade
soberana do povo, soou como uma paródia do brado revanchista dos
republicanos.

Traduzindo: “Dilma tem de fracassar”. A senha foi compreendida
pela grande mídia demotucana imediatamente. Dia seguinte, teve então início
o terceiro turno sob a falsa denúncia em manchetes garrafais de que a
candidata eleita pretendia reinstituir o imposto sobre as movimentações
financeiras, a CPMF, numa prova de estelionato eleitoral do PT. Pouco
importou esclarecer que há um projeto de lei há meses tramitando no
Congresso Nacional e de que a sugestão viera dos governadores estaduais
eleitos.

Reiniciava o jogo sujo. As falhas técnicas no ENEM, que atingiram
menos de 1% dos estudantes, serviram de ensejo para reiterar as pechas de
“má gestão” e mesmo “corrupção” no governo Lula. Pouco importou a nota
explicativa da gráfica que confeccionou as provas para o exame que
democratizou o acesso às universidades federais. O importante é a geração
contínua de escândalos políticos pré-fabricados.

No Rio Grande do Sul, a mensagem agourenta foi trazida pelos deputados
Germano Bonow (DEM) e Osmar Terra (PMDB) que apressaram-se em organizar um
“jantar de confraternização” entre os partidos do reacionarismo no pleito
vencido pelo petista Tarso Genro, já no primeiro turno. “Tarso tem de
fracassar com a Dilma, por isso não podemos nos dispersar”,
eis a tônica que
animou os presentes na reunião e articulou-os “porque a luta continua pela
liberdade (leia-se, do mercado) e pela democracia (leia-se, do capital)”.


A
intenção da turma do contra será a de acordar os demônios adormecidos no
Brasil e no RS profundos, atiçar os ressentimentos das classes médias contra
as políticas distributivas de renda e criar empecilhos a uma reforma
tributária que se paute pela progressividade e pela justiça social.
Parafraseando La Pasionaria frente aos avanços dos fascistas na Espanha dos
anos 30, devemos repetir alto e bom som: no pasarán!

Luiz Marques é professor de Ciência Política da Universidade Federal do Rio
Grande do Sul (UFRGS).

Carmem Saporetti

Arquiteta - Especialista em Gestão Ambiental Urbana

São Pedro da Serra - Nova Friburgo - RJ

[As partes desta mensagem que não continham texto foram removidas]

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