sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Planalto critica campanha de Dilma e diz que falta politização

O Palácio do Planalto avalia que a campanha da candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, está cometendo vários erros e colocando em risco uma vitória que, há duas semanas, era dada como certa. A diminuição da participação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no horário eleitoral gratuito e a "aceitação do tema religioso" são duas das críticas que a cúpula do governo vem fazendo à campanha.

Há uma irritação crescente com o trabalho do marqueteiro João Santana.

A reportagem é de Cristiano Romero e Raymundo Costa
e publicada pelo jornal Valor, 15-10-2010.

Ministros e assessores do presidente dizem que falta "politizar" a campanha, ou seja, comparar as realizações do governo Lula com as da gestão tucana de Fernando Henrique Cardoso. Segundo avaliação predominante, Lula teria cometido o mesmo erro em 2006 o que levou a eleição foi para o segundo turno. Naquela ocasião, Lula desistiu de ir a um debate com seu oponente - Geraldo Alckmin (PSDB) - e, por isso, teria perdido cinco pontos percentuais em intenções de voto.

No segundo turno, o presidente politizou a campanha ao lembrar e criticar as privatizações feitas por FHC. Com isso, atraiu votos de eleitores de esquerda que tinha perdido no primeiro turno para a então candidata do PSOL, Heloísa Helena, e deixou o adversário sem discurso. Agora, o Palácio do Planalto defende que Dilma adote a mesma estratégia.

"Tem que politizar, incluindo temas como o pré-sal e a privatização de novo", disse ontem um ministro.

A mesma fonte acha que a campanha deveria mostrar as "realizações" do governo Lula na área ambiental, tais como a redução dos índices de desmatamento da Floresta Amazônica e a diminuição da emissão de gases causadores do efeito estufa. E explorar a diferença de projeto quanto à exploração de petróleo da camada pré-sal.

"Esse é um tema que fala do futuro", diz um assessor. Na avaliação de um assessor do presidente, a campanha não deveria ter negociado com lideranças religiosas nem no primeiro nem no segundo turno - na quarta-feira, Dilma se reuniu com lideranças da igreja evangélica e assumiu o compromisso de não legalizar o aborto. "A campanha aceitou o tema religioso, como queria o Serra. Foi um erro", disse um aliado da petista.

Na avaliação do governo, Dilma não ganhou a eleição no primeiro turno por causa dos escândalos envolvendo Erenice Guerra, ex-braço direito da candidata no governo. A questão religiosa teve impacto negativo, mas não foi determinante. Para assessores de Lula, a campanha foi "brilhante" no início, quando conseguiu associar a imagem de Dilma à do presidente, mas falhou na reta final, ao não identificar, especialmente na internet, os problemas que estavam desgastando a candidata petista.

"Na sexta-feira antes da eleição, o 'tracking' [enquete feita por telefone] estava dando Dilma com 53%. Em dois dias, ela perdeu seis pontos e a eleição foi para o segundo turno", conta uma fonte.

Avalia-se no governo que as mudanças feitas na campanha do segundo turno, embora "tímidas", foram importantes e decididas pela própria candidata, a partir de consultas feitas ao presidente. Foi o caso, por exemplo, do tom agressivo adotado no debate. "A inflexão, correta, foi decidida pela Dilma e não pela campanha", informa uma fonte ligada à candidata.

Apesar dos problemas e do crescimento de Serra nas pesquisas, a cúpula do governo aposta que a campanha vai se recuperar, dando a vitória à Dilma no dia 31. Pelo menos três providências foram acertadas entre os comandantes da campanha, em reuniões realizadas ao longo desta semana. Uma delas será empreender esforço para reduzir o alto índice de abstenção dos eleitores registrados no Nordeste, região na qual a candidata petista é mais forte. A campanha articulou ações também para conter o avanço de Serra em São Paulo e Minas Gerais.

O índice de abstenção no Nordeste aumentou quase dois pontos percentuais, no primeiro turno, em relação à reeleição do presidente Lula em 2006 - um salto de 18,5% para 20,4% (cerca de 7,5 milhões de eleitores). A diferença, de pouco mais de 720 mil votos, não teria sido suficiente para Dilma vencer no primeiro turno, como esperava o PT, mesmo considerando-se que eles fossem todos para a candidata governista. Mas na hipótese de uma eleição acirrada no segundo turno, toda vantagem que Dilma retirar da região pode ser decisiva.

A campanha de "chamamento" às urnas do eleitor nordestino deve entrar no programa eleitoral do PT, no horário gratuito, junto com a massificação do número 13. Isto deverá ocorrer na última semana de propaganda. Os votos nordestinos, no entanto, podem não ser suficientes para a vitória de Dilma se a candidata continuar a perder votos em São Paulo e no Rio de Janeiro, conforme detectado pelas pesquisas.

O problema mais delicado para os petistas, no momento, é Minas Gerais. Por duas razões. Uma, o PSDB mineiro resolveu assumir efetivamente a campanha de Serra, o que pode levar à redução da diferença favorável à Dilma no Estado ou até mesmo a uma virada tucana. Em segundo lugar, o racha entre os líderes do PT local, Patrus Ananias e Fernando Pimentel, imobiliza o PT e impede a campanha de articular ações para conter o avanço do PSDB.

A derrota da chapa Hélio Costa-Patrus Ananias, na eleição para o governo do Estado, desencadeou uma guerra interna, latente desde que Pimentel teve preterida sua candidatura ao Palácio da Liberdade. O comitê de Dilma tentou um armistício, mas não conseguiu. Depois, o vice-presidente José Alencar foi escalado para a missão. Novo fracasso. A tarefa ficou agora para Lula.

Em São Paulo, a estratégia do PT é tentar conter o avanço do PSDB, sobretudo, nos municípios próximos a São Paulo e da região metropolitana, nos quais tem prefeitos e deputados estaduais e federais em bom número para mobilizar a militância, que, geralmente, atende a convocação do partido nas horas de dificuldades.

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