quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Para Boff, campanha é a pior da história

O escritor e teólogo Leonardo Boff, que apoia a candidatura de Dilma Rousseff (PT), disse ontem, em Curitiba, que a atual campanha é uma das piores da história brasileira recente. De acordo com ele, houve muita mentira, falsificação e distorção de fatos.

A reportagem é de Evandro Fadel e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 21-10-2010.

"Como a internet é absolutamente livre, apareceram todas as formas de factoides, verdadeiras ações articuladas por redes sociais de difamação", afirmou. "Isso é um atentado à democracia, porque a democracia convive com as diferenças, respeita-as e procura alimentar a consciência do cidadão para ser responsável em seu voto, o que não aconteceu.

"Para Boff, deixou-se de discutir questões fundamentais para o futuro do País para centrar em assuntos emocionais como o aborto. "A questão foi ilegitimamente suscitada pela oposição porque ela não tinha alternativa a apresentar ao debate", acentuou. "Apresentou tema altamente emocional, que atinge as classes populares, que são muito religiosas e muito moralistas, e transformou o aborto em espécie de plebiscito."

Segundo ele, esse é um assunto que precisa ser discutido por todo o Estado e não apenas pelo presidente. "É injusto atribuir à Dilma Rousseff ou atribuir ao José Serra, que eles tenham que impor ou proibir o aborto. Isso significa ultrapassar as instâncias de decisão", disse.


Atentado

Ex-frei da Igreja Católica, Boff declarou não ser a favor do aborto. "Acho que é sempre um atentado à vida", acentuou. Mas ressaltou a necessidade de criar condições para que as grávidas possam ter seus filhos.

"Nós não dominamos as circunstâncias, a ética sempre diz que não se pode impor aquilo que vai além das possibilidades de uma pessoa", afirmou. "Há pessoas que são colocadas em grande constrangimento, sofrimento, pobreza, desespero e que podem recorrer ao aborto. Elas precisam ser acompanhadas, pois se transformam em problema de saúde e devem ser tratadas com misericórdia e compreensão".

Para ele, a religião foi instrumentalizada na discussão eleitoral."

Parcelas fundamentalistas da Igreja Católica desvirtuaram a essência da religião, que não é feita para suscitar ódio, divisão, mas é para alimentar a dimensão espiritual, fraternidade e compreensão entre as pessoas", afirmou. "Isso se perdeu com a partidarização que se fez da religião, o que é contra o seu sentido profundo."

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