segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Minigolpe impede vitória de Dilma

Por Rui Martins

Abstenção, causada pelo caos em torno do documento para votar, penalizou Dilma.

Um autêntico e sutil minigolpe impediu no Brasil a vitória de Dilma no primeiro turno – a confusão criada em torno do documento válido para votar.

Tudo parecia favas contadas, mas houve um fator inesperado – a grande abstenção do eleitorado, mais de 16% nos votos para presidente. Isso não estava previsto nas sondagens, era um simples fator acessório mas acabou sendo a causa principal da não eleição de Dilma no primeiro turno.

Evidentemente, muitos invocarão razões as mais diversas para justificar essa abstenção, porém, sabendo-se que o voto no Brasil é obrigatório, ou seja, ninguém deixa de votar e aceita pagar um salário mínimo só para protestar. Seria um protesto caro e às suas próprias custas.

É muito mais lógica a hipótese de uma abstenção por razões alheias à vontade do eleitor. E nesse caso, a mais provável é a confusão causada em torno do documento necessário para votar. E provavelmente se pode falar numa tentativa, acobertada pela lei, de se impedir a uma grande parcela do eleitorado, mais de 20 milhões de eleitores, o exercício do voto.

Senão vejamos – o Tribunal Superior Eleitoral, pondo em dúvida a validade do próprio título de eleitor, decidiu a necessidade do documento ser acompanhado de outro documento com foto, para se poder votar. Vamos tentar raciocionar um pouco – o órgão responsável pelas eleições no Brasil foi quem criou o título de eleitor e achou por bem não incluir nele uma foto de quem vota.

Por que, de repente, acha ter cometido um êrro e procura remediar obrigando o eleitor a comparecer com outro documento com foto ?

De nada adiantou a decisão, em cima da hora, do STF dizendo bastar um documento, se esse documento tinha de conter foto do eleitor. Tinha se armado a confusão e uma grande parcela do eleitorado, principalmente aquela mais humilde, foi à mesa eleitoral sem foto e não pôde votar, uma situação ruim para eles, pois é sancionada com uma pesada multa.

De nada adiantou o STF precisar que o documento com foto poderia ser uma carteira de identidade, uma carta de habilitação de motorista ou uma carteira de trabalho. Mesmo porque quem é pobre, com renda baixa crônica, não tem condições de possuir um carro.

Pode-se falar num minigolpe eleitoral, essa de criar o caos em termos de com que documento votar ? Sem dúvida. Neste meu retorno ao Brasil, constatei alguns procedimentos que são proibidos na Europa na boca da urna, ou nos dois últimos dias que precedem as eleições – divulgação de sondagens e comentários sobre os candidatos no próprio dia da votação. E, não em qualquer mídia, mas na própria CBN.

Em rumo ao aeroporto de Guarulhos, neste domingo, por volta das 4h45, ouvi por essa rádio, do Sistema Globo de Rádio, as últimas sondagens divulgadas no sábado e mesmo alguns comentários numa entrevistas do seu âncora principal.

Diante desse clima, imagino como serão as próximas semanas, se Marina, a candidata Verde, não transferir seu eleitorado para Dilma, dando-lhe seu apoio. Será guerra de foice e valerá tudo para a oposição que, não contente de ter nas suas mãos os principais meios de comunicação, ainda se dá ao luxo de se dizer vítima de um plano de censura pelo governo, que se concretizará com a vitória de Dilma.

A suprema hipocrisia do lobo que devora o cordeiro a pretexto de ter sua água por ele poluída.

Que tipo de censura pode haver ainda contra a imprensa brasileira, quando se ouvindo rádio e vendo televisão se tem uma péssima informação manipulada ? A título de exemplo, cito ter ouvido nos pequenos segundos dedicados ao noticiário internacional, um colega de rádio ter informado haver greve em Paris, mas sem explicar a razão do movimento, talvez por se tratar de protestos contra o aumento da idade para a aposentadoria.

Que censura pode temer uma mídia corporativa que enfatiza o panis et circensis do futebol, tornando a punição de um simples jogador de futebol, Neymar, num caso nacional, ganhando enormes espaços nos jornais e tempo excessivo na rádio e na televisão.

O instituto Millenium e seus seguidores, hipócritas defensores da liberdade de informação, já mantêm o Brasil sob a censura há muito mais tempo do que se imagina. Não é hora de se temer o fim da liberdade de informação mas de se exigir o exercídio da liberdade de informação pelos patrões de nossa imprensa, hipócritas, falseadores, mistificadores e que, causam para quem vive na Europa, a impressão de se chegar a um outro planeta, tanto é a desinformação aqui reinante.

Rui Martins é correspondente do em Genebra.

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