domingo, 3 de outubro de 2010

A “IMPRENSA” INTOCÁVEL

Depois de ralar o dia todo na rua, corpo a corpo, amarrando nossos ultimos votos, chego em casa e minha mulher me comenta sobre O Globo de hoje. Ainda bem que ela já deixou um texto escrito

Às vésperas da eleição presidencial deparamos com uma primeira página do jornal O Globo(02/10/10) que no mínimo é um acinte para com os leitores atentos. Para um veículo que se diz nas mãos de um grupo ético, como é o discurso dos que trabalham para e pela rede globo, essa primeira página pegaria até mal, se já não fosse o esperado.

“Destino dos votos dados a fichas-sujas ainda é incerto” é a manchete. “TSE deve desfazer confusão só depois das eleições de amanhã” é a informação que vem abaixo. O lado direito da página é preenchido com o texto que diz respeito à matéria, onde aparecem nomes de alguns candidatos que poderão ser barrados pela Lei da Ficha Limpa, a exemplo de Paulo Maluf e Anthony Garotinho.

Inexplicavelmente o editor achou por bem não perder espaço nessa primeira página, e para aproveitar bem cada milímetro, no centro da página, colada com a manchete acima, aparece a foto da candidata DILMA, em um acontecimento em família: o batizado do neto. Na sequência aparecem duas outras fotos: uma de MARINA e a outra de SERRA. Abaixo da sequência de fotos vem a informação: "Dilma vai à igreja, Marina canta e Serra dança”, tratando do que fizeram os candidatos melhores colocados para a disputa à presidência, no dia seguinte ao encerramento da campanha na mídia.

Os detalhes são importantes: a foto de MARINA é um pouco menor do que a de SERRA, e as duas juntas (Marina cantando o Hino Nacional e Serra dançando ao som do jingle da sua campanha) ocupam um espaço um pouco menor que a foto de DILMA. Se questionado, o editor bonzinho pode dissertar sobre uma lógica utilizada para as fotos: o tamanho de cada uma delas está proporcional aos percentuais de intenção de voto conquistados pelos candidatos.

No jornal dobrado, forma em que ele fica nas bancas e que chega às mãos do leitor, só se vê a foto (grande) de Dilma, isso porque as fotos de MARINA e SERRA ficam na segunda metade do todo da página. Olhos na manchete, olhos na foto - é automático. Só depois de se fazer a leitura da coluna da direita do jornal é que se consegue dissociar uma coisa da outra.

Talvez alguns fazendo esta análise que faço possam dizer bondosamente que o editor não pecou tecnicamente – que ele de fato só buscou trazer para a primeira página assuntos pertinentes ao dia. Como o espaço é pouco... Acabou parecendo que ficou tudo junto e misturado. Mas, como já aprendemos a algum tempo, no Brasil existem três poderes oficiais e um quarto poder extra-oficial que é a “imprensa” intocável.

Claudina Dias.

Paulo Roberto by http://rioblogprog.blogspot.com/


Ricardo Guedes: Chance de segundo turno é de 10%

por Luiz Carlos Azenha http://www.viomundo.com.br/

Conversei por telefone com Ricardo Guedes, do Sensus, sobre as últimas pesquisas antes da eleição deste domingo. Ele diz que estatisticamente a chance de segundo turno é de 2,5%, mas que aumentaria essa chance para 10% considerando “variáveis políticas”. Os institutos concordam que Dilma Rousseff está próxima dos 55% de votos válidos, mas como a margem de erro é de 2% ela pode ter 53%, ou seja, estaria numa região “fronteiriça com o segundo turno”.

Guedes diz que Dilma conseguiu estancar a hemorragia de 6 milhões de votos que sofreu em duas semanas e que um segundo turno só acontecerá se a candidata tiver perdido outros 6 milhões de votos desde quarta-feira. “Dilma pode até ter recuperado votos”, disse Guedes.

Ele diz que a tal “onda verde” foi uma invenção e que não se sustenta pelos números dos institutos de pesquisa. Marina Silva, do PV, na verdade, teria tirado proveito da troca de acusações entre as campanhas de José Serra e Dilma Rousseff.

Guedes disse que trocou figurinhas com o diretor-executivo do Vox Populi, João Francisco Meira, e que ambos concordam com a avaliação que reproduzi acima.

É natural — digo eu, Azenha — que pesquisa é pesquisa e eleição é eleição. Há um sem número de fatores que podem influir no resultado e é bom que seja assim. Eleição sem emoção não tem graça.



Lula: nordestino, operário, brasileiro

por Emir Sader by Blog do Emir

Fomos nos acostumando tanto com o sucesso de Lula, seja no seu governo, seja na projeção internacional, que às vezes não temos suficientemente presente todas as dimensões desse fenômeno. Pudemos entrevistá-lo e nos darmos conta do amadurecimento político com que Lula chega ao fim do mandato, o entusiasmo com que termina esses impressionantes 8 anos e as qualidades que lhe permitiram, em uma arquitetura genial, ser o artífice da candidatura da Dilma.

Solicitamos a entrevista, conseguida para três dias antes das eleições, horas depois de Lula ter chegado do penúltimo comício, em Sergipe, e horas antes do último, no ABC (ele promete seguir fazendo passeatas silenciosas – permitidas pela legislação eleitoral).

Quisemos que fosse uma modalidade mais ampla, democrática. Para isso, convidamos os dois principais diários de esquerda do continente – Página 12, da Argentina, que mandou o melhor jornalista argentino da atualidade, Martin Granovski, e La Jornada, do México, que mandou sua notável diretora, Carmen Lira. Ambos tem tiragens importantes – La Jornada é o segundo em tiragem no México, com 8 edições regionais -, com sites com entradas diárias muito grandes, publicações que destoam claramente do resto da imprensa dos seus países, muito similar à nossa.

Por outro lado, quisemos abrir consultas com os leitores sobre as perguntas que gostariam de fazer a Lula, sabendo que seria impossível fazê-las todas, pela quantidade, mas para sentir os temas principais de interesse dos leitores. Eu disse a Lula que, no momento do início da entrevista, já havia mais de 250 perguntas, que nos comprometíamos a fazer-lhe chegar todas por escrito.

Nos reunimos com Lula, os três, alternando as perguntas e às vezes estabelecendo um diálogo. Assistiram ou passaram em algum momento, Gilberto Carvalho, Franklin Martins, Alexandre Padilha e Marco Aurélio Garcia. No final pudemos conversar um pouco em off com o Lula. Na saída já nos entregaram o DVD com a gravação integral da reunião, nos enviaram fotos e mais tarde a entrevista integralmente degravada.

Claramente o tema das comunicações foi dos mais reiterados, como se pode ver pela íntegra da entrevista publicada. Quisemos que fosse publicada na íntegra. Esta também deve ser uma prática da imprensa alternativa, não se dar o direito de selecionar o que parece a editores valer a pena submeter aos leitores. A internet não deve ser só um meio tecnicamente diferenciado, mas uma forma diferente, pluralista, alternativa, de fazer comunicação.

Apesar das intensas atividades e emoções correspondentes, Lula estava com ótimo ânimo, coerente com o tamanho da vitória que se aproxima. Despreocupado se a vitória se dará no primeiro turno – hipótese claramente mais provável – ou no segundo, mas seguro de que termina seu mandato – como disse ele, onde muitos nem começaram – realizando o fundamental com que se comprometeu – a prioridade do social era a substância do discurso na primeira campanha vitoriosa.

Nos acostumamos – como dizia no começo deste texto – com esse sucesso, mas é bom parar um pouco e pensar suas reais dimensões e facetas. Nos esquecemos, de tanto ter incorporado, o verdadeiro peso de Lula ter duas determinações essenciais – imigrante nordestino e operário. Duas marcas discriminadas e marginalizadas no Brasil. Nos meus anos 50, os nordestinos – chamados de "cabeças-chata", "paraíbas" – eram a categoria mais baixa da ordem social. Sua imagem cotidiana era a do trabalhador da construção civil – sem casa, sem identidade, quase anônimo. Pertenciam àquela imensa leva de imigrantes que, com as terríveis secas do nordeste nos anos 50, mais o imenso boom econômico de São Paulo – “A cidade que mais cresce no mundo, constroem-se quatro casas por hora”, se propalava, orgulhosamente, sem a consciência das monstruosidades que esse crescimento rápido e desordenado estava produzindo.

Mesmo sendo operário, do setor tecnologicamente mais avançado da economia – a indústria automobilística chegou a representar, direta ou indiretamente, ¼ do PIB brasileiro -, pertencia a uma categoria que nunca foi devidamente valorizada no Brasil. Foram poucas gerações como a de Lula, com o processo industrial em expansão, com a valorização da imagem do operário. Logo veio a ditadura, depois o neoliberalismo e a desqualificação do trabalhador, do mundo do trabalho, do desenvolvimento econômico.

Pois é Lula, imigrante nordestino, operário, que personificou esses 8 anos importantíssimos para resgatar o Brasil, rebaixado e avacalhado por Collor e FHC. Para resgatar o Estado brasileiro, um modelo de desenvolvimento econômico e social que permite, pela primeira vez, diminuir a desigualdade social no país mais desigual do continente mais desigual do mundo, para levar adiante uma política internacional soberana, centrada no Sul do mundo.

Lula sai mais fresco do que quando entrou no governo. Dinâmico, mais experiência, com ar de estadista, de construtor de um projeto hegemônico, com um profundo sentimento brasileiro e latinoamericano, com amor pela África, com o orgulho de que o povo brasileiro o sinta como um deles, com o sentimento de voltar para São Bernardo e tomar umas biritas com os mesmos amigos que deixou quando veio a Brasília se tornar o primeiro presidente operário, o primeiro a eleger seu sucessor, o primeiro a promover a eleição de uma mulher como presidente do Brasil.

Esse é o Lula que encontramos ontem – cuja entrevista pode ser lida integralmente na Carta Maior -, que vota no domingo em São Bernardo, para onde irá Dilma, depois de votar em Porto Alegre, viajando ambos no final da tarde para Brasília, esperar os resultados que devem consagrar nas urnas o melhor governo que o Brasil já teve e apontar para a consolidação da construção de uma sociedade justa, solidária e soberana.

Esse Lula, a encarnação mesma do brasileiro, do que de melhor têm os brasileiros, essa Dilma, que representa a trajetória digna de uma militante da luta contra a ditadura, de construtora desse Brasil pelo qual lutávamos e continuamos lutando, mudando os métodos de luta, mas nunca mudando de lado – como ela gosta de destacar.

Postado por Emir Sader



Presidente do PV confessa voto em Serra

Por Altamiro Borges by Blog do Miro

Em entrevista à Folha de S.Paulo, o presidente nacional do Partido Verde, José Luiz de França Penna, confessou o que muitos eleitores verdes mais honestos já desconfiavam, mas evitavam tratar. Ele afirmou com todas as letras que dará total apoio ao tucano José Serra, caso haja um segundo turno nas eleicões presidenciais.

Sua declaração bombástica gerou desconforto no comando de campanha de Marina Silva, que teme que esta revelação quebre o "encanto" dos verdes. No final da tarde de ontem, João Paulo Capobianco, coordenador da campanha presidencial, enviou um e-mail à imprensa desautorizando “qualquer manifestação individual de membros do PV”.

A confissão de voto de França Penna não surpreende quem acompanha a trajetória do Partido Verde, a legenda emprestada de última hora à candidata Marina Silva. O próprio presidente do PV fez parte até poucos meses atrás das gestões de José Serra (PSDB) e Gilberto Kassab (DEM) na prefeitura da capital paulista. Em vários outros estados, como no Rio de Janeiro, os verdes são fiéis aliados dos demos e tucanos.

Na lógica destes políticos oportunistas, que não têm nada de verdes, a candidatura presidencial do PV visava apenas cacifar o partido, em especial sua ala fisiológica. O PV é frágil politicamente; não tem estrutura e militância nos estados; conta com pouco tempo de TV. A chamada "terceira via" era encarada como uma forma de forçar o segundo turno, servindo como alavanca do demotucano. Marina Silva - mulher, de origem humilde e ex-ministra de Lula - caiu como uma luva nesta tática diversionista.

A precipitada declaração de França, num lapso de sinceridade, escancara esta tática diversionista e aumenta as tensões no comando de campanha de Marina Silva. Restará ao honesto eleitor verde, preocupado de fato com a estratégica questão ambiental, fazer uma análise consciente se o seu voto não está servindo a um moto-Serra.


Qual será o futuro do PV?
por Carlos S. Bandeira by www.viomundo.com.br

Se o PV declarar apoio a Serra num pouco provável 2º turno, como declarou José Luiz de França Penna, presidente nacional do partido, é sinal de que o grupo de Marina foi derrotado nas disputas internas. O grupo de Marina Silva saiu do PT com a promessa de levar o partido para a esquerda, tirando da influência do PSDB.

Um dirigente político próximo a Marina contou que, dentro do acordo para a entrada dela no PV, estava a progressiva renovação de toda a sua direção, que estaria encerrada no começo da campanha. Nessa renovação, a maior parte da direção seria formada por aliados de Marina, em sua maioria aguerridos petistas, diminuindo o peso da velha direção, próxima do PSDB.

Não se pode subestimar o peso político desse grupo, que é de esquerda. Tanto que fizeram uma grande discussão sobre a possibilidade de Marina entrar no PSOL. Não entraram no partido porque avaliaram que teriam menos alianças, apoios e votos em um partido de extrema esquerda e, principalmente, pelas condições que foram oferecidas pelo PV.

De duas, uma: ou Marina se divorciou do grupo que a acompanhou no seu mandato no Senado ou também será traída pela velha burocracia do PV, que teria mantido o controle partidário. Nesse quadro, o PV deve entrar em crise depois das eleições. Caso não se confirme a vitória de Dilma Rousseff no 1º turno, a crise deve estourar em outubro, em torno do posicionamento do partido na disputa da petista com José Serra.

Na campanha, o discurso de Marina coloca no mesmo nível os governos de FHC e Lula. Ou seja, parece que essa disputa está empatada. Na linha tênue da disputa interna entre os verdes tucanos e petistas, a campanha de Marina ficou amarrada, perdendo a perspectiva de discutir com profundidade os pontos fracos do modelo de desenvolvimento em curso no nosso país.

Por exemplo, os impactos ambientais e sociais do avanço do agronegócio (incluindo os transgênicos e os agrotóxicos), do desmatamento da Amazônia (inclusive a regularização da grilagem e a anistia aos desmatadores, com a MPs 422/458), as mudanças no Código Florestal, das grandes obras de infraestrutura (como a hidrelétrica de Belo Monte)

Além disso, a candidatura verde poderia ter manifestado a defesa da pequena agricultura e da Reforma Agrária (foi Marina que apresentou no Senado o projeto que fez do 17 de abril o Dia Nacional de Luta pela Reforma Agrária), como alternativas para um novo modelo de desenvolvimento para a agricultura.

A partir do que projetavam as forças que estão ao lado da candidata desde os tempos do PT, a campanha de Marina ficou aquém das expectativas. E se o partido anunciar apoio a Serra em um eventual 2ª turno, a permanência desse grupo no PV ficará inviável.

A dúvida está no postura que adotará Marina. Se ela ficar neutra, a tendência é que a disputa dentro do partido cresça. Com a confirmação do apoio do partido a Serra, os setores mais à esquerda devem abandonar o PV. E, possivelmente, abandonar Marina. Difícil imaginar qual será o seu destino, porque voltar ao PT não parece viável e, entrar no PSOL é pouco provável, pela crise que esse partido entrará a partir do dia 4.

Outra possibilidade é Marina manifestar apoio a Dilma, se contrapondo à velha burocracia do PV. Dessa forma, aplacaria a insatisfação do seu grupo político, deixando aberta a guerra interna no partido, mas com a legitimidade de uma grande votação. Mesmo assim, ficará estranho o partido aderir a um candidato no 2º turno, enquanto o seu maior expoente declara apoio a outra.

Nesse quadro, o melhor (ou menos ruim) para o PV é que a eleição se resolva logo no 1º turno. A guerra interna não estará resolvida, mas pontualmente adiada. Mesmo assim, o clima no partido continuará ruim. E as perspectivas de transformá-lo em um partido verde necessário, que discuta como desenvolver o país de forma sustentável, como projetava o grupo de Marina, estarão praticamente perdidas.

Carlos S. Bandeira é jornalista e atua no Distrito Federal (carlos.sbandeira@gmail.com).

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