segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Depois da ordem, a ocupação pela cultura

Marcos Vinícius Faustini assume novo departamento do governo do estado lançando, hoje, o projeto Verão das UPPs
por Karla Monteiro

No sexto andar do prédio da Central do Brasil, numa sala sem charme, funciona um novo departamento da Secretaria de Estado de Assistência Social e Direitos Humanos: a Assessoria Especial de Cultura e Território. O homem atrás da mesa do chefe chamase Marcus Vinícius Faustini, autor do "Guia afetivo da periferia", um cara do subúrbio do Rio, criado num conjunto habitacional em Santa Cruz, que vem fazendo diferença na produção cultural da cidade. Falante e bem articulado, Faustini tem uma missão árdua. A ideia por ali é ocupar as comunidades que já estão livres do tráfico com projetos culturais, o passo seguinte das UPPs.

- A gente tem que empoderar as comunidades para que elas se expressem e se tornem mediadoras de seus problemas.

Por que no Leblon não tem tráfico? Porque a sociedade civil ali é respeitada - diz Faustini. - Precisamos respeitar a produção das favelas. No primeiro momento, vamos focar na ideia de memória. A memória é uma categoria estética da periferia, presente no samba, no funk. Marcar a cidade com estética e não apenas com ordem. Com o empoderamento das favelas, a polícia vai poder sair.

Faustini está lançando hoje um edital - ou chamada pública - para grupos que quiserem participar do primeiro projeto do seu departamento, chamado de Verão das UPPs, que vai acontecer nas favelas do Batan, Borel, Chapéu-Mangueira, Babilônia, Cidade de Deus e Providência. Os inscritos devem ter como objetivo promover oficinas dentro das comunidades que resultem em espetáculos de fim de tarde.

O tema é, como disse Faustini, memória local. O investimento da secretaria no Verão das UPPs é de R$ 500 mil.

- A cultura pode promover o encontro de que a sociedade precisa. Em vez de representar a favela, a ideia é apresentar a favela, colocando-a dentro do fluxo da cidade - explica Faustini. - Não queremos grupos que façam festas de final de tarde. Teremos, sim, o evento, mas queremos que esse espetáculo saia de oficinas com os moradores, do encontro, da discussão. Não pode ser uma coisa jesuítica.

Faustini aposta no Verão das UPPs como o comecinho de um longo caminho: - A vocação do Rio de 2014 e 2016 não é a sala de espetáculo, mas a rua. Depois de aplaudir o pôr do sol na praia de Ipanema, o turista pode ir ouvir um sambinha na Providência ou ver um show de MCs no Borel. O Rio é uma cidade de encontros. Não podemos deixar que se transforme na cidade do medo.

Antes de chegar ao governo do estado, o rapaz de Santa Cruz empreendeu uma longa viagem. No começo, pegava o trem. E viajava da Zona Oeste até a Escola de Teatro Martins Pena, no Centro. Nos tempos da faculdade, começou a dirigir espetáculos com atores consagrados, como Gianfrancesco Guarnieri. A carreira no teatro, porém, não durou muito.

Faustini diz que queria mais da cultura, algo que interferisse no território - palavra que ele adora - e ajudasse a produzir uma outra imagem da periferia. Faustini nunca se conformou com o fato de a produção estética das favelas não ser reconhecida e valorizada como arte, como expressão cultural.

- A periferia é sempre olhada como o lugar da carência, do drama. E eu sempre a vi como o lugar da potência. Voltei para a minha comunidade com a ideia de criar escolas de arte contemporânea para dar formação estética, e não folclórica, para os jovens. Inauguramos a Escola Livre de Teatro, em Santa Cruz. Mais de mil alunos estudaram lá, com mestres como Moacir Chaves e Celina Sodré - lembra. - Depois dessa experiência, o Lindberg Farias me chamou para trabalhar em Nova Iguaçu. Lá criamos a Escola Livre de Cinema, que existe há cinco anos, com vários prêmios.

Projeto paralelo: oficinas

Faustini é uma fábrica de ideias, de conceitos, de projetos.
São muitos. No momento, paralelamente ao trabalho no governo, em parceria com a professora Heloisa Buarque de Hollanda, está tocando o Apalpe - A Palavra da Periferia, criado há quatro meses. A primeira turma acabou de concluir o curso, que consiste em oficinas aos sábados que mesclam desde artes plásticas até sociologia, tendo como objetivo final a "palavra". Ou seja, a produção de textos. Na primeira fomatura do Apalpe, os 35 alunos fizeram uma intervenção artística na Lapa e lançaram uma revista. Em duas semanas, Faustini e Heloisa recomeçam as oficinas, com a missão de empoderar a galera.

- Nós também escutamos The Smiths. Só nunca tivemos visibilidade. A esquina nunca foi considerada um lugar de expressão artística de uma geração.

Só se considerava a praia, o Baixo Gávea - diz Faustini. - Em janeiro, vamos lançar aqui na secretaria outro edital para microprojetos culturais, tipo A Hora do Pastel da Birosca. Temos que pensar cultura de forma mais ampla, mais inclusiva. Inclusão mesmo.

Na minha época, era intrusão social.

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