quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Tchello d´Barros - Entevista


entrevista concedia a Lima Trindade - ara a Revista corpo 21

Tchello d'Barros - Brunópolis (SC), 1967 é escritor, artista visual e viajante. Residiu em 12 cidades, percorreu 20 países em constantes pesquisas na área cultural e desde 2010 está radicado em Belém/PA, onde produz obras em desenho, pintura, infogravura, fotografia, instalação e poesia visual. Publica textos regularmente em jornais, revistas, sites e eventualmente ministra palestras, oficinas literárias e cursos de desenho.

Na Literatura, publicou 5 livros de poesia e vários cordéis. Também publicou contos, crônicas e artigos em mais de 30 coletâneas e antologias. Foi sócio-fundador e presidente da Sociedade Escritores de Blumenau, tendo criado e realizado diversos projetos literários. Foi ainda idealizador e um dos coordenadores do Fórum Brasileiro de Literatura.
Nas Artes Visuais, participou de mais de 60 exposições, entre individuais e coletivas. É curador independente, tendo realizado várias mostras individuais e coletivas. Como designer, desenvolveu criações gráficas para agências de publicidade, desenhos para a indústria têxtil e ilustrações para o meio editorial.

Lima Trindade – Você é um artista multifacetado. Fale um pouco da sua formação. Sempre pensou em ser artista?
Tchello d’Barros – Vez em quando me é apontada essa característica da multifacetação, uma certa versatilidade pelo fato de os trabalhos serem apresentados em diversas linguagens nas artes visuais (desenho, pintura, gravura, fotografia, vídeo, instalação). E na literatura existe ainda uma produção tanto em Prosa (contos, crônicas, artigos) quanto em Poesia (versos livres, sonetos, haicais, poesia visual, cordéis). Apesar de rotulado eventualmente pelo vocábulo genérico de ‘multimídia’, vejo tudo apenas como Literatura e Artes Visuais, só que diluídas em algumas modalidades, e para cada uma delas houve um estudo teórico e um preparo técnico.
Talvez as asas sejam um pouco diferentes mas o voo é o mesmo. Estudar é preciso, seja academicamente ou como autodidata. Até estive numa faculdade de Letras e por lá fiz uns cursos em artes visuais e história da arte também, mas o que de fato apreendi foi e continua sendo das inúmeras leituras, pesquisas e experimentações. E continuo estudando. Bem, não é que tenha pensado em me tornar artista, digamos assim, apenas que quando me dei conta, as pessoas estavam publicando meus escritos por aí e expondo meus desenhos e fotografias. Acho até que comecei tarde, já com 25 anos, quando morava em Blumenau (SC) em 1.993 d. C.
LT – E quais foram suas maiores influências? A televisão e o cinema estavam entre elas?
Td’B – As referências foram e são incontáveis. Da televisão quase nada, inclusive já fui apresentador de programas de televisão e hoje esse formato midiático parece quase que um instrumento alienador, pra não dizer imbecilizador, dada a baixa qualidade de seus conteúdos em geral. Do cinema, na condição de cinéfilo assíduo, é inevitável que algumas influências não se instalem na cachola, mas pelo que lembro a única referência que usei conscientemente foram as combinações cromáticas do filme Tron, cujo visual me impactou muito na adolescência e revi muitas vezes. Para além disso há todo um caudal de elementos referenciais, tais como o período áureo da escultura grega; as simetrias ocultas nas obras dos mestres do Renascimento; as HQs da infância, lembro agora da anatomia perfeita dos desenhos de Burne Hogarth; as impactantes gravuras de Gustave Doré, M. C. Escher e de Mucha; as obras dos precursores do Impressionismo; os Haigas nipônicos com seu rigor nas letras e imagens; a revolução da Pop Art; as invencionices de Duchamp; e, claro as coisas do meu tempo, onde citarei na arte contemporânea os brasileiros Eduardo Kac, um artista intermídias, as instalações mate-cromáticas de José Patrício e a pintura onírica do surrealista catarinense Telomar Florêncio, entre tantos outros.
LT – Acredita que o fato de ter crescido durante a Ditadura Militar interferiu na sua sensibilidade e maneira de ver o mundo?
Td’B – O filósofo e educador Taine dizia que o homem é um produto do meio, mas afirmava também que cada um pode construir seu destino. Então, não vejo muitas referências no que faço em relação ao período da Ditadura, onde eu era apenas uma criança. Talvez valha mencionar que a educação que minha geração recebeu em escola pública, com enérgica disciplina, me parece superior aos padrões de muita escola particular de hoje em dia. E isso me foi um diferencial principalmente no que tange a produção em literatura, pois quando se aprendeu a escrever bem gramaticalmente, isso pode ampliar as possibilidades de uma escrita que se quer literária. Mas outra questão seria, quem sabe, o tom político que a arte respirava nesse período, as pessoas discutiam mais as questões sociais, ainda existia ideologia partidária, e muita coisa era traduzida na literatura, cinema, letra de música, pintura e mesmo no jornalismo cultural. Por outro lado, com nossa exposição diária à hiperinformação, que é a característica de nossos dias, nessa era digital, nessa idade-mídia em que vivemos, nos possibilita ampliar nossa visão de mundo o tempo todo. Hoje acho obsoleto tudo o que eu pensava ser absoluto.
LT – E a paixão pelo cordel, quando aconteceu?
Td’B – Alguns fatores me levaram ao cordel. O primeiro foi ter nascido e crescido no Sul do Brasil, onde temos a figura do trovador, versão sulina dos repentistas. Inclusive meu pai vez em quando duelava nos tradicionais desafios. Então eu já gostava da poesia de cunho popular, preferencialmente verbalizada, contada, cantada. Já conhecia os esquemas de ritmos, rimas e métricas, e até escrevia alguma coisa. Depois, estudando as formas-fixas na poesia, conheci os cânones do cordel, sua história e a obra dos principais expoentes. Lá por 2.004 d. C. fui morar na bela e ensolarada Maceió, de praias paradisíacas, onde conheci cordelistas do naipe de um Jorge Calheiros e a conhecida poeta Mariquinha, entre outros, sem falar nos encontros de cantadores e repentistas promovidos pelo Procópio. Desse contato maior com a literatura de cordel, iniciei uma coleção que fui montando em minhas passagens por todos os estados do Nordeste, chegando hoje à uns 500 exemplares. No meio disso tudo principiei a escrever alguns cordéis também, sendo um deles O Papagaio, que transpõe a narrativa do poema O Corvo, de Edgar Allan Poe, para uma praia do Nordeste (imaginei a Praia da Sereia, de Maceió).

LT – Pensa que as poesias de origem popular, culta e visual divergem em valor e complexidade?
Td’B – No chamado senso comum, temos que a poesia aqui chamada de culta, seja ela clássica, erudita, seria uma literatura mais elevada, dentro do que uns chamam de alta literatura, outros mencionam ainda a “grande poesia”. Por outro lado, apesar dos muitos estudos acadêmicos sobre a riqueza da poesia de corte popular, muitos ainda associam tais modalidades à uma chamada “literatura menor”, ou ainda “arte menor”. No paralelo de tudo temos ainda de forma meio que marginal a Poesia Visual, que se abriga debaixo de um amplo guarda-chuva que se tem chamado de Poesia Experimental e cada vez tem recebido mais atenção de linguistas e semiólogos.
Então, creio que as questões de valor e complexidade podem ser relativas, pois enquanto, por exemplo, cresce cada vez mais os admiradores de um Patativa do Assaré, por outro lado vemos alguns doutos da erudição praticando uma poesia hermética que consegue apenas botar os leitores pra correr, mais ou menos como vemos hoje em dia em algumas exposições que se pretendem de arte contemporânea.
Pessoalmente penso que a questão da qualidade literária é um buraco mais embaixo. Alguns teóricos da literatura afirmam que a base de um poema é o ritmo, a cadência, enquanto uns mencionam as métricas e há quem defenda mesmo a rima. Para James Joyce, a linguagem era o mais significativo. Para Jorge Luis Borges, na poesia o mais importante seria a capacidade do poeta de criar metáforas. Auden acreditava na escolha do tema. Nosso José Paulo Paes dizia que “poesia é brincar com as palavras”. Então penso que a questão é ainda muito aberta e vai sempre depender sempre do arcabouço literário de cada leitor.
LT – Você acompanha a produção literária contemporânea? Curte blogues, twitters e outros baratos?
Td’B – Acompanho a produção literária do meu tempo desde antes do surgimento da Internet. Isso apenas se intensificou com essas novas mídias, o que não quer dizer que a produção atual tenha melhorado muito. O bom de tudo é que visitando uma plêiade de sites, blogues, e-grupos e redes sociais ficou mais fácil de descobrir novos bons poetas. Poetas surgem aos borbotões diariamente (ou pensam que são), mas bons poetas é algo mais raro. Mas foi a web que me possibilitou conhecer a poesia lapidada de um Cairo Assis Trindade, a palavraria voraz de um Artur Gomes ou os haicais inusitados de uma Chris Herrmann, poeta brasileira radicada na Alemanha. Interessa-me ainda a pluralidade de meios para veiculação do poema, seja mediante vídeos, scraps, e-mails, e-books, audio-books, animações, torpedos, impressões digitais, CDs e DVDs ou mesmo produções híbridas com outras linguagens. Recentemente publiquei uma versão de meu livro Letramorfose, que é composto de poemínimos direto no Twitter, são tuitadas poéticas, digamos. Quanto aos ‘outros baratos’, bem, seja lá o que forem, aposto neles, pois os livros mesmo, estão cada vez mais caros!

LT – O tempo que passou fora do país lhe deu uma melhor perspectiva do seu próprio lugar ou você se sente um nômade? Isso afetou seu trabalho?
Td’B – Do ponto de vista sociológico, ao que parece o brasileiro contemporâneo ainda não se livrou totalmente da síndrome de vira-lata, conforme apregoava o impagável Nelson Rodrigues. Em geral, qualquer compatriota que passe um tempo no Exterior, após a fase da novidade e das comparações, acaba reconhecendo o Brasil como um dos melhores países para se viver. É por isso que somos conhecidos como ufanistas. O Brasil é ruim?
Pois muito pior sem ele. Isso quer dizer também que nos salta aos olhos os valores culturais que temos e nem nos damos conta com a devida importância. Gosto muito do exemplo de um artista como o alagoano Delson Uchôa, figura cosmopolita mas que soube olhar para a cultura popular de seu tempo e lugar. E a partir disso desenvolveu uma obra extemporânea, aliás, representando o Brasil com sucesso na recente Bienal de Veneza.
Em meu caso, as viagens são parte de um projeto de vida, sigo na meta de conhecer um país a cada ano, mergulhando em sua cultura, visitando seus museus, galerias e bibliotecas. Creio que ampliar nosso repertório de vivências amplia nosso vocabulário de linguagens, sejam literárias ou visuais. Sobrevoar os misteriosos desenhos dos Nazca no Perú, descobrir a Cúmbia nas praias caribenhas ou estar diante de uma obra produzida por Michelângelo, são experiências que talvez não afetem diretamente o trabalho, mas é possível que nos melhorem em algo, pois somos a somatória de nossas experiências, mais o dia de hoje.
LT – Enquanto artista visual, o que lhe seduz numa fotografia?
Td’B – Talvez caiba mencionar que minha produção em fotografia, difere um pouco de algum fotógrafo convencional, isso porque essa arte da “escrita da luz” é para mim um exercício de linguagem que realizo com os recursos da pintura, principalmente. Enquanto alguns fotógrafos se preocupam com enquadramentos e ângulos, valho-me dos recursos como a composição, o claro-escuro, a perspectiva, as paletas de cores, etc. Apesar dos cursos e livros sobre fotografia, minha referência principal é a intuição. Se tenho hoje uma certa produção em fotografia de rua, é porque estudei essa modalidade, e soube da produção de um Henry Cartier-Bresson. Alfred Stieglitz, Man Ray e Pierre Verger são também ícones da fotografia que me alumbra.
Atualmente pouco me comovem as inovações tecnológicas. Interessa-me a fotografia que possa contar algo de forma simples mas original.
LT – A manipulação da imagem por computador não destitui o status e a singularidade artística da fotografia?
Td’B – A fotografia atual passou a ser um dos protagonistas da era digital. É cada vez mais inevitável a manipulação digital, os tais tratamentos de imagem e a fotografia maquiada, “melhorada”. No campo da arte, há mesmo quem comente que a fotografia começa depois do clic, pois ela deve ser enquadrada, alinhada pela linha do horizonte, diagramada na regra-dos-terços, muitas vezes, sofrer variação em alguma cor ou ser convertida para o P&B, entre outras etapas para a foto ficar pronta para a impressão ou publicação, seja gráfica ou virtual. Sou adepto de uma fotografia mais realista, sem maiores pirotecnias digitais, pois sei que antes da parafernália tecnológica está o olho de um fotógrafo e sua abordagem poética sobre algum tema e é isso que todos queremos perceber numa boa fotografia.

LT – Fale um pouco do seu projeto “Convergências”.
Td’B – No paralelo de tudo sigo com uma produção de imagens na modalidade da Poesia Visual, numa média de duas ou três criações por ano. São desenhos vetorizados em P&B que apresentam temas como sexualidade, espiritualidade, comportamento, afetividade, política, crítica social, entre outros. Além de veicular na web, essas criações participam de publicações e exposições, numa mostra itinerante que é o projeto “Convergências”, que por enquanto já foi apresentado em João Pessoa/PA, Maceió/AL, Blumenau/SC, Rio de Janeiro/RJ, Vitória/ES e Belém/PA.
Outras cidades têm manifestado interesse em realizar a mostra, a idéia é mesmo que passe por todos os Estados desse imenso Brasil. E as imagens são sempre descartadas ao final, pois envio-as para o organizador local, por e-mail, FTP ou correio físico mesmo, e têm sido impressas em diferentes suportes, como lona vinil, PVC, acrílico, papel fotográfico, plotagem e adesivação na parede, por enquanto. Mas para além de exibir os trabalhos autorais, há também uma oficina que tem o intuito de divulgar essa modalidade que fica na fronteira entre a poesia e as artes visuais, além de estimular o surgimento de novos adeptos e criadores.
LT – O que vem pela frente: um livro, uma exposição ou ambos?
Td’B – Livros, exposições e viagens. É o que tenho produzido, é que quero continuar fazendo pelo resto de meus dias aqui nesse planetinha azul. Talvez não seja adequado mencionar exatamente o que se vai apresentar para breve, para não dissipar as energias, então, limito-me a contar que no momento estou fotografando algumas localidades amazônicas, e desenvolvo alguma produção literária baseada em suas lendas e culturas dos povos da floresta. Em que lugar do Brasil ou do mundo esses resultados serão apresentados?
Bem, quem vim ver, verá... Não será demais dizer que, como a gente já está há algum tempo na estrada, há então já um trabalho paralelo de administrar o que já foi produzido, tipo adaptar as imagens ou textos para novos formatos, cuidar de direitos autorias, traduções, contratos, divulgação, adaptações, etc. Para além disso, é questão de seguir em frente e descortinar sempre novos horizontes, tantos os físicos quanto os metafóricos. Evoé!

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