segunda-feira, 7 de junho de 2010

GRANDES NOMES DA LITERATURA





Direção – Jiddu Saldanha
http://www.bichodeporco.blogspot.com/
Entrada Gratuita!!!

- O Cão Sem Plumas, de João Cabral de Melo Neto
com Bárbara Morais

- Residência no Redemoindo, inspirado na Obra de Guimarães Rosa
com Karol Schittini
- Jornada de Paz Tempo de Guerra
com Bárbara Morais, Bruno Peixoto e Louise Marrie
Local:
Centro Cultural Laurinda Santos Lobo,
próximo ao Largo dos Guimarães em Santa Tereza
Data:
Dia dos Namorados (12/06/2010)
às 20h
Censura:
Sem Censura

Duração:
50 minutos

Quer mais informações e contato com tato?


O cão sem plumas
João Cabral de Melo Neto

I.


Paisagem do Capibaribe

A cidade é passada pelo rio
como uma rua é passada
por um cachorro;
uma fruta por uma espada.

O rio ora lembrava
a língua mansa de um cão,
ora o ventre triste de um cão,
ora o outro rio de aquoso
pano sujo dos olhos de um cão.

Aquele rio era como um cão sem plumas.
Nada sabia da chuva azul,
da fonte cor-de-rosa,
da água do copo de água,
da água de cântaro,
dos peixes de água,
da brisa na água.

Sabia dos caranguejos
de lodo e ferrugem.

Sabia da lama como de uma mucosa.

Devia saber dos polvos.
Sabia seguramente da mulher
febril que habita as ostras.

Aquele rio jamais se abre aos peixes,
ao brilho, à inquietação de faca
que há nos peixes.

Jamais se abre em peixes.
Abre-se em flores pobres
e negras como negros.
Abre-se numa flora suja e
mais mendiga como são
os mendigos negros.

Abre-se em mangues
de folhas duras e crespos
como um negro.

Liso como o ventre de
uma cadela fecunda,
o rio cresce sem nunca explodir.

Tem, o rio, um parto fluente
e invertebrado como
o de uma cadela.

E jamais o vi ferver
(como ferve o pão
que fermenta).

Em silêncio, o rio carrega
sua fecundidade pobre,
grávido de terra negra.

Em silêncio se dá:
em capas de terra negra,
em botinas ou luvas
de terra negra para o pé
ou a mão que mergulha.

Como às vezes passa
com os cães,
parecia o rio estagnar-se.

Suas águas fluíam então
mais densas e mornas;
fluíam com as ondas densas
e mornas de uma cobra.

Ele tinha algo, então,
da estagnação
de um louco.

Algo da estagnação do hospital,
da penitenciária, dos asilos,
da vida suja e abafada
(de roupa suja e abafada)
por onde se veio arrastando.

Algo da estagnação dos palácios cariados,
comidos de mofo e erva-de-passarinho.
Algo da estagnação das árvores
obesas pingando os mil açúcares
das salas de jantar pernambucanas,
por onde se veio arrastando.

(É nelas, mas de costas para o rio,
que "as grandes famílias espirituais"
da cidade chocam os ovos
gordos de sua prosa.

Na paz redonda das cozinhas,
ei-las a revolver viciosamente
seus caldeirões de preguiça viscosa).

Seria a água daquele rio
fruta de alguma árvore?
Por que parecia aquela
uma água madura?

Por que sobre ela, sempre,
como que iam pousar moscas?
Aquele rio saltou alegre
em alguma parte?

Foi canção ou fonte
Em alguma parte?
Por que então seus olhos
vinham pintados de azul nos mapas?


II.

Paisagem do Capibaribe

Entre a paisagem o rio
fluía como uma espada
de líquido espesso.

Como um cão humilde
e espesso.

Entre a paisagem (fluía)
de homens plantados na lama;
de casas de lama plantadas
em ilhas coaguladas na lama;
paisagem de anfíbios
de lama e lama.

Como o rio aqueles homens
são como cães sem plumas
(um cão sem plumas
é mais que um cão saqueado;
é mais que um cão assassinado.

Um cão sem plumas
é quando uma árvore sem voz.

É quando de um pássaro
suas raízes no ar.

É quando a alguma coisa
roem tão fundo até o que não tem).

O rio sabia daqueles homens
sem plumas.

Sabia de suas barbas expostas,
de seu doloroso cabelo
de camarão e estopa.

Ele sabia também dos
grandes galpões da beira dos cais
(onde tudo é uma imensa
porta sem portas)
escancarados aos horizontes
que cheiram a gasolina.

E sabia da magra cidade de rolha,
onde homens ossudos, onde pontes,
sobrados ossudos
(vão todos vestidos de brim)
secam até sua mais funda caliça.

Mas ele conhecia melhor
os homens sem pluma.

Estes secam ainda mais além
de sua caliça extrema;
ainda mais além de sua palha;
mais além da palha de seu chapéu;
mais além até da camisa que não têm;
muito mais além do nome
mesmo escrito na folha
do papel mais seco.

Porque é na água do rio
que eles se perdem
(lentamente e sem dente).

Ali se perdem (como uma
agulha não se perde).

Ali se perdem (como um relógio
não se quebra).

Ali se perdem como um espelho
não se quebra.

Ali se perdem como
se perde a água derramada:
sem o dente seco com que de repente
num homem se rompe o fio de homem.

Na água do rio, lentamente,
se vão perdendo em lama;
numa lama que pouco
a pouco também não pode falar:
que pouco a pouco ganha
os gestos defuntos da lama;
o sangue de goma, o olho
paralítico da lama.

Na paisagem do rio
difícil é saber onde começa o rio;
onde a lama começa do rio;
onde a terra começa da lama;
onde o homem, onde a pele
começa da lama;
onde começa o homem
naquele homem.

Difícil é saber se aquele homem
já não está mais aquém do homem;
mais aquém do homem
ao menos capaz de roer
os ossos do ofício;
capaz de sangrar na praça;
capaz de gritar se a moenda
lhe mastiga o braço;
capaz de ter a vida mastigada
e não apenas dissolvida
(naquela água macia que amolece
seus ossos como amoleceu as pedras).
III.

Fábula do Capibaribe

A cidade é fecundada por aquela
espada que se derrama,
por aquela úmida gengiva de espada.

No extremo do rio o mar se estendia,
como camisa ou lençol,
sobre seus esqueletos de areia lavada.

(Como o rio era um cachorro,
o mar podia ser uma bandeira
azul e branca desdobrada
no extremo do curso —
ou do mastro — do rio.

Uma bandeira que tivesse dentes:
que o mar está sempre com seus dentes
e seu sabão roendo suas praias.

Uma bandeira que tivesse dentes:
como um poeta puro polindo
esqueletos, como um roedor puro,
um polícia puro elaborando esqueletos,
o mar, com afã, está sempre outra vez
lavando seu puro esqueleto de areia.

O mar e seu incenso, o mar e seus ácidos,
o mar e a boca de seus ácidos,
o mar e seu estômago que come e se come,
o mar e sua carne vidrada, de estátua,
seu silêncio, alcançado à custa
de sempre dizer a mesma coisa,
o mar e seu tão puro professor de geometria).

O rio teme aquele mar
como um cachorro teme
uma porta entretanto aberta,
como um mendigo, a igreja
aparentemente aberta.

Primeiro, o mar devolve o rio.
Fecha o mar ao rio seus brancos lençóis.

O mar se fecha a tudo
o que no rio são flores de terra,
imagem de cão ou mendigo.

Depois, o mar invade o rio.
Quer o mar destruir no rio
suas flores de terra inchada,
tudo o que nessa terra
pode crescer e explodir,
como uma ilha, uma fruta.

Mas antes de ir ao mar o rio
se detém em mangues
de água parada.

Junta-se o rio a outros rios
numa laguna, em pântanos onde,
fria, a vida ferve.

Junta-se o rio a outros rios.
Juntos, todos os rios preparam
sua luta de água parada,
sua luta de fruta parada.

(Como o rio era um cachorro,
como o mar era uma bandeira,
aqueles mangues são uma
enorme fruta:
A mesma máquina paciente
e útil de uma fruta;
a mesma força invencível
e anônima de uma fruta —
trabalhando ainda seu açúcar
depois de cortada —.

Como gota a gota até o açúcar,
gota a gota até as coroas de terra;
como gota a gota até uma nova planta,
gota a gota até as ilhas súbitas
aflorando alegres).

IV.

Discurso do Capibaribe

Aquele rio está na memória
como um cão vivo dentro de uma sala.

Como um cão vivo dentro de um bolso.
Como um cão vivo debaixo dos lençóis,
debaixo da camisa, da pele.

Um cão, porque vive, é agudo.
O que vive não entorpece.

O que vive fere.
O homem, porque vive,
choca com o que vive.

Viver é ir entre o que vive.
O que vive incomoda de vida
o silêncio, o sono, o corpo que
sonhou cortar-se roupas de nuvens.

O que vive choca, tem dentes,
arestas, é espesso.

O que vive é espesso como um cão,
um homem, como aquele rio.

Como todo o real é espesso.
Aquele rio é espesso e real.

Como uma maçã é espessa.
Como um cachorro é mais
espesso do que uma maçã.

Como é mais espesso
o sangue do cachorro
do que o próprio cachorro.

Como é mais espesso
um homem do que o sangue
de um cachorro.

Como é muito mais espesso
o sangue de um homem
do que o sonho de um homem.

Espesso como uma maçã
é espessa.
Como uma maçã é muito
mais espessa se um homem
a come do que se um homem a vê.

Como é ainda mais espessa
se a fome a come.
Como é ainda muito mais espessa
se não a pode comer
a fome que a vê.

Aquele rio é espesso
como o real mais espesso.

Espesso por sua paisagem espessa,
onde a fome estende
seus batalhões de secretas
e íntimas formigas.

E espesso por sua fábula espessa;
pelo fluir de suas geléias de terra;
ao parir suas ilhas negras de terra.

Porque é muito mais espessa
a vida que se desdobra em mais vida,
como uma fruta é mais espessa
que sua flor; como a árvore
é mais espessa que sua semente;
como a flor é mais espessa
que sua árvore, etc. etc.

Espesso, porque é mais espessa
a vida que se luta cada dia,
o dia que se adquire cada dia
(como uma ave que vai
cada segundo conquistando seu vôo).

João Cabral de Melo Neto
"O Cão sem Plumas"In Poesias Completas

(1940-1965) José Olympio, 3a. ed., 1979

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