sábado, 22 de maio de 2010

bela mais que bela qual será o nome dela?




coloco em tuas mãos
quatro rosas de vento
skol vodka ice
e um desejo abstrato
nesse poema concreto

deixo em tuas mãos
a flor e o objeto
além meus olhos sedentos
nestes teus dedos de louça

bela mais que bela
ninguém sabe o nome dela

1

bebo em teus olhos serenos
o líquido que ele olha

minha língua molha
onde a tua bebe
música
que chove lá fora

2

este piercing
em teu nariz

me dói
não ser meus dedos

poemas em tua boca
pronomes em tua fala

por entre cores e nomes
um disco de Cássia Eller
tocando na tua sala

3

dama da noite
bela
onde será teu endereço?

cão vadio que sou
vou latir em tua porta
proteger tua morada

catar estrelas cadentes
brincar de são Jorge na lua
onde mordo o dragão da maldade
e te beijo vestida de nua


brazilíricas

um tapa no branco
tragado no preto
como instante opus
ópio de pessoa
como fiapo de manga
entrelaçado nos dentes


não quero que você pense que eu não penso
quando abro o chuveiro agulha perfurando o rosto como água

um grande abraço ao Luizz e ao Filipe pela presença luxuosa ontem comigo no palco da III Feira RSE Bacia de Campos em Macaé, (Salve Martinho Santafé e sua Visão Social), um grande abraço também ao Ginaldo Sousa, Renato Teixeira, Chico de Aguiar, Gianino Sossai. Fulinaíma mais uma vez despejando poesia e blues às margens do atlântico. E hoje tem Avyadores no Espaço da Bola, ensaio aberto a partir das 15:30h vamos lá.

I Wonder, Background, Morning Dies, Build A New Life, Fate, Cliff, não sabe o que é? São as 6 faixas/porradas do EP down yard, da banda Riverdies: Fil Buc, Alex Melch, Leo Graterol, Gui Farizelli e Victor, não estão pra brincadeira, é rock na veia.

RAVEL


Todo telefone é terrível -
negro guerrilheiro, à escuta na sala
disfarçado ao lado do sofá à espera,
no gancho sempre na véspera
com o grampo da granada já nos dentes.
A única saída é ocupá-lo
para que não estoure
(não posso te agarrar aqui
nem pelos fios dos cabelos
pare antes que toque
e o infinito acabe).
Todo terrível é telefone - negro
à escuta guerrilheiro à espera
ao lado do sofá disfarçado
na sala na véspera da granada
com o grampo nos dentes
fora do gancho
ocupando a única saída
para que não estoure
(não posso nem pelos cabelos
antes que acabe e toque
o infinito, te agarrar, nos fios,
pare daí).

armando freitas filho



ESTAR ESTANDO

A impressão de estar, o lento
espanto que se repete. Aqui e onde, eis como
povôo ao mesmo tempo dois espaços
ou, mais que isso, passo a noite inteira
vivendo as sensações de um fragmento
que me é próprio, ou é-me o corpo todo,
e de repente vai sem deixar marca
entre o que foi e o há de ser. Deslizo
nessa fronteira vã que não separa
nada e ninguém, passado nem presente, simples
e uniforme
faixa de areia da qual jorram palavras,
visões, retratos, intenções. É sempre agora
e nunca, sempre sono e manhã, sempre uma coisa
que num jogo dual se nulifica
para sobrar de nós sempre esse caldo
de frustração e medo - ou de esperança.


PAISAGEM VOANDO PARA O ORGASMO

Trens sonolentos resfolegam
na gare do escuro rostos antigos se alumbram
e nos sorriem discreta-
mente a razão se estilhaça os sentidos
se destapam os cheiros se condensam os sabores
se associam ao cuspe a vida nos penetra o vento
nos penteia e espalha
por coloridas areias os dias nos dividem
os horários nos limitam a memória escasseia o mar
devolve ondas vazias
em que já fomos levados
nas noites frias de outrora o outro espia o outro espera o outro
nos sedimenta em nosso desvario
e ensina um corpo à solidão
o outro ampara a nossa queda beija
nossos pudores e a boca
sempre entupida de espanto o canto explode
o gato canta a cama range o ar se fende o riso
nos comunica o gosto diferente
desse gesto largado o riso alarga eleva desarruma as gavetas
de nossa servidão coitidiana.


MISSAL SEM CERIMÔNIA

Certo ar de falência, certa estrela
na testa, certa sorte bifronte, certos
objetos entesourados
no fundo de uma mala, certa mágoa
ambígua, o som de certos ambientes, a
impressão incerta de estar numa
travessia sem freios, a defesa
de certos itens na lembrança
caolha, certos
calafrios sem causa, o grau
de inocência e tristeza em certas horas
sombrias, a importância de certos
detalhes, a pergunta não-feita e sua certa
resposta incerta, o brilho
anterior a certos sinais dados
pela palavra espanto.

Leonardo Froes


Extraído de FRÓES, Leonardo.
ESQUECI DE AVISAR QUE ESTOU VIVO.
Rio de Janeiro: Artenova;
Brasília: INL, 1973. 46 p.

METACOMEDIA

a boca da rua aberta comia amor e pipoca
depois ia cuspir um cavalo na cabeça da fila
fálica do sono dos ônibus com olhos-engates
gozadamente se cumprimentando sorrindo
na crina da velocidade sem meta, e motos
raspavam na brecha roxa da nicotina contida
em cada beijo de sorvete-soquéte uma vitrine
de meias tardes fantas meias tintas vontades
adocicadas de passar escorrer iluminar
de pipoca gratuita o mar das caras
fechadas de madames-fachadas que também
ali seriam derretidas virando
uma esquina e papéis, cavalo e motos, rótulos
puxados para Jogo esquecer qualquer lugar
na platéia da boca: aplausos falas urros
sarros corridos entre os carros e a lua
vigésima de neoplástico imposta aos pés doídos
de todos os que estavam vagindo
vagando
vertendo, do mistério do céu, seu pó mais fino
que não tinha função e no entanto moldava
essa nossa comédia que é o pão dos divinos.


EU E OS CABIDES DO DESTINO

tudo cedo parado: e eu novamente confuso
usando a roupa de um fantasma tremido suando
de andar por dentro de uma árvore aberta
muito imprecisa e sem qualquer novidade
que fosse idêntica às dentadas do sono
ou aos cabides do destino abalados
pelo sinal de alguém entrando tremido
gemer no meu desejo dançado assim que eu
próprio pensando amargurado o mastigue
sentidamente absoluto e marcado usando
o tição da roupa etérea de um tardo
fantasma juvenil que me devora também
suando de andar no caule ambíguo dos meus
braços longos e rasos
rasos e longos
na tentativa de virar uma árvore onde
antes havia simplesmente essa dúvida
de dar ou receber os meus frutos
que são pessoas fugitivas do acaso.


A POESIA E A MATANÇA DOS MOSQUITOS

Cada poema original que escrevo à máquina contém pelo menos 2 ou 3
cadáveres de mosquitos esfregados no rolo.
Isso porque escrevo muito de madrugada com a luz acesa .
Antes de amanhecer eu apago para espiar a mutação de cores.
Meu editor um dia vai receber a coleção completa.
Parece que Pablo Neruda colecionava por sua vez caramujos.
Uma senhora que me visitou outro dia achou que tenho alma de artista.
Como as pessoas são boas observadoras agora.
Os meus cachorros latem muito de noite quando estou escrevendo.
Eu acho isso muito chato porque fico tenso.
Às vezes eu penso que vai sair do mato um macacão enorme.


Extraídos de FROES, Leonardo.
ASSIM MISSA. Rio de Janeiro:
Xanadu, 1986. 78 p.

De ARGUMENTOS INVISÍVEIS
Rio de Janeiro: Rocco, 1995
.ISBN 85-325-0576-7

“Todo grande poeta — e Leonardo Fróes, sem favor algum, é um deles — se renova na repetição, no aprofundamento de seus temas e problemas, na cristalização de sua linguagem e de seu estilo.”

Ivan Junqueira, da Academia Brasileira de Letras


DIA DE DILÚVIO


Quando chove assim tão seguidamente na serra
e começa a pingar água na casa e a goteira
cresce e a pia entope e alaga o chão,
quando não cessa esse barulho insistente
de água penetrando em tudo e rolando,
sinto uma desproteção total violenta
e eu mesmo sendo dissolvido também
nessa casa alagada, não me acho
enquanto solidez: vou flutuando
como onda inconstante na correnteza.


UM PASTEL CHEIO DE DEDOS

Antes de chegar a Jardel, parei para comer um pastel
do qual, quando mordi, saíram pernas bonitas
de garotas fritas, mais um caroço de azeitona que comi também
sem pensar que loucura
um pastel erótico sentimental com cerveja que espremia
não só as pernas como também braços e cabelos no balcão do bar
eu não sabia se pedia um pano um balaio
comecei a ficar encabulado de tantas de uma só mordida
não sabia se botava no bolso ou se distribuía na rua
deus do céu que situação penosa
corpos em quantidade escorrendo do recheio de queijo
pela comissura dos lábios,
e eu, em terra estranha, tendo de parecer que era apenas
um idiota se babando com pastel fresco.

Leonardo Froes



RICARDO LIMA

formigas
dominam a tarde
de sol
arco-íris
e sabonete

dia simples
coisa de feijão
pé descalço

algumas árvores
para pássaros
e o destempero
das horas
martela sombras
no telhado

*
lavar prato
com prudência
caiar paredes
com tempero
respirar
no fim do dia

não ter sede
mas ágata palha
e pássaros
pra enfeitar espantalho

calar e cantar sempre
novos desertos
e azul claro


Ricardo Lima nasceu em Jardinópolis (SP), em 17 de novembro de 1966. Publicou Primeiro segundo (Arte Pau-Brasil, SP, 1994), Chave de ferrugem (Nankin, SP, 1999) e Cinza ensolarada (Azougue, RJ, 2003). Os poemas acima integram o livro Impuro silêncio, editora Azougue, 2006. É jornalista e vive em Campinas (SP).

Invenções de Orfeu

Canto III
Poemas relativos

I

Caída a noite
o mar se esvai,
aquele monte
desaba e cai
silentemente.

Bronzes diluídos
já não são vozes,
seres na estrada
nem são fantas
mas,
aves nos ramos
inexistentes;
tranças noturnas
mais que impalpáveis,
gatos nem gatos,
nem os pés no ar,
nem os silêncios.

O sono está.
E um homem dorme.

II

Queres ler o que
tão só se entrelê
e o resto em ti está?
Flor no ar sem umbela
nem tua lapela;
flor que sem nós há.

Subitamente olhas:
nem lês nem desfolhas;
folha, flor, tiveste-as.

E nem as tocaste:
folha e flor. Tu - haste,
elas reais, mas réstias.

III

qualquer voz alou-se
muito desejada.
Branco fosse o espaço
e ela ardente cor.

Quis o espaço a voz
a voz veio e ampliou-o.
Mas se não houvesse
propriamente voz...
Vamos nós supô-los:
dois sem seus sentidos.

Desejemos mesmo
dois incompreensíveis.
Bom nos ecoarmos
na voz recebida.

E o espaço esvaziado
povoá-lo de vez.

Amá-los tão sem
amada presença,
só com o coração
sem correspondência,
só com a vocação
do verso feliz.

IV

Numas noites chegamos à janela,
e as mandíbulas do ar tanto nos roem,
que os leitos rotos logo deliqüescem
com os nossos corpos complacentemente.

Certos dias olhamos o sol claro;
e a boca hiante das cores nos devora
carnes e sangues, poeiras de costelas,
que ficamos inúteis, sem matéria.

Essas bocas nos sugam noite e dia,
vigiando dia e noite nossas vidas
um minuto no espaço, menos que ai
de chumbo soluçado nos silêncios,
ou cal de fome longa, revelada,
na noite igual ao dia, de tão gêmeos.

V

Agora o sem senso
sorriso nos ares,
minha alma perdida,
os vales lá embaixo
de minhas lonjuras
de não existido,
parado nos antes,
nem sei de pecados,
nem sei de mim mesmo,
eu mesmo não sou
nem nada me vê;
ausentes palavras
não soam no vácuo
dos antes das coisas,
das coisas sem nexo,
nem fluidos.

Só o Verbo
chorando por mim.

VI

Agora, escutai-me
que eu falo de mim;
ouvi que sou eu,
sou eu, eu em mim;
tocai esses cravosj
á feitos pra mim,
suores de sangue,
pressuados sem poros
verônica herdada.
sem face do ser.

Embora; escutai-me,
que eu falo com a voz
inata que diz
que a voz não é essa
que fala por mim,
talvez minha fala
saída de ti.

VII

Alegria achareis neste poema
como poema ilícito, como um
corpo casual ou vão, como a memória
dura e acídula, como um homem se
conhece respirando, ou como quando
se entristece sem causa ou se doente,
ou se lavando sempre ou comparando-se
às dimensões das coisas relativas;
ou como sente os ombros de seu ser,
transmitidos e opacos, e os avós
responsabilizando-se presentes.

São alegrias rápidas.
Lugares,reencontrados países, becos, passos
sob as chuvas que não vos molharão.

VIII

Se falta alguém nesses versos
pele vento interminável,
pelas arenas de estátuas,
sucedam-lhe os cegos olhos
sacudidos pelos medos,
mãos de chuvas lhe inteiricem
o corpo com algas remissas
e com matérias tranqüilas
tão soturna como os poços,
exasperados invernos,
ombros de escova comida,
as asas secas caídas,
ante seus netos calados;
e incorporem-se a esse alvitre
esse sabor de cortiça,
essas esponjas morridas,
essas marés estanhadas,
essas escunas de espáduas
estritamente fechadas
como casas de abandono,
restringem-se os conciliábulos,
certos sigilos de pez,
certas coisas enlutadas,
refúgios, dramas ocultos,
pois as rosas são de trapos
e os fios menos que teias,
menos que finos agora,
e as camisas sem os pêlos
enterrados nas ilhargas,
vestem enganos e punhos
e crimes em vez de adegas,
mas tudo em vão, mesmo as plumas,
mesmo os ausentes e as vozes
aderidas a fragmentos
aí moram degredadas,
listrando as grades, de faces
que não conhecem espelhos

IX

Numa hora perdida cantos doeram.Os desejos
E flores despenteadas, flores largas e a barbárie
e inconfidentes quase abominadas dos corpos.
por oculta paixão, se intumesceram.

E a relatividadedo espírito
Lírios eram pilares de cristal sob o cerco
subindo para as aves; então dardos da matéria.
desceram sobre os mais amados colos
cantando amor com seus sentimentos.

Canção melhor. Mais consentimentos puros olhos.
Eusei de cor os rebanhos, e olho o mundo.
Tudo contém pequenas doces máscaras.
Mas da selva selvagem desce o pranto
dos que mastigam suas próprias fomes,
sem saliva de pão, e o gosto ausente.

Ninguém consegue assim amar os lírios.
E esse amor é amaríssimo e adstringente
com a memória das dores engolidas.

X

Vós não viveis sozinhos
os outros vos invadem
felizes convivências
agregações incômodas
enfim ambientalismos,
e tudo subsistências
e mais comunidades;
e tantas ventanias
acotovelamentos,
desgastes de antemão,
acréscimos depois,
depois substituições,
a massa vos tragando,
as coisas vos bisando;
os hábitos, os vícios,
as moças embutidas
mudando vossas cartas;
sereis administrados
no sono e nos pecados,
vós mapas e diagramas
com várias delinqüências,
e insanidades várias,
dosando o vosso espaço,
pesando o vosso pão
de tempos racionados;
e não tereis vivido
e não tereis amado,
porém sereis morrido.

XI

Éreis vós Tiago, Diogo, Jaques, Jaime?
Clodoveu ou Clodovigo?
Éreis vós por acaso eles?
Éreis vós aqueles nomes,
estes, e os demais já mortos,
os mortos tão renovados
nós mesmos sempre chamados
Lútero, Lotário, otário,
sim otário tão singelo,
tão puro de todo o mal,
relativo, universal.

Éreis vós Tiago, Diogo, Jaques, Jaime?
Dizei-me se acaso vós
éreis eles ou voz sou
de algum avô tão otário,
tão eu mesmo como voz,
como poema de outros vários.

XII

O simples arde uma só corda
em curta raia,mão de menino,
punhado escasso,
ar perfumado,
sem o alvoroçodos vendavais;
anjo acolhidoem róseo céu
abrigo instante,
pranto lavado,
chorar em tide arrependido,
subir teus vales,
amar teu pólen,
nunca escapar-mede tuas pétalas
cair com elas.

XIII

Uma janela aberta
e um simples rosto hirto,
e que provavelmente
nela se debruçou;
e nesse gesto puro
do rosto na janela
estava todo o poema
que ninguém escutou;
só a janela aberta
e o espaço dentro dela
que o tempo atravessou.

XIV

O contro era um dia,
um dia futuro,
e dentro do dia
incluído o conforme,
e dentro o que foi
porque fora isso
se tal não se dera,
se o mundo parasse
e o espaço se excluísse;
se a pedra não fosse
o símbolo que era
pois tudo era um dia,
um dia sem dia,
porém com o poeta
que um dia seria.

XV

De manhã estrelas verdes
na inocência do ar coleado,
intranqüilas e veementes.
Ao zênite e areia em sede,
asas das hastes pendidas,
as nuvens-castelas altas
como painas amealhadas.

De tarde a visão das velas,
nuvens baixas sobre as verdes
rosas das hastes fictícias;
os desejos dissolvidosre
pousam abertamente;
e esse deserto de vozes
e estes cabelos perenes
de seus nervos para os dramas.

Mas se as palmas fossem isso,
as fontes seriam pratas,
e as pratas seriam o
puro sonho de quem vive.

Todavia o sonho é como
as palmas dessas palmeiras.
Eis as palmas.

XVI

Os dois ponteiros
rodam e rodam,
mostrando o horário
irregular.

Horas inteiras
despedaçadas,
horas mais horas
desmesuradas.

Com seu compasso,
lá vem a morte
pra teu transporte,
e com os dois braços:
esta é tua hora,
levo-te agora.

XVII

Um te exalou
nessa incidência:
céu, terra, mar;
impermanência.

Outro te andoute indo e te vindo
pra te juntares,
te convergindo
Quem te volou,
esse te deu
o sono no ar.

Esse te entoou
e te nasceu
sem te acordar.

XVIII

No dia seguinte:
chamamos de terra,
o poema te leva
te dana, te agita,
te vinca de cruzes,
te envolve de nuvens.

Quem sabe aonde vai
parar no outro dia?

XIX

Roteiros vencidos
compassam a festa:
a noiva está fria
no véu lamentado.

Três potros desfraldam-se
três faces transcorrem
no coche morrido,
em vão galopado.

O nome do noivo?
O nome da noiva?
O nome do diabo?
Três nomes corridos,
três sombras penadas
no drama calado.

XX

Aqui e ali
me encontrareis,
entre um poema
ou em seu curso,
além e aquém,
oculto e claro,
vivo ou demente,
ou mesmo morto,
ou renascido
como meu sósia,
intermitente,
ferida tórpida.

pulso de febre,
nesse cavalo,
naquela tinta,
naquele poema
quase alicerce,
quase esse infante,
esse anjo surdo.

Ia esquecendo:
eu e meu sósia
somos momentos
entrelaçados.

Ei-lo veemente
volta a seu palco,
sobe a uma origem,
desce de novo,
envolto ou nu,
esse homem gêmeo,
jamais verdugo,
mas palma incerta,
sendo meu pai,
meu filho e neto
e aquele longe
porém limiar,
malgrado e clâmide
aberta e alípede,
foi argonauta,
podia se-lose esse jacinto
não fosse canto,
canto de galo
crepuscular,
profusamente
cedo se oculta
por essas laudas
sem perceber
seu fácil ímpeto
ante a palavra
visualizada;
mas de repente
desaparece.

Agora eu surjo
naquela esquina,
naquele pórtico
falam de mim;
ouço transido
esses vocábulos
desconhecidos,
emerjo em rios
que vão passar,
mergulho em rumos
acontecidos,
sucedo em mim,
depois vou indo
fundo e arrastado
na correnteza
que é de repentes.

Morto incorrupto
guardo meus naipes
mais pressentidos,
intercadentes,
desordenados,
não há atavios,
não há disfarces,
dissolução
dos prantos largos
manando laivos,l
anhando aspectos;
desacredito-me
perante os leves,
nem sabedor
de alas longevas,
se o porvindouro
é puro exórdio
precocemente
desencantado;
se os seus presságios
remanescidos,
salvo-condutos
manifestados;
correm desvios
vulgares trilhos,
que todavia
prossigo em mim,
minha progênie,
uns dementados,
outros co-réus,
reconciliando-me
com os mutilados
e este glossário
que é de meu sósia;
abastecido
alego dores,
crescentes cargas;
me patenteio,
fico exaltado
sem parecer;
depois me espreito
na curva adiante,
simbolizado,
metade em mim
inda nascendo,
a outra metade
superlotada;
então me sano
excluindo as nucas
executáveis;
não evidentes
nem aberrante
me envolvo de alma,
doce alimária
com alguns anexos
aparelhados
para colher
belas paisagens
e outros petrechos do sósia amado;
quero sofrer-me,
quero imitar-me,
fico enpunhado
meu corpo no ar,
dependurado,
meio aderido
a alguns palhaços
insimulados,
portanto, instáveis,
muito insossos,
muitos até
beatificados;
ventos corteses
bem-parecidos
vêm agitar
nosso espantalho,
enquanto as aves
canoramente
se desaninham
de nossos braços,
ossos atados
a chão deitados,
chãos contestados
por figadais,
mas afinal
chãos estrelados
de algumas plantas
ambicionadas
por umas moças
que andando sós
se despetalam
e virar brisas,
fagueiras asas,
pelas janelas
passam nos vidros,
vão aos relógios
param os cucos,
e a vila fica
inteiriçada.
dormindo dentro
desse poema
recomeçado
por novo sósia.

XXI

As portas finais,
os cantos iguais,
os pontos cardeais,
sempre obsidionais.

Os tempos anuais,
as faces glaciais,
as culpas filiais
sempre obsidionais.

Os dois iniciais,
as dores tais quais,
os juízos finais
sempre obsidionais.

XXII

Era uma vinda,
dadas as luzes,
dadas as faces
que ali se achavam,
nenhuma espúria,
nenhuma enferma,
dadas as cores,
dadas as falas
que ali se achavam;
dadas as provas
dessas presenças
deu-se o milagre
em aços doces,
em gumes brandos
em chamas graves;
formou-se um gênio
pentangular
que começava
com a estrela Vésper,
riscando a noite
sem se acabar;
formou-se um lírio
na suave treva,
gerou-se um grito
de tantas vozes,
criou-se um fogo
correspondente,
jorrou-se um pranto
desabitado.

Era uma tarde:
ninguém sabia
o que no mundo
ia acabar.

Sei que houve portas
escancaradas,
sei que houve apelos
antiencarnados.

E houve um dilúvio,
mas era um fogo
desabrochado.

XVIII

Quando menos se pensa
a sextina é suspensa.

E o júbilo mais forte
tal qual a taça fruída,
antes que para a morte
vá o réu da curta vida.

Ninguém pediu a vida
ao nume que em nós pensa.

Ai carne dada à morte!
morte jamais suspensa
a taça sempre fruída
última, única e forte.

Orfeu e o estro mais forte
dentro da curta vida
a taça toda fruída,
fronte que já não pensa
canção erma, suspensa,
Orfeu diante da morte.

Vida, paixão e morte,
- taças ao fraco e ao forte,taças -
vida suspensa.
Passa-se a frágil vida,
e a taça que se pensa
eis rápida fruída.

Abandonada, fruída,
esvaziada na morte,
Orfeu já não mais pensa,
Calado o canto forte
em cantochão da vida,
cortada ária, suspensa.

Lira de Orfeu. Suspensa!
Suspensa! Ária fruída,
sextina artes da vida
ser rimada na morte.

Eis tua rima forte:
rima que mais se pensa.

XXIV

A sextina começa
de novo uma ária espessa,
(sextina da procura!)
Eurídice nas trevas,
Ó Eurídice obscura.

Eva entre as outras Evas.
Repousai aves, Evas,
que a busca recomeçar
cada vez mais obscura
da visão mais espessa
repousada nas trevas

Ah! difícil procura!
Incessante procura
entre noturnas Evas,
entre divinas trevas,
Eurídice começa
a trajetória espessa,
a trajetória obscura.

Desceu à pátria obscura
em que não se procura
alguém na sombra espessa
e onde sombras são Evas,
e onde ninguém começa,
mas tudo acaba em trevas.

Infernos, Evas, trevas,
lua submersa e obscura.
Aí a ária começa,
e não finda a procura
entre as celeste Evas
a Eva da terra espessa.

Eurídice, Eva espessa,
musa de doces trevas,
mais que todas as Evas
-musa obscura, Eva obscura;
sextina que procura
acabar, e começa.

XXV

A musa
A barba tão preta que era azul,
morta que as amantes tão ruivas que eram nulas
vem de Amara onze e mais uma, numa só
outros morta, em alma, sem cadáver, sem
livros tumba, e que amara - morta, morta, morta.

XXVI

Sombra encantada, declinara
num vago dia, incerto dia.
Eis uma deusa, pelos gestos,
por sua dança, sua órbita.

Era preciso compreendê-la,
mas quando nós a avizinhávamos,
a deusa arisca recuava.

Se nós recuávamos, voltava
ao nosso encontro, sem tocar-nos.
Então corríamos, devassos,
quase enlaçando-a: ela fugia.

Era uma deusa pelos modos
com que mentia e se ausentava.

Mas outro dia, vago dia,
abrutamente a aprisionamos.
O que tu és, deusa, ignoramos,
mas desejamos, qualquer coisa
fazer de ti, terror ou júbilo
ou nossa vênus favorável
ou nossa esfera de vocábulos.

Ela chorava, não queria;
e o pranto logo dissolvia.
Então descemos, ventre abaixo
e renascemos de seu sexo,
- trânsito virgem de palavras.

Era uma deusa, pela fúria
com que nós todos a ultrajamos.
Era uma deusa e não sabíamos
se cada qual mesmo a violou.

Era uma deusa, pela dúvida
que em cada um de nós, deixou.

XXVII

Contemplar o jardim além do odor
e a mulher silenciosa entre semblantes,
e refazê-los todos, todos antes
que o tempo condenado os atraiçoe.
Porque eu quero, em memória refazê-los: À procura da
flor longínqua, mulher, não pertencida,
face perdidasubstância inexistente, móvel vida,
intercessão de nadas e cabelos.
E meus olhos ausentes me espiando
entre as coisas caducas e fugazes
a minha intercessão em outras faces.
Orfeu, para conhecer teu espetáculo,
em que queres senhor, que eu me transforme,
ou me forme de novo, em que outro oráculo?

jorge de lima


em qualquer esquina as 4 da madrugada tem um poeta bêbado de uísque traição e metáforas com seus olhos de vidro olhando a folha seca na calçada quando ela salta do ar feito brisa e voa entre os arc0s da lapa



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