quarta-feira, 26 de maio de 2010

Glauber Rocha 29 anos depois






O cineasta Glauber Rocha poderá ser reconhecido como anistiado 29 anos após sua morte


Processo que concede anistia a
Glauber Rocha será julgado hoje na BA

Especial para o UOL Notícias
Em Salvador

Quase 29 anos após a sua morte, o cineasta baiano Glauber Rocha (1939-1981) deverá ser reconhecido como anistiado político pelo Ministério da Justiça nesta quarta-feira (26), em

Salvador (BA). O julgamento do processo iniciado por Paloma Rocha, filha do cineasta, em 17 de maio de 2006, será concluído pela Comissão de Anistia no teatro Vila Velha, no centro da capital baiana.
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De acordo com os autos, Glauber sofreu censura e perseguição “em sua produção criativa” durante a ditadura militar (1964-1985). Pela lei 10.559/2002, todas as pessoas que sofreram perseguição entre 18 de setembro de 1946 e 5 de outubro de 1988 podem ser anistiadas. As motivações devem ser exclusivamente políticas e não há prescrição para o requerimento das reparações. Apesar da expectativa, ainda não foi definido se os familiares de Glauber terão direito à indenização.

Nascido em Vitória da Conquista (505 km de Salvador), Glauber Rocha é considerado um dos principais representantes do Cinema Novo. Trabalhou como jornalista e editor de um suplemento literário em Salvador e começou a se dedicar ao cinema no final da década de 50, quando fez “Pátio”. Nos anos 60, intensificou sua produção cinematográfica com “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, “Terra em Transe” e “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro”, entre outros.

Outros anistiados célebres
Além do cineasta, o Ministério da Justiça já concedeu a anistia a outras personalidades. Em 2008, os escritores Ziraldo Alves Pinto e Sérgio de Magalhães Gomes Jaguaribe, o Jaguar, receberam uma pensão vitalícia de R$ 4.375,88 e uma indenização de R$ 1.027.383,29 e R$ 1.000.253,24, respectivamente.
Em abril deste ano, o dramaturgo José Celso Martinez Corrêa foi contemplado com uma pensão vitalícia de R$ 5.000 e mais R$ 569.083,33 retroativos.
Segundo o ministério, cerca de 55 mil solicitações de anistia já foram julgadas pela comissão. Do total, 14 mil casos receberam algum tipo de reparação econômica e 18,5 mil pedidos foram negados. Em outros 22,5 mil processos, o Estado pediu desculpas aos atingidos.

Há ainda 11 mil processos aguardando definição em primeira instância e mais 3.500 com solicitação de recurso.

Com as indenizações, o governo já desembolsou R$ 2,4 bilhões. Para o cálculo das indenizações são levadas em consideração duas situações: um para quem não tinha vínculo laboral na época –cujo valor pode ser de até 30 salários mínimos por ano de perseguição, até um limite total de R$ 100 mil–, e outro para quem tinha trabalho, ou seja, é levado em consideração a possível progressão na carreira –essa categoria não tem limite de indenização.


Biografia


Filho de Adamastor Bráulio Silva Rocha e de Lúcia Mendes de Andrade Rocha, Glauber Rocha nasceu na cidade de Vitória da Conquista, sudoeste da Bahia.
Foi criado na religião da mãe, que era protestante, membro da
Igreja Presbiteriana por ação de missionários americanos da Missão Brasil Central.
Alfabetizado pela mãe, estudou no Colégio do Padre Palmeira - instituição transplantada pelo padre Luís Soares Palmeira de Caetité (então o principal núcleo cultural do interior do Estado).
Em
1947 mudou-se com a família para Salvador, onde seguiu os estudos no Colégio 2 de Julho, dirigido pela Missão Presbiteriana, ainda hoje uma das principais escolas da cidade.
Ali, escrevendo e atuando numa peça, seu talento e vocação foram revelados para as
artes performativas. Participou em programas de rádio, grupos de teatro e cinema amadores, e até do movimento estudantil, curiosamente ligado ao Integralismo[carece de fontes?].
Começou a realizar filmagens (seu filme Pátio, de 1959, ao mesmo tempo em que ingressou na Faculdade de Direito da Bahia (hoje da Universidade Federal da Bahia, entre 1959 a 1961), que logo abandonou para iniciar uma breve carreira jornalística, em que o foco era sempre sua paixão pelo cinema. Da faculdade foi o seu namoro e casamento com uma colega, Helena Ignez.
Sempre controvertido, escreveu e pensou cinema. Queria uma arte engajada ao pensamento e pregava uma nova estética, uma revisão crítica da realidade. Era visto pela ditadura militar que se instalou no país, em 1964, como um elemento subversivo.
No livro 1968 - O ano que não terminou, Zuenir Ventura registra como foi a primeira vez que Glauber fez uso da maconha, bem como o fato de, segundo Glauber, esta droga ter seu consumo introduzido na juventude como parte dos trabalhos da CIA (Agência Americana de Inteligência) no Brasil.
Em 1971, com a radicalização do regime, Glauber partiu para o exílio, de onde nunca retornou totalmente. Em 1977, viveu seu maior trauma: a morte da irmã, a atriz Anecy Rocha, que, aos 34 anos, caiu em um fosso de elevador. Antes, outra irmã dele morreu, aos 11 anos, de leucemia.
Glauber faleceu vítima de septicemia, ou como foi declarado no atestado de óbito, de choque bacteriano, provocado por broncopneumonia que o atacava há mais de um mês, na Clínica Bambina, no
Rio de Janeiro, depois de ter sido transferido de um hospital de Lisboa, capital de Portugal, onde permaneceu 18 dias internado. Residia há meses em Sintra, cidade de veraneio portuguesa, e se preparava para fazer um filme, quando começou a passar mal.
O cineasta
Antes de estrear na realização de uma longa metragem (Barravento, 1962), Glauber Rocha realizou vários curtas-metragens, ao mesmo tempo que se dedicava ao cineclubismo e fundava uma produtora cinematográfica.
Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), Terra em Transe (1967) e O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro (1969) são três filmes paradigmáticos, nos quais uma crítica social feroz se alia a uma forma de filmar que pretendia cortar radicalmente com o estilo importado dos Estados Unidos da América. Essa pretensão era compartilhada pelos outros cineastas do Cinema Novo, corrente artística nacional liderada principalmente por Rocha e grandemente influenciada pelo movimento francês Nouvelle Vague.
Glauber Rocha foi um cineasta controvertido e incompreendido no seu tempo, além de ter sido patrulhado tanto pela direita como pela esquerda brasileira. Ele tinha uma visão apocalíptica de um mundo em constante decadência e toda a sua obra denotava esse seu temor. Para o poeta Ferreira Gullar, "Glauber se consumiu em seu próprio fogo".
Com Barravento ele foi premiado no Festival Internacional de Cinema da Tchecoslováquia em 1963. Um ano depois, com 'Deus e o diabo na terra do sol, ele conquistou o Grande Prêmio no Festival de Cinema Livre da Itália e o Prêmio da Crítica no Festival Internacional de Cinema de Acapulco.
Foi com Terra em Transe que tornou-se reconhecido, conquistando o Prêmio da Crítica do Festival de Cannes, o Prêmio Luis Buñuel na Espanha e o Golfinho de Ouro de melhor filme do ano, no Rio de Janeiro. Outro filme premiado de Glauber foi O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, prêmio de melhor direção no Festival de Cannes e, outra vez, o Prêmio Luiz Buñuel na Espanha.
Inventar-te-ia antes que os outros te transformem num mal-entendido.
Glauber Rocha

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