quinta-feira, 15 de abril de 2010

Edital do MinC causa polêmica entre revistas

O Estado de S. Paulo - SP, Caderno 2, por Jotabê Medeiros, em 18/03/2010

Um edital de apoio do Ministério da Cultura (MinC) está causando protestos no meio intelectual. Trata-se do Edital de Periódicos de Conteúdo Mais Cultura, lançado em 30 de setembro, e que teve 26 publicações habilitadas no último dia 19 de fevereiro. Dessas, apenas 4 serão escolhidas.

O edital destina-se a abastecer bibliotecas públicas, Pontos de Cultura e de Leitura com publicações de natureza cultural (literária, musical, de artes plásticas). Para tanto, vai destinar-lhes R$ 2,1 milhões. Acontece que, entre os selecionados, estão a Rolling Stone, Caros Amigos, Brasileiros, a Piauí, Le Monde Diplomatique e a revista de inglês Speak Up, o que levou concorrentes não habilitados a protestar contra os critérios do edital. Publicações de grandes grupos editoriais, como a Bravo!, também tentaram a seleção (sem sucesso).

Diversas revistas alternativas importantes, a maior parte de literatura, e que penam horrores para chegar a parcos leitores, não foram habilitadas. A falta de apoio tem vitimado várias, caso da Ontem Choveu no Futuro, de Campo Grande, que só teve um número; a Entretanto, do Recife; a Babel, de Santos; a Etcetera e a Oroborus, de Curitiba, e a Pulsar, do Maranhão. Outras, como a Polichinelo do Pará e a Azougue e a Inimigo Rumor, do eixo Rio-São Paulo, resistem a duras penas.

Uma das que saem aos trancos e barrancos (é apoiada por programa da cidade de Londrina, no Paraná) é a Coyote, publicada há 8 anos (sai esta semana a número 20). Ela foi desabilitada pelo edital por não possuir assinaturas individuais. Um dos seus editores, Rodrigo Garcia Lopes, está frustrado com o resultado.

“O edital privilegia revistas comerciais, que estão no mercado, e acaba inviabilizando revistas de conteúdo realmente cultural, de criação. Será que a Rolling Stone, a Speak Up e uma revista como a Piauí, que têm uma infraestrutura por trás, um instituto, realmente precisam de incentivo fiscal? É como se fizesse uma política agrária para o latifúndio e deixasse o pequeno agricultor morrer à míngua. Isso é um erro terrível, num governo popular e democrático como este.”

Marcio Seidenberg, do grupo que edita a Ocas, dize que só soube que a publicação não tinha sido habilitada um dia antes de poder entrar com recurso. A revista é vendida nas ruas e bares. “Não sei exatamente qual é a função do edital, se é levar publicações alternativas às bibliotecas ou revistas consagradas”, ponderou.

O MinC informou que pretende reavaliar o edital numa próxima edição, mas manteve a decisão
da comissão julgadora. Também estuda ampliar o volume de recursos para o edital.

Paulo Leminski:
o elo perdido
da poesia brasileira*
Vivaldo Trindade

"ascensão apogeu e queda da vida paixão e
[morte
do poeta enquanto ser que chora enquanto
chove lá fora e alguém canta
a última esperança de chegar
à estação da luz e pegar o primeiro trem
para muito além das serras que azulam no
[horizonte
e o separam da aurora da sua vida"


Rezam as lendas que em agosto de 1963 um jovem de dezessete anos partiu de Curitiba para Belo Horizonte de carona. Seu intuito era aportar na capital mineira para a Semana Nacional de Poesia de Vanguarda, onde se reuniam Augusto e Haroldo de Campos, Décio Pignatari, Benedito Nunes, Luiz Costa Lima e outros para discutir e lançar um novo programa para a poesia brasileira. O resultado da iniciativa do destemido jovem deu-se um ano depois, quando estreou no quarto número de Invenção, revista propagandista dos concretistas, com cinco poemas. O poeta se chamava Paulo Leminski e, enquanto viveu, foi um dos mais ousados e melhores poetas de seu tempo.

Esta colaboração foi o primeiro de longos e vigorosos passos. Leminski escreveu livros, fez música, jornalismo, lecionou, ingressou na tevê, foi agitador cultural e constituiu-se numa figura emblemática para sua geração. Geração disposta a abandonar os literalismos, a usar seu poder de fogo para questionar e implodir estruturas, estabelecendo e se apropriando de novos focos de comunicação, novas formas de expressão e linguagem. Torquato Neto, Ana Crisitina Cesar e Duda Machado são outros a ocupar a linha de frente deste time de letras.

E pensamos se a projeção alcançada por ele, distinguindo-se dos outros em poder de penetração, não foi justamente por seu dinamismo. Quando Caetano Veloso musicou e gravou uma composição sua, Verdura, no disco Outras Palavras, 1981, Leminski se alça finalmente para o público de massa e, posteriormente, viria a conquistar seguidas reedições de seus livros.

Há quem pense que a poesia vive um momento em que se não submeter-se a outros gêneros morrerá. E há também alguém que pensa que a poesia deixa de ser poesia quando amparada por outros suportes que não o papel ou a tela de um computador. São os arrendatários de títulos nobiliárquicos e os profetas do infortúnio. Dão maior importância ao status que a literatura proporciona do que à própria literatura, pretendem-se heróis e senhores de conhecimentos únicos.

Contudo, para que a palavra permaneça viva, representando os diversos sentimentos das coisas: cheiro, forma, sabor, imagem e som, significando idéias, é preciso que não se desassocie do mundo no qual está inserida, e, sendo, no caso, a literatura brasileira, deve estar ela associada ao Brasil.

Mário Faustino exprimiu com muita felicidade o perfil necessário para o legítimo poeta de uma nação: deveria ele reunir em si os três andrades: a combatividade de Oswald, a erudição de Mário e o fôlego de Carlos Drummond.

Se Paulo Leminski não realizou o sonho de Faustino, pelo menos se aproximou dele, sendo um pouco Mário e Carlos e quase totalmente Oswald. Antes dele, somente Carlos Drummond fora tão completo. Depois dele, ninguém.

É ele uma espécie de elo perdido da poesia brasileira, alguém que se precisa enxergar mas ao qual não se vê nada além de um vulto difuso para o futuro.

Paulo Leminski soube tirar o melhor de suas experiências como matéria de estudo. Dos concretos herdou o gosto pela concisão e a força da imagem sem deixar-se seduzir por um hermetismo de gabinete. Do hai kai moderno, a precisão. Do modernismo, o humor. Dos beatniks, o gosto pela vida e o afrontamento das formas de poder. E mesmo da tradição em que se inscreviam românticos e simbolistas, um idealismo existencialista. Mas o principal no seu apropriamento consiste no uso da linguagem, no "como" ele manuseia a coloquialidade e a oralidade, tal como vemos em um de seus poemas sem título:

este planeta, às vezes, cansa,
almas pretas com suas caras brancas
suas noites de briga braba,
sujas tardes de água mansa,
minutos de luz e pavor
casa cheia de doce,
ondas tinindo de dor,
acabou-se o que era amargo,
pisar este planeta
como quem esmaga uma flor

Ou ainda:

hoje o circo está na cidade
todo mundo me telefonou
hoje eu acho tudo uma preguiça
esses dias de encher lingüiça
entre um triunfo e um waterloo

Assim como é facilmente percebível o diálogo com o momento vivido no clima de tensão e violência de "Como Abater Uma Nuvem a Tiros":

sirenes, bares em chamas,
carros se chocando,
a noite me chama,
a coisa escrita em sangue
nas paredes das danceterias
e dos hospitais,
os poemas incompletos
e o vermelho sempre verde dos sinais

E em como, para ele, o poeta tem de estar engajado na matéria da vida, conforme o manifestado em "Profissão de Febre":

quando chove,
eu chovo,
faz sol,
eu faço,
de noite,
anoiteço,
tem deus,
eu rezo,
não tem,
esqueço,
chove de novo,
de novo, chovo,
assobio no vento,
daqui me vejo,
lá vou eu,
gesto no movimento

E este é um aspecto imprescindível para a poesia de qualquer época. Toda a universalidade de discurso, querendo-se ou não, é advinda desse processo, partindo da vida para a história, ou, no máximo, de uma revisão da história, contextualizando-a no presente, e não o contrário.

Precisamos urgentemente de literatas, artistas e intelectuais comprometidos com o projeto da modernidade. Modernidade no sentido mais nobre da palavra, sem arroubos consumistas de tecnologias ou melancólicos suspiros em volta do passado. Para isso não é necessário desprezar a tradição nem fincar ferros em efemérides. Basta disposição para procurar entender o seu tempo canalizando as causas assumidas no passado e suas possíveis conseqüências no futuro, sem medo de arriscar o uso de novas linguagens ou possuir preconceitos quanto a coloquialidade.

Vivaldo Trindade
Publicado originalmente no site da Verbo, em 23 de Agosto de 2001.


como deixei de ser deus
por Márcio Almeida
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Corre no país o chiste de que 99% dos juízes, promotores, políticos, artistas midiáticos, acadêmicos, jogadores de futebol, pastores e quejandos têm forte propensão a acharem que são Deus. 1% tem certeza.
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O livro de Pedro Maciel (Topbooks, 2009) contém o DNA da nova boa literatura brasileira em nível de narrativa de ficção. Sem favor algum, insere-se Como deixei de ser Deus entre os (poucos) livros realmente inovadores publicados no país na atualidade. Maciel detona o grande código, Deus, e põe em xeque a autoridade dos discursos teológico, filosófico, exegético e literário. Deo gratias.

O autor dialoga com a intertextualidade e, em estilo polissêmico, imprevisível, oferece aforismos e epifanias a leitores bem preparados para impactar novos parâmetros literários, que põem Deus em questão. Como deixei de ser Deus não é um livro para amebas felizes ou o leitorado dos regozijos triunfalistas.

Até mesmo para brincar com Deus é preciso ter competência. Einstein teve. Carl Sagan teve. Maciel tem. Entre o lírico e o retórico, condensado em frases e enunciados pluridiegéticos, o pensado e o irônico, o autor estrutura uma babel com oráculos de ruínas, coralidade de vozes múltiplas, científicas, religiosas, seculares e profanas, datações imprecisas, desconstruções apócrifas, filosofismos metafóricos, tudo com uma única certeza: Deus é a grande ficção.

Maciel faz um livro perquiritivo de Deus sem cair na escatologia, no drama triplo da crise-sentença-vindicação. Sem elucubrações tardo-religiosas metafísicas, teologias de bolso, opondo-se naturalmente à mentalidade confessionalista de gueto. Sem se expor à esparrela dogmática, à doxa dos radicalismos dominicais e dos agnósticos do colunismo jornalístico. Sem mais um apocalipse now ou passadiço, sem posicionar-se como um sempre chatérrimo antichristus mysticus.

Além de passar um tsunami na estrutura canônica do romance, com os seus tradicionais narrador(es), personagens, coadjuvantes, ação em crescendo rumo a um grand finale, desenvolvimento real-imaginário com descrições manjadíssimas, criando uma leitura lúdica como o tabuleiro de xadrez cortaziano em O jogo da amarelinha, p.ex., Maciel põe o "gênero" em pânico e, muito mais do que simplesmente inovar, propõe uma escritura palatável, culmina um livro de leitura saborosa posto que inteligente, sagaz, absorvente como um modess para sangrias mentais desatadas.

Mérito próprio deste livro está em o autor ter formulado uma questão interessante e emblemática até agora não observada em sua fortuna crítica: o narrador, ao deixar de ser Deus, supõe-se o homem capaz de se assumir humano, ser mortal, o que pressupõe, por sua vez, que Deus continue a existir, por isso, Ele é como o inexistente imprescindível, que persiste como objeto de re-flexão.

Maciel projeta-se no livro como um filosoeta que pensa o tempo o tempo todo — o tempo em si, o tempo no tempo, o tempo no espaço, o tempo sem física: não me importo com as coisas perdidas mas com o tempo perdido (p. 21); por enquanto este é ainda o tempo da tragédia, o tempo das morais e das religiões (p. 25); o olho da memória, com o tempo, começa a usar óculos (p. 29); o espírito permanece no tempo e não no espaço. Jamais tive outro cárcere além do meu corpo (p. 31); sobreviver além do meu tempo. O tempo já não me é tão longe de tudo (p. 41); o que perdi senão o tempo? Ninguém viveu no passado, ninguém viverá no futuro; o presente é a forma de toda vida (p. 69); só o tempo chega (p. 77); preciso de tempo para ser breve (p. 79); o tempo sempre anda mais devagar do que o pensamento. pensamos que somos eternos (p. 101); cada tempo é uma história (p. 113); entretempo: sempre penso naquele espaço do tempo entre ser e não ser (p. 119); o tempo vai-se, e os anos chegam... (p. 123).

Tais reflexões não são invencionices, têm uma origem: Maciel treinou a escritura de Como deixei de ser Deus nos últimos anos (ou talvez, a vida toda), publicando breves ensaios nos jornais O Globo, Jornal do Brasil, Folha de São Paulo, Suplemento Literário de Minas Gerais, entre outros veículos, e, hoje, estes são reproduzidos nos sites Cronópios, Digestivo Cultural, Germina — Revista de Literatura e Arte, entre outros, onde apresenta suas fontes epistêmicas básicas. Em relação ao fator tempo, é o caso de Blaise Pascal (1623-1662), a quem dedicou "A transcendência da condição humana", físico e matemático em cuja obra Pensamentos, tenta justificar a fé pela razão. Maciel dixit: Pensamentos é um conjunto de notas e rascunhos que deveria servir para a redação da "Apologia do Cristianismo".

O livro de Maciel tem a mesma estrutura fragmentária e provisória da obra pascalina. Em sua leitura, Maciel como que antecipa seu próprio modus operandi no livro em pauta: "Temos de ser capazes de ver, nos textos incompletos, nas frases interrompidas, na miscelânea dos assuntos, na brevidade das fórmulas, na desordem das citações, a mais profunda meditação que já se fez sobre as tensões que definem as relações entre o homem e a transcendência que o supera pelo terror, pelo temor e pela piedade". Seu livro é isso.

Símbolo caro ao livro, a sombra [a minha sombra nunca usa máscara (p. 43); minha sombra olha por mim (p. 61); sombra, ilusão do tempo (p. 113)] tem referência pinçada no autor de Elogio da sombra, e prova disso é o ensaio macielino intitulado "A eternidade nos labirintos de Borges", justamente sobre Elogio da sombra. Referência por excelência, esse livro é espelho para Maciel, cujo comentário de Borges é também pertinente ao seu próprio livro: "O tempo ensinou-me algumas astúcias: evitar os sinônimos (...) preferir as palavras habituais às palavras assombradas; intercalar em um relato traços circunstanciais, exigidos agora pelo leitor; simular pequenas incertezas, já que, se a realidade é precisa, a memória não o é; narras os fatos (...) como se não os entendesse totalmente".

Maciel cria o epíteto "iluminista das sombras" para João Gilberto Noll, cuja obra comenta na Revista Bravo. Em outro livro, O narrar uma história, no qual Borges afirma: "Acho que o romance está em declínio. Acho que todos aqueles experimentos bastante ousados e interessantes com o romance por exemplo, a ideia de deslocamento temporal, a ideia de a história ser contada por diferentes personagens — todos eles conduzem ao momento em que o romance não estará mais entre nós".

Maciel conscientizou-se da natureza revolucionária do seu romance. Borges pode ter também iniciado Maciel na leitura do tempo e na técnica das citações, pois no citado ensaio, o autor mineiro cita outro aforismo consentâneo à sua dicção intertextual: "Muitas vezes descubro que estou apenas citando algo que li tempos atrás, e isto se torna uma redescoberta".
Muitos aforismos de Como deixei de ser Deus foram originalmente publicados nos seus breves ensaios publicados nos jornais e revistas e reproduzidos atualmente em sites. É só conferir: que quer o tempo? suspirar — que quer o templo? — guardar. Estes, por sua vez, têm procedência em Kafka — Contos, fábulas e aforismos" (tradução de Ênio Silveira, Civilização Brasileira) também objeto de leitura de Maciel).

As incursões de Maciel têm outras procedências e uma delas, com toda certeza, é E. M. Cioran (1911-1995), a quem dedica o breve ensaio "Cioran e a arte da provocação" (clique aqui e leia), comentando o livro Exercícios de admiração, no qual identifica "o autor de aforismos, silogismos e breviários, desvenda o universo literário de Samuel Beckett".

Maciel é o próprio Malone empreendendo em Como deixei de ser Deus "um monólogo após o fim de algum período cósmico", com "a sensação de entrar num universo póstumo, em alguma geografia imaginada por um demônio, livre de tudo, até mesmo de sua maldição". E lá está também Beckett a levar Maciel a pensar o tempo: "O tempo que temos para passar na Terra não é tão longo para que o utilizemos em outra coisa além de nós mesmos".

E essa utilização do tempo em causa própria reflete o que talvez identifique muito o romance macielino, de que, aliás, ele tem amplo conhecimento: o portrait littéraire que, segundo Saint-Beuve, "é uma forma utilizada para produzir nossos próprios sentimentos sobre o mundo e sobre a vida, para exalar com subterfúgio uma certa poesia oculta".

Isso é feito com a "arte da provocação" de Cioran, encontrada também em Baudelaire, nos apócrifos, nos autores da teologia negativa. Ao citar aforismos como peço a Deus que me livre de Deus (p. 53); por que voltar a ser eu mesmo? (p. 59); após certos acessos de eternidade e de febre, nos perguntamos por que razão não nos digamos ser deus (p. 65); Deus não se revela "no" mundo (p. 73); Deus, inspiração dos pirados (p. 85); Deus nada pode sem nós. O sonho de Deus é viver a minha vida (p. 93) et al, literalmente, Maciel provoca: a si mesmo, o leitor, os pensadores oficiais, laicos e seculares — provocar é ensejar o outro a pensar diferente, a pensar a diferença.

Diria, então, Cioran, no recorte macielino: "Competir com Deus, ultrapassá-lo mesmo apenas pela força da linguagem, esta é a proeza do escritor, espécime ambíguo, dilacerado e enfatuado que, livre da sua condição natural, se entregou a uma vertigem magnífica, sempre desconcertante".

Quem tem o hábito de pensar além do próprio espelhumbigo, ao ler o romance de Maciel lembrar-se-á de Rorthy, quando este propõe "abandonar a pretensão metafísica exigida das relações da razão humana com a natureza das coisas", o que implica "na negação da possibilidade de uma compreensão platônica da realidade como a relação entre as ideias e as palavras ou enunciados sobre esta realidade". Por isso, justificando mais uma vez a inovação romanesca de Como deixei de ser Deus, já não sem poder recorrer a fundamentos ou metanarrativas. Em lugar destes recursos, olha Rorthy aí de novo, postula-se na pós-modernidade o conhecimento "contextual", "pragmático", "funcional" e "relativista". Assim, pensar a questão deífica na atualidade implica em optar sine qua non pelo pluralismo e o relativismo, em cujas epistemes a verdade é "aquilo que é vantajoso crer".

Maciel dixit: Platão dispersa sua crença por diversas formas: diz no Timeu que o pai do mundo não pode ser designado; em As leis, que não devemos inquirir sobre seu ser; e em outros momentos, nesses mesmos livros, faz deuses o mundo, o céu, os astros, a terra e nossas almas. Graças a Deus que ninguém é Deus! (p. 19); Perseu, discípulo de Zenão, sustentou que haviam sido cognominados deuses aqueles que trouxeram algum benefício notável para a vida humana ... (p. 23).

A concepção deífica de Maciel, com início nos mitos anímicos e pensares pré-atomistas, cujos elementos forjam o universo, a história, a memória, o esquecimento e a lembrança, se expande como tempo na cosmologia dinâmica e chega à pós-modernidade com a assertiva irrefutável de George Smoot e Keay Davidson em Dobras do tempo (Rocco, 1995): "nenhuma teoria é sagrada" (p. 13). Daí a conclusão do autor pelo viés de Diógenes: Deus é o tempo (p. 21).

Quem estiver mesmo a fim de curtir Como deixei de ser Deus com maior profundidade, valorizando não apenas a magnitude do romance como a si mesmo, como leitor de acuidade, identificará na intertextualidade um Nietzsche nas entrelinhas do eterno retorno do mesmo, da genealogia da moral e do anticristo: por enquanto este é ainda o tempo da tragédia, o tempo das morais e das religiões (p. 25); ele não sabe quem foi, quem é e quem pode ser. às vezes ele olha para si como se ele fosse outro apesar de ser o mesmo de sempre (p. 39); do ponto de vista moral, nós vivemos ainda na era neolítica, quer dizer, não somos completamente rudes e, no entanto, não saímos de um estágio da maior rusticidade ou que possa justificar qualquer celebração (p. 59).

Além da antinomia Deus X ciência, os aforismos macielinos põem na roda da reflexão a enteléquia, que se encontra no todo do livro como ideia de télos do desenvolvimento infinito, da humanidade como infinita razão, entendida como aquilo que ordena necessariamente o homem segundo sua própria decisão: onde eu posso ser apenas um ser abstrato? Quando a palavra recupera o seu sentido exato? (p. 81); sou o Deus de mim mesmo (p. 93); por que tanto esforço em ser como eles? um dia serei eu o outro (p. 109). A dialógica chega também à ascese intramundana bergsoniana, através da desmistificação procedida na linguagem. A propósito,

Como deixei de ser Deus tem muito a ver também com Weber, que pensa o homem entre uma teodiceia do bem (ser humano e ser capaz de se pensar humano e em Deus) e uma teodiceia do sofrimento (saber-se limitado pela finitude, pela racionalidade que provoca a renúncia do homem à transcendência em função de sua sobrevivência): estou a um passo de tornar-me um ser humano. Por muito tempo me sentia como se fosse um deus qualquer (p. 123); ele só recuperou a saúde mental depois de dar adeus aos deuses (p. 127).

O romance de Pedro Maciel permite múltiplas leituras. Do big-bang à teoria de um colapso cosmológico, dele se deduz uma certeza: a de que Deus é sedução. Ele faz pensar. E nisso está o que anima o homem a ir em frente: o deusejo. Mesmo porque, já o disse Robert Milikan — Deus ainda está de serviço. Sirva-se.
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O livro: Pedro Maciel. Como deixei de ser Deus. Rio de Janeiro: Topbooks Editora, 2009.

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