quinta-feira, 15 de abril de 2010

Depois da Guerra

Depois da guerra, regresso.

Um combatente em retirada, que entra pelo portão de uma casa que não é mais sua, embora ainda lhe pertença. As pessoas dali ainda têm o seu sangue, mas acostumaram-se a sua ausência.

Os lençóis já não o reconhecem, os colarinhos e coisas não mais têm o seu cheiro.
Ele mesmo, soldado vencido, já não se encontra mais em si. Não se acha, mesmo quando vasculha, apressado, as gavetas do peito e da própria cabeça. Não reconhece suas novas cicatrizes, não lhe parece familiar a textura da pele nem os calos nas mãos. É alguém que, no cansaço da luta, se fragmentou em mortos e feridos, e mudou na velocidade do disparo de cada bala.

Sou eu esse guerreiro.

Sou eu que reapareço, trazendo comigo pedaços de corpos e almas que não me pertencem, mas agora fazem parte da unidade necessária para que eu me recomponha e, no devido tempo, retorne ao meu campo de batalha.

Ademir Assunção
http://zonabranca.uol.blog.com.br/

Poesia encenada

Já encontram-se abertas as inscrições para o Festival Poesia Encenada do SESC, evento que movimentará a Área de Lazer do SESC Centro João Pessoa entre os dias 18 e 19 de maio próximos. De acordo com os organizadores, o prazo para inscrições vai até o dia 16 de maio e a divulgação dos 30 poemas selecionados será feita no dia 23/05.

Na sexta versão do festival, serão conhecidos as sete (7) melhores apresentações artísticas que reinterpretarão os poemas selecionados, com temário livre, através da avaliação de uma comissão especializada, que mais uma vez mobilizará profissionais do teatro, dança e literatura.

Segundo Ingrid Trigueiro, atriz e diretora “o que se espera mais uma vez é que o evento leve à Área de Lazer apresentações de diversos setores que influenciam o movimento cultural paraibano, especialmente os novos talentos, sejam autores, diretores, atores e atrizes. Na Paraíba aprendemos a nos conhecer também como poetas que somos, e o SESC vem contribuindo para afirmar nosso estado como celeiro de notáveis poetas e artistas”.

O ator Joth Cavalcanti, que já participou de etapas anteriores registra que “após o encontro possibilitado logo no início do ano por meio da montagem da Paixão de Cristo, quando nos juntamos para fazer, na verdade, uma grande confraternização da categoria, vem o SESC tradicionalmente funcionar como mais um abre alas anual do movimento, até mesmo porque o “Poesia” costuma reunir nomes já consagrados e tantos outros novatos que só fazem nos estimular a produzir com mais dedicação e criatividade”.

As sete melhores apresentações avaliadas após as noites de eliminatória (dias 18 e 19/05) e finalíssima (20/05) receberão cada uma dela R$1.000,00. O vencedor do Festival no ano passado foi o poeta Ricardo Lucena, apresentando o poema “A Espera”

As inscrições podem ser feitas no setor cultural do SESC, que fica localizado na Rua Desembargador Souto Maior, 281. Mais informações pelo telefone (83) 3208-3158

Fliporto 2010 troca Porto de Galinhas por Olinda

VI Festa Literária Internacional de Pernambuco: essa é a nova alcunha da Fliporto 2010, que saiu de Porto de Galinhas para aportar no Parque do Carmo, em Olinda. O evento, que acontecerá entre os dias 12 e 15 de novembro, irá homenagear a escritora ucraniana radicada no Brasil, Clarice Lispector, morta em 1977. Além disso, a literatura judaica também ganha destaque nesta edição.

A mudança de local se deu pela intenção de facilitar o acesso do público. A expectativa é de mais de 25 mil pessoas participem da feira deste ano, contra as 15 mil que participaram da edição de 2009. A estrutura se assemelha um pouco com as de grandes feiras, como a de Paraty, no Rio de Janeiro: será montada uma tenda fechada com capacidade para 800 pessoas, na qual irão acontecer as principais palestras, que deverá ter 30 convidados.

Alguns dos autores já confirmados são: o argentino Ricardo Piglia; o escritor canadense Alberto Manguel; Moacyr Scliar e Arnaldo Niskier, ambos pertencentes à Academia Brasileira de Letras (ABL). O coordenador de programação, Mário Hélio, garantiu que a grande preocupação é convidar autores de qualidade, que garantam a grandeza desejada para o evento. É estimado que ocorra o lançamento de pelo menos 50 títulos no decorrer dos quatro dias. Desses, ao menos 30 serão de autores pernambucanos.

Linaldo Guedes
http://linaldoguedes.blog.uol.com.br/

asa
norte

em
meio
aos
hotéis
de um
luxo
fusco
o
passa
redo
in
visível
esc
onde
esc
ombros
de
modern
idade
abando
nada

(lau siqueirapoema vermelho)
http://www.poesia-sim-poesia.blogspot.com/

CÂNONE E ANTICÂNONE (X)

Antero de Quental diz ainda, em A Dignidade das Letras:

"Não, meus senhores. Eu não tomei nas mãos o pendão só pelo amor da destruição.
Menos, a presunção orgulhosa de gladiador novo, cuja audácia impaciente não conhece prudência e procura os mais robustos e aguerridos para o desafio e o combate. Menos ainda, o escândalo. Não, meus amigos. Não vale realmente a pena comover-se a gente quase até a veemência, indignar-se quase até ao sofrimento, chamar a sua inteligência e o seu coração, só para responder com grandes frases a pequenos golpes de gente ainda mais ignorante do que malévola.

(...)

Não foi por isso, pois, que eu intentei fazer desacatando a venerabilidade sacerdotal do sr. Castilho. Não foi defender uma escola, um grupo, uns homens. Foi só defender a liberdade e dignidade do pensamento, que nesse momento se ofendiam na chamada escola de Coimbra, no trabalho de alguns homens (bom ou mau, não curei de o saber) mas trabalho livre, independente, trabalho santo pois, e digno de respeito.

(...)

Sem espírito não há liberdade; sem liberdade, não há espírito. Ora, esta é a alma, a vida, a essência das literaturas, da poesia, da arte, de todo o trabalho do pensamento e da inspiração. Literatura que respeita mais os homens do que a santidade do pensamento, a independência da inspiração; que pede conselho às autoridades encantadas; que depende de um aceno de cabeça dos vizires acadêmicos; essa literatura não é livre – ubi liber tus ibi spiritus – não tem, logo, espírito, não é viva e poética... não existe pois como coisa alta e ideal, isto é, não existe, porque só ideal e alta se concebe literatura e poesia. Bastava-me isto só para condenar o sr. Castilho, as suas doutrinas, o seu procedimento. Se isto é verdade, se não há verdadeira poesia fora desta alta e digna independência, o sr. Castilho é o maior inimigo da poesia portuguesa, porque quer matar nela aquilo que é a sua essência, a sua força, a sua vida.

(...)

O escritor quer o espírito livre de jugos, o pensamento livre de preconceitos e respeitos inúteis, o coração livre de vaidades, intemerato e incorruptível. Só assim serão grandes e fecundas as suas obras.

(...)

Ora concebe-se, já não digo o grande homem, que nem todos podem ser, mas o homem de bem, que todos têm obrigação de ser, pedindo o auxílio de uma autoridade qualquer para pensar, consultando o termômetro da conveniência e aprovação dos mestres para falar, recebendo o santo e a senha como um soldado disciplinado, feito autômato e escravo na coisa espontânea e individual por excelência, o pensamento? Um homem de bem não faz isto: e toda a literatura que o faz é uma desonesta literatura.

(...)

Se a tirania da moda e da opinião é insuportável, não o é menos a dos mestres e das reputações opressivas e orgulhosas; que tendo-se em vista dizer alguma coisa nova, descobrir, não copiar e repetir, bom é que haja liberdade de procurar, que não se perturbe nunca o pesquisador de bem e de verdade, ainda aquele que a pretende encontrarnos desvios mais arredados e estranhos; que se creia no possível e se respeite ainda o erro quando for filho de um desejo tão sincero e de um tão honroso empenho. Ora isto é que não fazem as literaturas oficiais. Não concebem salvação fora do grêmio estreito de suas igrejas, para não dizer capelas e oratórios. Não entendem outras palavras senão as poucas do seu dicionário incompleto e mutilado. Acham que o mundo está todo explorado, todas as ideias, todos os sentimentos, todas as formas, e que tudo isso o têm eles nas suas gavetas e nas suas pastas.

(...)

Isso assim pode ser que seja útil, fácil, vantajoso; pode ser que assim se conquiste a opinião das maiorias boçais, que dão a fama, ou o favor, das minorias inteligentes, que dão alguma coisa melhor do que a fama, que dão a importância, o interesse e o poder. Pode ser que seja hábil isto e até profundo – só não é nem digno nem verdadeiro.Mas são assim as literaturas oficiais, governamentais, subsidiadas, pensionadas, rendosas, para quem o pensamento é um ínfimo meio e não um fim grande e exclusivo; para quem as ideias são uns instrumentos de fortuna mundana, uma ocasião mais de sacrificar as pequenas ou más paixões, em vez de serem uma fortaleza onde se guardem do contato das impurezas e das misérias; para quem esta santa tribuna da palavra não passa de um marco donde lancem o pregão de vergonhosos leilões; para quem a glória é uma especulação feliz, não uma sagrada palma que épreciso colher com mãos puras; para quem, enfim, nobreza, desinteresse, ideal, sinceridade, sacrifício, são apenas boas e sonoras palavras.

(...)

São assim as literaturas oficiais; e o que mais, podem ser doutro modo?

(...)

Como não buscam a verdade pela verdade, a beleza pela beleza, mas só a verdade pelo prêmio e a beleza pelo aplauso, têm de as renegar tantas vezes quantas a beleza não agradar aos olhos embaciados da turba que aplaude, e a verdade ofender os senhores que premeiam e recompensam.”

Claudio Daniel
http://canatarapeledelontra.blogspot.com/

Performances Poéticas e Oficinas no SESC Consolação

Uma observação do poeta, compositor e produtor cultural carioca Chacal deu origem ao projeto que o SESC Consolação realiza a partir de abril: “os jovens poetas, em geral, escrevem bem ou interpretam bem seus poemas. Difícil é juntarem as duas coisas”. É esta, justamente, a idéia da oficina V de Verso - investir na expressão e performance poética, utilizando eventualmente, outras linguagens que apóiem o texto falado. À frente das oficinas estão: o poeta, compositor e produtor cultural Chacal, autor de 14 livros, que há 20 anos dirige no Rio de Janeiro o evento multimídia CEP 20 000; o poeta, locutor, jornalista e produtor cultural Fabio Malavoglia, curador e diretor das Pílulas Poéticas da TV SESC; e o poeta, professor de literatura, crítico e tradutor Fabiano Calixto.

V de Verso terá três módulos: o Errar, o Olhar e a Voz. Ao final de cada um (...) os participantes, ao lado de convidados, vão por em prática o que foi pesquisado na oficina, num Recital Poético, Performático e Musical. Marcando o início do projeto, o SESC promoverá, no dia 15 de março, às 19h30, uma prévia do funcionamento da Oficina: um primeiro recital com Chacal, Fábio Malavoglia, Fabiano Calixto, Ademir Assunção, Bárbara Malavoglia, Pedro Vicente, Rui Mascarenhas, Fernanda D’umbra, Marcelo Montenegro, Fabio Brum e Roberta Estrela D’alva.

PROGRAMA

Abril - O Errar: o incorrer em erro e a errância, a “contribuição milionária de todos os erros” (Oswald de Andrade), as peregrinações literárias (Mário de Andrade, Whitman), o “estar a caminho” (poetas zen, beats), a liberdade necessária para criar.>

Maio - O Olhar: a poesia, “máquina de como ver” (João Cabral), a fanopéia, dança das imagens no poema (Pound), os “poemas kodak” (Oswald).>

Junho - A Voz: o DNA da poesia na oralidade, dos aedos e bardos aos poetas de cordel e ao rap, a função e o impacto da palavra falada, os radiopoemas, poesia e TV.

Marcelo Montenegro
http://marcelomontenegro.blog.uol.com.br/

WALT WITNESS

Como estive pensando em você esta noite, Walt
Whitman, enquanto caminhava pelas ruas sob as
árvores, com dor de cabeça, autoconsciente, olhando a
lua cheia.

No meu cansaço faminto, fazendo o Shopping das
imagens, entrei no supermercado das frutas de néon
sonhando com tuas enumerações!

Que pêssegos e que penumbras! Famílias inteiras
fazendo suas compras à noite! Corredores cheios de
maridos!
Esposas entre os abacates, bebês nos tomates! - e você,
Garcia Lorca, o que fazia lá, no meio das melancias?

Eu o vi Walt Whitman, sem filhos, velho vagabundo
solitário, remexendo nas carnes do refrigerador e
lançando olhares para os garotos da mercearia.

Ouvi-o fazer perguntas a cada um deles; Quem matou as
costeletas de porco? Qual o preço das bananas? Será
você meu Anjo?

Caminhei entre as brilhantes pilhas de latarias,
seguindo-o e sendo seguido na minha imaginação pelo
detetive da loja.

Perambulamos juntos pelos amplos corredores com
nosso passo solitário, provando alcachofras, pegando
cada um dos petiscos gelados e nunca passando pelo
caixa.

Aonde vamos, Walt Whitman? As portas fecharão em
uma hora. Para quais caminhos aponta tua barba esta
noite?

(Toco teu livro e sonho com nossa odisséia no
supermercado e sinto-me absurdo)

Caminharemos a noite toda por solitárias ruas? As
árvores somam sombras às sombras, luzes apagam-se
nas casas, ficaremos ambos sós.

Vaguearemos sonhando com a América perdida do
amor, passando pelos automóveis azuis nas vias
expressas, voltando para nosso silencioso chalé?

Ah, pai querido, barba grisalha, velho e solitário
professor de coragem, qual América era a sua quando
Caronte parou de impelir sua balsa e Você na margem
nevoenta, olhando a barca desaparecer nas negras
águas do Letes?

Um supermercado na Califórnia, de allen ginsberg,
na tradução de claudio willer

Jotabê Medeiros
http://medeirosjotabe.blogspot.com/

Abril Poético 2010

Inicia-se no dia 16 de abril de 2010, a maratona poética/cultural "Abril Poético", percorrendo várias cidades do interior mineiro, o evento coordenado pelo Grupo Cultural Lesma, levanta poeira e poemas, levando arte, poesia e cultura pelas geraes.mais informações e programação em: ABRIL POÉTICO 2010 - Programação

BARKAÇA

É uma publicação (impressa e virtual) alternativa de literatura & artes visuais que se desdobra em exposições itinerantes, navegando sem leme num mar de águas turvas, contra os ventos da pasmaceira cultural, gritando aos olhos dos leitores, para seduzi-los e incomodá-los, assim como um porco espinho de ré! O BARKAÇA tem como mestre de cerimônias um palhaço literário, o Bandeirola. E a cada lançamento, convida bandas de trabalhos autorais a tocar.

Promove ainda festas culturais, recitais e saraus de palco aberto. Recolhendo esmolas do comércio divinopolitano e sem nenhum apoio formal, o BARKAÇA, aos trancos e destrancos, já chegou à quinta edição, publicando 34 bons artistas, a maioria inéditos. (Gente como Cochise César, Lu Peixoto, Juca Figueiredo, William Pinguim etc) E já passou por cidades como Ouro Preto, Belo Horizonte, São João Del Rei, Itapecerica... Sendo lido na Argentina e França, e recebendo críticas em jornais e sites como o Estado de Minas e o http://www.cronopios.com.br/ Os desilustres editores são os poetas diOli, Lopes e Mingau, cuja maior paixão é esmurrar moinhos de vento. Você pode conseguir os folhetos Barkaça gratuitamente com os editores ou nas exposições. Para saber o circuito de exposições visite o blog, onde também podem ser lidas versões digitalizadas dos folhetos.

DiOli
http://barkaca.blogspot.com/

TUDO PROSA
TUDO PROESIA

“Bom frisar que tudo aqui é lance de dados”, escreve o autor do livro Há controvérsias 1 (Editora Arte Paubrasil), o poeta e jornalista Ronaldo Werneck. “Tudo acaso, tudo controvérsias. Tudo palavra que chama toda palavra. Tudo aqui é prosa, mesmo o que não é – o que aprouve, o que aprazia. O que me põe todo proesia”. Diz Zuenir Ventura em e-mail para o poeta: “Ronaldo, você não se cansa de me surpreender com essa sua polissemia, polivalência, politalento. Que excelente poeta você é, cara, e que cronista”.

A coluna Há Controvérsias nasceu em Cataguases na década de 1990, quando Ronaldo Werneck assinava crônicas para o Jornal do Marcos. No Jornal Cataguazes, ainda com “z” – no princípio de suas aventuras como cronista, início dos anos 1960 -, como ele mesmo diz, “eu mantinha uma coluna sob o óbvio pseudônimo de “Roneck”. Tão óbvio como os textos nela publicados, delírios de juvenilidade pré-20 anos”.

Werneck retomou a coluna um quarto de século depois, no Jornal Cataguases. Seu título oscilou de Bubbaloo – final dos anos 1980, início dos 1990 – ao Há Controvérsias, a partir de 1997. Por um período, e por controversas imposições políticas, a coluna chamou-se Com Licença. Mas logo voltou a assumir o definitivo Há Controvérsias. Durante certo tempo, assinou também, e ainda em Cataguases, a coluna Sob as Traves, no jornal esportivo “Olé”. Este livro, Há Controvérsias 1, reproduz boa parte de todas essas colunas, no período que vai de 1987 a 2003. Os textos da coluna Há Controvérsias que vão de 2003 em diante – e publicados nos jornais Cataguases e O Liberal, de Cabo Verde, e nos blogs Contra o Vento e Ronaldo Werneck/Há Controvérsias – sairão publicados no próximo volume, Há Controvérsias 2, a ser lançado em 2010.

Diz Moacyr Scliar, no texto de orelha deste Há Controvérsias 1: “Como todo cronista, Ronaldo Werneck faz de seu cotidiano, e do cotidiano do país, a matéria-prima para seus textos. Conta para isso com uma sensibilidade todo especial (que é, em grande parte, a sua sensibilidade de poeta), com uma capacidade de interpretar o seu tempo, com um domínio seguro da forma literária, com uma cultura invejável. Humor, talento, grandeza humana: Ronaldo Werneck é tudo isso e muito mais, esteja ele escrevendo sobre política, ou sobre futebol, ou sobre a arte de curtir a vida. Leiam-no e constatem”.

Sobre o autor
Poeta e jornalista, Ronaldo Werneck é mineiro de Cataguases. Participou de várias antologias, a última delas Roteiro da Poesia Brasileira Anos 70 (Global, 2009). Tem seis livros de poemas publicados, entre eles Minerar o Branco (Editora Arte Paubrasil, 2008). Mais recentemente, publicou Kiryrí Rendáua Toribóca Opé: humbertoMAUROrevistoPORronaldoWERNECK (Editora Arte Paubrasil, 2009).

Título: Há controvérsias 1 (1987-2003) Autor: Ronaldo Werneck
Texto das orelhas: Moacir Scliar
Gênero: Literatura brasileira / Crônicas jornalísticas
ISBN: 978-85-99629-25-3
Formato: brochura, 16 X 23 cm
Páginas: 264
Peso: 415 g
Preço: R$ 36,00
Editora Arte Paubrasil

Editora Arte Paubrasil
Rua Dr. Amâncio de Carvalho, 192 a 206 -
Vila Mariana 04012-080 - São Paulo-SP - Brasil

Oficinas de Jongo

O Núcleo de Cultura Popular da Associação Cultural TriBAL convida a todos para as Oficinas de Jongo, todos os sábados, ás 16:30h, na Casa 500 anos de História (Rua Coronel Ferreira, 141, Portinho, Cabo Frio).

As Oficinas são coordenadas por Sá Soraya, Tatiana Prota e Letícia Marques.
Conteúdo: -
a história do Jongo, origem, fundamentos;
- parte musical (ritmo, canto e instrumento);
- a roda e a dança

"Jongo, dança em que nosso corpo e nosso ritmo falam de nossas almas" (Mestre Darcy) O Jongo, é uma expressão musical coreográfica trazida pelos negros angolanos que trabalhavam nas fazendas do Vale do Paraíba. Seus versos são curtos, com temas poéticos que traduzem relações da vida cotidiana do homem em contato com uma vida de trabalho braçal. É uma dança de roda, de umbigada, na qual um casal de cada vez vai ao centro da roda e se umbigam mutuamente à distância, através da dança.

Os instrumentos tradicionais do Jongo são 3 tambores, chamados de Caxambu, Candongueiro e Angoma-puíta, este último raramente aparece nos jongos atuais. Esta manifestação cultural e folclórica de nosso país, aparece na região sudeste, incluindo os estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Espírtio Santo. É uma das mais profundas raízes da manifestação da cultura negra no Brasil.

Considerado o ancestral do samba, o Jongo faz parte da identidade cultural do nosso país. É ação de resgate de nossa cultura! Daí toda a importância de pesquisar, aprender e praticar o Jongo nos dias de hoje, para não deixarmos que mais esta parte de nossa história, de nossa cultura se perca.

O trabalho da TribAL com o Jongo é de resgatar esta manifestação cultural que faz parte das nossas raízes e existiu inclusive em Cabo Frio, mas foi se perdendo ao longo do tempo... Estamos formando um grupo de jongo da Tribal, a partir das oficinas, aberto a todos que se interessarem em conhecer e participar desta roda conosco!

Contato: email: tribalarte@yahoo.com.br,
ou pelo telefone: 22-99494410 e 22-81117298
Para conhecer mais sobre a TribAL:
http://www.tribalcultural.blogspot.com/



Jessier Quirino em Brasília

Nos próximo dias 23 e 24 de abril, às 21.00h, na Associação Médica de Brasília – AMBr, espetáculo de lançamento do livro e CD Berro Novo do poeta paraibano Jessier Quirino. Um encontro marcado com a regionalidade, o lirismo, o saudosismo e o humor nordestino, na verve rimada e metrificada do poeta.

Dono de um estilo próprio - domador de palavras - de um extremo preciosismo no manejo da métrica e da rima, Quirino sabe como ninguém, prender a atenção do distinto público, e, num desempenho de uma hora e meia de duração, explora os temas mais variados possíveis, dentro do universo da rima e das palavras.

Declamando os poemas clássicos autorais como: Paisagem de Interior, Vou-me Embora Pro Passado, Agruras da Lata D´água, Comício de Beco Estreito, Parafuso de Cabo de Serrote, entre outros, o poeta irá explorar temas recentes do livro Berro Novo, causos autorais impagáveis, além de tiradas de domínio público de cunho gargalhativo; tudo, dentro da mais pura oralidade campeira.

O livro e CD Berro Novo é a oitava incursão editorial do poeta que tem a trajetória artística e literária fortemente marcada pelo divisor de águas: antes e depois do livro Prosa Morena - 2001, Edições Bagaço. O fato marcante foi a força declamatória registrada no CD que acompanha a edição livresca e que abriu caminho para os espetáculos. De lá pra cá, todos os trabalhos de Quirino têm tido este suporte em CD, considerado uma extensão da obra escrita, e, juntamente com o desempenho de palco, ajudaram a firmar seu nome no cenário artístico nacional.

A abertura do evento ficará por conta da poeta maranhense Lília Diniz, que a exemplo de Jessier, desfolha versos brejeiros pelo Brasil. No repertório poemas do livro Miolo de Pote da Cacimba de Beber e cantigas inéditas de sua lavra.

Perfil, obra e outras informações, pelo site: http://www.jessierquirino.com.br/ Serviço:
Recital solo Berro Novo
Local: Associação Médica de Brasília
– AMBr 21h - Setor de Clubes Sul,
TRECHO – 3
Preço R$ 50,00
Informações: 061 8177-0113

Uma síntese do homoerotismo na literatura brasileira
Por Antonio Naud Júnior

Na história da literatura universal, desde a sua origem aos nossos dias, não faltam celebrações à homossexualidade. Já no Brasil, a obra de conteúdo homossexual, freqüentemente, tem minimizado o aspecto artístico para se concentrar em julgamento moral (caso da reação popular em torno da telenovela “América”, de Glória Perez, em 2005). Felizmente, hoje já se é permitido avaliar com nitidez os caminhos do homoerotismo na literatura brasileira, embora não o veja como gênero literário específico. Superada a época em que tal temática não vendia ou era lida às escondidas, podemos ver agora, em saliência, no complexo contexto dessa literatura, o tecido próprio da arte dita transgressora.

Os escritores brasileiros passaram a escrever sobre esse universo delicado com os episódios de abuso sexual masculino em “O Ateneu” (1988), de Raul Pompéia, e lesbianismo em “O Cortiço” (1890), de Aluísio Azevedo, porém, o estopim do escândalo somente seria aceso com a publicação de "Bom-Crioulo" (1895), do cearense Adolfo Caminha. A audácia do autor custou o silêncio crítico sobre toda a sua obra. Ele narra o namoro entre dois marinheiros, um deles negro, inclusive com descrições de atos sexuais, utilizando vasta soma de informação obtida a partir de depoimentos, prestados em audiências jurídicas, relacionados com casos de sodomia na Marinha e no Exército. Em 1937, a Marinha solicitou, e obteve do presidente Getúlio Vargas, o embargo de uma nova reedição. Só noventa anos depois da primeira edição, a obra voltaria às livrarias e às bibliotecas públicas e escolares.

Em 1914, a revista Rio Nu publicou "O Menino de Gouveia", de autor anônimo, conto ilustrado com a imagem nítida de dois homens praticando sexo anal. Cerca de 60 anos antes, o poeta romântico Álvares de Azevedo, ao morrer antes de completar 21 anos, deixaria uma apaixonada carta de despedida a um amante: "Luís, há aí não sei quê no meu coração que me diz que talvez tudo esteja findo entre nós [...] há em algumas de minhas cartas a ti uma história inteira de dois anos, uma lenda, dolorosa sim, mas verdadeira, como uma autópsia de sofrimento. Luís, é uma sina minha que eu amasse muito e que ninguém me amasse. Assim como eu te amo, ama-me".

Na primeira metade do século 20, o autor da rapsódia "Macunaíma - Herói sem Nenhum Caráter" (1926), Mário de Andrade, mesmo receoso de enfrentar sua realidade sexual, escreveu sobre amores entre rapazes, tanto em contos como em crônicas. Numa das crônicas, diz: "É por causa do meu engraxate que ando agora em plena desolação. Meu engraxate me deixou". Ridicularizado por um machista Oswald de Andrade, Mário foi apelidado por esse de "o nosso Miss São Paulo traduzido em masculino".

Provocando controvérsias, o sociólogo Gilberto Freyre declarou em entrevistas gostar da “fruta proibida”, enfurecendo a sociedade arcaica, que já havia acusado "Casa-Grande & Senzala" (1933) de pernicioso e pornográfico. A homossexualidade do poeta oficial Olavo Bilac e do inventivo cronista João do Rio também era conhecida. João do Rio, aos 18 anos, publicou dois contos gays: "Impotência" e "Ódio". O solitário poeta baiano Sosígenes Costa, autor do clássico "Iararana", escondia sua tendência homossexual. Menos tímidos, Aníbal Machado lançou "João Ternura" (1965) e Lúcio Cardoso, "Crônica da Casa Assassinada" (1959). Um dos maiores escritores da nossa literatura - além de poeta, cineasta e dramaturgo -, Lúcio se revelou no "Diário Completo" (1949-62): "O que ocultamos, é o que importa, é o que somos". O injustamente esquecido Otávio de Faria manteve inéditos, até sua morte em 1980, “Atração” e “A Montanheta”, parte de sua “Tragédia Burguesa”.

Recuperada recentemente, a poesia homoerótica de Mário Faustino revela um bom poeta. Parceiro de juventude do polêmico jornalista Paulo Francis, ele morreu em 1962, num desastre de avião, aos 32 anos. Não podemos esquecer Paulo Hecker Filho, autor de "Internato" (1951). Em 1957, o carioca Jorge Jaime publicou “Monstro que Chora” (Dramas Homossexuais). Na capa, debaixo de uma frondosa árvore, um rapaz ajoelhado aos pés de outro, que posa de indiferente. O volume se compõe de duas obras. A segunda, a peça teatral “O Amigo”, fala de um jovem fascinado por um amigo, perdendo a noiva para ele e planejando vingança. A primeira parte é que dá título ao livro. Uma obra ousada, que em plenos anos 50 aborda abertamente esse tema ainda tabu.

Nos anos 60 e 70 se falou muito de Cassandra Rios, que vendia em média trezentos mil exemplares anuais. Ela estreou aos 16 anos com “Volúpia do Pecado” (1948), financiado pela própria mãe. Perseguida pela rígida censura do regime militar e tachada de pervertida, teve trinta e seis livros proibidos. Sua obra mistura lesbianismo, religião e política, numa combinação explosiva. Muito famosa, aparecia em programas de tevê vestida de smoking. Terminou abandonando a carreira para se tornar messiânica, morrendo em 2002.

Já a secreta vida sexual do mineiro Pedro Nava só foi sabida após o seu suicídio. No entanto, a união entre a poeta norte-americana Elizabeth Bishop e a arquiteta brasileira Lota de Macedo Soares, registrada em cartas e no livro "Flores Raras e Banalíssimas" (1995), de Carmen L. Oliveira, era conhecida no meio literário. Elas viveram juntas por dez anos em Samambaia, perto de Petrópolis. O álcool destruiria essa relação.

No romance "O Grupo / The Group" (1963), de Mary McCarthy, a baronesa lésbica é inspirada em Lota. Vange Leonel e Álex Leilla (“Henrique”, 2001) são nomes importantes na moderna literatura brasileira que aborda o assunto.

Entre 1978 e 1981, o Lampião da Esquina, um jornal porta-voz gay, projetou Aguinaldo Silva, Darcy Penteado e João Silvério Trevisan, este autor de "Devassos no Paraíso" (1986), a história da homossexualidade brasileira dos tempos coloniais até ao fim do milênio passado. Na introdução desse estudo fecundo que já nasceu clássico, Trevisan fala do homossexual como de alguém que instaura uma dúvida, "algo que afirma uma incerteza, que abre espaço para a diferença e que se constitui em signo de contradição frente aos padrões da normalidade".

Aguinaldo Silva publicou em 1975, "Primeira Carta aos Andróginos", um relato cru dos engates num cinema carioca. Darcy Penteado é autor de "A Meta", 1976, coletânea de contos autobiográficos. Na mesma década de 70, surgiu a literatura do gaúcho Caio Fernando Abreu, o autor de "Onde Andará Dulce Veiga?" (1990). Os seus contos são reveladores, destacando-se "Aqueles Dois".

O poeta potiguar Paulo Augusto escreveu "Falo" (1979), tocando nas idéias e comportamentos libertários da contracultura dos 70, caracterizando uma identidade que reivindica o lugar da diferença e contribuindo para que o indivíduo se liberte das amarras sociais e morais. Em 1993, a irreverente Hilda Hilst escreveu a história gay “Rútilo Nada”.

Outros nomes importantes para a compreensão do mesmo tema são os de João Gilberto Noll, Silviano Santiago, Antonio Bivar, Herbert Daniel, Bernardo Carvalho, Luis Capucho, Jean-Claude Bernardet, Roberto Piva (que se classificou como "eu sou o jet-set do amor maldito"), Waly Salomão, Glauco Mattoso, Valdo Mota, Jomard Muniz de Britto, Ítalo Moriconi, Antonio Cícero, Ana Cristina César, Lima Trindade, Marcelino Freire e o argentino que vivia em São Paulo, Nestor Perlongher.

Silviano Santiago, também poeta e ensaísta, não passou despercebido com "Stella Manhattan" (1985), enfrentando vergonha e culpa no romance "Uma História de Família" (1993). Herbert Daniel é autor do sincero e autobiográfico "Passagem para o Próximo Sonho" (1982), onde narra sua participação na guerrilha brasileira e seus problemas enquanto homossexual que, após fugir do Brasil durante a ditadura de 1964, acabou se empregando como porteiro numa sauna gay de Paris.

Jean-Claude Bernardet, em parceria com Teixeira Coelho, publicou em 1993 a novela epistolar "Os Histéricos". Bernardo Carvalho é autor do excelente volume de contos "Aberração" (1993). Capucho escreveu o erótico-pornô "Cinema Orly" (1999) e o capixaba Valdo Mota é um adepto da sodomia mística literária. Carlos Hee (“Trem Fantasma”, 2002), Nelson Luiz de Carvalho (“O Terceiro Travesseiro”, 2003) e Sílvio Corceau (“Vitrine Humana”, 2004) trouxeram para dentro de sua literatura a narrativa de suas experiências, de suas emoções, de uma sensualidade pulsante que motivou o interesse do leitor.

O meu “Pequenas Histórias do Delírio Peculiar Humano”, que será lançado ainda este ano, desenha perfis homossexuais em vários contos. O mesmo acontece com os romances, inéditos, “Homem sem Caminho” e “Fome de Amor”. O primeiro, uma versão contemporânea de “Carmen”, de Prosper Merimée, envereda pela atração fatal de um imigrante brasileiro por um cigano bandido, numa Andaluzia turística, prostituída e povoada por entidades espirituais. Além deles, escrevi ensaios sobre os autores homossexuais Yukio Mishima, Jean Genet, Christopher Isherwood, Paul Bowles, Manuel Puig, Reinaldo Arenas, Djuna Barnes, Virgínia Woolf, Lord Byron, Bernard-Marie Koltés e Federico Garcia Lorca.

Na dramaturgia, Nelson Rodrigues deu a senha do ladrão boliviano em "Toda a Nudez Será Castigada" (1965); Chico Buarque de Holanda imortalizou o travesti Geni em "A Ópera do Malandro" (1978) e Plínio Marcos marcou época com o marginal Veludo de "Navalha na Carne" (1967). Contudo, uma das mais importantes obras tupiniquins de vigor homossexual é "Grande Sertão: Veredas" (1956), em que Guimarães Rosa desenha a ambigüidade. Nesse épico da linguagem, o jagunço Riobaldo ama secretamente seu jovem parceiro Diadorim sem saber que ele é uma mulher masculinizada. O escritor italiano Claudio Magris, numa resenha publicada no jornal espanhol El País, disse se tratar de “uma das mais importantes histórias gays já escritas".

Todos esses escritores, além dos julgamentos morais, deixaram-se conhecer, ou melhor, fomentaram nas palavras o desamparo do desconhecido, do verdadeiro, do valente. Questionando comportamentos, num estimulante embate entre o desejo e a denúncia, eles criaram uma talentosa literatura de vocação sensível e sensual, jamais banal ou pornográfica.

in Cronópios Literatura e Arte: www.cronopios.com.br

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