quarta-feira, 14 de abril de 2010

amor cabeça e pele

poemas de Adélia Prado e Olga Savary –
musicado e cantado por Madan


brazilírico sentido
corpo/palavra/corpo
ode ao assassigno

amores são amoras pela língua
em alvoroço no brazilírico dos sentidos
transa da trama que proponho
: corpo/palavra/corpo

agora que outono chega a Divinópolis
ouço Adélia Prado a Dona Doida

“quando eu sofria dos nervos
não passava debaixo de fios elétricos
tinha medo de relâmpios
de alguns bichos que não falo”

eu que não tenho medo e sei o quanto custa
aceito o teu chamado leve-me a Ouro Preto
deixe-me perder nos teus sobrados
na carne/barro da natureza morta
no barro/carne da linguagem viva


versejar com os fantasmas na praça Tiradentes
reInventar outras viagens no leme da Barkaça
a Boca do Inferno contra a pasmaceira

“nas fileiras das estantes s-obram palavras e traças
não re-Verse o veio Dantes e por melhor que o faça”

ode ao Assassigno Márcio Almeida – de Oliveira
farejar o chão da praça como bom cachorro louco
amor é o que arranha as entranhas do barroco

arturgomes
http://courocrucarneviva.blogspot.com/


Tecidos sobre a pele:

terra:
antes que alguém morra
escrevo prevendo a morte
arriscando a vida
antes que seja tarde
e que a língua da minha boca
não cubra mais tua ferida

entre/aberto em teus ofícios
é que meu peito de poeta
sangra ao corte das navalhas
minha veia mais aberta
é mais um rio que se espalha

amada
de muitos sonhos
e pouco sexo
deposito a minha língua
no teu cio
e uma semente fértil
nos teus seios como um rio

o que me dói é ter-te
devorada por estranhos
olhos e deter impulsos
por fidelidade

ó terra
incestuosa
de prazer e gestos
não me prendo ao laço
dos teus comandantes
só me enterro à fundo
nos teus vagabundos
com um prazer de fera
& um punhal de amante.

minha terra
é de senzalas tantas
enterra em ti
milhões de outras esperanças
só/terra
em teus grilhões
a voz que tenta
avança
plantada em ti
como canavial
que a foice corta
mas cravado em ti
me ponho à luta
mesmo sabendo
o vão - estreito em cada porta -

20 DE FEVEREIRO

fosse quântico esse dia
calmo
claro
intenso
inteiro

20 de fevereiro
sendo assim esperaria

mesmo que em meio as tardes
tempestades
trovoadas
insanidades
guerras frias

iniqüidades
angústia agonia

mesmo assim esperaria

20 horas
20 noites
20 anos
20 dias

até quando esperaria?

até que alguém percebesse
que mesmo matando o amor
o amor não morreria

Delírio Verbal e Preito em BraziLírica Pereira

O livro, altar em que se celebra poetas do conturbado século XX, traz a poesia do poeta fluminense Artur Gomes, situada na interface da praxis artística e da experiência existencial, advinda do campo das escaramuças lexicais e da experimentação alegórica.
Erorci Santana*

BraziLírica Pereira: A Traição das Metáforas (Alpharrabio Edições, Santo André/SP, 2000), obra poética de Artur Gomes, toda grafada em minúsculas, principia com dois textos ou, melhor, intertextos com lastro na obra do escritor Uilcon Pereira, espécie de homenagem a desvairada letra uilconiana e à figura daquele escritor. Tanto que, no sintético poema que arremata esse preito literário, Artur o invoca através de uma circunstância biográfica datada:

“quem es tú uilcon pereira?
que foste fazer na sorbonne?
Ter aulas com sartre
ou cantar a simone?”.

Contudo, e apesar da primazia de Uilcon Pereira nesta festa verbal, é vasto o coração dessa usina lírica, BraZilírica Pereira trafega em que, antes de traição, há a afirmação do caráter multifacetário e engendrador das metáforas, personificadas e levadas ao extremo onde êxtase e humor se entrelaçam. Todo um renque de escritores de ponta é glosado, parodiado e parafraseado: Mallarmé(e seu lance de dados), Oswald de Andrade (e seus biscoitos finos, prometido ao palato das massas), Leminski (e sua Alice), Drummond (e seu anjo torto), além de Torquato Neto, Mário Faustino, Sousândrade, Ezra Pound, Dalí, Ana Cristina César, autores referenciais a constituir um panteão geracional.

São ícones alinhados no altar da celebração literária, sim, mas também serventia doméstica, dos quais o autor se utiliza, por estético capricho, com derrisão e iconoclastia:

“torquato era um poeta
que amou a ana
leminski profeta
que amou a lice
um dia/pós/veio uilcon torto
e pegou a joia diana
juntou na pereirAlicecom
o corpo & alma das duas
foi Beauvoir assombradado
roendo o osso do mito
pra lá de frança ou bahia
pois tudo que o anjo via
Sartre jurou já Ter dito
- Nonada -
biúte: ria”.


Aqui não se vislumbra paradoxo, pois a modernidade, tendo peneirado as cinzas da dor humana no século XX, revelou a fênix de face tanto ebúrnea quanto álacre; a arte passou a privilegiar o profano e o lúdico em detrimento das inclinações sacramentais e sombrias. E essa BraziLírica Pereira antropofágica e transluzente é a maneira do poeta entretecer a urdidura dos afetos, reinventar a cultura e os agentes culturais de sua predileção, com instrumentos lúdicos e sarcásticos, considerados a ponte para a grande arte.

Outro aspecto a ser considerado é que o autor, egresso do movimento da poesia marginal dos anos 70, “essa poesia de efeito extraordinariamente comunicativo, que procura e tira vantagem de uma dicção bem-humorada, ardilosa, alegre e instantânea”, na radiografia de Heloísa Buarque de Hollanda, incorporou e aprimorou suas principais conquistas estéticas, notadamente elementos da oralidade acoplados à exploração acentuada da sonoridade vocabular, recurso que leva a poesia ao liminar do domínio musical. Quase não é mais poesia para ler e sim para dizer em alta voz, ou cantar., circunstância em que o poeta moderno recupera o status de jogral.

Nessa aventura literária, às vezes o autor se transubstancia no texto, traveste-se através das personas Lady Gumes, Macabea, Federika Bezerra, Fedra Margarida, projeções de seu alter-ego que pretendem cravar o corpo na palavra, com sinuosidades, coalescências e dissimulações, atributos só encontráveis no espírito feminino. Situada na interface da praxis artística e experiência existencial, o poeta-prazer, com estado de êxtase permanente desde Couro Cru & Carne Viva, perpetua sua poesia guerrilheira no campo das escaramuças lexicais e da experimentação alegórica, dotada até de um certo autoflagelamento exibicionista, em que louca e alucinada se lacera e despe-se da veste hierática revelando sua outra face insuspeita, sua outra indumentária profusa e multicolor. Em outras palavras, seu traje de ironia e de humor.

Erorci Santana é poeta, autor de Estatura Leviana, Conceitos para Rancor e Maravilta.

Injúria secreta

suassuna no teu corpo
couro de cor compadecida
ariano sábio e louco
inaugura em mim a vida

pedra de reino no riacho
gumes de atalhos na pedreira
menina dos brincos de pérola
palavra acesa na fogueira

pós os ismos tudo é pós
na pele ou nas aranhas
na carne ou nos lençóis
no palco ou no cinema

a paLavra que procuro
é clara quando não é gema

até furar os meus olhos
com alguma cascata de luz

devassa em mim quando transcende
lamparina que acende
e transforma em mel
o que antes era pus

fala/palavra/fala

fala palavra fala
falasse fruta fel falar felada fome
fala fervura falo fogo falo festa
fala palavra fala
fela fala cidade fala favela
rio de janeiro fevereiro
carnaval fala chacal
fala mangueira
portela muito prazer
teu poema fala
fala poeta que a palavra parte
fala palavra arte
salta da pedra da gávea
pra dentro do teu poema
fala cabloco tupi
flecha de fogo tupã
curumim de ipanema
fala poema novo
de dentro da casca do ovo
fala carioca da gema

TRAIÇÃO TRÊS

clarisse olhou o barco com dois olhos salgados esperma ainda quente provocando frio no ventre foi de encontro à água na areia arrastou seu corpo pelas pedras um marisco ainda vivo
penetrou nas suas trevas e se instalou definitivamente no lugar mais inseguro do seu porto para perturbar por toda vida sua fonte de prazer

in BraziLírica Pereira: A Traição das Metáforas

cardio.grafia

que esta palavra bendita
não seja dor
quando mal dita

como espinha quando aflora
ou espora
enquanto irrita

minha cardio.grafia
em suma
não é pena nem pluma
apenas palavra que resuma
o silêncio como agora
ou sonora quando grita

A Cor do Som

chove. e ontem ouvi Joe Cocker gritar socorro
ao pequeno amigo de frente. será tempo perdido?
passei 25 anos escrevendo 25 mil cartas sem repostas
25 mil poemas escondidos nas gavetas
e outros tantos espalhados nas estantes
um dia eu disse: tudo vai mudar. parou de chover
mas continuei ouvindo Joe Cocker e seus agudos
lamentos que embalaram minha adolescência
juventude perdida nos quartéis da independência
cheirei o sumo da terra o limo dos muros
e acordei intacto ainda agora onde a palavra ainda
alcança grito para o outro lado das cercas
dos quintais onde o arame não impede que a voz
chegue onde quer que eu queira ela onde quer ela eu queira

como ser soul onde tudo é jazz?


deixa rolar o samba
deixa rolar o rock
deixa rolar o blues

ouvidos sem fronteiras
fulinímas sem limites
raiz em que tudo cola

no meio de campo toco a bola
e quem quiser que acredite

Transe

quando
penso
tua boca
fico tenso

por um fio
suspenso
tenso fico
sem lenço
calo grito
céus

na língua
repenso
caldeirões

do infinito

sagaraNAgens fulinaímicas

guima
meu mestre
guima
em mil perdões
eu te peço
por esta obra
encarnada
na carne cabra da peste
da hygia ferrreira bem casta
aqui nas bandas do leste
a fome de carne é madrasta

ave palavra profana
cabala que vos fazia
veredas em mais sagaranas
a morte em vidas severinas
tal qual antropofagia
teu grande sertão vou cumer

nem joão cabral severino
nem virgulino de matraca
nem meu padrinho de pia
me ensinou usar faca
ou da palavra o fazer

a ferramenta que afino
roubei do mestre drummundo
que o diabo giramundo
é o narciso do meu ser

Terra de Santa Cruz

ao
batizarem-te
deram-te
o nome
posto
que a tua profissão
é abrir-te em
camas
dar-te
em ferro
ouro
prata
rios
minas
peixes
mata
deixar que os abutres
devorem-te na carne
o derradeiro verme.

salve
lindo
pendão que balança
entre as pernas
abertas da paz
tua nobre sifilítica herança
dos rendez-vous de impérios atrás

meu coração
é tão hipócrita
que não janta
e mais imbecil
que ainda canta
ou-
viram
no ipiranga
às margens plácidas
uma bandeira arriada
num país que não levanta

Anjo em transe 6

olhando a lapa dos arcos
confesso vivi plínio marcos
com carNAvalha na carne
e o seu abajour lilás

dois perdidos numa noite suja

da cinelândia ao rio centro
teus olhos linda coruja
a me espreitar noite à dentro

grafitemas & figuralidades
para Uilcon Pereira/in memorian

posto a memória viva eis-me aqui no coração dos boatos na outra inquisição pelos telhados assombradados brazilíricos ilha de amor/ódio poder/corrupção neste poema não infenso ao caldeirão de cinza/pólvora: em Brazílírica Pereira: na Traição das Metáforas os inocentes úteis foram decaptados ontem na última sessão do congresso nacional e como um fantasma que cerrou a jaula tomo de assalto o planalto de onde trago as fardas da cavalaria que ainda chamam de dragões da independência

Black billy

ela tinha um jeito gal – fatal
vapor barato
toda vez que me trepava as unhas
como um gato
cantar era seu dom
chegava a dominar a voz
feito cigarra
cigana ébria vomitando doses
do seu canto

uma vez só subiu ao palco
estrela no hotel das prateleiras
companheira de ratos
na pele de insetos
praticando a luz incerta
no auge do apogeu

a morte não é muito mais
que um plug elétrico
um grito de guitarra uma centelha
logo assim que ela começa
algo se espelha na carne inicial
de quem morreu
?



Bricando com Hellena

aposto
que a resposta
encosta
muito além
da mesa posta
além do que mais gosta
espelha
frente
costa
tudo
que aposta

foto.grafia urbana

coentro um beijo a mais se não invento o meu quintal na tua horta arrombo a porta que me leva do outro lado do futuro e tiro a máscara que te esconde do passado é claro meu amor que estamos quites nem precisamos de fogos de artifícios um beijo a mais um tapa menos a pantera já conhece nossos bichos quantas vezes ela brincou no nosso sexo gozando junto pelas águas do leblon ou se entranhando pelos becos da rocinha até parir a luz do sol no corcovado por quantas vezes na pele crua do teu corpo preciso ler esta palavra itaipava se vejo um cristo em cada pedra do caminho e o buraco em teu umbigo é lá na gávea mais em baixo humaitá quando mergulho na lagoa ave sem rumo curral botânico quantas flores quanto lixo

Ind/gesta

uma caneta pelo amor de Deus
uma máquina de escrever
uma câmera por favor
um computador
nem que seja pós/moderno

vamos fazer um filme
vamos criar um filho
deixa eu amar a Lídia
que a mediocridade
desta idade mídia
não coca cola mais
nem aqui nem no inferno

Moenda

Usina
mói a cana
o caldo
e o bagaço

Usina
mói o braço
a carne
o osso

Usina
mói o sangue
a fruta
e o caroço

tritura suga torce
dos pés até o pescoço

e do alto da casa grande
os donos do engenho
controlam: - o saldo
& o lucro.

VagaBundar Eis o Verbo:

quando nasci

um anjo torto

desses do fim Drummundo

me disse assim sorridente

com uma faca entre os dentes:

- vá trabalhar VagaBundo -

eu que não sou decente

nem nasci para empregado

levo a vida docemente

como blogueiro desocupado

navego de sul a norte

a blogsfera ferina

com minha fala canina

com minha língua Ed Morte

aprendi desde menino usar

a faca de corte

com o esmeril do destino

com os dois gumes da sorte

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