sexta-feira, 23 de abril de 2010

Lina Tâmega Peixoto



lança em Cataguases
novo livro de poemas


Poeta mineira residente em Brasília há longos anos, Lina Tãmega Peixoto lança no Museu Chácara Dona Catarina, em Cataguasess – no sábado dia 24 de abril, a partir de 20 horas – o seu mais novo livro de poemas, “Prefácio de vida”.

“Ser mineira de Cataguases”, diz Lina, “é o que não me faz ser habitante de qualquer rua do mundo, o que me faz ser humana e permanecer ilesa, e nunca ser traída no meu jeito de viver”. Professora, poeta e crítica de Literatura, Lina Tãmega Peixoto nasceu em Cataguases, onde lançou em 1948 – ao lado de seu grande amigo, o poeta cataguasense Francisco Marcelo Cabral – a Revista Meia Pataca, um dos mais importantes veículos literários criados na cidade após a eclosão do movimento da Revista Verde em 1927.

Residente em Brasília desde os tempos pioneiros da Capital, Lina exerceu o magistério na Fundação Educacional do Distrito Federal e na Universidade de Brasília. Sim, Lina Tâmega Peixoto reside em Brasília, mas na verdade a poeta mora em muitos lugares, onde o sonho da vida habita o imaginário poético.

De sua pesquisa em Lisboa, das raízes do lirismo peninsular, resultaram diversas vertentes de estudos literários. Os poemas de Lina, que brotam de uma alma de mulher, têm poder sugestivo e beleza intrínseca. Ligada às suas vivências e às raízes mineiras, sua poesia, requintada, original e complexa, está marcada por uma funda sensibilidade e revela heranças do Surrealismo e do lirismo medieval.

Drummond & Cecília

Para Carlos Drummond de Andrade, ela “alcança a maturidade poética, não há tremura ou indecisão de traço, tudo é firme, quando necessário, sutil e sempre lúcido e ardendo de uma chama interior”. Por sua vez, diz o escritor Francisco Inácio Peixoto, um dos “rapazes da Verde”, e tio de Lina: “Sempre gostei de sua poesia, onde encontro uma linguagem mágica, que me enternece. Desde seus vagidos iniciais, você nunca me desmereceu”.

“A mão escreve o que o tempo acolhe de memórias que se desdobram em densos e delicados traços de momentos”, escreve Lina no prefácio de seu Prefácio de vida – um mais que emocionado texto onde a poeta rende tributo à sua grande amiga Cecília Meirelles: “Espero que se agrupem para formar uma metáfora que represente a parte de minha vida alinhada à história de Cecília Meirelles”. Diz ainda Lina em seu prefácio, pleno de sensibilidade e fina escrita: “Há muito a ser feito e organizado, para que os livros (de Cecília Meirelles) se abram para estremecidas fontes de prazer, friúme e beleza”.

A seguir, um dos poemas (“de prazer, friúme e beleza”) de Prefácio de Vida, um poema de estranha premonição, quase um oráculo da tragédia recente acontecida no Morro do Bumba, em Niterói:

IRREFLEXOS

A frescura lilás das violetas
frente às águas da tarde.
É crepúsculo nas trepadeiras da varanda.
A noite que chega mansa
transfigura os cicios das gotas
em vespas sobre as flores.
O coração alegra-se com as dores do amor
cravadas em sua forma
recortada em duas dálias rubras.
Levanta-se o forro do mundo
e a terra do céu
cai sobre a vida
– bálsamo do que se quebrou nas alturas.

Livros de Lina
Algum dia (1953)
Entretempo (1983)
Dialeto do corpo (2005) – Prêmio Lúcia Aizim da União Brasileira de Escritores
Água polida (2007)
50 poemas escolhidos pelo autor (2008)

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Noite do Vinil embalada pelas marchinhas de Carnaval




Neste Carnaval fora de época em Campos, a Noite do Vinil se rende às saudosas marchinhas de carnaval que há tempos atrás tinham espaços nos bailes carnavalescos espalhados pelo Brasil. Muita gente demonstra até hoje saudades dos carnavais de outrora, principalmente pelos bailes com seus conjuntos musicais embalando a animação ao ritmo das marchas. Sambas clássicos completarão a animada noite carnavalesca.
A discografia em vinil proporciona uma viagem a esse rico período de carnaval e é para essa viagem que convidamos para esta edição especial da Noite do Vinil que será realizada na Sexta-feira, dia 23 de abril a partir das 22h no Relicário Bistrô, na Avenida 28 de Março, nº 48 (em frente ao ISEPAM).

Será a terceira edição do projeto, que voltou a todo vapor no novo ambiente. Vale ressaltar que nesta nova fase está sendo cobrado um couvert simbólico de R$ 2,00 para a manutenção do projeto. O acervo será mesclado com discos dos colecionadores Márcio Aquino e Wellington Cordeiro.

Marcha de Carnaval

Marcha de Carnaval, também conhecida como "marchinha", é um gênero de música popular que esteve no carnaval dos brasileiros dos anos 20 aos anos 60 do século XX, altura em que começou a ser substituída, na preferência do público, pelo samba enredo. A primeira marcha, segundo alguns pesquisadores, foi a composição de 1899 de Chiquinha Gonzaga, intitulada Ó Abre Alas, feita para o cordão carnavalesco Rosa de Ouro.

Na origem foi, no entanto, um estilo musical importado para o Brasil. Descende diretamente das marchas populares portuguesas, partilhando com elas o compasso binário das marchas militares, embora mais acelerado, melodias simples e vivas, e letras picantes, cheias de duplo sentido. Marchas portuguesas faziam grande sucesso no Brasil até 1920, destacando-se Vassourinha, em 1912, e A Baratinha, em 1917.

A verdadeira marchinha de carnaval brasileira começou a surgir no Rio de Janeiro com as composições de Eduardo Souto, Freire Júnior e Sinhô e atingiu o apogeu com intérpretes como Carmen Miranda, Almirante, Mário Reis, Dalva de Oliveira, Silvio Caldas, Jorge Veiga e Blecaute, que interpretavam, ao longo dos meados do século XX, as composições de João de Barro, o Braguinha e Alberto Ribeiro, Noel Rosa, Ary Barroso e Lamartine Babo.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

I Festival de Teatro Aberto de Campos




De 29 Abril a 2 de Maio
Veja toda programação aqui http://goytacity.blogspot.com/
Poemas ao Mar: Convocação: saiba o que é aqui:
http://barkaca.blogspot.com/
Márcio Almeida Prestreia em Germina confira:
http://www.germinaliteratura.com.br/2010/prestreia_mar10.htm

se for poema fogo do desejo: May Pasquetti e Artur Gomes
filmados por Jiddu Saldanha no Parque das Ruínas


a lavra da palavra quero
quando for pluma mesmo sendo espora
felicidade uma palavra
onde a lavra explora
se é saudade dói mas não demora
e sendo fauna linda como a flora
lua Luanda vem não vá embora
se for poema fogo do desejo
quando for beijo
que seja como agora

a lavra da palavra quero
onde Mayara bruma já me diz espero
saliva na palavra espuma
onde tua lavra é uma
elétrica pulsação de Eros
a dança do teu corpo vero
onde tua alma luna
e o meu corpo impluma
valsa por laguna
em beijos e boleros.

arturgomes
http://pelegrafia.blogspot.com/
overdose sonora em santa Teresa


sorocaba blues


cairo trindade e deniziz trindade - a dupla do prazer


rio em pele feminina


sexta-feira, 16 de abril de 2010

Riverdies na Pista



Amigos, essa será uma apresentação especial do River, num grande palco =)fazendo tributo a duas bandas que foram muito importantes na nossa história/formação, que já tá completando 10 anos.
Fora o Soundgarden e Pearl Jam, tocaremos também nossas músicas de trabalho do EP.
Todas as informações vocês encontram nos flyers em anexo, e no site http://www.megaflorenca.com.br/ Obrigado a todos que estiveram presente nos últimos shows do River esse ano, estaremos focados agora em terminar o trabalho nos materiais novos que lançaremos nos próximos meses.
Temos video clipe oficial terminando a edição, myspace novo chegando, e estamos finalizando uma prévia do álbum completo que nosso produtor levará em mãos para a Europa em Maio.
My best regards,
Fil Buc
Guitarist & Music Producer

"Corações Blues e Serpentinas":



uma caixa de relíquias de Lima Trindade

por Darcy Ladeira Dias * publicado em 11/6/2009.
Em mãos, o atraente título "Corações blues e serpentinas", do escritor Lima Trindade, que vem pela "Arte Pau-Brasil", SP, 2007.
São quinze contos em estilo limpo e conciso, que vão mostrando, além da técnica, o talento de uma economia de linguagem que diz muito, contrariando o pressuposto de que escrever muito significa dizer mais.
Sigo aqui como testemunha dessas três décadas narradas nos contos de Trindade, vivenciadas entre mudanças e reviravoltas comportamentais. Trindade nasce em 1966, quando já o 68 sinaliza toda uma contestação do segmento jovem, cansado da velharia do pós-guerra e de suas receitas invariavelmente hipócritas e bem-comportadas.
"Corações blues e serpentinas" não é, entretanto, um livro datado em esquemas que não possam se movimentar por mais eixos. As andanças são animadas, como serpentinas que se desenrolam em várias direções. Estar entre os anos 60 e 90 não nos acomoda em linhas estritamente divisórias; um leitor que não vivenciou certos contextos pode perfeitamente se apaixonar por eles, principalmente quando Trindade resgata velhas figuras que ficaram escondidas, ou apagadas, à margem da literatura de pílulas douradas. Justamente por estarem (e serem) à margem é que são interessantes.
O livro, um mimo. Uma caixa de relíquias. Pequenos contos artesanais, ourivesarias. Perfeição do estilo, matéria rica e essencial. Também ilustrações naturalmente desenhadas, despidas. Provocam meu olhar dois nus masculinos abrindo o belíssimo conto "Anjinho barroco". Espécies de croquis muito limpos em sua espontaneidade, como que imbricados na linha essencialista das narrações. Traços sugestivos de que nus homossexuais não precisam de poses fotográficas estudadas para mostrar o homoerotismo; basta virem despidos, naturalmente nus.
Entre mais encantos, "Corações blues e serpentinas" abre um sopro literário de grande significação para o leitor. Vamos desnovelando os tabus sexuais, deixando de lado os preconceitos contra a homossexualidade. Descubro, nessa temática do proibido, que a sexualidade é tão importante quanto viver, não importa a opção sexual. O que importa é que é real, não é uma anormalidade. Anormal seria negar-lhe a existência, crivando-a de anátemas e rejeições.
Tentar essenciar o que Trindade traz, nesses quinze contos, vai exigir de mim um exercício conciso e bastante difícil. Temo deixar de fora significados que, traduzidos, nos enredam em complicadas teias. Ou nos apaixonamos a ponto de quilométricas análises ou ficamos devedores ao recortar e resumir, na tentativa de alcançar o escritor. Daí que vou correndo o risco de deixar alguns contos de fora, para outra respiração, para mais janelas.* * *
Nem sempre se exige uma transcendência afetiva entre os parceiros. No "Amor inconsútil" inexiste um peso moral, a cena e a convivência entre os parceiros independem de laços afetivos. A escrita é totalmente desamarrada, seguindo a trilha lançada pelos dois personagens.
Já liberdade e amor aparecem em "Três movimentos para um selvagem desamor". O parágrafo inicial, escrito em grandes cortes com ponto final, sugere um roteiro cinematográfico, ou a rubrica apontada em scripts. Cada palavra, uma frase. Neste conto, Lima Trindade explora vários estilos e sua versatilidade ainda desenha as duas mulheres apaixonadas com grande beleza estética, como duas deusas que se permitem ao amor e ao sexo. Os textos são limpíssimos, sem necessidade de floreios. Percebo que o toque sexual entre as protagonistas descreve uma dança em seu colorido, sua musicalidade e seu erotismo.
O selvagem desamor pode estar ligado à figura de Enzo, um belo homem que Tânia descartou, descobrindo o prazer com Duda. Também descarta, em casa de Duda, substituir a autoridade do macho, descaracterizando a tese do feminismo substituto do falos patriarcal. Trindade descreve duas mulheres se amando, não um macho e uma fêmea. Iconoclasta, o escritor satiriza as bichas-bofes casando de véu e grinalda ("Café com chantilly"). Quanto às historinhas cor-de-rosa, usa de uma linguagem crispada, até mesmo perto do deboche e do sarcasmo impiedoso.
Entro no "Então, é isso", quando o escritor muda completamente de tom. A escrita trabalha com superposição de imagens, deixando o personagem muito à vontade para falar, o que faz entre estados de lucidez e demência, em um tempo deslimite; o ontem pode ser o hoje (eles se baralham) e o que se presenteia pode ser o passado, de igual forma. O personagem, entrado em um delírio febricitante, reconhece-se estraçalhado como o espectro de seus fantasmas.
Alternâncias e fusões habitam nosso herói semi-louco, e sua fala vai e volta de um porão mental infestado de ira, nojo e também... amor e beleza. A praça, fisionomia localizada, é o cenário perfeito por onde transitam, param ou moram pessoas arranhadas pela solidão e pelo desencanto. Há um trilo musical diabólico nessas apropriações, nessa descida aos infernos do protagonista, de onde somos cavucados como parte do grotesco dos personagens e da beleza de certos flagrantes.
Fronteiriço entre a demência e a lucidez, o "Então é isso" também nos convida à leitura schopenhaueriana: "Tudo que é belo dói".* * * "Lonely?/ Ah, yes/ But it is the flowers and the mirrors/ of the flowers that now meet my loneliness/ and mine shall be a strong loneliness/ dissolvin´deep to the depths of my freedom/and that, then, shall remain my song." (Bob Dylan - "Outlined epitaphis")
A narrativa do conto "A primeira vez" me toca profundamente. Há uma auréola de inocência que chega muito perto da divindade, da infância de alguma coisa. A tonalidade intimista da narração escapa ao solilóquio e ao monólogo no hibridismo de que o protagonista conversa com sua alteridade e com o seu parceiro. Brotado de um aparente silêncio, ele fala com o leitor e, primordialmente, com Lima Trindade.
A escrita intimista de "A primeira vez" é muitíssimo rica, principalmente quando auscultada de dentro da paixão do nosso personagem, iluminado pela beleza do aniversariante que, de repente, o tira para dançar naquela noite, uma noite especialíssima. Uma dança inocente, um beijo na testa de quem se convidou a entrar no conto, no encantamento de ter observado o aniversariante pelo espelho, por onde se protegeu de olhares que poderiam profanizar o momento sublime.
O espelho e o aniversariante fazem lembrar ao escritor a figura contracultural de Kerouac. Para mim, o enigma de Allen Ginsberg, que também poderia estar usando aquele paletó largo e amarrotado de quantas viagens no "On the road". Aquele paletó grisalho como os cabelos do velho beatnik, um homem bonito, tocado pelo buquê de vinho barato, que nos embebeda de paixão por não dizer mais do que queremos.
Imprevisível como o rodopio do paletó cinza, o quanto "era quente aquele paletó oscilando em movimentos de rodopios lentos", o aniversariante deixa o parceiro deslocado no meio da sala. E tudo se distancia, quando todos saem em cortejo para terminar a festa em um bar mais além. Uma estrada por percorrer e que se perde para o nosso protagonista, quando ele se abaixa para amarrar o cadarço do sapato. O momento de distanciamento; o jovem vacila e cai no asfalto, enquanto o cortejo continua, perdendo-se de vista na estrada. "On the road" é também Kerouac, vestido naquele casaco cinza amarrotado, cheirando a vinho, carregando com ele uma multidão de perdidos na noite.
Anjinho barroco Sobrados encarquilhados pela ação do tempo, sombras, vielas, becos. Grades enferrujadas, prédios que cheiram a mofo e azedo, cães por perto. É noite e a fuga vai tecendo os passos do personagem no conto "Anjinho barroco". Mas eis que uma fresta de porta semi-aberta se oferece à entrada do personagem para que ele medite e descanse. Uma igreja-nave que, mesmo ao adiantado da hora, pode se oferecer aos ofendidos, aos atormentados por culpas e remorsos pelos pesos de anátemas e imprecações.
Nesse útero-mater surpreendo a presença de mais um homem. Tudo indica se tratar de um teólogo. Suas formas são roliças como talhadas para o sagrado entre mais ícones. Ouve-se a voz do consolo, o ombro amigo. E o silêncio é quebrado por murmúrios pelos dois corpos muito próximos. Vem a cumplicidade e os homens deixam o templo, dirigindo-se ao acolhedor sala-e-cozinha do homem de formas redondas. Há também um quarto e objetos desarrumados que lembram solidões. Os dois homens, tocados pelo sagrado, estão também no mundo. No mundano com seus desejos profanos e encantadoramente sagrados. Uma xícara de café torna-se a bebida dos deuses. E depois do sexo, tecido pelo êxtase de um ritual contagiante, o homem, anjo barroco de formas roliças, entra em transe inebriante, incorporando línguas estrangeiras, enquanto seu parceiro descansa na tranqüilidade dos deuses.
Línguas estrangeiras antigas; seriam o copta, aramaico, etíope, zirieno? Do evenki e do oirate? De todas as línguas do Espírito Santo. Hierofantes que continuam a ecoar os mistérios, as sonoridades, a música divinizada.
O hedonismo segue, exaltando a presença divina.Essa passagem do conto é belíssima, de uma pureza murmurante e profunda. Ela tece o elo entre o carnal e a alma humanizada. E enquanto se sacraliza o desejo, desssacralizam-se as interdições. O corpo vem em sua inteiridade, na escrita corporificante desse magistral conto de Lima Trindade, ao nascer do sol na manhã iluminada.
"A sexualidade é uma necessidade do ser humano, que tem que ser atendida, e mesmo considerada santa" (Manuel Puig)* * * "Quero respirar um desejo qualquer, um tango, um poema, a loucura" ("Queen Sally II" - Lima Trindade) O transatlântico chegando a Salvador. Movimento que acorda as ruas. As mulheres do "trottoir" aguardam no cais. Belos policiais negros a cavalo. Negritudes. Destaque à negra orgulhosa que gosta mesmo é do negro Caô. Uma bela negra que não gosta de ter sua cor passada em branco...
O encontro com o negro gringo, cabelo curto enroladinho no pescoço taurino, o bigode farto, o marfim dos dentes. A poesia transborda entre os dois. Lima Trindade escreve, do encontro de possíveis banalidades, um vigoroso poema erótico. A ligação entre os dois personagens vem no estilo enxuto, de técnica magistral; uma escrita que faz de Lima Trindade um talentoso escritor na literatura contemporânea, exemplar de perfeição que merece ser laureado.
O sol nasce, entrando no casal de negros, preparando o rito. Ele beijou os pés dela: "Por que então fazer-me Rainha? Um dia o navio partiria..." "Choraram juntos, vestiram-se e não disseram adeus. Na bolsa da negra orgulhosa, alguns dólares". O sol nascendo.
"As cores da alvorada rasgam a couraça da noite" ("Asa Norte") A prostituta solitária, sob a marquise, olhos carregados de pintura, brinca com as meias. Seu retrato lembra um "portrait" toulouseano.
O homem que a observa, e se sente filiado a ela pelas interdições, olha da janela, esperando que ela se vá. Ele tem a impressão de que ela vai chorar. É quando nosso jovem solitário escuta uma canção. Um homem toca, na sua flauta, os sopros musicais da ópera "Tannhauser", de Wagner, que aos poucos ecoa naquela manhã que desperta. "Tannhauser", a ópera de um jovem perdido pela paixão da Vênus profana, que vai se sacralizar em "amor romano".
Dizem os músicos que Wagner teria inventado o Sol. O mesmo sol que desperta a Vênus calipígia do "Queen Sally II". E que se estende aos amantes do "Anjinho barroco" na divinização do profano. Eis aqui um título: "Todo sol mais o Espírito Santo"...


Darcy Ladeira Dias: * Darcy Ladeira Dias nasceu em Ouro Fino, MG, e reside em Poços de Caldas, onde é professora aposentada. Tem graduação em Português e Francês e suas literaturas e é pós-graduada em Estudos de Linguagem, na Unicamp.
extraído do site: http://www.verdestrigos.org/

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Depois da Guerra

Depois da guerra, regresso.

Um combatente em retirada, que entra pelo portão de uma casa que não é mais sua, embora ainda lhe pertença. As pessoas dali ainda têm o seu sangue, mas acostumaram-se a sua ausência.

Os lençóis já não o reconhecem, os colarinhos e coisas não mais têm o seu cheiro.
Ele mesmo, soldado vencido, já não se encontra mais em si. Não se acha, mesmo quando vasculha, apressado, as gavetas do peito e da própria cabeça. Não reconhece suas novas cicatrizes, não lhe parece familiar a textura da pele nem os calos nas mãos. É alguém que, no cansaço da luta, se fragmentou em mortos e feridos, e mudou na velocidade do disparo de cada bala.

Sou eu esse guerreiro.

Sou eu que reapareço, trazendo comigo pedaços de corpos e almas que não me pertencem, mas agora fazem parte da unidade necessária para que eu me recomponha e, no devido tempo, retorne ao meu campo de batalha.

Ademir Assunção
http://zonabranca.uol.blog.com.br/

Poesia encenada

Já encontram-se abertas as inscrições para o Festival Poesia Encenada do SESC, evento que movimentará a Área de Lazer do SESC Centro João Pessoa entre os dias 18 e 19 de maio próximos. De acordo com os organizadores, o prazo para inscrições vai até o dia 16 de maio e a divulgação dos 30 poemas selecionados será feita no dia 23/05.

Na sexta versão do festival, serão conhecidos as sete (7) melhores apresentações artísticas que reinterpretarão os poemas selecionados, com temário livre, através da avaliação de uma comissão especializada, que mais uma vez mobilizará profissionais do teatro, dança e literatura.

Segundo Ingrid Trigueiro, atriz e diretora “o que se espera mais uma vez é que o evento leve à Área de Lazer apresentações de diversos setores que influenciam o movimento cultural paraibano, especialmente os novos talentos, sejam autores, diretores, atores e atrizes. Na Paraíba aprendemos a nos conhecer também como poetas que somos, e o SESC vem contribuindo para afirmar nosso estado como celeiro de notáveis poetas e artistas”.

O ator Joth Cavalcanti, que já participou de etapas anteriores registra que “após o encontro possibilitado logo no início do ano por meio da montagem da Paixão de Cristo, quando nos juntamos para fazer, na verdade, uma grande confraternização da categoria, vem o SESC tradicionalmente funcionar como mais um abre alas anual do movimento, até mesmo porque o “Poesia” costuma reunir nomes já consagrados e tantos outros novatos que só fazem nos estimular a produzir com mais dedicação e criatividade”.

As sete melhores apresentações avaliadas após as noites de eliminatória (dias 18 e 19/05) e finalíssima (20/05) receberão cada uma dela R$1.000,00. O vencedor do Festival no ano passado foi o poeta Ricardo Lucena, apresentando o poema “A Espera”

As inscrições podem ser feitas no setor cultural do SESC, que fica localizado na Rua Desembargador Souto Maior, 281. Mais informações pelo telefone (83) 3208-3158

Fliporto 2010 troca Porto de Galinhas por Olinda

VI Festa Literária Internacional de Pernambuco: essa é a nova alcunha da Fliporto 2010, que saiu de Porto de Galinhas para aportar no Parque do Carmo, em Olinda. O evento, que acontecerá entre os dias 12 e 15 de novembro, irá homenagear a escritora ucraniana radicada no Brasil, Clarice Lispector, morta em 1977. Além disso, a literatura judaica também ganha destaque nesta edição.

A mudança de local se deu pela intenção de facilitar o acesso do público. A expectativa é de mais de 25 mil pessoas participem da feira deste ano, contra as 15 mil que participaram da edição de 2009. A estrutura se assemelha um pouco com as de grandes feiras, como a de Paraty, no Rio de Janeiro: será montada uma tenda fechada com capacidade para 800 pessoas, na qual irão acontecer as principais palestras, que deverá ter 30 convidados.

Alguns dos autores já confirmados são: o argentino Ricardo Piglia; o escritor canadense Alberto Manguel; Moacyr Scliar e Arnaldo Niskier, ambos pertencentes à Academia Brasileira de Letras (ABL). O coordenador de programação, Mário Hélio, garantiu que a grande preocupação é convidar autores de qualidade, que garantam a grandeza desejada para o evento. É estimado que ocorra o lançamento de pelo menos 50 títulos no decorrer dos quatro dias. Desses, ao menos 30 serão de autores pernambucanos.

Linaldo Guedes
http://linaldoguedes.blog.uol.com.br/

asa
norte

em
meio
aos
hotéis
de um
luxo
fusco
o
passa
redo
in
visível
esc
onde
esc
ombros
de
modern
idade
abando
nada

(lau siqueirapoema vermelho)
http://www.poesia-sim-poesia.blogspot.com/

CÂNONE E ANTICÂNONE (X)

Antero de Quental diz ainda, em A Dignidade das Letras:

"Não, meus senhores. Eu não tomei nas mãos o pendão só pelo amor da destruição.
Menos, a presunção orgulhosa de gladiador novo, cuja audácia impaciente não conhece prudência e procura os mais robustos e aguerridos para o desafio e o combate. Menos ainda, o escândalo. Não, meus amigos. Não vale realmente a pena comover-se a gente quase até a veemência, indignar-se quase até ao sofrimento, chamar a sua inteligência e o seu coração, só para responder com grandes frases a pequenos golpes de gente ainda mais ignorante do que malévola.

(...)

Não foi por isso, pois, que eu intentei fazer desacatando a venerabilidade sacerdotal do sr. Castilho. Não foi defender uma escola, um grupo, uns homens. Foi só defender a liberdade e dignidade do pensamento, que nesse momento se ofendiam na chamada escola de Coimbra, no trabalho de alguns homens (bom ou mau, não curei de o saber) mas trabalho livre, independente, trabalho santo pois, e digno de respeito.

(...)

Sem espírito não há liberdade; sem liberdade, não há espírito. Ora, esta é a alma, a vida, a essência das literaturas, da poesia, da arte, de todo o trabalho do pensamento e da inspiração. Literatura que respeita mais os homens do que a santidade do pensamento, a independência da inspiração; que pede conselho às autoridades encantadas; que depende de um aceno de cabeça dos vizires acadêmicos; essa literatura não é livre – ubi liber tus ibi spiritus – não tem, logo, espírito, não é viva e poética... não existe pois como coisa alta e ideal, isto é, não existe, porque só ideal e alta se concebe literatura e poesia. Bastava-me isto só para condenar o sr. Castilho, as suas doutrinas, o seu procedimento. Se isto é verdade, se não há verdadeira poesia fora desta alta e digna independência, o sr. Castilho é o maior inimigo da poesia portuguesa, porque quer matar nela aquilo que é a sua essência, a sua força, a sua vida.

(...)

O escritor quer o espírito livre de jugos, o pensamento livre de preconceitos e respeitos inúteis, o coração livre de vaidades, intemerato e incorruptível. Só assim serão grandes e fecundas as suas obras.

(...)

Ora concebe-se, já não digo o grande homem, que nem todos podem ser, mas o homem de bem, que todos têm obrigação de ser, pedindo o auxílio de uma autoridade qualquer para pensar, consultando o termômetro da conveniência e aprovação dos mestres para falar, recebendo o santo e a senha como um soldado disciplinado, feito autômato e escravo na coisa espontânea e individual por excelência, o pensamento? Um homem de bem não faz isto: e toda a literatura que o faz é uma desonesta literatura.

(...)

Se a tirania da moda e da opinião é insuportável, não o é menos a dos mestres e das reputações opressivas e orgulhosas; que tendo-se em vista dizer alguma coisa nova, descobrir, não copiar e repetir, bom é que haja liberdade de procurar, que não se perturbe nunca o pesquisador de bem e de verdade, ainda aquele que a pretende encontrarnos desvios mais arredados e estranhos; que se creia no possível e se respeite ainda o erro quando for filho de um desejo tão sincero e de um tão honroso empenho. Ora isto é que não fazem as literaturas oficiais. Não concebem salvação fora do grêmio estreito de suas igrejas, para não dizer capelas e oratórios. Não entendem outras palavras senão as poucas do seu dicionário incompleto e mutilado. Acham que o mundo está todo explorado, todas as ideias, todos os sentimentos, todas as formas, e que tudo isso o têm eles nas suas gavetas e nas suas pastas.

(...)

Isso assim pode ser que seja útil, fácil, vantajoso; pode ser que assim se conquiste a opinião das maiorias boçais, que dão a fama, ou o favor, das minorias inteligentes, que dão alguma coisa melhor do que a fama, que dão a importância, o interesse e o poder. Pode ser que seja hábil isto e até profundo – só não é nem digno nem verdadeiro.Mas são assim as literaturas oficiais, governamentais, subsidiadas, pensionadas, rendosas, para quem o pensamento é um ínfimo meio e não um fim grande e exclusivo; para quem as ideias são uns instrumentos de fortuna mundana, uma ocasião mais de sacrificar as pequenas ou más paixões, em vez de serem uma fortaleza onde se guardem do contato das impurezas e das misérias; para quem esta santa tribuna da palavra não passa de um marco donde lancem o pregão de vergonhosos leilões; para quem a glória é uma especulação feliz, não uma sagrada palma que épreciso colher com mãos puras; para quem, enfim, nobreza, desinteresse, ideal, sinceridade, sacrifício, são apenas boas e sonoras palavras.

(...)

São assim as literaturas oficiais; e o que mais, podem ser doutro modo?

(...)

Como não buscam a verdade pela verdade, a beleza pela beleza, mas só a verdade pelo prêmio e a beleza pelo aplauso, têm de as renegar tantas vezes quantas a beleza não agradar aos olhos embaciados da turba que aplaude, e a verdade ofender os senhores que premeiam e recompensam.”

Claudio Daniel
http://canatarapeledelontra.blogspot.com/

Performances Poéticas e Oficinas no SESC Consolação

Uma observação do poeta, compositor e produtor cultural carioca Chacal deu origem ao projeto que o SESC Consolação realiza a partir de abril: “os jovens poetas, em geral, escrevem bem ou interpretam bem seus poemas. Difícil é juntarem as duas coisas”. É esta, justamente, a idéia da oficina V de Verso - investir na expressão e performance poética, utilizando eventualmente, outras linguagens que apóiem o texto falado. À frente das oficinas estão: o poeta, compositor e produtor cultural Chacal, autor de 14 livros, que há 20 anos dirige no Rio de Janeiro o evento multimídia CEP 20 000; o poeta, locutor, jornalista e produtor cultural Fabio Malavoglia, curador e diretor das Pílulas Poéticas da TV SESC; e o poeta, professor de literatura, crítico e tradutor Fabiano Calixto.

V de Verso terá três módulos: o Errar, o Olhar e a Voz. Ao final de cada um (...) os participantes, ao lado de convidados, vão por em prática o que foi pesquisado na oficina, num Recital Poético, Performático e Musical. Marcando o início do projeto, o SESC promoverá, no dia 15 de março, às 19h30, uma prévia do funcionamento da Oficina: um primeiro recital com Chacal, Fábio Malavoglia, Fabiano Calixto, Ademir Assunção, Bárbara Malavoglia, Pedro Vicente, Rui Mascarenhas, Fernanda D’umbra, Marcelo Montenegro, Fabio Brum e Roberta Estrela D’alva.

PROGRAMA

Abril - O Errar: o incorrer em erro e a errância, a “contribuição milionária de todos os erros” (Oswald de Andrade), as peregrinações literárias (Mário de Andrade, Whitman), o “estar a caminho” (poetas zen, beats), a liberdade necessária para criar.>

Maio - O Olhar: a poesia, “máquina de como ver” (João Cabral), a fanopéia, dança das imagens no poema (Pound), os “poemas kodak” (Oswald).>

Junho - A Voz: o DNA da poesia na oralidade, dos aedos e bardos aos poetas de cordel e ao rap, a função e o impacto da palavra falada, os radiopoemas, poesia e TV.

Marcelo Montenegro
http://marcelomontenegro.blog.uol.com.br/

WALT WITNESS

Como estive pensando em você esta noite, Walt
Whitman, enquanto caminhava pelas ruas sob as
árvores, com dor de cabeça, autoconsciente, olhando a
lua cheia.

No meu cansaço faminto, fazendo o Shopping das
imagens, entrei no supermercado das frutas de néon
sonhando com tuas enumerações!

Que pêssegos e que penumbras! Famílias inteiras
fazendo suas compras à noite! Corredores cheios de
maridos!
Esposas entre os abacates, bebês nos tomates! - e você,
Garcia Lorca, o que fazia lá, no meio das melancias?

Eu o vi Walt Whitman, sem filhos, velho vagabundo
solitário, remexendo nas carnes do refrigerador e
lançando olhares para os garotos da mercearia.

Ouvi-o fazer perguntas a cada um deles; Quem matou as
costeletas de porco? Qual o preço das bananas? Será
você meu Anjo?

Caminhei entre as brilhantes pilhas de latarias,
seguindo-o e sendo seguido na minha imaginação pelo
detetive da loja.

Perambulamos juntos pelos amplos corredores com
nosso passo solitário, provando alcachofras, pegando
cada um dos petiscos gelados e nunca passando pelo
caixa.

Aonde vamos, Walt Whitman? As portas fecharão em
uma hora. Para quais caminhos aponta tua barba esta
noite?

(Toco teu livro e sonho com nossa odisséia no
supermercado e sinto-me absurdo)

Caminharemos a noite toda por solitárias ruas? As
árvores somam sombras às sombras, luzes apagam-se
nas casas, ficaremos ambos sós.

Vaguearemos sonhando com a América perdida do
amor, passando pelos automóveis azuis nas vias
expressas, voltando para nosso silencioso chalé?

Ah, pai querido, barba grisalha, velho e solitário
professor de coragem, qual América era a sua quando
Caronte parou de impelir sua balsa e Você na margem
nevoenta, olhando a barca desaparecer nas negras
águas do Letes?

Um supermercado na Califórnia, de allen ginsberg,
na tradução de claudio willer

Jotabê Medeiros
http://medeirosjotabe.blogspot.com/

Abril Poético 2010

Inicia-se no dia 16 de abril de 2010, a maratona poética/cultural "Abril Poético", percorrendo várias cidades do interior mineiro, o evento coordenado pelo Grupo Cultural Lesma, levanta poeira e poemas, levando arte, poesia e cultura pelas geraes.mais informações e programação em: ABRIL POÉTICO 2010 - Programação

BARKAÇA

É uma publicação (impressa e virtual) alternativa de literatura & artes visuais que se desdobra em exposições itinerantes, navegando sem leme num mar de águas turvas, contra os ventos da pasmaceira cultural, gritando aos olhos dos leitores, para seduzi-los e incomodá-los, assim como um porco espinho de ré! O BARKAÇA tem como mestre de cerimônias um palhaço literário, o Bandeirola. E a cada lançamento, convida bandas de trabalhos autorais a tocar.

Promove ainda festas culturais, recitais e saraus de palco aberto. Recolhendo esmolas do comércio divinopolitano e sem nenhum apoio formal, o BARKAÇA, aos trancos e destrancos, já chegou à quinta edição, publicando 34 bons artistas, a maioria inéditos. (Gente como Cochise César, Lu Peixoto, Juca Figueiredo, William Pinguim etc) E já passou por cidades como Ouro Preto, Belo Horizonte, São João Del Rei, Itapecerica... Sendo lido na Argentina e França, e recebendo críticas em jornais e sites como o Estado de Minas e o http://www.cronopios.com.br/ Os desilustres editores são os poetas diOli, Lopes e Mingau, cuja maior paixão é esmurrar moinhos de vento. Você pode conseguir os folhetos Barkaça gratuitamente com os editores ou nas exposições. Para saber o circuito de exposições visite o blog, onde também podem ser lidas versões digitalizadas dos folhetos.

DiOli
http://barkaca.blogspot.com/

TUDO PROSA
TUDO PROESIA

“Bom frisar que tudo aqui é lance de dados”, escreve o autor do livro Há controvérsias 1 (Editora Arte Paubrasil), o poeta e jornalista Ronaldo Werneck. “Tudo acaso, tudo controvérsias. Tudo palavra que chama toda palavra. Tudo aqui é prosa, mesmo o que não é – o que aprouve, o que aprazia. O que me põe todo proesia”. Diz Zuenir Ventura em e-mail para o poeta: “Ronaldo, você não se cansa de me surpreender com essa sua polissemia, polivalência, politalento. Que excelente poeta você é, cara, e que cronista”.

A coluna Há Controvérsias nasceu em Cataguases na década de 1990, quando Ronaldo Werneck assinava crônicas para o Jornal do Marcos. No Jornal Cataguazes, ainda com “z” – no princípio de suas aventuras como cronista, início dos anos 1960 -, como ele mesmo diz, “eu mantinha uma coluna sob o óbvio pseudônimo de “Roneck”. Tão óbvio como os textos nela publicados, delírios de juvenilidade pré-20 anos”.

Werneck retomou a coluna um quarto de século depois, no Jornal Cataguases. Seu título oscilou de Bubbaloo – final dos anos 1980, início dos 1990 – ao Há Controvérsias, a partir de 1997. Por um período, e por controversas imposições políticas, a coluna chamou-se Com Licença. Mas logo voltou a assumir o definitivo Há Controvérsias. Durante certo tempo, assinou também, e ainda em Cataguases, a coluna Sob as Traves, no jornal esportivo “Olé”. Este livro, Há Controvérsias 1, reproduz boa parte de todas essas colunas, no período que vai de 1987 a 2003. Os textos da coluna Há Controvérsias que vão de 2003 em diante – e publicados nos jornais Cataguases e O Liberal, de Cabo Verde, e nos blogs Contra o Vento e Ronaldo Werneck/Há Controvérsias – sairão publicados no próximo volume, Há Controvérsias 2, a ser lançado em 2010.

Diz Moacyr Scliar, no texto de orelha deste Há Controvérsias 1: “Como todo cronista, Ronaldo Werneck faz de seu cotidiano, e do cotidiano do país, a matéria-prima para seus textos. Conta para isso com uma sensibilidade todo especial (que é, em grande parte, a sua sensibilidade de poeta), com uma capacidade de interpretar o seu tempo, com um domínio seguro da forma literária, com uma cultura invejável. Humor, talento, grandeza humana: Ronaldo Werneck é tudo isso e muito mais, esteja ele escrevendo sobre política, ou sobre futebol, ou sobre a arte de curtir a vida. Leiam-no e constatem”.

Sobre o autor
Poeta e jornalista, Ronaldo Werneck é mineiro de Cataguases. Participou de várias antologias, a última delas Roteiro da Poesia Brasileira Anos 70 (Global, 2009). Tem seis livros de poemas publicados, entre eles Minerar o Branco (Editora Arte Paubrasil, 2008). Mais recentemente, publicou Kiryrí Rendáua Toribóca Opé: humbertoMAUROrevistoPORronaldoWERNECK (Editora Arte Paubrasil, 2009).

Título: Há controvérsias 1 (1987-2003) Autor: Ronaldo Werneck
Texto das orelhas: Moacir Scliar
Gênero: Literatura brasileira / Crônicas jornalísticas
ISBN: 978-85-99629-25-3
Formato: brochura, 16 X 23 cm
Páginas: 264
Peso: 415 g
Preço: R$ 36,00
Editora Arte Paubrasil

Editora Arte Paubrasil
Rua Dr. Amâncio de Carvalho, 192 a 206 -
Vila Mariana 04012-080 - São Paulo-SP - Brasil

Oficinas de Jongo

O Núcleo de Cultura Popular da Associação Cultural TriBAL convida a todos para as Oficinas de Jongo, todos os sábados, ás 16:30h, na Casa 500 anos de História (Rua Coronel Ferreira, 141, Portinho, Cabo Frio).

As Oficinas são coordenadas por Sá Soraya, Tatiana Prota e Letícia Marques.
Conteúdo: -
a história do Jongo, origem, fundamentos;
- parte musical (ritmo, canto e instrumento);
- a roda e a dança

"Jongo, dança em que nosso corpo e nosso ritmo falam de nossas almas" (Mestre Darcy) O Jongo, é uma expressão musical coreográfica trazida pelos negros angolanos que trabalhavam nas fazendas do Vale do Paraíba. Seus versos são curtos, com temas poéticos que traduzem relações da vida cotidiana do homem em contato com uma vida de trabalho braçal. É uma dança de roda, de umbigada, na qual um casal de cada vez vai ao centro da roda e se umbigam mutuamente à distância, através da dança.

Os instrumentos tradicionais do Jongo são 3 tambores, chamados de Caxambu, Candongueiro e Angoma-puíta, este último raramente aparece nos jongos atuais. Esta manifestação cultural e folclórica de nosso país, aparece na região sudeste, incluindo os estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Espírtio Santo. É uma das mais profundas raízes da manifestação da cultura negra no Brasil.

Considerado o ancestral do samba, o Jongo faz parte da identidade cultural do nosso país. É ação de resgate de nossa cultura! Daí toda a importância de pesquisar, aprender e praticar o Jongo nos dias de hoje, para não deixarmos que mais esta parte de nossa história, de nossa cultura se perca.

O trabalho da TribAL com o Jongo é de resgatar esta manifestação cultural que faz parte das nossas raízes e existiu inclusive em Cabo Frio, mas foi se perdendo ao longo do tempo... Estamos formando um grupo de jongo da Tribal, a partir das oficinas, aberto a todos que se interessarem em conhecer e participar desta roda conosco!

Contato: email: tribalarte@yahoo.com.br,
ou pelo telefone: 22-99494410 e 22-81117298
Para conhecer mais sobre a TribAL:
http://www.tribalcultural.blogspot.com/



Jessier Quirino em Brasília

Nos próximo dias 23 e 24 de abril, às 21.00h, na Associação Médica de Brasília – AMBr, espetáculo de lançamento do livro e CD Berro Novo do poeta paraibano Jessier Quirino. Um encontro marcado com a regionalidade, o lirismo, o saudosismo e o humor nordestino, na verve rimada e metrificada do poeta.

Dono de um estilo próprio - domador de palavras - de um extremo preciosismo no manejo da métrica e da rima, Quirino sabe como ninguém, prender a atenção do distinto público, e, num desempenho de uma hora e meia de duração, explora os temas mais variados possíveis, dentro do universo da rima e das palavras.

Declamando os poemas clássicos autorais como: Paisagem de Interior, Vou-me Embora Pro Passado, Agruras da Lata D´água, Comício de Beco Estreito, Parafuso de Cabo de Serrote, entre outros, o poeta irá explorar temas recentes do livro Berro Novo, causos autorais impagáveis, além de tiradas de domínio público de cunho gargalhativo; tudo, dentro da mais pura oralidade campeira.

O livro e CD Berro Novo é a oitava incursão editorial do poeta que tem a trajetória artística e literária fortemente marcada pelo divisor de águas: antes e depois do livro Prosa Morena - 2001, Edições Bagaço. O fato marcante foi a força declamatória registrada no CD que acompanha a edição livresca e que abriu caminho para os espetáculos. De lá pra cá, todos os trabalhos de Quirino têm tido este suporte em CD, considerado uma extensão da obra escrita, e, juntamente com o desempenho de palco, ajudaram a firmar seu nome no cenário artístico nacional.

A abertura do evento ficará por conta da poeta maranhense Lília Diniz, que a exemplo de Jessier, desfolha versos brejeiros pelo Brasil. No repertório poemas do livro Miolo de Pote da Cacimba de Beber e cantigas inéditas de sua lavra.

Perfil, obra e outras informações, pelo site: http://www.jessierquirino.com.br/ Serviço:
Recital solo Berro Novo
Local: Associação Médica de Brasília
– AMBr 21h - Setor de Clubes Sul,
TRECHO – 3
Preço R$ 50,00
Informações: 061 8177-0113

Uma síntese do homoerotismo na literatura brasileira
Por Antonio Naud Júnior

Na história da literatura universal, desde a sua origem aos nossos dias, não faltam celebrações à homossexualidade. Já no Brasil, a obra de conteúdo homossexual, freqüentemente, tem minimizado o aspecto artístico para se concentrar em julgamento moral (caso da reação popular em torno da telenovela “América”, de Glória Perez, em 2005). Felizmente, hoje já se é permitido avaliar com nitidez os caminhos do homoerotismo na literatura brasileira, embora não o veja como gênero literário específico. Superada a época em que tal temática não vendia ou era lida às escondidas, podemos ver agora, em saliência, no complexo contexto dessa literatura, o tecido próprio da arte dita transgressora.

Os escritores brasileiros passaram a escrever sobre esse universo delicado com os episódios de abuso sexual masculino em “O Ateneu” (1988), de Raul Pompéia, e lesbianismo em “O Cortiço” (1890), de Aluísio Azevedo, porém, o estopim do escândalo somente seria aceso com a publicação de "Bom-Crioulo" (1895), do cearense Adolfo Caminha. A audácia do autor custou o silêncio crítico sobre toda a sua obra. Ele narra o namoro entre dois marinheiros, um deles negro, inclusive com descrições de atos sexuais, utilizando vasta soma de informação obtida a partir de depoimentos, prestados em audiências jurídicas, relacionados com casos de sodomia na Marinha e no Exército. Em 1937, a Marinha solicitou, e obteve do presidente Getúlio Vargas, o embargo de uma nova reedição. Só noventa anos depois da primeira edição, a obra voltaria às livrarias e às bibliotecas públicas e escolares.

Em 1914, a revista Rio Nu publicou "O Menino de Gouveia", de autor anônimo, conto ilustrado com a imagem nítida de dois homens praticando sexo anal. Cerca de 60 anos antes, o poeta romântico Álvares de Azevedo, ao morrer antes de completar 21 anos, deixaria uma apaixonada carta de despedida a um amante: "Luís, há aí não sei quê no meu coração que me diz que talvez tudo esteja findo entre nós [...] há em algumas de minhas cartas a ti uma história inteira de dois anos, uma lenda, dolorosa sim, mas verdadeira, como uma autópsia de sofrimento. Luís, é uma sina minha que eu amasse muito e que ninguém me amasse. Assim como eu te amo, ama-me".

Na primeira metade do século 20, o autor da rapsódia "Macunaíma - Herói sem Nenhum Caráter" (1926), Mário de Andrade, mesmo receoso de enfrentar sua realidade sexual, escreveu sobre amores entre rapazes, tanto em contos como em crônicas. Numa das crônicas, diz: "É por causa do meu engraxate que ando agora em plena desolação. Meu engraxate me deixou". Ridicularizado por um machista Oswald de Andrade, Mário foi apelidado por esse de "o nosso Miss São Paulo traduzido em masculino".

Provocando controvérsias, o sociólogo Gilberto Freyre declarou em entrevistas gostar da “fruta proibida”, enfurecendo a sociedade arcaica, que já havia acusado "Casa-Grande & Senzala" (1933) de pernicioso e pornográfico. A homossexualidade do poeta oficial Olavo Bilac e do inventivo cronista João do Rio também era conhecida. João do Rio, aos 18 anos, publicou dois contos gays: "Impotência" e "Ódio". O solitário poeta baiano Sosígenes Costa, autor do clássico "Iararana", escondia sua tendência homossexual. Menos tímidos, Aníbal Machado lançou "João Ternura" (1965) e Lúcio Cardoso, "Crônica da Casa Assassinada" (1959). Um dos maiores escritores da nossa literatura - além de poeta, cineasta e dramaturgo -, Lúcio se revelou no "Diário Completo" (1949-62): "O que ocultamos, é o que importa, é o que somos". O injustamente esquecido Otávio de Faria manteve inéditos, até sua morte em 1980, “Atração” e “A Montanheta”, parte de sua “Tragédia Burguesa”.

Recuperada recentemente, a poesia homoerótica de Mário Faustino revela um bom poeta. Parceiro de juventude do polêmico jornalista Paulo Francis, ele morreu em 1962, num desastre de avião, aos 32 anos. Não podemos esquecer Paulo Hecker Filho, autor de "Internato" (1951). Em 1957, o carioca Jorge Jaime publicou “Monstro que Chora” (Dramas Homossexuais). Na capa, debaixo de uma frondosa árvore, um rapaz ajoelhado aos pés de outro, que posa de indiferente. O volume se compõe de duas obras. A segunda, a peça teatral “O Amigo”, fala de um jovem fascinado por um amigo, perdendo a noiva para ele e planejando vingança. A primeira parte é que dá título ao livro. Uma obra ousada, que em plenos anos 50 aborda abertamente esse tema ainda tabu.

Nos anos 60 e 70 se falou muito de Cassandra Rios, que vendia em média trezentos mil exemplares anuais. Ela estreou aos 16 anos com “Volúpia do Pecado” (1948), financiado pela própria mãe. Perseguida pela rígida censura do regime militar e tachada de pervertida, teve trinta e seis livros proibidos. Sua obra mistura lesbianismo, religião e política, numa combinação explosiva. Muito famosa, aparecia em programas de tevê vestida de smoking. Terminou abandonando a carreira para se tornar messiânica, morrendo em 2002.

Já a secreta vida sexual do mineiro Pedro Nava só foi sabida após o seu suicídio. No entanto, a união entre a poeta norte-americana Elizabeth Bishop e a arquiteta brasileira Lota de Macedo Soares, registrada em cartas e no livro "Flores Raras e Banalíssimas" (1995), de Carmen L. Oliveira, era conhecida no meio literário. Elas viveram juntas por dez anos em Samambaia, perto de Petrópolis. O álcool destruiria essa relação.

No romance "O Grupo / The Group" (1963), de Mary McCarthy, a baronesa lésbica é inspirada em Lota. Vange Leonel e Álex Leilla (“Henrique”, 2001) são nomes importantes na moderna literatura brasileira que aborda o assunto.

Entre 1978 e 1981, o Lampião da Esquina, um jornal porta-voz gay, projetou Aguinaldo Silva, Darcy Penteado e João Silvério Trevisan, este autor de "Devassos no Paraíso" (1986), a história da homossexualidade brasileira dos tempos coloniais até ao fim do milênio passado. Na introdução desse estudo fecundo que já nasceu clássico, Trevisan fala do homossexual como de alguém que instaura uma dúvida, "algo que afirma uma incerteza, que abre espaço para a diferença e que se constitui em signo de contradição frente aos padrões da normalidade".

Aguinaldo Silva publicou em 1975, "Primeira Carta aos Andróginos", um relato cru dos engates num cinema carioca. Darcy Penteado é autor de "A Meta", 1976, coletânea de contos autobiográficos. Na mesma década de 70, surgiu a literatura do gaúcho Caio Fernando Abreu, o autor de "Onde Andará Dulce Veiga?" (1990). Os seus contos são reveladores, destacando-se "Aqueles Dois".

O poeta potiguar Paulo Augusto escreveu "Falo" (1979), tocando nas idéias e comportamentos libertários da contracultura dos 70, caracterizando uma identidade que reivindica o lugar da diferença e contribuindo para que o indivíduo se liberte das amarras sociais e morais. Em 1993, a irreverente Hilda Hilst escreveu a história gay “Rútilo Nada”.

Outros nomes importantes para a compreensão do mesmo tema são os de João Gilberto Noll, Silviano Santiago, Antonio Bivar, Herbert Daniel, Bernardo Carvalho, Luis Capucho, Jean-Claude Bernardet, Roberto Piva (que se classificou como "eu sou o jet-set do amor maldito"), Waly Salomão, Glauco Mattoso, Valdo Mota, Jomard Muniz de Britto, Ítalo Moriconi, Antonio Cícero, Ana Cristina César, Lima Trindade, Marcelino Freire e o argentino que vivia em São Paulo, Nestor Perlongher.

Silviano Santiago, também poeta e ensaísta, não passou despercebido com "Stella Manhattan" (1985), enfrentando vergonha e culpa no romance "Uma História de Família" (1993). Herbert Daniel é autor do sincero e autobiográfico "Passagem para o Próximo Sonho" (1982), onde narra sua participação na guerrilha brasileira e seus problemas enquanto homossexual que, após fugir do Brasil durante a ditadura de 1964, acabou se empregando como porteiro numa sauna gay de Paris.

Jean-Claude Bernardet, em parceria com Teixeira Coelho, publicou em 1993 a novela epistolar "Os Histéricos". Bernardo Carvalho é autor do excelente volume de contos "Aberração" (1993). Capucho escreveu o erótico-pornô "Cinema Orly" (1999) e o capixaba Valdo Mota é um adepto da sodomia mística literária. Carlos Hee (“Trem Fantasma”, 2002), Nelson Luiz de Carvalho (“O Terceiro Travesseiro”, 2003) e Sílvio Corceau (“Vitrine Humana”, 2004) trouxeram para dentro de sua literatura a narrativa de suas experiências, de suas emoções, de uma sensualidade pulsante que motivou o interesse do leitor.

O meu “Pequenas Histórias do Delírio Peculiar Humano”, que será lançado ainda este ano, desenha perfis homossexuais em vários contos. O mesmo acontece com os romances, inéditos, “Homem sem Caminho” e “Fome de Amor”. O primeiro, uma versão contemporânea de “Carmen”, de Prosper Merimée, envereda pela atração fatal de um imigrante brasileiro por um cigano bandido, numa Andaluzia turística, prostituída e povoada por entidades espirituais. Além deles, escrevi ensaios sobre os autores homossexuais Yukio Mishima, Jean Genet, Christopher Isherwood, Paul Bowles, Manuel Puig, Reinaldo Arenas, Djuna Barnes, Virgínia Woolf, Lord Byron, Bernard-Marie Koltés e Federico Garcia Lorca.

Na dramaturgia, Nelson Rodrigues deu a senha do ladrão boliviano em "Toda a Nudez Será Castigada" (1965); Chico Buarque de Holanda imortalizou o travesti Geni em "A Ópera do Malandro" (1978) e Plínio Marcos marcou época com o marginal Veludo de "Navalha na Carne" (1967). Contudo, uma das mais importantes obras tupiniquins de vigor homossexual é "Grande Sertão: Veredas" (1956), em que Guimarães Rosa desenha a ambigüidade. Nesse épico da linguagem, o jagunço Riobaldo ama secretamente seu jovem parceiro Diadorim sem saber que ele é uma mulher masculinizada. O escritor italiano Claudio Magris, numa resenha publicada no jornal espanhol El País, disse se tratar de “uma das mais importantes histórias gays já escritas".

Todos esses escritores, além dos julgamentos morais, deixaram-se conhecer, ou melhor, fomentaram nas palavras o desamparo do desconhecido, do verdadeiro, do valente. Questionando comportamentos, num estimulante embate entre o desejo e a denúncia, eles criaram uma talentosa literatura de vocação sensível e sensual, jamais banal ou pornográfica.

in Cronópios Literatura e Arte: www.cronopios.com.br

Edital do MinC causa polêmica entre revistas

O Estado de S. Paulo - SP, Caderno 2, por Jotabê Medeiros, em 18/03/2010

Um edital de apoio do Ministério da Cultura (MinC) está causando protestos no meio intelectual. Trata-se do Edital de Periódicos de Conteúdo Mais Cultura, lançado em 30 de setembro, e que teve 26 publicações habilitadas no último dia 19 de fevereiro. Dessas, apenas 4 serão escolhidas.

O edital destina-se a abastecer bibliotecas públicas, Pontos de Cultura e de Leitura com publicações de natureza cultural (literária, musical, de artes plásticas). Para tanto, vai destinar-lhes R$ 2,1 milhões. Acontece que, entre os selecionados, estão a Rolling Stone, Caros Amigos, Brasileiros, a Piauí, Le Monde Diplomatique e a revista de inglês Speak Up, o que levou concorrentes não habilitados a protestar contra os critérios do edital. Publicações de grandes grupos editoriais, como a Bravo!, também tentaram a seleção (sem sucesso).

Diversas revistas alternativas importantes, a maior parte de literatura, e que penam horrores para chegar a parcos leitores, não foram habilitadas. A falta de apoio tem vitimado várias, caso da Ontem Choveu no Futuro, de Campo Grande, que só teve um número; a Entretanto, do Recife; a Babel, de Santos; a Etcetera e a Oroborus, de Curitiba, e a Pulsar, do Maranhão. Outras, como a Polichinelo do Pará e a Azougue e a Inimigo Rumor, do eixo Rio-São Paulo, resistem a duras penas.

Uma das que saem aos trancos e barrancos (é apoiada por programa da cidade de Londrina, no Paraná) é a Coyote, publicada há 8 anos (sai esta semana a número 20). Ela foi desabilitada pelo edital por não possuir assinaturas individuais. Um dos seus editores, Rodrigo Garcia Lopes, está frustrado com o resultado.

“O edital privilegia revistas comerciais, que estão no mercado, e acaba inviabilizando revistas de conteúdo realmente cultural, de criação. Será que a Rolling Stone, a Speak Up e uma revista como a Piauí, que têm uma infraestrutura por trás, um instituto, realmente precisam de incentivo fiscal? É como se fizesse uma política agrária para o latifúndio e deixasse o pequeno agricultor morrer à míngua. Isso é um erro terrível, num governo popular e democrático como este.”

Marcio Seidenberg, do grupo que edita a Ocas, dize que só soube que a publicação não tinha sido habilitada um dia antes de poder entrar com recurso. A revista é vendida nas ruas e bares. “Não sei exatamente qual é a função do edital, se é levar publicações alternativas às bibliotecas ou revistas consagradas”, ponderou.

O MinC informou que pretende reavaliar o edital numa próxima edição, mas manteve a decisão
da comissão julgadora. Também estuda ampliar o volume de recursos para o edital.

Paulo Leminski:
o elo perdido
da poesia brasileira*
Vivaldo Trindade

"ascensão apogeu e queda da vida paixão e
[morte
do poeta enquanto ser que chora enquanto
chove lá fora e alguém canta
a última esperança de chegar
à estação da luz e pegar o primeiro trem
para muito além das serras que azulam no
[horizonte
e o separam da aurora da sua vida"


Rezam as lendas que em agosto de 1963 um jovem de dezessete anos partiu de Curitiba para Belo Horizonte de carona. Seu intuito era aportar na capital mineira para a Semana Nacional de Poesia de Vanguarda, onde se reuniam Augusto e Haroldo de Campos, Décio Pignatari, Benedito Nunes, Luiz Costa Lima e outros para discutir e lançar um novo programa para a poesia brasileira. O resultado da iniciativa do destemido jovem deu-se um ano depois, quando estreou no quarto número de Invenção, revista propagandista dos concretistas, com cinco poemas. O poeta se chamava Paulo Leminski e, enquanto viveu, foi um dos mais ousados e melhores poetas de seu tempo.

Esta colaboração foi o primeiro de longos e vigorosos passos. Leminski escreveu livros, fez música, jornalismo, lecionou, ingressou na tevê, foi agitador cultural e constituiu-se numa figura emblemática para sua geração. Geração disposta a abandonar os literalismos, a usar seu poder de fogo para questionar e implodir estruturas, estabelecendo e se apropriando de novos focos de comunicação, novas formas de expressão e linguagem. Torquato Neto, Ana Crisitina Cesar e Duda Machado são outros a ocupar a linha de frente deste time de letras.

E pensamos se a projeção alcançada por ele, distinguindo-se dos outros em poder de penetração, não foi justamente por seu dinamismo. Quando Caetano Veloso musicou e gravou uma composição sua, Verdura, no disco Outras Palavras, 1981, Leminski se alça finalmente para o público de massa e, posteriormente, viria a conquistar seguidas reedições de seus livros.

Há quem pense que a poesia vive um momento em que se não submeter-se a outros gêneros morrerá. E há também alguém que pensa que a poesia deixa de ser poesia quando amparada por outros suportes que não o papel ou a tela de um computador. São os arrendatários de títulos nobiliárquicos e os profetas do infortúnio. Dão maior importância ao status que a literatura proporciona do que à própria literatura, pretendem-se heróis e senhores de conhecimentos únicos.

Contudo, para que a palavra permaneça viva, representando os diversos sentimentos das coisas: cheiro, forma, sabor, imagem e som, significando idéias, é preciso que não se desassocie do mundo no qual está inserida, e, sendo, no caso, a literatura brasileira, deve estar ela associada ao Brasil.

Mário Faustino exprimiu com muita felicidade o perfil necessário para o legítimo poeta de uma nação: deveria ele reunir em si os três andrades: a combatividade de Oswald, a erudição de Mário e o fôlego de Carlos Drummond.

Se Paulo Leminski não realizou o sonho de Faustino, pelo menos se aproximou dele, sendo um pouco Mário e Carlos e quase totalmente Oswald. Antes dele, somente Carlos Drummond fora tão completo. Depois dele, ninguém.

É ele uma espécie de elo perdido da poesia brasileira, alguém que se precisa enxergar mas ao qual não se vê nada além de um vulto difuso para o futuro.

Paulo Leminski soube tirar o melhor de suas experiências como matéria de estudo. Dos concretos herdou o gosto pela concisão e a força da imagem sem deixar-se seduzir por um hermetismo de gabinete. Do hai kai moderno, a precisão. Do modernismo, o humor. Dos beatniks, o gosto pela vida e o afrontamento das formas de poder. E mesmo da tradição em que se inscreviam românticos e simbolistas, um idealismo existencialista. Mas o principal no seu apropriamento consiste no uso da linguagem, no "como" ele manuseia a coloquialidade e a oralidade, tal como vemos em um de seus poemas sem título:

este planeta, às vezes, cansa,
almas pretas com suas caras brancas
suas noites de briga braba,
sujas tardes de água mansa,
minutos de luz e pavor
casa cheia de doce,
ondas tinindo de dor,
acabou-se o que era amargo,
pisar este planeta
como quem esmaga uma flor

Ou ainda:

hoje o circo está na cidade
todo mundo me telefonou
hoje eu acho tudo uma preguiça
esses dias de encher lingüiça
entre um triunfo e um waterloo

Assim como é facilmente percebível o diálogo com o momento vivido no clima de tensão e violência de "Como Abater Uma Nuvem a Tiros":

sirenes, bares em chamas,
carros se chocando,
a noite me chama,
a coisa escrita em sangue
nas paredes das danceterias
e dos hospitais,
os poemas incompletos
e o vermelho sempre verde dos sinais

E em como, para ele, o poeta tem de estar engajado na matéria da vida, conforme o manifestado em "Profissão de Febre":

quando chove,
eu chovo,
faz sol,
eu faço,
de noite,
anoiteço,
tem deus,
eu rezo,
não tem,
esqueço,
chove de novo,
de novo, chovo,
assobio no vento,
daqui me vejo,
lá vou eu,
gesto no movimento

E este é um aspecto imprescindível para a poesia de qualquer época. Toda a universalidade de discurso, querendo-se ou não, é advinda desse processo, partindo da vida para a história, ou, no máximo, de uma revisão da história, contextualizando-a no presente, e não o contrário.

Precisamos urgentemente de literatas, artistas e intelectuais comprometidos com o projeto da modernidade. Modernidade no sentido mais nobre da palavra, sem arroubos consumistas de tecnologias ou melancólicos suspiros em volta do passado. Para isso não é necessário desprezar a tradição nem fincar ferros em efemérides. Basta disposição para procurar entender o seu tempo canalizando as causas assumidas no passado e suas possíveis conseqüências no futuro, sem medo de arriscar o uso de novas linguagens ou possuir preconceitos quanto a coloquialidade.

Vivaldo Trindade
Publicado originalmente no site da Verbo, em 23 de Agosto de 2001.


como deixei de ser deus
por Márcio Almeida
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Corre no país o chiste de que 99% dos juízes, promotores, políticos, artistas midiáticos, acadêmicos, jogadores de futebol, pastores e quejandos têm forte propensão a acharem que são Deus. 1% tem certeza.
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O livro de Pedro Maciel (Topbooks, 2009) contém o DNA da nova boa literatura brasileira em nível de narrativa de ficção. Sem favor algum, insere-se Como deixei de ser Deus entre os (poucos) livros realmente inovadores publicados no país na atualidade. Maciel detona o grande código, Deus, e põe em xeque a autoridade dos discursos teológico, filosófico, exegético e literário. Deo gratias.

O autor dialoga com a intertextualidade e, em estilo polissêmico, imprevisível, oferece aforismos e epifanias a leitores bem preparados para impactar novos parâmetros literários, que põem Deus em questão. Como deixei de ser Deus não é um livro para amebas felizes ou o leitorado dos regozijos triunfalistas.

Até mesmo para brincar com Deus é preciso ter competência. Einstein teve. Carl Sagan teve. Maciel tem. Entre o lírico e o retórico, condensado em frases e enunciados pluridiegéticos, o pensado e o irônico, o autor estrutura uma babel com oráculos de ruínas, coralidade de vozes múltiplas, científicas, religiosas, seculares e profanas, datações imprecisas, desconstruções apócrifas, filosofismos metafóricos, tudo com uma única certeza: Deus é a grande ficção.

Maciel faz um livro perquiritivo de Deus sem cair na escatologia, no drama triplo da crise-sentença-vindicação. Sem elucubrações tardo-religiosas metafísicas, teologias de bolso, opondo-se naturalmente à mentalidade confessionalista de gueto. Sem se expor à esparrela dogmática, à doxa dos radicalismos dominicais e dos agnósticos do colunismo jornalístico. Sem mais um apocalipse now ou passadiço, sem posicionar-se como um sempre chatérrimo antichristus mysticus.

Além de passar um tsunami na estrutura canônica do romance, com os seus tradicionais narrador(es), personagens, coadjuvantes, ação em crescendo rumo a um grand finale, desenvolvimento real-imaginário com descrições manjadíssimas, criando uma leitura lúdica como o tabuleiro de xadrez cortaziano em O jogo da amarelinha, p.ex., Maciel põe o "gênero" em pânico e, muito mais do que simplesmente inovar, propõe uma escritura palatável, culmina um livro de leitura saborosa posto que inteligente, sagaz, absorvente como um modess para sangrias mentais desatadas.

Mérito próprio deste livro está em o autor ter formulado uma questão interessante e emblemática até agora não observada em sua fortuna crítica: o narrador, ao deixar de ser Deus, supõe-se o homem capaz de se assumir humano, ser mortal, o que pressupõe, por sua vez, que Deus continue a existir, por isso, Ele é como o inexistente imprescindível, que persiste como objeto de re-flexão.

Maciel projeta-se no livro como um filosoeta que pensa o tempo o tempo todo — o tempo em si, o tempo no tempo, o tempo no espaço, o tempo sem física: não me importo com as coisas perdidas mas com o tempo perdido (p. 21); por enquanto este é ainda o tempo da tragédia, o tempo das morais e das religiões (p. 25); o olho da memória, com o tempo, começa a usar óculos (p. 29); o espírito permanece no tempo e não no espaço. Jamais tive outro cárcere além do meu corpo (p. 31); sobreviver além do meu tempo. O tempo já não me é tão longe de tudo (p. 41); o que perdi senão o tempo? Ninguém viveu no passado, ninguém viverá no futuro; o presente é a forma de toda vida (p. 69); só o tempo chega (p. 77); preciso de tempo para ser breve (p. 79); o tempo sempre anda mais devagar do que o pensamento. pensamos que somos eternos (p. 101); cada tempo é uma história (p. 113); entretempo: sempre penso naquele espaço do tempo entre ser e não ser (p. 119); o tempo vai-se, e os anos chegam... (p. 123).

Tais reflexões não são invencionices, têm uma origem: Maciel treinou a escritura de Como deixei de ser Deus nos últimos anos (ou talvez, a vida toda), publicando breves ensaios nos jornais O Globo, Jornal do Brasil, Folha de São Paulo, Suplemento Literário de Minas Gerais, entre outros veículos, e, hoje, estes são reproduzidos nos sites Cronópios, Digestivo Cultural, Germina — Revista de Literatura e Arte, entre outros, onde apresenta suas fontes epistêmicas básicas. Em relação ao fator tempo, é o caso de Blaise Pascal (1623-1662), a quem dedicou "A transcendência da condição humana", físico e matemático em cuja obra Pensamentos, tenta justificar a fé pela razão. Maciel dixit: Pensamentos é um conjunto de notas e rascunhos que deveria servir para a redação da "Apologia do Cristianismo".

O livro de Maciel tem a mesma estrutura fragmentária e provisória da obra pascalina. Em sua leitura, Maciel como que antecipa seu próprio modus operandi no livro em pauta: "Temos de ser capazes de ver, nos textos incompletos, nas frases interrompidas, na miscelânea dos assuntos, na brevidade das fórmulas, na desordem das citações, a mais profunda meditação que já se fez sobre as tensões que definem as relações entre o homem e a transcendência que o supera pelo terror, pelo temor e pela piedade". Seu livro é isso.

Símbolo caro ao livro, a sombra [a minha sombra nunca usa máscara (p. 43); minha sombra olha por mim (p. 61); sombra, ilusão do tempo (p. 113)] tem referência pinçada no autor de Elogio da sombra, e prova disso é o ensaio macielino intitulado "A eternidade nos labirintos de Borges", justamente sobre Elogio da sombra. Referência por excelência, esse livro é espelho para Maciel, cujo comentário de Borges é também pertinente ao seu próprio livro: "O tempo ensinou-me algumas astúcias: evitar os sinônimos (...) preferir as palavras habituais às palavras assombradas; intercalar em um relato traços circunstanciais, exigidos agora pelo leitor; simular pequenas incertezas, já que, se a realidade é precisa, a memória não o é; narras os fatos (...) como se não os entendesse totalmente".

Maciel cria o epíteto "iluminista das sombras" para João Gilberto Noll, cuja obra comenta na Revista Bravo. Em outro livro, O narrar uma história, no qual Borges afirma: "Acho que o romance está em declínio. Acho que todos aqueles experimentos bastante ousados e interessantes com o romance por exemplo, a ideia de deslocamento temporal, a ideia de a história ser contada por diferentes personagens — todos eles conduzem ao momento em que o romance não estará mais entre nós".

Maciel conscientizou-se da natureza revolucionária do seu romance. Borges pode ter também iniciado Maciel na leitura do tempo e na técnica das citações, pois no citado ensaio, o autor mineiro cita outro aforismo consentâneo à sua dicção intertextual: "Muitas vezes descubro que estou apenas citando algo que li tempos atrás, e isto se torna uma redescoberta".
Muitos aforismos de Como deixei de ser Deus foram originalmente publicados nos seus breves ensaios publicados nos jornais e revistas e reproduzidos atualmente em sites. É só conferir: que quer o tempo? suspirar — que quer o templo? — guardar. Estes, por sua vez, têm procedência em Kafka — Contos, fábulas e aforismos" (tradução de Ênio Silveira, Civilização Brasileira) também objeto de leitura de Maciel).

As incursões de Maciel têm outras procedências e uma delas, com toda certeza, é E. M. Cioran (1911-1995), a quem dedica o breve ensaio "Cioran e a arte da provocação" (clique aqui e leia), comentando o livro Exercícios de admiração, no qual identifica "o autor de aforismos, silogismos e breviários, desvenda o universo literário de Samuel Beckett".

Maciel é o próprio Malone empreendendo em Como deixei de ser Deus "um monólogo após o fim de algum período cósmico", com "a sensação de entrar num universo póstumo, em alguma geografia imaginada por um demônio, livre de tudo, até mesmo de sua maldição". E lá está também Beckett a levar Maciel a pensar o tempo: "O tempo que temos para passar na Terra não é tão longo para que o utilizemos em outra coisa além de nós mesmos".

E essa utilização do tempo em causa própria reflete o que talvez identifique muito o romance macielino, de que, aliás, ele tem amplo conhecimento: o portrait littéraire que, segundo Saint-Beuve, "é uma forma utilizada para produzir nossos próprios sentimentos sobre o mundo e sobre a vida, para exalar com subterfúgio uma certa poesia oculta".

Isso é feito com a "arte da provocação" de Cioran, encontrada também em Baudelaire, nos apócrifos, nos autores da teologia negativa. Ao citar aforismos como peço a Deus que me livre de Deus (p. 53); por que voltar a ser eu mesmo? (p. 59); após certos acessos de eternidade e de febre, nos perguntamos por que razão não nos digamos ser deus (p. 65); Deus não se revela "no" mundo (p. 73); Deus, inspiração dos pirados (p. 85); Deus nada pode sem nós. O sonho de Deus é viver a minha vida (p. 93) et al, literalmente, Maciel provoca: a si mesmo, o leitor, os pensadores oficiais, laicos e seculares — provocar é ensejar o outro a pensar diferente, a pensar a diferença.

Diria, então, Cioran, no recorte macielino: "Competir com Deus, ultrapassá-lo mesmo apenas pela força da linguagem, esta é a proeza do escritor, espécime ambíguo, dilacerado e enfatuado que, livre da sua condição natural, se entregou a uma vertigem magnífica, sempre desconcertante".

Quem tem o hábito de pensar além do próprio espelhumbigo, ao ler o romance de Maciel lembrar-se-á de Rorthy, quando este propõe "abandonar a pretensão metafísica exigida das relações da razão humana com a natureza das coisas", o que implica "na negação da possibilidade de uma compreensão platônica da realidade como a relação entre as ideias e as palavras ou enunciados sobre esta realidade". Por isso, justificando mais uma vez a inovação romanesca de Como deixei de ser Deus, já não sem poder recorrer a fundamentos ou metanarrativas. Em lugar destes recursos, olha Rorthy aí de novo, postula-se na pós-modernidade o conhecimento "contextual", "pragmático", "funcional" e "relativista". Assim, pensar a questão deífica na atualidade implica em optar sine qua non pelo pluralismo e o relativismo, em cujas epistemes a verdade é "aquilo que é vantajoso crer".

Maciel dixit: Platão dispersa sua crença por diversas formas: diz no Timeu que o pai do mundo não pode ser designado; em As leis, que não devemos inquirir sobre seu ser; e em outros momentos, nesses mesmos livros, faz deuses o mundo, o céu, os astros, a terra e nossas almas. Graças a Deus que ninguém é Deus! (p. 19); Perseu, discípulo de Zenão, sustentou que haviam sido cognominados deuses aqueles que trouxeram algum benefício notável para a vida humana ... (p. 23).

A concepção deífica de Maciel, com início nos mitos anímicos e pensares pré-atomistas, cujos elementos forjam o universo, a história, a memória, o esquecimento e a lembrança, se expande como tempo na cosmologia dinâmica e chega à pós-modernidade com a assertiva irrefutável de George Smoot e Keay Davidson em Dobras do tempo (Rocco, 1995): "nenhuma teoria é sagrada" (p. 13). Daí a conclusão do autor pelo viés de Diógenes: Deus é o tempo (p. 21).

Quem estiver mesmo a fim de curtir Como deixei de ser Deus com maior profundidade, valorizando não apenas a magnitude do romance como a si mesmo, como leitor de acuidade, identificará na intertextualidade um Nietzsche nas entrelinhas do eterno retorno do mesmo, da genealogia da moral e do anticristo: por enquanto este é ainda o tempo da tragédia, o tempo das morais e das religiões (p. 25); ele não sabe quem foi, quem é e quem pode ser. às vezes ele olha para si como se ele fosse outro apesar de ser o mesmo de sempre (p. 39); do ponto de vista moral, nós vivemos ainda na era neolítica, quer dizer, não somos completamente rudes e, no entanto, não saímos de um estágio da maior rusticidade ou que possa justificar qualquer celebração (p. 59).

Além da antinomia Deus X ciência, os aforismos macielinos põem na roda da reflexão a enteléquia, que se encontra no todo do livro como ideia de télos do desenvolvimento infinito, da humanidade como infinita razão, entendida como aquilo que ordena necessariamente o homem segundo sua própria decisão: onde eu posso ser apenas um ser abstrato? Quando a palavra recupera o seu sentido exato? (p. 81); sou o Deus de mim mesmo (p. 93); por que tanto esforço em ser como eles? um dia serei eu o outro (p. 109). A dialógica chega também à ascese intramundana bergsoniana, através da desmistificação procedida na linguagem. A propósito,

Como deixei de ser Deus tem muito a ver também com Weber, que pensa o homem entre uma teodiceia do bem (ser humano e ser capaz de se pensar humano e em Deus) e uma teodiceia do sofrimento (saber-se limitado pela finitude, pela racionalidade que provoca a renúncia do homem à transcendência em função de sua sobrevivência): estou a um passo de tornar-me um ser humano. Por muito tempo me sentia como se fosse um deus qualquer (p. 123); ele só recuperou a saúde mental depois de dar adeus aos deuses (p. 127).

O romance de Pedro Maciel permite múltiplas leituras. Do big-bang à teoria de um colapso cosmológico, dele se deduz uma certeza: a de que Deus é sedução. Ele faz pensar. E nisso está o que anima o homem a ir em frente: o deusejo. Mesmo porque, já o disse Robert Milikan — Deus ainda está de serviço. Sirva-se.
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O livro: Pedro Maciel. Como deixei de ser Deus. Rio de Janeiro: Topbooks Editora, 2009.