quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Mário Faustino

1.

PREFÁCIO

Quem fez esta manhã, quem penetrou
à noite os labirintos do tesouro,
quem fez esta manhã predestinou
seus temas a paráfrases do touro,
a traduções do cisne: fê-la para
abandonar-se a mitos essenciais,
desflorada por ímpetos de rara
metamorfose alada, onde jamais
se exaure o deus que muda, que transvive.
quem fez esta manhã fê-la por ser
um raio a fecundá-la, não por lívida
ausência sem pecado e fê-la ter
em si princípio e fim: ter entre aurora
e meio-dia um homem e sua hora.

2.

SONETO ANTIGO

Esse estoque de amor que acumulei
Ninguém veio comprar a preço justo.
Preparei meu castelo para um rei
Que mal me olhou, passando, e a quanto custo.

Meu tesouro amoroso há muito as traças
Comeram, secundadas por ladrões.
A luz abandonou as ondas lassas
De refletir um sol que só se põe

Sozinho. Agora vou por meus infernos
Sem fantasma buscar entre fantasmas.
E marcho contra o vento, sobre eternos

Desertos sem retorno, onde olharás
Mas sem o ver, estrela cega, o rastro
Que até aqui deixei, seguindo um astro.

3.

BRASÃO

Nasce do solo sono uma armadilha
das feras do irreal para as do ser–
Unicórnios investem contra o Rei.
Nasce do solo sono um facho fulvo
transfigurando a rosa e as armas lúcidas
do campo de harmonia que plantei.
Nasce do solo sono um sobressalto.
Nasce o guerreiro. A torre. Os amarelos
corcéis da fuga de ouro que implorei.
E nasce nu do sono um desafio.
Nasce um verso rampante, um brado, um solo
de lira santa e brava – minha lei
até que nasça a luz e tombe o sonho,
o monstro de aventura que eu amei.

4.

HACELDAMA

Meu desespero é fonte onde as lágrimas boiam
sem achar uma esponja, um cálice que as una;
meu canto, esta alimária sob o verbo do tempo,
sobre a língua da morte, entre os lábios do inferno,
Quem não viu essas sombras cavalgando meu fado,
carregando em triunfo as palavras que ergui?
Porque só por um beijo em seu rosto sem mancha
fiz de um saco de prata o meu campo de sangue.
Meu desespero é brejo onde os restos borbulham
do prodígio que fui de penumbra e silêncio.
E ninguém fere a lira e as palavras que acordo
marcham turvas, sem som, rumo à cova do olvido.
É morto, em tumba nova, o meu sonho de vida.
É morto – mais que morto – exilado, sepulto,
feriram-no em seu lado e na linfa que escorre
não há gota de sangue ou promessa de volta.
E eu de amor também morro e maculo meu fim
de mandrágora eleita raiz dessas cruzes
Onde os ramos do espinho e dos figos se anulam.
Que nada chore ou cante aqui, ou que perdoe
a memória do dia, o remorso da aurora:
quando cada sentido negou-se a desistir
de marcar o compasso da parábola;
quando esta boca ao verbo contrafeita
sonhou guardar o estigma de teu ósculo;
quando este olhar sem lume se fechou
à trajetória crua de teus raios;
quando este ouvido abriu-se derradeiro
à nua cessação de teus apelos;
quando estas mãos sem mácula encontraram
o rastro de teus dedos pelos túneis –
oh chama de açafrão, fumo de incenso,
jamais fareis tremer estas narinas!–
Houve turbas e turbas e mais turbas em fuga.
Quem não quer ver aqui a serpente que fui?
Não se envolva em sudários a nudez deste crime
nem pálpebras se baixem sobre o olhar suicida.
Gladiatório, marítimo: na dureza do espaço
final força é pisar com violência.
A cal sobre o sepulcro de meu nome
rouba-me a lenda
um furacão nas ilhas de meu sangue
destrói-me o dia
trombas no mar de lava de meu cérebro
partem-me a gorja
cortam-me o grito
torcem-me o gesto
a vanguarda do não avança e vence
os mercenários físicos debandam –Fonte de fogo
dá-me essa Glória
Sarça de fogo
dá-me o Poder
Cinza de fogo
dá-me esse Reino –
Carneiro de mortos que ostentas o abismo e ocultas a Vida
oh a promessa!
Carneiro de corpos que exaltas os ossos e oprimes a Carne
oh a miragem!
Carneiro das almas que instalas a treva e expulsas o Espírito
oh armadilha!
Eu vi um bezerro dourado morrer de abandono.

5.

VIDA TODA LINGUAGEM

Vida toda linguagem,
frase perfeita sempre, talvez verso,
geralmente sem qualquer adjetivo,
coluna sem ornamento, geralmente partida.
Vida toda linguagem,
há entretanto um verbo, um verbo sempre, e um nome
aqui, ali, assegurando a perfeição
eterna do período, talvez verso,
talvez interjetivo, verso, verso.
Vida toda linguagem,
feto sugando em língua compassiva
o sangue que criança espalhará – oh metáfora ativa!
leite jorrado em fonte adolescente,
sêmen de homens maduros, verbo, verbo.
Vida toda linguagem,
bem o conhecem velhos que repetem,
contra negras janelas, cintilantes imagens
que lhes estrelam turvas trajetórias
Vida toda linguagem –
como todos sabemos
conjugar esses verbos, nomear
esses nomes:
amar, fazer, destruir,
homem, mulher e besta, diabo e anjo
e deus talvez, e nada.
Vida toda linguagem,
vida sempre perfeita,
imperfeitos somente os vocábulos mortos
com que um homem jovem, nos terraços do inverno,/
contra a chuva,
tenta fazê-la eterna – como se lhe faltasse
outra, imortal sintaxe
à vida que é perfeita
língua
eterna.

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