quinta-feira, 10 de setembro de 2009



O oráculo míope da cultura...

O episódio da "prestação de contas" e "das subvenções sociais"(nome pomposo para mamata), que envolve o pateta da cultura, o oráculo, e o pessoal das "entidades" carnavalescas poderia ser assim representado:
Se fosse teatro, seria do absurdo; se fosse um quadro, seria surreal; se fosse um poema, dadaísta; se fosse cinema, seria um Buñuel; se fosse literatura, seria Kafka...Nada nesse "roteiro" é como parece...
Como se esperar a prestação de contas do dinheiro público "torrado" nas agremiações carnavalescas...??
Nunca as houve, e se as houver, em algum tempo futuro, serão peças de ficção...
O Ministério Público, os parlamentares da oposição, e toda a sociedade civil organizada deveriam estar com uma "lupa" sobre essas "contas" que serão apresentadas...
Corremos o risco de assistir a um espetáculo de reinvenção da matemática...2+2 poderão ser 5, e toda soma será sempre menor que zero...
Licença poética, deve ser...
Seria cômico se não fosse trágico: o pateta da cultura ameaça com a suspensão de repasses futuro, caso as "contas" não sejam apresentadas...Ué, eu pensei que a prestação de contas fosse uma obrigação para toda e qualquer pessoa , e ou entidade que se utilizasse de verbas públicas, e que sobre esse fato não pesassse nenhuma condição, ou "prêmio"...Ou seja, se já "gastou" nosso dinheiro tem que prestar contas, independente das "expectativas futuras"...Inclusive de todos os outros anos, nos quais receberam os "repasses"...Ou o tempo apaga as falcatruas...????
Mas para que não digam que toda essa encenação está totalmente despregada da realidade, aqui vai a face triste e verdadeira dela: é certo que todos nós, contribuintes, sairemos no prejuízo...

fonte: A Trolha http://atrolha.blogspot.com/

OLHO A OLHO, MANO A MANO, ALMA A ALMA
"o meu coração ateu quase acreditou na tua mão que não passou de um leve adeus."
Sueli Costa

um dia, há pouco tempo, escrevi:tenho anjos que me enviam brisas, ventos, ciclones, cataclismos. tenho anjos que me assopram ciscos no olho, que me alopram com métodos, afazeres, textos simétricos, ricas rimas. tenho anjos que surgem e evaporam, de dentro e de fora de mim. tenho anjos. barrocos, de pau oco, anjos erês, anjos demônios, todo dia, mês a mês, signo a signo, anjos virgens e outros que me afligem pela vida inteira. tenho anjos.hoje escrevo:já tive anjos de guarda, arrastando asas para mim. já tive patrões, empregadas, esposas, namoradas, vilões e mecenas, cactos e alfazemas, inimigos, amizades. já tive parte com diabos, já pedi aparte entre deuses.

hoje tenho uma parceria. que não me vem todo dia, que é indisciplinada, que cospe grosso do alto quando alça minhas escadarias como uma cavala. mas que faz bem. faz bem o que sabe fazer que é provocar, acarinhar com unhas ásperas minha couraça de defesas, chicotear com língua de pluma minha placenta de ofensas, sabe digladiar comigo como leal inimiga, como amiga fiel sabe que a morte é certa não para um mas para ambos, para todos nós que, em algum momento, amamos. isso sabe muito bem essa minha parceria. se dispor rês e carregar o carro da minha lenta agonia, se impor rei e esmagar com pétalas minhas raras centelhas de euforia. me veio assim feita de jade e trapo, chega sem aviso, entra sem licença, cerca os meus abismos, destrói minhas represas, cheia de majestade e andrajos, prevê o meu passado, relê a minha vida, me faz grafar na pedra do devir certezas inexatas. já tive espíritos santos de ouvido, hoje tenho meus botões, meu umbigo e uma parceria que me agrada.

marco valença /07.09.2009. http://olhonolho.blogspot.com/


IRACEMA MACEDO

Queixam-se os poetas. Querem mais poesia. Pois bem. Hoje é sábado, olha-se a televisão os jornais e tudo que se movimenta ou agoniza. Para diluir a perplexidade do dia trago-lhes a poesia de Iracema Macedo tal como a conheci, no livro LANCE DE DARDOS, de 2000, que é um dos meus livros preferidos.
Iracema é de Natal, viveu muito tempo em Ouro Preto e agora leciona em Cabo Frio. Espero que a tenhamos cada vez mais perto. Vive entre as letras. É professora. Deve ser o máximo tê-la como professora. É uma felicidade tê-la como poeta. Poetisa, para os puristas. Por que a palavra poeta não pode ser comum-de-dois? Como artista, pianista? Afinal, hoje em dia cada um faz a sua linguagem.Mas deixemos esta questão mal resolvida, a exemplo de outras, como o verbete púbis, por exemplo, e vamos à poesia de Iracema Macedo.
Quem quiser saber mais sobre Iracema, procure o Google. Ela está no excelente http://www.algumapoesia.com.br/ de Carlos Machado.

A PESTE

Quem lavará o corpo do morto
e o sangue impuro talhado em sua face?
Por que logo eu que sou tão normal
compro mangabas por trinta cruzeiros
acho a vida cara
e olho o número que o hidrômetro marca?
Quanto repouso ser deste mundo
e embranquecer as roupas com água sanitária.
Mas o sangue do morto quem pode resolvê-lo?
Quem pode concluí-lo? com que panos?
Que planos?
Quem levará o morto e para onde?
Por que logo eu
que tinha o pequeno dom das coisas justas e mensuráveis
Por que me cabe ser isto
e fugir sem pressa enquanto a chuva inicia?
E nesta minha fuga omissa e farta
carrego apenas um punhado de palavras:
Vem dançar comigo, Lázaro
Não estás vendo que é verão e as nuvens passam
Não vês o quanto eu sou perecível
e driblo o vírus com preservativos e cartas?
Vem beber comigo um gole d´água
que a vida está seca e parca
e como diz o povo
é curta
e passa

O CÃO DENTRO DA NOITE

O cão dentro da noite exagera
em seu lamento primitivo
eu seria mais sã
se o permitisse
se o construísse
com minha risada perfeita
com
minha fala sem rumo
O cão me quer
como se eu gerasse um filho
como se eu trouxesse meu pai para o mundo
como se eu me abrisse e ele me atravessasse
como se eu me devorasse
O cão me quer voraz
e triste como um exegeta
Visa decifrar-me
colher para mim um nome amplo
viu-me aqui quieto, parado
deu-me água e comida
lambeu meus pés com sua língua ferida

A LENDA DA VIÚVA MACHADO

Do fundo de minha casa
vejo navios que partem
e estou intacta
Os dias são os mesmos na província
mato crianças e como
e guardo os restos em arcas
Homens feridos me tocam
quando passo
vestida de luto sob o sol
Mandei construir as estátuas no jardim
Serei eu mesma as crianças que degolo?
É a mim que bebo e brindo?
Não pedirei a esta cidade
não sei a que vim, eu que sou monstro
Não sei por que matei
nem o que buscava
Do fundo de minha casa
vejo navios que partem
e estou intacta
Não sangro nem singro
sagro em silêncio
minhas impossibilidades

A BUSCA

Eu que estava acostumada
a me avizinhar das maldições
fiquei de repente tão pura
que pássaros negros me visitam
sem agouro
se as mariposas pousam
sobre mim apaziguadas
Pequenas traças devoram meu coração
enquanto durmo
Estou habituada a muitos parasitas
e impossibiliddades
mas contra todos que me pensam velha
sou uma menina ainda
e me debruço na janela
com os seios docemente
inaugurados

por Helena Ortiz
http://integradaemarginal.blogspot.com/
Moenda

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