quinta-feira, 24 de setembro de 2009





A campanha Loucos Somos Nós, além do recolhimento de doações(material de limpeza, higiene pessoal e roupas usadas), prevê ações com arte cultura e lazer voltadas para os pacientes do referido hospital, constituindo assim um projeto Social permanente da Associação de Arte e Cultura Esporte e Lazer Nação Goytacá.
As doações serão entregues diretamente ao Hospital em horários e dias que divulgaremos brevemente.

Overcoming Skate Vídeo

Família do Skate se junta a Nação Goytacá
e a ProBeach Vôllei na campanha Loucos Somos Nós
em prol do Hospital João Vianna. –

Dia 26 setembro setembro 2009
19:00 – Furdunço Etílico – Semana da Imprensa
20:00h – Lançamento da Campanha Loucos Somos Nós
22:00h - volta da banda Avyadores doBrazyl
+ Reubes Pess + Humor + Eixo Nacional + Rock
Blues Poesia + Graffiti & Outros Baratos Afins

Taberna D Tutty – Rua das Palmeiras, 13


“ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE”
Depois de uma parada obrigatória para (re) pensar, eis que estou de volta. Confesso que dei um tempo por não sentir tesão em escrever. Tenho andado bastante cético com relação a tudo. E quanto mais reflito mais descrente fico. Dizem que a verdadeira felicidade reside em não pensar... Talvez. Mas não consigo olhar o todo à minha volta e não refletir sobre. Pensar dói. E como dói. Principalmente quando nos sentimos impotentes diante do beco sem saída que é viver. Antes eu tinha como missão a perseve-rança, por acreditar em luz no fim de túnel e similares. Hoje, não mais, apenas persisto. E é esse persis-tir que me traz de volta.
Ler, ver, ouvir os noticiários só me faz mais pessimista. E não adianta não ligar a TV, os fatos estão aí, independentes da nossa vontade. A banalização da vida nos retirou o quê divino que achávamos possuir. Reduziu-nos a meros expectadores de uma contagem regressiva, não se sabe de que. E cada vez mais nos vangloriamos da evolução da espécie. Tenho me perguntado: o que se tornou o ser humano, ou será que ele sempre foi assim, sendo que agora se acelerou no processo autodestrutivo? Não consigo me responder. Talvez, se eu professasse alguma religião, encontrasse não a resposta, mas algum conforto. Acredito em Deus, mas isso não me impede de questioná-lo.
Tenho por princípio não desejar mal a ninguém, o que entendo como uma forma de religare. Tento exercitá-lo ao máximo, mas está cada vez mais difícil. Oportunismo, individualismo, egoísmo, vantagem, vingança têm sido as palavras de ordem nestes tempos de neoliberalismo. Vivemos num mundo em que o que vigora é a máxima “cada um por si e Deus contra”. Em que a práxis nem de longe corresponde ao discurso. O ser humano chegou ao máximo da comunicação para não se comunicar. Vi-vemos uma vida em que tudo é fake ou virtual. E cada vez mais comungamos uma meta-solidão. A apatia toma conta da gente por não termos perspectivas de um mundo melhor.
Ontem encerramos a temporada de “Meu querido diário”, de Adriano Moura, no Teatro de Bolso. Montagem produzida e interpretada por Yve Carvalho, em que um professor de biologia discorre sobre as agruras de ser um profissional que ama a sua profissão, mas não tem mais nenhum prazer, nem saco em exercitá-la. Me identifico muito com o personagem, e como ele sofro por ver que o meu mister não significa nada para a grande maioria. Assim como a educação, a arte está relegada ao fim da fila na ordem das prioridades e só persistindo para continuar a exercitá-la. A cultura de massa tornou a arte alienante e descartável, mero produto de consumo.
“...Você não sabe como minhas aulas foram ficando chatas com o tempo. Tão sem sapos. Estou um homem cansado aos quarenta... falando das agruras da minha vida de professor de biologia quaren-tão, solteiro, cheio de frustrações e desejos. Sabe que tem gente que diz que é a mais bela das profissões? Professor e médico. Não é isso. Ás vezes penso em largar tudo, mas eu não sei fazer outra coisa na vida...” Me sinto assim, como Paulo, não sabendo o que fazer da vida. Alimentando as frustrações como posso. Caminhando com a certeza de que a humanidade não chegará a lugar algum, a não ser a sua pró-pria inexistência.
Exemplos não faltam para nos certificarmos de que não é esse o caminho que devamos trilhar. No entanto, parece-nos inexorável que o trilhemos. Sabemos as conseqüências dos atos que cometemos. Que não teremos o que legar aos que virão depois de nós, se é que virão. Seria este o designo de Deus? É para isto que fomos ungidos, segundo as religiões, com o livre arbítrio? E que Deus é este que com sua onipresença, onisciência, onipotência nos relega ao sofrimento? Vejo-O, em muito, imagem e semelhan-ça humana. De uma humanidade que não suporta a idéia de não ter o referencial primeiro e por isto o personifica tão algoz.
Nos meus achismos chego à conclusão de que por não obtermos resposta para a grande pergunta, que é, segundo Caetano, “existirmos, a que será que se destina?”, almejamos nos equiparar ao criador. A capacidade atômica atual nos permite explodir o planeta dezenove vezes e basta uma. Se somos capazes de destruir o objeto da criação, por antítese nos equiparamos ao criador. Talvez seja este o destino trági-co inerente à humanidade, assim como preconizavam os deuses na Grécia Antiga. Talvez seja esta a Ra-zão desta corrida obcecada para chegarmos a não se sabe onde. Só assim vislumbro algum sentido na maneira como conduzimos nossas vidas.
“Não sei como será a terceira guerra mundial. Mas a quarta, com certeza, será a pau e pedra.”, disse um dia Einstein. Se sobrevivermos à terceira, talvez possamos experimentar um modus vivendi outro, hoje utópico. Talvez possamos viver de forma anárquica. Em que a divindade humana seja exerci-da em plenitude e palavras como paz, harmonia, solidariedade, compaixão, respeito deixem de ser ape-nas sopa de letrinhas nos dicionários.
Antônio Roberto Góis Cavalcanti(Kapi)

Projeto Fala Escritor

A terceira edição do Projeto Fala Escritor promove no dia 10 de outubro (sábado), às 18h, na Livraria Saraiva Mega Store do Salvador Shopping (Espaço Castro Alves), uma programação recheada de atividades culturais, que envolve palestra, lançamento de livro, recitais poéticos e apresentações musicais. Tudo gratuito e aberto ao público.
A profissão do escritor será o tema da palestra ministrada pelo escritor e editor Carlos Alberto Barreto (autor do livro Fogo Fátuo), que vai falar sobre os direitos ou falta de direitos do profissional do livro.

Também acontece o lançamento da coletânea Prêmio Literário Valdeck Almeida de Jesus - 2008, organizada pelo escritor e jornalista Valdeck Almeida de Jesus; lançamento do livro Diário de Rafinha. As duas faces de um amor, do ator, modelo e escritor Leo Dragone; e receitais de poesias com Nádia Cerqueira, Buzzy de Carvalho, Nara Góes, Alexandre Amaral, Renata Rimet, Carlos Alberto Barreto, Leandro de Assis, Grigório Rocha, Monique Jagersbacher, Malu Freitas, José da Boa Morte, Vera Passos, outros poetas, além da participação musical de Carlos Ventura e Rick Vieira.

Projeto Fala Escritor - Criado pelo poeta Leandro de Assis, com a colaboração dos escritores Carlos Souza, Fau Ferreira, Monique Jagersbacher e Valdeck Almeida. O objetivo é unir os novos escritores baianos, incentivar a escrita, a publicação e o lançamento de livros, além de disseminar informações referentes ao mercado editorial.
Período: 10/10
Horário: Sab, 18:00hs
Preço: entrada gratuita
Contato: 8831-2888 – Leandro de Assis
E-mail: leandroicp@hotmail.com
Onde: Livraria Saraiva – Salvador Shopping
Avenida Tancredo Neves, S/N.
41820-021 - Salvador - BA
(71) 3341-7020

O mais nu dos artistas
Dimitri

Se não for engraçado, o clown não é um clown. Afora isto, ele tem todos os direitos, e também um dever: ser muito pessoal, com sua própria silhueta, seu estilo único, sua expressão particular. Quanto a mim, tento utilizar o máximo de meios: acrobacia, funambulismo, música, palavra... e mímica, é claro. Já fui criticado por isto, mas acredito que o clown tenha feito mímica bem antes dos mímicos. Essa mímica e quase todas as especialidades dos artistas do picadeiro, nós encontramos nos artistas da commedia dell'arte, mas a commedia, por mais engraçada que seja, não é clownesca. Um excêntrico como Georges Carl é hilariante, mas não é um clown. Há uns quinze anos, vi a peça de Marcel Achard "Voulez-vous jouer avec moá?"; os comediantes eram extraordinariamente cômicos, melhores que a maioria dos clowns, mas... não havia clowns, eram clowns representados por atores.
Tomemos um contra-exemplo: Charlie Rivel. Por natureza, ele é "o" clown, a quintessência do clown, em seu ser, sua maneira de viver, de se exprimir. Talvez ele não fosse um perfeito ator, no sentido clássico da palavra, mas tinha o estilo clown, como o tinha Grock, o maior de todos. Atualmente, ele movimenta-se com dificuldade; sua filha Paulina tem que maquiá-lo. Mas o pouco que se move, sua maneira de desenvolver as gags lentamente, de comportar-se como uma criança, engraçada, má, poética, esperta, terna..., é um clown!
Os Colombaioni abandonaram o circo. Eles tiveram o desembaraço de não se caracterizarem mais; depois de um minuto com eles em cena, você pensa: não são excêntricos, nem burlescos, nem comediantes que representam clowns, mas verdadeiros clowns.
É apenas com exemplos como esses que se pode tentar explicar, definir. Mas é extremamente difícil pois os clowns têm um segredo que somente eles conhecem! Ele caiu sobre os seus narizes, quando estavam no berço! Eles só têm mérito se exploram-no bem, se cultivam-no. Tenho tanto respeito por esse ofício que não suporto aqueles que imaginam que basta, para merecer o nome de clown, colocar um nariz vermelho e sapatos monstruosos. Tenho horror de certas trupes, algumas bem conceituadas, em que os atores caracterizam-se até o topo da cabeça, em que utilizam-se um monte de acessórios mecânicos complicados que não cabem em uma camionete. Grock contentava-se com um violino e uma cadeira, mas Grock era um ponto culminante de nossa arte.
Eu procuro, como ele, respirar, durante meu número, como na vida. Não se deve ter medo de perder seu tempo. O público está deformado, sobretudo por causa da televisão: ele quer ver tudo rápido, quer ter tudo rápido, a vida já digerida; e as crianças são como os adultos. Não devemos nos deixar enganar por essa onda. Quando se consegue impor seu próprio ritmo, quando se vence a partida, é maravilhoso porque as pessoas, então, dão-se conta de que se trata de outra coisa.
Um dos meus "truques" é sorrir freqüentemente porque eu gostaria de transmitir isso: quero tanto, aliás, que, afinal, não é um truque! Quando, em um país em que ninguém me conhece, num botequim, chego a fazer rir não importa quem, uma pessoa, uma só - ou uma criança - fico todo feliz: tenho a impressão que realmente fiz alguma coisa, que consegui construir uma ponte com os outros. Atrás de meu sorriso, há essa vontade. Há muita vontade - nunca o bastante - e uma grande concentração. Sobre este ponto, estou longe, ai!, de igualar um iogue ou um monge zen, mas sou bastante auxiliado pela crença que inculcou-me minha mãe em um mundo onde as forças espirituais são, com toda a naturalidade, as mais influentes.
Cada um tem sua pequena filosofia... A minha é não poder conceber meu trabalho senão como um clown honesto e verdadeiro: sua atitude e seu caráter transmitem-se através de sua arte, portanto é interessante tentar mostrar-se humano, gentil, com humor. Minha vida, meu ofício, tudo está no mesmo saco! Eu não represento um papel: estou nu; o clown é o mais nu de todos os artistas porque põe em jogo a si mesmo, sem poder trapacear. Para não decepcionar o público, ele tem o dever de ser autêntico, de ter a impressão de estar sempre oferecendo muito pouco. É meu ideal de clown. Um ideal que vocês podem notar em outras pessoas que têm ofícios bem obscuros: pessoas honestas, boas, trabalhadoras. Elas tentam cumprir sua tarefa humildemente: são personalidades tão grandes quanto os mais célebres artistas do mundo.
Além do mais, para mim - um pouco à maneira desse santo que dizia: "Ama a Deus e faze o que quiseres" - é isto: "Sê engraçado, e faze o que quiseres." Sê engraçado!!!

(Depoimento dado a André Sallée.)
In "Clowns & Farceurs", Ed. Bordas, Paris, 1982, p. 36-37. Tradução de Roberto Mallet.

TABACARIA

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,

E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.

Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira.
Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.

Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.

Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.

Crer em mim?
Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.

Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!

Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.

O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)

E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)

Visto isto, levanto-me da cadeira.
Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)

Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!,
e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança,
e o Dono da Tabacaria sorriu.
Álvaro de Campos, 15-1-1928



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