quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Amigos (as),

No dia 08 de outubro, quinta-feira, às 16h, realizaremos (Adeilton Lima, Wellington Abreu, Walter Sarça e Doriva) mais uma ação artística na rua. A proposta é empacotar o Cine Brasília com sacos de lixo, numa espécie de abraço. Quem quiser se somar a nós, é só chegar.

O Cine Brasília é símbolo da cultura brasiliense e mais uma vez será maquiado para receber o Festival de Cinema/2009, enquanto o Secretário de Cultura anuncia que vai antecipar o edital do FAC de 2010, considerando que sequer divulgou os contemplados de 2009 ou zerou os pagamentos dos editais anteriores. Em defesa de nossa cidade e de nossos artistas e devido ao fato de o governo até aqui não ter apresentado sua política cultural para a cidade, voltaremos à rua para mostrar à sociedade que mais uma vez o governo Arruda e o seu Secretário de Cultura, Silvestre Gorgulho, blefam.

Adeilton Lima

terça-feira, 29 de setembro de 2009



PÃO E CIRCO
Antigamente eu chegava a montar três espetáculos por ano. Ultimamente monto um a cada três. Segundo Yve, quando alguém fica falando do passado é porque está velho. Posso até estar velho, mas não é isso que me faz falar do antigamente. Assim como Paulo, adoro a minha profissão, mas não sinto mais prazer em exercitá-la.
Assim como Paulo, dei minha vida ao meu mister... e cansei. Não dá para sentir prazer convivendo com quem não nos ama. Eu amo esta cidade, mas a recíproca não é verdadeira. Não só a mim, mas aos artistas de um modo geral. As reflexões de Adriano sobre o desprazer de ensinar vão ao encontro do contexto cultural em que vivemos. Não por culpa deste ou daquele governo, mas o paradigma neoliberal levou o ser humano ao máximo da comunicação para não se comunicar. E neste contexto a arte não tem vez. Assim como Paulo, nós artistas vivemos uma situação caótica. Estou velho sim, de futuro... Mas persisto.
Estas foram as minhas palavras para o programa da peça “Meu Querido Diário”. Como era de se esperar, dos poucos que a ele tiveram acesso, a maioria não se importou. Uns gostaram, outros se surpreenderam, pois não esperavam que eu fosse capaz de ter esse sentimento com relação à cidade. Alguns outros acharam que eu peguei pesado, que passei recibo. Peguei pesado com quem, com o quê, se a realidade dos fatos só faz corroborar as palavras acima? Se o público pagante foi tão escasso que nem deu pra cobrir as despesas contraídas com a montagem, quanto mais ter lucro? Todo mundo parabe-nizou, elogiou, se ufanou, até, de nos ter como conhecidos. Mas passar na bilheteria do teatro, adquirir seu ingresso e assistir ao espetáculo, que é bom, nada. Disto, a grande maioria dos que se dizem amigos, ou mesmo fãs, não foi capaz. E muitos dos convidados só compareceram depois de muita insistência. E olha que o espetáculo, elogiadíssimo pela crítica, é uma comédia pra lá de hilária.
“O campista pede, mas não quer”, me disse Silvinha Salgado após assisti-lo. É fato! Pedir, para o campista, não passa de uma força de expressão, pois tudo o que realmente quer ele tem. Só que o que ele verdadeiramente tem é que é a questão. Podemos perceber pela felicidade transparente que lota os bares da cidade, dos sofisticados aos periféricos, que o campista está muito satisfeito com o que possui. Que vive qual criança num playground, que adora ser personagem de um teatro de fantoches. Onde o lazer cultural se faz desnecessário, na medida em que fazem de sua vida uma farsa. “Meu Deus, de onde essa gente tira tanta felicidade”, diz em determinado momento o personagem da peça, ao relatar a passagem de um trio elétrico arrastando uma multidão, que mais parece uma fuga em massa num filme catástrofe. Assim fomos acostumados. E prenhes de felicidade entendemos a ida ao teatro como desnecessária. Parece até que aquela campanha “Vá ao teatro” aqui foi cunhada ao contrário.
No último domingo de apresentação da peça, uma professora de um colégio estadual me questionou sobre o que eu havia escrito no programa. Tentava me convencer de que o ato de amar se basta em si. Que amar não precisa, necessariamente, de correspondência, e que educar é um ato de amor. Contrargumentando fiz vê-la que amar sem correspondência é sofrimento e se este sofrer gera prazer é masoquismo. Perguntei-lhe há quanto tempo ela dava aula, ela respondeu-me que há muito e que estava cansada de ir pra sala de aula, que ia obrigada e que não via a hora de se aposentar. Respondi-lhe que a minha situação era idêntica e por isso escrevi o que escrevi, e que após a peça voltaríamos a conversar. Reparei que ela riu muito ao se ver refletida no palco, mas nem participar do debate ela participou. O texto de Adriano provocara-lhe um riso nervoso e quem sabe uma revisão no seu conceito sobre o ato de amar, pois saiu do teatro sem que eu ao menos percebesse.
Até o momento, apenas duas montagens locais inéditas ocorreram este ano na cidade. Enquanto que semanalmente uma enxurrada de espetáculos caça-níqueis, integrados por elencos oriundos de “Zorra Total” ocupa o Trianon, com sucesso de público, é claro. Se é isto que o povo quer, é o que temos que dá-lo, como na velha Roma: pão e circo. “Infelizmente”, quando optei pelo teatro como profissão, o entendi como arte, como um meio de expressar meu sentimento do mundo, e não como uma possibilidade de se ganhar dinheiro através do riso fácil e alienante. O fiz consciente, de que seria a minha tribuna, a minha trincheira e também uma forma de propiciar prazer às pessoas. Mas se não é esta a sua missão, se com ele não posso contribuir para o crescimento da minha aldeia, chego à conclusão tardia de que escolhi a profissão errada. Mas como agora é tarde, persisto.
Antônio Roberto Góis Cavalcanti(Kapi)

segunda-feira, 28 de setembro de 2009















XVII Congresso Brasileiro de Poesia


Bento Gonçalves – Rio Grande do Sul

5 a 10 outubro 2009

As Flores do Mal Me Quer
De Paulo Leminski a Charles Baudelaire
Uma performance onde Artur Gomes( o poeta) encontra no palco Mayara Pasquetti(musa), para mostrarem poemas que falam do amor e todas as suas implicações nas relações humanas. No repertório, poemas do próprio Artur Gomes, Paulo Leminski e Charles Baudelaire.
Artur Gomes e Mayara Pasquetti se conheceram em Bento Gonçalves, em 2006 iniciaram sua parceria no palco com interpretando poemas de Mário Quintana, interligados a textos da peça Retalhos Imortais do SerAfim. Em 2007, se apresentaram na FENAVINHO com o espetáculo A Celebração do Amor Em Estado Vinho e Uva, apresentado também na XVI Edição do Congresso Brasileiro de Poesia em 2008.










Jura Secreta 41

te amo e amor não tem nome
pele ou sobrenome
não adianta chamar
porque ele não vem
quando se quer
tem seus próprios códigos
e segredos
mas não tenha medo
pode sangrar pode doer
e ferir fundo
mas é razão de estar no mundo
nem que seja por segundo
por um beijo mesmo breve
porque te amo no sol
no sal no mar na neve

Jura Secreta 16

fosse essa menina Monalisa
ou se não fosse apenas brisa
diante da menina dos meus olhos
com este mar azul nos olhls teus

não sei se Michelângelo D Vinci
Dalí ou Portinari te anteciram
no instante mair da criação
pintura de um arquiteto grego
ou quem sabe até filha de Zeus

e eu Narciso amante dos espelhos
procuro um espelho em minha face
para ver se os teus olhos
já estão dentro dos meus

Artur Gomes

Cânon e transgressão:
Quatro considerações
sobre poesia contemporânea

Jorge Lucio de Campos
Universidade do Estado do Rio de Janeiro

"O verdadeiro artista é o que dialoga com sua obra, o impostor dialoga com seu público"

E. H. Gombrich
1
Incomode ou não esta afirmativa, muito ou pouco, algumas de nossas 'melhores' cabeças, pensar em termos de cânon, nos dias de hoje, é, ao meu modo de ver, estar na contramarcha da história. Isso em qualquer situação, em relação à qualquer atividade, área de conhecimento ou de atuação que se queira interveniente. Uma das mais valiosas conquistas (se não a mais valiosa) efetuadas pelo homem deste fim-de-século foi a sua conscientização, ao que me parece (no mínimo, torço para tanto) definitiva, de que a autonomia é um dado natural, e não algo muito maior - uma espécie de ideal dourado - pelo qual sempre valeria a pena lutar e até morrer, mas que ficaria ad infinitum isolado numa campânula ou difratado como um traço no horizonte, modulado no mapa sinuoso de um território, enfim, inalcançável por si só. O fim desta importante mistificação pode representar, é certo, um decisivo passo emancipatório e não somente o de uma prática onanística de quase três séculos. Afinal de contas, ser autônomo - ou estar consciente de que ser autônomo é algo perfeitamente exeqüível - é uma condição intrínseca para qualquer ser pensante que se saiba enquanto tal e se importe com isso.
Em seu estágio atual, esse processo - que também supõe, como acabei de propor, o de uma providencial autoconscientização - já se revela urgente para alguns obstinados segmentos da sociedade (lamentavelmente ainda tímidos e estranhos demais à maioria de nós), favorecendo, claramente, uma pulverização dos metadiscursos de outrora em micronarrativas deveras maleáveis no que tange à conjunção e à pertença simbólicas. Em função disso, falar-se em conceitos de índole platônica como 'modelos', 'paradigmas' e 'cânones' torna-se complicado, ao menos no que tange à produção dissidente e estridente daqueles segmentos. Quero dizer com isso que, em termos literários, os poetas competentes de agora não têm outra alternativa que trabalharem individualmente, um pouco solitariamente, em busca de 'soluções' não submetíveis aos critérios velozes de avaliação 'cômoda' oriundos quase sempre das máquinas de rostificação que os homens da mídia e os burocratas de sempre acionam sem parar.
2
A exemplo do que já ocorre por aí, como sabemos, em alguns espaços, criar significa, sobretudo, 'resistir' (acompanhando o sentido do termo latino resistere, ou seja, 'colocar de novo'), cada vez mais 'situar-se' diante dos múltiplos reducionismos gratuitos que nos fazem cerco, 'fazer frente' aos incontáveis universalismos sonsos, espalhados, camufladamente, como engenhos de guerra, ao nosso redor. Seja como for, isso implica em não se submeter à tentação das filiações fáceis. Canonizar-se em arte (literatura, poesia...) significa remeter-se a um rol de nomes santos, de indivíduos e escolas mortos (alguns já em adiantado estado de decomposição), com suas receitas demasiadamente 'prontas' para inspirarem atitudes adequadas para a dinamização de nosso presente. Isso posto, não creio que seja possível (ou aconselhável) falar-se seriamente, hoje, de um cânon, ou mesmo de cânones em poesia, e muito menos, levantar a hipótese de seu restabelecimento. De que serviria fazê-lo senão para uma estratégia fatal de fingimento? Pois é verdade que não faltam aqueles que fingem e sabem fazê-lo bem, para quem nada acontece à toa, tudo está sempre em ordem, o tempo nunca passa, etc. etc.
Ao que me parece, a mais genuína (e digna) inclinação da poesia brasileira contemporânea é, a exemplo do que acontece em todo o mundo ocidental, a sua vocação para desconstruir. Desconstruir as grandes referências sejam elas quais forem (pátrias, apátridas ou alienígenas), as grandes progenituras sejam elas 'genuínas' ou não, as grandes doutrinações sejam elas justificáveis, vantajosas ou não, desconstruir, pensando bem, o próprio habitus - culturalmente perverso nestas terras - de sempre se pôr num estado de referência, de descendência, de engajamento frente ao outro, de sempre submeter-se, docilmente, aos encantos de sua 'geração espontânea'. Embora não sejam muitos, são significativos os poetas que, driblando o apelo 'canônico' do mercado, propõem, com consistência, dicções alternativas que não necessariamente rompem, mas renovam, redinamizam o que já foi fartamente dito ou timidamente gaguejado. Mais premente do que uma pluralização gratuita (a essa altura, inevitavelmente reacionária e catastrófica) seriam a pesquisa e a experiência em bases não-ortodoxas, uma nova configuração da poesia, a possibilidade de torná-la um aspecto intersticial da vida, de uma nova dimensão do existir que possamos, em breve, quem sabe todos nós, assumir sem nenhuma 'culpa'.
3
No prólogo de seu Critique et clinique1, Deleuze, em cima de uma fala instigante de Proust - a de que "os belos livros estão escritos numa espécie de língua estrangeira" (Contre Sainte-Beuve), nos adverte que, para os artistas (particularmente os contemporâneos, aí inclusos os poetas), "o problema de escrever é também inseparável de um problema de ver e de ouvir", pois, "com efeito, quando se cria uma outra língua no interior da língua, a linguagem inteira tende para um limite assintático, agramatical, ou que se comunica com seu próprio fora". Uma outra convicção, provocativa como a anterior, mas originalmente fomentada por Klee - a de que não cabe ao artista reproduzir o visível, mas tornar visível o que ainda não era - é igualmente pervasiva (tornando-se quase sempre um pouco urgente) para a sobrevivência das práticas poéticas no mundo hodierno. Juntamente com a estrangeiridade proustiana, ela abriga (ou se aninha em?) uma terceira: a de que uma postura de busca de diferenciação deve ser, assumida e estrategicamente, levada adiante por todos os artistas no sentido da implementação, mesmo que um tanto obstinada e até áspera, de uma visibilidade exclusiva. O fato é que, numa sociedade como a nossa, cada vez menos refratária não só à repetição e à reprodução de suas coisas, ferramentas e relações, mas também aos jogos fáceis de linguagem, em seu sentido mais torpe, ou seja, enquanto dispositivos de obturação do real, de fixação e perpetuação da histeria paralisante do capitalismo avançado, ou a poesia se descaracterizará de vez (como vem ocorrendo, na maioria das vezes) ou ela, de algum modo (e não me perguntem qual!) encontrará um caminho - mesmo que este, lembrando Heidegger, "não conduza a parte alguma", arriscará um rosto incerto, afirmará uma identidade-de-si-no-outro, embora pagando o preço (para muitos poetas, alto demais) do anonimato mercadológico e da apatia crítica.
4
Aqui no Brasil, pode-se dizer que tal situação é peculiarmente grave. O movimento modernista realizou um oportuno sangramento em nossa literatura e em nossas artes plásticas (na verdade, em nossas próprias mentalidades, e não só aqui, mas em toda a América espanhola, na Espanha e em Portugal), de modo que, sobretudo a partir das décadas de 20 e 30, sedimentou-se um importante grau de amadurecimento e conscientização em relação à fatura artística em termos de uma efetiva assunção de suas potencialidades estéticas intrínsecas. Contudo não devemos esquecer a sua incontornável marcação histórica. A incisão foi feita no lugar e na hora certas, o que, por outro lado, não justifica que o processo de cicatrização demore mais do que o tempo necessário. O influxo prolongado a que alude uma frase do poeta José Carlos Capinan ("a contemporaneidade na poesia brasileira ainda é marcada pelos modernistas")2 se deve a uma relação perversa que os brasileiros mantém com as novidades, em função de um viciamento cultural aqui secularmente imposto (e pior, já há muito enraizado) pela lógica (neo)colonialista.
Acostumados, século após século, a receber acriticamente, a repetir mecanicamente, a cumprir docilmente todo tipo de metas e de protocolos, tratamos como autênticas formas platônicas (em relação às quais, devemos, na pior das hipóteses, nos comportarmos como 'más cópias') atitudes e ações inteligíveis (mesmo inquestionáveis) apenas em seu espaço-tempo, de modo que, até hoje, dicções 'circunstanciais' (apesar de ser ridículo negar a genialidade e a inspiração de várias delas) como as de Oswald, Bandeira, Drummond, Cabral ainda nos parecem referências obrigatórias quando deveria ser, no máximo, aconselhável acolhê-las enquanto elementos dinamizadores de nossas próprias fabricações. Todas têm, sem dúvida, o seu quinhão de densidade, a exemplo de tantas outras dicções 'universais' como as de Mallarmé, Apollinaire, Mayakovski, Pound, etc. Cabe, porém, aos poetas daqui (mas também aos de quaisquer outras paragens) agenciar os seus recursos pessoais a partir daqueles elementos, arejando, criativamente, as suas produções com uma maturidade que leve em conta tudo o que se fizer justificável, seja em nome da mais intempestiva transgressão ou da mais assumida transreferencialidade citacional.
Notas:
[1] Gilles Deleuze
, Crítica e clínica. São Paulo: Editora 34, 1997, p.9.
[2] Poesia Sempre, 8, junho de 1997.
© Jorge Lucio de Campos 2002
Espéculo. Revista de estudios literarios.
Universidad Complutense de Madrid

LEITURA E ESCRITORES MASCARADOS

Ontem solicitei de um escritor e professor afamado de uma instituição de ensino superior, uma simples participação dele na colaboração para um evento preliminar de incentivo à leitura denominado CINEPOESIA., que apesar dessa de pública cobra pelo espaço um valor de primeiro mundo. Pensando ser uma chance de desenvolver um trabalho em conjunto com pessoas que criticam toda vez que tenham oportunidade na mídia, de o brasileiro não cultivar o hábito de ler nas atividades quotidianas, pois este mesmo mestre da linguagem me pôs barreiras que somente um romance kafkiano poderia narrar.
Agora sabemos, que esse desestimulo provem da alergia de uma elite de intelectuais literários pela presença do Povo. São os hipócritas nas entrevistas que culpam o governo, a preguiça, o preço do livro, até a bolsa de valores,etc pela baixa leitura popular, que se mascaram nesses personagens que impedem eventos culturais, porque gozam os louros nas torres de marfins só saindo delas para os saraus de coquetéis nos palácios de um selecto grupo de notáveis.Se consideram a nata da sociedade.São esnobeis que pensam ser o umbigo do mundo.Uma casta que deveria saber que mesmos escritores norte-americanos aproveitam até as férias na praia para autografar os livros deles. Buscam o contato do povo consumidor, não procuram desculpas esfarrapadas de baixa vendagem dos livros deles por forças ocultas.Todo o escritor deveria estar, onde o leitor se encontra. Vejam, que estes tipos de sumidades devem olhar o espelho, quando despertam.
O pior castigo deles será o de passarem como medíocres escribas de um modelo antigo.Esse trono que eles pensam existir somente revela a verdadeira face de um cadáver cultural.Vejam que essa espécie representa uma elite literária da Capital. Imaginem em que nível estamos neste momento. Irá prorrogar séculos para a nação sentir o aroma do Nobel de Literatura desse modo. A má vontade de fariseu intelectual não possuí limites. Dissimulam se preocupar da leitura, porém sabem por dentro, a ojeriza por quem pretende promover encontros literários populares nas comunidades de periferia.Nunca quando solicitados lutam pela abertura de espaços para leitura nas bibliotecas.Eles são os primeiros a criar a síndrome da pratica do hábito nas consciências, pois sabem, que dessa forma seriam desmascarados pela prosaica contribuição literária se as pessoas lessem os livros deles. Não suportam as criticas. São pretensos onisciente, onipotentes e onipresentes da Cultura brasileira, entretando são tolos simulacros, apenas na realidades os coveiros dela.
Elder Pinheiro Mayer


JORNADA DE ESTUDOS É A GRANDE NOVIDADE DO XVII CONGRESSO BRASILEIRO DE POESIA
Como tradicionalmente acontece na primeira semana de outubro, mais uma vez a cidade de Bento Gonçalves abrirá suas portas para a caravana de poetas que participarão da décima-sétima edição do Congresso Brasileiro de Poesia, a ser realizada entre os dias 5 e 10.
Tendo como tema “De Baudelaire a Leminski”, em homenagem ao ano da França no Brasil, aproximadamente duzentos poetas dos mais diversos estados brasileiros e de alguns países da América do Sul já confirmaram presença e participarão de uma programação diversificada com muitos recitais, performances, rodas de poesia, espetáculo teatral, palestras nas escolas e debates sobre as diversas formas do fazer poético.
O Congresso traz como grande novidade, a partir desta edição, a realização da Jornada SESC de Estudos de Poesia, que trará a Bento Gonçalves grandes nomes da literatura gaúcha e brasileira. Entre os já confirmados estão Armindo Trevisan, Antonio Cícero, Artur Gomes, Fabrício Carpinejar, Maria Carpi, Airton Ortiz, Os PoETs, Grupo Poesia Simplesmente, Ronaldo Werneck, Sergio Napp, Uili Bergamini, Dilan Camargo, Caio Ritter, Ronald Augusto, Marlon de Almeida e Sidnei Schneider.
As programações dos dois eventos se encontrarão na abertura, segunda-feira, e na noite de sexta-feira, sendo que nos demais dias cada evento terá a sua programação própria. A da Jornada de Estudos, formada por painéis, debates e recitais, acontecerá somente à noite (segunda e sexta no Auditório Santo Antonio, de terça a quinta no Auditório da Escola Bento), enquanto que a do Congresso se desenvolverá em três turnos, na rede escolar do município, repartições públicas, ruas e no auditório do SESC.
Escolas continuam sendo prioridade do evento
Trinta e duas escolas do município participarão do evento deste ano, recebendo os poetas em suas dependências e doze delas deslocarão alunos para participar de atividades que acontecerão nas dependências do SESC. Os poetas também irão ao Presídio Municipal, APAE, Centro de Atenção Psico-Social e ao Hospital Tacchini.
Entre os principais projetos que tradicionalmente compõem a programação oficial do evento destacam-se: “Poesia na vidraça” (que começa a ser executado já na terça-feira, dia 29, e consiste na utilização das vitrines das lojas do centro da cidade para exposição de poemas de autores brasileiros), “Poesia numa hora dessas?” (quando poetas apresentam recitais em repartições públicas e privadas), “Uma idéia tece a outra” (realizado na Biblioteca Municipal e que consiste no ‘empréstimo’ de um poeta a uma turma de alunos), além das tradicionais rodas de poesia na Via del Vino.
Recitais deverão fazer a diferença
Os organizadores mais uma vez apostam na realização de recitais de diversas correntes poéticas para garantir o sucesso dos eventos. Neste ano, dividirão o palco do SESC e de algumas escolas performances poéticos dos estados do Amapá, Pará, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul além de Peru, Chile e Uruguai.
Dentro da programação da Jornada SESC de Estudos de Poesia estão previstos recitais do grupo Os PoETs, Poesia Simplesmente, Telma Scherer e o show Ópera Pampa, com Rodolfo da Costa, Cassiano Farina e Diogo Farina.
Em homenagem ao ano da França no Brasil, o grupo carioca Poesia Simplesmente trará a Bento Gonçalves dois recitais: “Ulalá, c’est si bom, três bien... Tem tupinambá na festa de Rouen!” e “Brasil à francesa: eterna sedução”.
No palco do SESC, além do grupo Poesia Simplesmente, também apresentarão recitais e performances os seguintes poetas: Wilmar Silva e Francisco Napoli, Luiz Edmundo Alves, Renato Gusmão, Marko Andrade, Artur Gomes e May Pasquetti, Dalmo Saraiva, Jiddu Saldanha, Telma da Costa, Piri, Edmilson Santini, Casa do Poeta de Canoas, Tanussi Cardoso e Delayne Brasil, Casa do Poeta de Camaquã, Casa do Poeta Latino-Americano, Confraria Cappaz e Comunidade Poemas à Flor da Pele.
Junto com o XVII Congresso Brasileiro também serão realizados o XVII Encontro Latino-Americano de Casas de Poetas, a XIV Mostra Internacional de Poesia Visual e o XX Salão Internacional de Artes Plásticas do Proyecto Cultural Sur/Brasil.
A abertura oficial dos eventos acontece na tarde de segunda-feira, dia 5, às 17 horas, no Salão Nobre da Prefeitura Municipal. Às 19,30 horas, no Auditório Santo Antônio terão início os trabalhos da Jornada de Estudos, com palestra de Armindo Trevisan e recitais do Grupo Poesia Simplesmente e Os PoETs.
O evento é promovido pela Prefeitura Municipal de Bento Gonçalves, através da Secretaria Municipal de Educação, SESC e é realizado pelo Proyecto Cultural Sur/Brasil. O apoio é da Câmara de Vereadores e Sindilojas.



domingo, 27 de setembro de 2009





































Loucos Somos Nós

Lançada na noite de ontem na Taberna D Tutty, a campanha Louco Somos Nós, uma iniciativa da ONG Nação Goytacá, tendo como parceiros a Liga Espírita de Campos que é a mantenedora do referido hospital, a ONG ProBeach Vôllei e a comunidade Overcoming Skate Vídeo.

A Noite começou a ser animada com as performances de Toninho Ferreira, Adriana Medeiros, Hélio Coelho e Artur Gomes. Presente ao evento Cristina Lima, que integra a diretoria da Liga Espírita de Campos, falou sobre a situação atual do hospital, agradeceu a iniciativa, e falou da importância da campanha.

A campanha visa incentivar todos os campistas no sentido de fazer doações de material de limpeza, higiene pessoal e vestuário(roupas usadas), e podem ser entregues a Aline, na Liga Espírita de Campos, Rua das Palmeiras, de segunda a sexta-feira de 8:00 às 12:ooh.

Loucos Somos Nós, prevê ainda posteriormente ações com Arte Cultura e Lazer tendo como público alvo os internos do João Vianna. No mês de outubro já está prevista a realização de um espetáculo como direção de José Sisneiros, com renda destinada ao hospital.

Rock Blues & Poesia
Pós lançamento e detalhamento da campanha Loucos Somos Nós, o Caldeirão começou a ferver na Taberna D Tutty, com apresentação magnética da banda Eixo Nacional, abrindo a noite com uma homenagem ao Luizz Ribeiro. A Eixo Nacional tem em sua formação original Water Klein (guitarra e voz), Betinho (guitarra), Coelho (baixo), Lucas (bateria) e Dudu (vocais).
Com uma performance surpresa do skatista e videomaker Kelvin Klein, a banda incendiou a galera, com sua pegada hardcore e interpretação contagiante de todos os seus integrantes

Avyadores de Volta
Depois da bela atuação da Eixo Nacional, Luizz Ribeiro e sua Avyadores do Brazyl, assumiu o palco para deliro da sua massa de fãs presente na Taberna D Tutty até a madrugada deste domingo. Com uma formação bem diferente das suas últimas aparições na cidade, a banda contagiou desde os seus primeiros acordes até o instante derradeiro com um repertório próprio, que vai do rock ao blues, em sua maioria composições do próprio Luizz Ribeiro, tendo em algumas delas parceiros como, Gil Siqueira, Claudio Kezen, Sérvulo Soto, e o poeta Artur Gomes, que em dois momentos assumiu o microfone para solta a sua Boca do Inferno. Contando também com a participação especial e como sempre eletrizante de Felipe Bense, vocalista da banda Evolução da Espécie.

Avydores do Brazyl incendiou a noite/madrugada com Luizz Ribeiro(guitarra e voz), Álvaro Manhães(guitarra), Gil Siqueira (baixo) e Huguinho(bateria). E para ser encerrada a noite de lançamento da campanha Loucos Somos Nós, contou ainda com a canja de Reubes Pess (guitarra e voz), num dueto com Álvaro Manhães na Guitarra.














































































Loucos Somos Nós
fotos da noite de lançamento da campanha na Taberna D Tutty














































































Loucos Somos Nós
mais fotos da noite de lançamento da campanha na Taberna D Tutty

quinta-feira, 24 de setembro de 2009





A campanha Loucos Somos Nós, além do recolhimento de doações(material de limpeza, higiene pessoal e roupas usadas), prevê ações com arte cultura e lazer voltadas para os pacientes do referido hospital, constituindo assim um projeto Social permanente da Associação de Arte e Cultura Esporte e Lazer Nação Goytacá.
As doações serão entregues diretamente ao Hospital em horários e dias que divulgaremos brevemente.

Overcoming Skate Vídeo

Família do Skate se junta a Nação Goytacá
e a ProBeach Vôllei na campanha Loucos Somos Nós
em prol do Hospital João Vianna. –

Dia 26 setembro setembro 2009
19:00 – Furdunço Etílico – Semana da Imprensa
20:00h – Lançamento da Campanha Loucos Somos Nós
22:00h - volta da banda Avyadores doBrazyl
+ Reubes Pess + Humor + Eixo Nacional + Rock
Blues Poesia + Graffiti & Outros Baratos Afins

Taberna D Tutty – Rua das Palmeiras, 13


“ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE”
Depois de uma parada obrigatória para (re) pensar, eis que estou de volta. Confesso que dei um tempo por não sentir tesão em escrever. Tenho andado bastante cético com relação a tudo. E quanto mais reflito mais descrente fico. Dizem que a verdadeira felicidade reside em não pensar... Talvez. Mas não consigo olhar o todo à minha volta e não refletir sobre. Pensar dói. E como dói. Principalmente quando nos sentimos impotentes diante do beco sem saída que é viver. Antes eu tinha como missão a perseve-rança, por acreditar em luz no fim de túnel e similares. Hoje, não mais, apenas persisto. E é esse persis-tir que me traz de volta.
Ler, ver, ouvir os noticiários só me faz mais pessimista. E não adianta não ligar a TV, os fatos estão aí, independentes da nossa vontade. A banalização da vida nos retirou o quê divino que achávamos possuir. Reduziu-nos a meros expectadores de uma contagem regressiva, não se sabe de que. E cada vez mais nos vangloriamos da evolução da espécie. Tenho me perguntado: o que se tornou o ser humano, ou será que ele sempre foi assim, sendo que agora se acelerou no processo autodestrutivo? Não consigo me responder. Talvez, se eu professasse alguma religião, encontrasse não a resposta, mas algum conforto. Acredito em Deus, mas isso não me impede de questioná-lo.
Tenho por princípio não desejar mal a ninguém, o que entendo como uma forma de religare. Tento exercitá-lo ao máximo, mas está cada vez mais difícil. Oportunismo, individualismo, egoísmo, vantagem, vingança têm sido as palavras de ordem nestes tempos de neoliberalismo. Vivemos num mundo em que o que vigora é a máxima “cada um por si e Deus contra”. Em que a práxis nem de longe corresponde ao discurso. O ser humano chegou ao máximo da comunicação para não se comunicar. Vi-vemos uma vida em que tudo é fake ou virtual. E cada vez mais comungamos uma meta-solidão. A apatia toma conta da gente por não termos perspectivas de um mundo melhor.
Ontem encerramos a temporada de “Meu querido diário”, de Adriano Moura, no Teatro de Bolso. Montagem produzida e interpretada por Yve Carvalho, em que um professor de biologia discorre sobre as agruras de ser um profissional que ama a sua profissão, mas não tem mais nenhum prazer, nem saco em exercitá-la. Me identifico muito com o personagem, e como ele sofro por ver que o meu mister não significa nada para a grande maioria. Assim como a educação, a arte está relegada ao fim da fila na ordem das prioridades e só persistindo para continuar a exercitá-la. A cultura de massa tornou a arte alienante e descartável, mero produto de consumo.
“...Você não sabe como minhas aulas foram ficando chatas com o tempo. Tão sem sapos. Estou um homem cansado aos quarenta... falando das agruras da minha vida de professor de biologia quaren-tão, solteiro, cheio de frustrações e desejos. Sabe que tem gente que diz que é a mais bela das profissões? Professor e médico. Não é isso. Ás vezes penso em largar tudo, mas eu não sei fazer outra coisa na vida...” Me sinto assim, como Paulo, não sabendo o que fazer da vida. Alimentando as frustrações como posso. Caminhando com a certeza de que a humanidade não chegará a lugar algum, a não ser a sua pró-pria inexistência.
Exemplos não faltam para nos certificarmos de que não é esse o caminho que devamos trilhar. No entanto, parece-nos inexorável que o trilhemos. Sabemos as conseqüências dos atos que cometemos. Que não teremos o que legar aos que virão depois de nós, se é que virão. Seria este o designo de Deus? É para isto que fomos ungidos, segundo as religiões, com o livre arbítrio? E que Deus é este que com sua onipresença, onisciência, onipotência nos relega ao sofrimento? Vejo-O, em muito, imagem e semelhan-ça humana. De uma humanidade que não suporta a idéia de não ter o referencial primeiro e por isto o personifica tão algoz.
Nos meus achismos chego à conclusão de que por não obtermos resposta para a grande pergunta, que é, segundo Caetano, “existirmos, a que será que se destina?”, almejamos nos equiparar ao criador. A capacidade atômica atual nos permite explodir o planeta dezenove vezes e basta uma. Se somos capazes de destruir o objeto da criação, por antítese nos equiparamos ao criador. Talvez seja este o destino trági-co inerente à humanidade, assim como preconizavam os deuses na Grécia Antiga. Talvez seja esta a Ra-zão desta corrida obcecada para chegarmos a não se sabe onde. Só assim vislumbro algum sentido na maneira como conduzimos nossas vidas.
“Não sei como será a terceira guerra mundial. Mas a quarta, com certeza, será a pau e pedra.”, disse um dia Einstein. Se sobrevivermos à terceira, talvez possamos experimentar um modus vivendi outro, hoje utópico. Talvez possamos viver de forma anárquica. Em que a divindade humana seja exerci-da em plenitude e palavras como paz, harmonia, solidariedade, compaixão, respeito deixem de ser ape-nas sopa de letrinhas nos dicionários.
Antônio Roberto Góis Cavalcanti(Kapi)

Projeto Fala Escritor

A terceira edição do Projeto Fala Escritor promove no dia 10 de outubro (sábado), às 18h, na Livraria Saraiva Mega Store do Salvador Shopping (Espaço Castro Alves), uma programação recheada de atividades culturais, que envolve palestra, lançamento de livro, recitais poéticos e apresentações musicais. Tudo gratuito e aberto ao público.
A profissão do escritor será o tema da palestra ministrada pelo escritor e editor Carlos Alberto Barreto (autor do livro Fogo Fátuo), que vai falar sobre os direitos ou falta de direitos do profissional do livro.

Também acontece o lançamento da coletânea Prêmio Literário Valdeck Almeida de Jesus - 2008, organizada pelo escritor e jornalista Valdeck Almeida de Jesus; lançamento do livro Diário de Rafinha. As duas faces de um amor, do ator, modelo e escritor Leo Dragone; e receitais de poesias com Nádia Cerqueira, Buzzy de Carvalho, Nara Góes, Alexandre Amaral, Renata Rimet, Carlos Alberto Barreto, Leandro de Assis, Grigório Rocha, Monique Jagersbacher, Malu Freitas, José da Boa Morte, Vera Passos, outros poetas, além da participação musical de Carlos Ventura e Rick Vieira.

Projeto Fala Escritor - Criado pelo poeta Leandro de Assis, com a colaboração dos escritores Carlos Souza, Fau Ferreira, Monique Jagersbacher e Valdeck Almeida. O objetivo é unir os novos escritores baianos, incentivar a escrita, a publicação e o lançamento de livros, além de disseminar informações referentes ao mercado editorial.
Período: 10/10
Horário: Sab, 18:00hs
Preço: entrada gratuita
Contato: 8831-2888 – Leandro de Assis
E-mail: leandroicp@hotmail.com
Onde: Livraria Saraiva – Salvador Shopping
Avenida Tancredo Neves, S/N.
41820-021 - Salvador - BA
(71) 3341-7020

O mais nu dos artistas
Dimitri

Se não for engraçado, o clown não é um clown. Afora isto, ele tem todos os direitos, e também um dever: ser muito pessoal, com sua própria silhueta, seu estilo único, sua expressão particular. Quanto a mim, tento utilizar o máximo de meios: acrobacia, funambulismo, música, palavra... e mímica, é claro. Já fui criticado por isto, mas acredito que o clown tenha feito mímica bem antes dos mímicos. Essa mímica e quase todas as especialidades dos artistas do picadeiro, nós encontramos nos artistas da commedia dell'arte, mas a commedia, por mais engraçada que seja, não é clownesca. Um excêntrico como Georges Carl é hilariante, mas não é um clown. Há uns quinze anos, vi a peça de Marcel Achard "Voulez-vous jouer avec moá?"; os comediantes eram extraordinariamente cômicos, melhores que a maioria dos clowns, mas... não havia clowns, eram clowns representados por atores.
Tomemos um contra-exemplo: Charlie Rivel. Por natureza, ele é "o" clown, a quintessência do clown, em seu ser, sua maneira de viver, de se exprimir. Talvez ele não fosse um perfeito ator, no sentido clássico da palavra, mas tinha o estilo clown, como o tinha Grock, o maior de todos. Atualmente, ele movimenta-se com dificuldade; sua filha Paulina tem que maquiá-lo. Mas o pouco que se move, sua maneira de desenvolver as gags lentamente, de comportar-se como uma criança, engraçada, má, poética, esperta, terna..., é um clown!
Os Colombaioni abandonaram o circo. Eles tiveram o desembaraço de não se caracterizarem mais; depois de um minuto com eles em cena, você pensa: não são excêntricos, nem burlescos, nem comediantes que representam clowns, mas verdadeiros clowns.
É apenas com exemplos como esses que se pode tentar explicar, definir. Mas é extremamente difícil pois os clowns têm um segredo que somente eles conhecem! Ele caiu sobre os seus narizes, quando estavam no berço! Eles só têm mérito se exploram-no bem, se cultivam-no. Tenho tanto respeito por esse ofício que não suporto aqueles que imaginam que basta, para merecer o nome de clown, colocar um nariz vermelho e sapatos monstruosos. Tenho horror de certas trupes, algumas bem conceituadas, em que os atores caracterizam-se até o topo da cabeça, em que utilizam-se um monte de acessórios mecânicos complicados que não cabem em uma camionete. Grock contentava-se com um violino e uma cadeira, mas Grock era um ponto culminante de nossa arte.
Eu procuro, como ele, respirar, durante meu número, como na vida. Não se deve ter medo de perder seu tempo. O público está deformado, sobretudo por causa da televisão: ele quer ver tudo rápido, quer ter tudo rápido, a vida já digerida; e as crianças são como os adultos. Não devemos nos deixar enganar por essa onda. Quando se consegue impor seu próprio ritmo, quando se vence a partida, é maravilhoso porque as pessoas, então, dão-se conta de que se trata de outra coisa.
Um dos meus "truques" é sorrir freqüentemente porque eu gostaria de transmitir isso: quero tanto, aliás, que, afinal, não é um truque! Quando, em um país em que ninguém me conhece, num botequim, chego a fazer rir não importa quem, uma pessoa, uma só - ou uma criança - fico todo feliz: tenho a impressão que realmente fiz alguma coisa, que consegui construir uma ponte com os outros. Atrás de meu sorriso, há essa vontade. Há muita vontade - nunca o bastante - e uma grande concentração. Sobre este ponto, estou longe, ai!, de igualar um iogue ou um monge zen, mas sou bastante auxiliado pela crença que inculcou-me minha mãe em um mundo onde as forças espirituais são, com toda a naturalidade, as mais influentes.
Cada um tem sua pequena filosofia... A minha é não poder conceber meu trabalho senão como um clown honesto e verdadeiro: sua atitude e seu caráter transmitem-se através de sua arte, portanto é interessante tentar mostrar-se humano, gentil, com humor. Minha vida, meu ofício, tudo está no mesmo saco! Eu não represento um papel: estou nu; o clown é o mais nu de todos os artistas porque põe em jogo a si mesmo, sem poder trapacear. Para não decepcionar o público, ele tem o dever de ser autêntico, de ter a impressão de estar sempre oferecendo muito pouco. É meu ideal de clown. Um ideal que vocês podem notar em outras pessoas que têm ofícios bem obscuros: pessoas honestas, boas, trabalhadoras. Elas tentam cumprir sua tarefa humildemente: são personalidades tão grandes quanto os mais célebres artistas do mundo.
Além do mais, para mim - um pouco à maneira desse santo que dizia: "Ama a Deus e faze o que quiseres" - é isto: "Sê engraçado, e faze o que quiseres." Sê engraçado!!!

(Depoimento dado a André Sallée.)
In "Clowns & Farceurs", Ed. Bordas, Paris, 1982, p. 36-37. Tradução de Roberto Mallet.

TABACARIA

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,

E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.

Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira.
Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.

Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.

Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.

Crer em mim?
Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.

Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!

Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.

O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)

E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)

Visto isto, levanto-me da cadeira.
Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)

Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!,
e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança,
e o Dono da Tabacaria sorriu.
Álvaro de Campos, 15-1-1928



terça-feira, 22 de setembro de 2009

césar castro - transpirações gráficas
foto: macaxeira/divulgação
PUTA QUE PARIU!

Eis algo que eu adoraria ver: Ocupação Paulo Leminski: Vinte Anos em Outras Esferas, exposição sobre a obra do poeta samurai com curadoria de Ademir Assunção.

Pra quem tá em Sampa, é simplesmente imperdível. Sem exagero!
Como não vou, fica a dica.

Abaixo, e-mail que recebi do Itaú Cultural, divulgando:

Quinta, 1º de outubro, o Itaú Cultural apresenta a terceira edição do projeto Ocupação, desta vez dedicada ao poeta, romancista, compositor e tradutor Paulo Leminski. A exposição, com curadoria de Ademir Assunção, revê o legado do escritor 20 anos após sua morte.

Poeta reconhecido e respeitado, Leminski, entretanto, é um daqueles autores pouco visitados de verdade. Ocupação Paulo Leminski: Vinte Anos em Outras Esferas é uma oportunidade de tomar contato com sua obra por meio de seus poemas, suas composições, seus manuscritos e textos inéditos, além de depoimentos em vídeo de muitos parceiros.

Programação completa aqui. Abaixo, texto do curador da mostra sobre. Paulo Leminski: 20 Anos em Outras Esferas

Com quantos Paulos se faz um Paulo Leminski? O poeta curitibano sempre foi um e sempre foi mil: estudioso de línguas (inglês, francês, latim, grego, japonês, espanhol), compositor popular, judoca zen-budista, erudito familiarizado com a poesia clássica ocidental e com as rupturas das linguagens mais radicais, moleque culto tomado pelo espírito rebelde do verdadeiro rock’-n’-roll, livre-pensador cosmopolita que se intitulava “A Besta dos Pinheirais”. Todos convergindo para um único centro: o de poeta em tempo integral. Intenso, como um vendaval. Sutil, como um beija-flor.O múltiplo poder transformador da arte de Paulo Leminski quiçá esteja espalhado em cada canto dessa exposição. Seja nos poemas impressos em seus livros, seja nas composições individuais ou em parcerias gravadas por dezenas de intérpretes, nos depoimentos registrados em vídeo, nos manuscritos em papel de carta, guardanapo ou cadernos (como o “laboratório” do livro Catatau) ou nos textos inéditos ainda encerrados em 18 caixas plásticas azuis. Alguns deles, trazidos pela primeira vez a público, aguardam zeloso estudo para futuras publicações.

Aliás, fuçar esses arquivos que reclamam um urgente memorial à altura da obra leminskiana foi a parte mais emocionante de todo o trabalho. Mais que isso: um privilégio. Meu mais profundo agradecimento a Alice Ruiz e às filhas Áurea e Estrela Ruiz Leminski pela confiança depositada.

A impressionante vitalidade e a desmedida paixão pela vida nos deixam a nítida sensação de que 20 anos após sua passagem “para o sonho de outras esferas” Paulo Leminski continua mais vivo do que muitos vivos. A impressão é que a qualquer momento ele pode entrar pela porta bradando seus versos incendiários e nos convidar para uma nova rebelião contra a assustadora mercantilização da arte e da vida. Você toparia?

Ademir Assunção
curador



Leia o trecho extraído da Wikipedia...
"A Divina Comédia (em italiano: Divina Commedia, originalmente Comedìa, mais tarde batizada de Divina por Giovanni Boccaccio) é um poema de viés épico e teológico da literatura italiana e da mundial, escrita por Dante Alighieri, e que é dividida em três partes: Inferno,Purgatório e Paraíso. O poema chama-se "Comédia" não por ser engraçado mas porque termina bem (no Paraíso). Era esse o sentido original da palavra Comédia, em contraste com a Tragédia, que terminava, em princípio, mal para os personagens.(...)"

Certamente, nossos treze leitores(as)imaginam que as acusações de aliciamento e prostituição de menores, no episódio conhecido como "As meninas de Guarus", terminará como nas comédias, ou seja, ninguém será punido e todos acabarão felizes em seus paraísos de hipocrisia e poder...
Pode ser que sim, pode ser que não...

A sociedade de Campos dos G., e uma parte dela, que visita os blogs, já percebeu a leniência omissa e cúmplice da mídia local...
Seria o caso de enviar a esses veículos, e-mails, cartas, telefonemas, e toda a espécie de contato possível, exigindo que a informação fosse publicada...
Envie também aos seus parlamentares, protestos pela inclusão de Campos dos G., nas investigações de abusos contra menores...
Enfim, remeta aos órgãos da capital e do resto do país sua indignação...

A TrOLha aposta que a pressão da sociedade "obrigaria" a esses veículos a mostrarem de que lado estão: da sociedade ou de seus "sócios"...Esse seria "um ótimo castigo"....
Nesses dias, chegou-nos a informação que o carro oficial em que foram levadas as
"meninas de Guarus" passou em frente a uma fazenda de um vereador local, e lá dentro, as meninas apontaram: "olha, era aqui que nos traziam"...
Constrangimento geral dentro do veículo....

Alguns gaiatos, dizem que pela quantidade de almas parlamentares pecadoras , tratava-se do inferno de Dante...

Postado por Xacal
"O que é preciso para se criar um grupo teatral forte e atuante? Tenho me perguntado muito isso nos últimos meses. Não há fórmulas de sucesso, eu bem sei. Cada grupo constrói (e destrói) as suas próprias fórmulas e códigos de convivência. Há grupos que tem o seu forte na assinatura estética, outros que apostam na circulação, alguns gostam de estar sempre em risco experimentando algo novo, e outros mergulham em longos e enriquecedores processos de pesquisa. Cada um constrói sua identidade. O importante é ter uma identidade, uma marca forte junto ao público e a classe artística. Será?
Tenho refletido sobre isso ultimamente. Não que estejamos passando por alguma crise interna. Se há crise, é externa. Atualmente somos um grupo formado por artistas que raramente estão na mesma cidade. Mas isso é o de menos no momento. Algo nos mantém ligados e atentos um ao outro e ao teatro que nos une e inquieta. A questão da identidade é o que me preocupa. Não buscamos uma marca. Nossa marca é nosso trabalho. Quando penso identidade, penso o que nos mantém juntos?
Vejamos: Somos um jovem velho grupo. O Grupo Bicho de Porco nasceu em 1995 em Niterói nas mãos do diretor Gilsérgio Botelho e teve uma bela trajetória até 2002, quando nos separamos e cada um foi buscar outras experiências. Eu fiz parte dessea história. Palavra-chave dessa época: Inquietação. Anos depois, em maio de 2008 na cidade de Cabo Frio, após uma bela experiência criativa com Jiddu Saldanha surge a idéia de formar um grupo e com base nos meus relatos daquela época, e com a aprovação e torcida de seu antigo diretor (agora conduzindo a Cia OperaKata), ressurge o Grupo Bicho de Porco. O que liga histórias, trajetórias tão distintas? A mesma palavra-chave. Inquietação. Uma inquietação tão forte que foi capaz de construir três trabalhos em menos de um ano.
Poderia até pensar se vamos completar quinze ou três anos em 2010. Mas o que me move mesmo é manter essa palavra-chave viva no nosso trabalho e na nossa conduta em relação ao teatro e ao mundo de forma geral. Lógico que inquietação não é tudo. Assim como uma excelência técnica e estética não são garantias de um grupo vivo e pulsante (no máximo garantem um teatro limpo e bem executado, mas sabemos que isso não é tudo). Na busca por essa tal identidade descobrimos outras palavras e termos que tem o poder de tijolos na construção de uma casa. Autonomia. Nada de ator preguiçoso ou dependente do diretor. Ética. Respeito. Estudo. Escuta. Fome. Suór. Banquete. Silêncio. Repetição ("até ficar vivo"). Visão de Mundo (esse termo nem é um tijolo mas a janela nessa construção). Tudo isso muito vivo e exercitado na relação que (re)começamos a criar. (Sim, temos que exercitar tudo isso, e que belo exercício tem sido).A primeira conclusão que chego é que exercitar tudo isso é o que tem nos tornado Grupo Bicho de Porco.
Trabalhar é preciso. Pesquisar novos trabalhos, circular com O Cão Sem Plumas, com Jornada Shakespeare e Jornada de Paz Tempo de Guerra. Encontrar nosso público e permitir que ele nos encontre. Comungar com outros artistas. Descobrir. Aprender mais e mais. Fazer o melhor trabalho possível sempre.
São nossos grandes objetivos como grupo de teatro. . Mas não é apenas isso que nos torna um grupo. Ah, o poder das palavras!
(Ainda voltarei a falar dessas palavras.)"
Postagem realizada por Bruno Peixoto Cordeiro no Blog do Grupo Bicho de Porco


Michèle Sato


Difícil iniciar um prefácio para abordar feitiçarias de um grande mestre. A mágica aparição do texto transborda sentidos cósmicos, como se um feixe de luz penetrasse em um túnel escuro dando-lhe o sorver da vida. Diariamente, recebo um deserto imenso de poemas e a leitura se esvai com “batatinha quando nasce põe a mão no coração”. Um ou outro me chama a atenção, desde que sou do chamado “mundo das ciências” e leio poemas com coração, mas inevitavelmente aguçado pelo olhar crítico vindo do cérebro. A academia pode ser engessada, mas é, sobremaneira, exigente. Aplaude o inédito, reconhecendo que o poema é um caos antes de ser exteriorizado, mas harmônico, quando enfeitiçado. A leitura requer algo como canto do vento, que não seja fugaz, mas que acaricie no assopro da Terra.

Por isso, é com satisfação que inicio este pequeno texto, sem nenhuma pretensão de esgotar o talento do grande mestre, mas responder aos poemas de Artur que brilham, soltam faíscas, incendeiam-se em erotismo e garras enigmáticas. Ele transcende regras, inventa palavras, enlouquece verbos. E as relações estabelecidas revelam a desordem dos sonhos naconcretude harmônica de suas palavras. A aventura erótica não se despede de seu olhar político. Situado fenomenologicamente no mundo, e transverso nele, Artur profana o segredo com suas invenções transgressoras. Reinventa a magia e decreta uma nova vida para que o mundo não seja habitado somente pelos imbecis. Dança no universo, com a palavra fluída, imprevistos pitorescos, mordidas e grunhidos. Reaparece no meio de um cacto espinhoso, mas é absurdamente capaz de ofertar a beleza da flor.

Contemporâneo e primitivo se aliam, vencem os abismos como se ao comerem as palavras monótonas, pudessem renascer por meio da antropofagia infinita de barulhos e silêncios. O sangue coagulado jorra, as cavernas se dissolvem e é provável que poucos compreendam a beleza que daí se origina.

Nos labirintos de suas palavras, resplandece o guerreiro devorador, embriagado, quase descendo ao seu próprio inferno. Emana seu fogo, na ardência de sexo e simultaneamente na carícia do amor. Pedras frias se aquecem, coram com o tom devasso que colore a mais bela das pornofonias. Marquês de Sade sente inveja por não ser o único déspota das palavras sensuais. E os poemas de Artur reflorescem, exalam odor como desejos secretos e risos que ecoam no infinito.

não fosse
essa alga
queimando em tua coxa
ou se fosse
e já soubesse
mar o nome do teu macho
o amor em ti consumiria
(jura secreta 5)

De repente um cavalo selvagem cavalga na relva úmida, como se o orvalho da manhã pudesse revelar o fogo roubado das pinturas rupestres. Ao som de tambores, suas palavras se tornam arte em si, como se fossem desenhos projetados em um fantástico mundo vertiginoso. Seres encantados surgem das águas originários de sentimento, abraçadas nas pedras lisas, rugosas, esverdeadas da terra. O fogo dança em vulcões e a metamorfose é percebida em seus ares. Os elementos se definem como bestas, humanos, ou segmentos da natureza como uma orquestra sinfônica que vai além da sonoridade. Adentram sentidos polissêmicos e, neste momento, até o André Breton percebe o significado das palavras de Artur, pois a beleza é convulsiva e crava no peito feito cicatriz.

e o que não soubesse
do que foi escrito
está cravado em nós
como cicatriz no corte
(jura secreta 10)

Da violação do limite, do fruto proibido ou da linguagem erótica, os poemas de Artur são orgasmos literários que oscilam entre o sacro e o profano. Sua cultura, visão de mundo e inteligência possibilitam ir além da pura emoção sentimental, evocando a liberdade para que a terra asfixiada grite pela esperança. Artur comunga com outros seres a solidariedade da Terra, ainda que por vezes, seja devastador em denunciar disparidades, mas é habilidoso em anunciar acalentos. A palavra poética desfruta fronteiras, e Roland Barthes diria que a história de Artur é o seu tributo apaixonado que ele presta ao mundo para com ele se conciliar. Em sua linguagem explosiva, provavelmente está a intensidade de sua paixão - um amor perverso o suficiente para viciar em suas palavras, mas delicado o bastante para dar gênese ao mundo enfeitiçado pela habilidade de sua linguagem.

A essência deste perfume parece estar refletida num espelho, pois se as linguagens podem incluir também o silêncio, as palavras de Artur soam como uma melodia. Projetada numa tela, a pintura erótica torna-se sublime e para além de escrevê-las, ele vive suas linguagens. Esta talvez seja a diferença de Artur com tantos outros poetas: a sua capacidade de transcender a tradição medíocre para viver um intenso de mistério de sua poética. Ele não duvida de suas palavras, nem as censura para não quebrar seu encanto, mas devora em seu ser na imaginação e no poder de sua criação. Criador e criatura se misturam, zombam da vida, gargalham da obviedade. Põem-se em movimento na dança estrelas que ilumina a palavra.

Os fragmentos poéticos são misteriosos de propósito, uma cortina mal fechada assinala que o palco pode ser visto, porém não em sua totalidade. Disso resulta a sedução para que ele continue escrevendo, numa manifestação enigmática do poder surrealista em nos alertar sobre nossas incompletudes fenomenológicas. O imperfeito é o sentido da fascinação, diria Barthes em seus fragmentos de um discurso amoroso. E a poética de Artur não representa ressurreição, nem logro, senão nossos desejos.O prazer do texto pode revelar o prazer do autor, mas não necessariamente do leitor.

Mas Artur lança-se nesta dialética do desejo, permitindo um jogo sensual que o espaço seja dado e que a oportunidade do prazer seja saciada como se fosse um "kama sutra poético" para além do prazer corporal. Esta duplicidade semiológica pode ser compreendida como subversiva da gramática engessada - o que, em realidade, torna seus textos mais brilhantes. Não pela destruição da erudição, mas pela abertura da fenda, para que a fruição da linguagem seja bandeira cultural da liberdade.

E a sua liberdade projeta-se num horizonte onde a dimensão sócio-ambiental é freqüentemente presente. É uma poesia universal de representações urbanas e rurais, de flora, fauna e fontes de praças públicas. Desacralizando o “normal previsível”, borda em sua costura de mosaicos, esquinas e passaredos.

eu sei de gente e de bichos
ambos atolados no lixo
tem gente que come bicho
tem bicho que come gente
tem gente que vive no lixo
tem lixo que mora no bicho
gente que sabe que é bicho
e bicho que pensa ser gente
(jura secreta 29)


A poética das Juras Secretas opõem-se a instância pretérita numa espiral de presente com futuro. Metafisicamente, desliga-se do momento agonizante e os olhos do poeta não se cansam, ainda que a paisagem queira cansá-los. Seu toque lembra o neoconcretismo, por vezes, cuja aparição na semana da arte moderna mexeu com os mais tradicionais versos da literatura ordinária. Mas sua temporalidade vence Chronos, na denúncia de um calendário tirano ao anúncio de Kairós, também senhor do tempo, mas que media pelos ritmos do coração.

20 horas
20 noites
20 anos
20 dias
até quando esperaria...
até quando alguém percebesse
que mesmo matando o amor
o amor não morreria.
(jura secreta 49)

É óbvio que a materialidade da linguagem, sua prosódia e seu léxico se mantêm no texto. Mas foge das estruturas engessadas do arrombo repetitivo, florescendo em neologismos verossímeis e ritmos cardíacos. Amiúde, são palavras jorradas em potente cultura significante. No chão dialogante, este poeta desestabiliza a normalidade com suas criações.

por que te amo
e amor não tem pele
nome ou sobrenome
não adianta chamar
que ele não vem quando se quer
porque tem seus próprios códigos
e segredos
mas não tenha medo
pode sangrar
pode doer e ferir fundo
mas é razão de estar no mundo
nem que seja por segundo
por um beijo mesmo breve
por que te amo no sol
no sal no mar na neve.
(jura secreta 41)


ARTUR GOMES é, para mim, um grande relato de seu próprio devir, que sabe poetizar a partir de seu vivido. E por isso, enfeitiça.

Cultura Um Conceito Antropológico
O Determinismo Biológico

São velhas e persistentes as teorias que atribuem capacidades específicas inatas a “raças” ou a outros grupos humanos. Muita gente ainda acredita que os nórdicos são mais inteligentes do que os negros; que os alemães têm mais habilidade para a mecânica; que os judeus são avarentos e negociantes; que os norte-americanos são empreendedores e interesseiros; que os portugueses são muito trabalhadores e pouco inteligentes; que os japoneses são trabalhadores, traiçoeiros e cruéis; que os ciganos são nômades por instinto, e finalmente, que os brasileiros herdaram a preguiça dos negros, a imprevidência dos índios e a luxúria dos portugueses.
Os antropólogos estão totalmente convencidos de que as diferenças genéticas não são determinantes das diferenças culturais. Segundo Felix Keesing, “não existe correlação significativa entre a distribuição dos caracteres genéticos e a distribuição dos comportamentos culturais. Qualquer criança humana normal pode ser educada em qualquer cultura, se for colocada desde o início em situação conveniente de aprendizado”. Em outras palavras, se transportarmos para o Brasil, logo após o seu nascimento, uma criança sueca e a colocarmos sob cuidados de uma família sertaneja ela crescerá como tal e não se diferenciará mentalmente em nada de seus irmãos de criação. Ou ainda, se retirarmos uma criança xinguana de seu meio e educarmos como filha de uma família de alta classe média de Ipanema, o mesmo acontecerá: ela terá as mesmas oportunidades de desenvolvimento que os seus irmãos.
Em 1950, quando o mundo se refazia da catástrofe e do terror do racismo nazista, antropólogos físicos e culturais, geneticistas, biólogos e outros especialistas, reunidos em Paris sob os auspícios da UNESCO, redigiram uma declaração da qual extraímos dois parágrafos:

10. os dados científicos de que dispomos atualmente não confirmam a teoria segundo a qual as diferenças genéticas hereditárias constituiriam um fator de importância primordial entre as causas das diferenças que se manifestam entre as culturas e as obras das civilizações dos diversos povos ou grupos étnicos. Eles nos informam, pelo contrário, que essas diferenças se explicam, antes de tudo, pela história cultural de cada grupo. Os fatores que tiveram um papel preponderante na evolução do homem são a sua faculdade de aprender e a sua plasticidade. Esta dupla aptidão é o apanágio de todos os seres humanos. Ela constitui,d e fato, um das características específicas do Homo sapiens.

15.
b) no estado atual de nossos conhecimentos, hã foi ainda provada a validade da tese segundo a qual os grupos humanos diferem uns dos outros pelos traços psicologicamente inatos, quer se trate de inteligência ou temperamento. As pesquisas científicas revelam que o nível das aptidões mentais é quase o mesmo em todos os grupos étnicos.

A espécie humana se diferencia anatômica e fisiologicamente através do dimorfismo sexual, mas é falso que as diferenças de comportamento existentes entre pessoas de sexos diferentes sejam determinadas biologicamente. A antropologia tem demonstrado que muitas atividades atribuídas às mulheres em uma cultura podem ser atribuídas aos homens em outra.

A verificação de qualquer sistema de divisão sexual do trabalho mostra que ele é determinado culturalmente e não em função de uma racionalidade biológica. O transporte de água para a aldeia é uma atividade feminina no Xingu ( como nas favelas cariocas). Carregar cerca de vinte litros de água sobre a cabeça implica, na verdade, um esforço físico considerável, muito maior do que o necessário para manejo do arco, arma de uso exclusivo dos homens. Até muito pouco tempo, a carreira diplomática, o quadro de funcionários do Banco do Brasil, entre outros exemplos, eram atividades exclusivamente masculinas. O exército de Israel demonstrou que a sua eficiência bélica continua intacta, mesmo depois da maciça admissão de mulheres soldados.

Mesmo as diferenças determinadas pelo aparelho reprodutor humano determinam diferentes manifestações culturais. Margareth Mead (1971) mostra que até a amamentação pode ser transferida a um marido moderno por meio da mamadeira. E os nossos índios Tupi mostram que o marido pode ser o protagonista importante para a sua saúde e a do recém-nascido.

Resumindo, o comportamento dos indivíduos depende de um aprendizado, de um processo que chamamos de endoculturação. Um menino e uma menina agem diferentemente não em função de seus hormônios, mas em decorrência de uma educação diferenciada.

Roque de Barros Laraia

In Cultura Um Conceito Antropológico
Jorge Zahar Editor