quinta-feira, 9 de julho de 2009


Noite Intensa

O Grupo Teatral Nós na Rua retorna ao palco do Cine Teatro São João com o espetáculo ‘Noite Intensa – Música’, o mais novo projeto do grupo, que já montou outros espetáculos nesse estilo: esquetes humorísticas. As apresentações acontecem nas próximas quinta, sexta, sábado e domingo, dias 9, 10, 11 e 12, sempre às 20h30.A comédia mostra um grupo de atores, usando a temática “Música”, representando fatos engraçados da sociedade e do cotidiano. Com muito bom humor, a trupe passeia por diversas situações hilariantes.A montagem traz no elenco: Ana Lena Oliveira, Eric Meirelles, Luan Abreu, Renê Belmiro e Silvano Motta. Os ingressos podem ser obtidos na bilheteria do teatro a R$5,00.

PARA OUTRAS INFORMAÇÕES E MAIS FOTOS DO ESPETÁCULO ACESSE: http://www.noiteintensa.blogspot.com/

Jards Macalé – Jards Macalé (1972)
O Primeiro disco do Macalé
Marcelo Montenegro

Distinto Público/ Vou ficar aqui exposto à audição pública/ Como o faquir da dor”.
O começo do segundo disco do Macalé, Aprender a Nadar – ou Jards e Wally Sailormoon apresentam a Linha de Morbeza Romântica – me impressiona até hoje. “O faquir da dor”. Caralho... E mal dá tempo de voltar pra dentro da respiração que o cara já emenda “Vale a pena ser poeta/ Escutar você torcer de volta a chave/ Na fechadura da porta...”. E lá na frente têm ainda aqueles “jatos de sangue/ espetáculos de beleza” que parecem querer saltar do vinil tal a visceralidade daquilo. É isso que eu chamo de começo, continua com Macalé reinventando Valzinho e Orestes Barbosa: “Se a imagem é maluca/ Se eu sou mal compositor/ É que eu tenho a alma em sinuca...”. Depois vem “Anjo Exterminado”, mas aí já não é mais começo, nem é o disco sobre o qual quero falar.

Só queria registrar que Aprender a Nadar foi um dos trabalhos – e não tô falando de discos apenas – que primeiro me incutiram a idéia de linguagem: uma construção fudida de letra, melodia, divisão e tonalidades do canto – Macalé é mestre nisso, indo da delicadeza ao gutural sem perder la harmonia jamás –, o jogo dos músicos, a seqüência das faixas, as bagagens da vida e o manejo preciso de tudo no estúdio (“tô amando em 78 por segundo rotações”). Um trabalho seríssimo e ao mesmo tempo auto-irônico. Com liberdade e conhecimento de causa – apesar da verve de humorista, estamos falando de um músico, arranjador e instrumentista formidável – pra inclusive tratar a linguagem como uma espécie de playground.

Mas o disco que quero falar é o primeiro do Macalé. Que tem “Mal Secreto”: “Não choro/ Meu segredo é que sou um rapaz esforçado/ Fico parado calado quieto/ Não corro não choro não converso/ Massacro meu medo/ Mascaro minha dor já sem sofrer/ Não preciso de gente que me oriente ...”. O poema que eu gostaria de ter escrito. Uma das músicas mais pungentes e bem escritas de que tenho notícia. A propósito: li esses dias um artigo do David Arrigucci Jr. no Estadão dizendo justamente o que eu sempre pensei sobre João Cabral de Melo Neto. Que em seu “trabalho de arte” – expressão cunhada pelo próprio para definir a essência da sua concepção poética – ele se vale de “todos os recursos da inteligência ou da técnica” não como um fim, mas, ao contrário, para “intensificar a emoção”.

Justamente o que faz a brilhante sacada “E tudo o mais jogo num verso/ Intitulado Mal Secreto”: emociona e arrepia os pêlos da inteligência. Sem medo nenhum e com uma baita consciência estética, Macalé enfia o pé na jaca do que sente pra voltar com um disco único, radical, atemporal. O tal “trabalho de arte”: “com as mãos frias/ mas com o coração queimando” (“78 rotações”, Macalé/ Capinam). E mesmo quando “apenas” interpreta – vide, sobretudo, “Rio sem Tom/ Blue Suede Shoes” e “4 Batutas e 1 Coringa” – ele assina o que tá cantando, entre o desespero e o deboche, o contido e o escancarado: “Macalé vai por caminhos tão opostos ao esperado que é preciso recalcular os ouvidos de acordo com os novos códigos do intérprete” (Tárik de Souza). Esse disco me deu um nó.

Direto na veia com uma cozinha sonora impecável que além do Jards conta com o Tuti Moreno na bateria e o Lanny Gordin no violão e baixo elétrico. Aquilo não era MPB, nem fodendo. Do mesmo modo que era rock´n´roll pra caralho sem ser rock. A maioria das parcerias é com o Capinam, incluindo “Farinha do Desprezo” e as lindíssimas “Meu amor me agarra & geme & treme & chora & mata” e “Movimento dos Barcos”, cuja versão nesse disco é insuperável. A dupla Macalé/Wally – espécie de Tom/Vinícius dos “aturdidos pela vida” como diria Lester Bangs –, que atingiria o ápice em “Aprender a Nadar”, além de “Mal Secreto” comparece com “Revendo Amigos” – “Se me der na veneta eu morro/ Se me der na veneta eu mato”. Tem ainda “Farrapo Humano” do Luís Melodia e “Lets Play That” com o Torquato que leva a dissonância depois de quase roçar o insuportável a uma sofisticação absurda – “Vá bicho desafinar/ O coro dos contentes...”. E o Lanny, lenda como guitarrista, criou nesse disco umas das linhas de baixo mais fudidas da história.

Assistindo a estréia de Postcards de Atacama (1998,99?) no Centro Cultural São Paulo, meu amigo Mário Bortolotto – autor, diretor e criador da trilha do espetáculo – teve a manha de botar “Hotel das Estrelas” (Macalé/ Duda) numa cena: “Dessa janela sozinha/ Olhar a cidade me acalma/ Estrela vulgar a vagar/ Rio e também posso chorar...”. Porra. Arrepia. Mais ou menos na mesma época (uns anos antes talvez) assisti um show no Tuca com o Itamar Assumpção, o Macalé, a Miriam Maria e o Paulo LePetit. Em determinado momento, ficam no palco apenas o Jards e a Miriam. Ele dedilha o violão e ela engata: “Meu amor é um tigre de papel/ Range ruge morde/ Mas não passa/ De um tigre de papel...”. Em ambos os casos, eu na platéia sentindo e sabendo o puta privilégio que era estar ali. Ligando as coisas.

Então vira e mexe esse disco me volta. Foi legal pra caramba saber que o Itamar e o Paulinho Barnabé – que acabariam virando grandes referências – ouviam esse disco sem parar no começo dos anos 70. Que 30 anos depois, o brother Napetinha – vulgo Noa Stroeter –, baixista que deve ter no máximo 20, 22 anos, teve uma banda cujo repertório era simplesmente esse disco inteiro. Um disco – como pode? – profundo e simples; experimental e lírico. Um disco que em tudo me deu novos padrões de exigência (“meu segredo é que sou um rapaz esforçado...”). Quando o descobri ainda morava com meus pais – ”Na selva do meu quarto entre florestas cartas/ Frases desesperadas...”. No entanto, ouvir discos como este – “o que me ensinavam essas aulas de solidão”? (Ferreira Gullar) – já era estar sozinho.

Marcelo Montenegro é torcedor do Santos F.C. e autor do livro de poemas Orfanato Portátil (Atrito Art Editorial, 2003). Além do trampo com o Cemitério de Automóveis é editor e roteirista de vídeos – tendo feito trabalhos com Edvaldo Santana, Patife Band, Cuelho de Alice e Cascadura, dentre outros. Ao lado dos amigos Batata, Presidente e Negão; mantêm uma “produtora” anarco-chinfrim chamada Bedrock.
marcelomontenegro@uol.com.br

O Marcelo Montenegro foi uma das grandes revelações do ano passado. como poeta e como amigo. ele me mandou esse texto por email e eu não podia deixar de publicar. ( ele responde a pergunta da revista Zunaí, do poeta Cláudio Daniel ). acho que esse assunto interessa a qualquer poeta. e o marcelo tem uma visão clara. ele fala como pessoa física, humano que é. salve marcelo. passei até a achar o mundo melhor. chato seria se todos gostassem de henry miller. nós teríamos que gostar do paulo coelho.
a vida é boa e a gente não sabe.

Chacal
http://chacalog.zip.net

O que poderia ser feito para ampliar
o número de leitores de poesia no Brasil?

Marcelo Montenegro: Sinceramente. Não sei. E acho que qualquer tentativa de resposta a essa pergunta dificilmente conseguirá se desvencilhar dos clichês habituais. Digo: subvenções, dinheiro oficial, apoio institucional, ato governamental. Eu não acredito nisso. Isso pode até fazer parte do processo, óbvio. Mas pra falar a verdade acho que só atrapalha. Definitivamente o aumento de leitores de poesia - e de literatura, como um todo - não passa por aí. Não adianta nada propaganda, incentivo à leitura. Esse tipo de coisa é muito chato. Tipo campanha anti-droga. Tipo o Galvão Bueno falando que "ler é um exercício". Aí fudeu. Ler, ler mesmo, curtir poesia, fazê-la, etc., é um ato espontâneo, de busca, de descoberta, e não de intromissão, imposição, por mais que sejam nobres as intenções. E sempre são. E politicamente corretas. E cá entre nós isso tudo é tremendamente chato, careta, repele.

Sinceramente: acho que deviam aumentar o número de pessoas legais no planeta. Esse é o meu clichê. Minha ficção-científica. Chamada educação. Digo isso porque já tive a feliz e exaustiva experiência de dar aula por três anos. E nem de literatura era. De história. Pra terceiros colegiais. Que hoje chamam de Ensino Médio e não poderia haver nome mais adequado. E não é que eu "perdi" alguns livros ali? Temporada no Inferno, do Rimbaud, que emprestei pra Sara. Uma coletânea de contos do Bukowski - a de capa verde - pro Rogério. Memórias de um Gigolô, do Marcos Rey, pro Fernando. E não esqueço da Sara, toda vez que eu entrava na sala, vindo me falar coisas malucas que essas meninas de 17 anos com brilho nos olhos não costumam dizer. De encontrar o Rogério, depois de ter sido expulso da escola, chapado e irresponsável, rindo e falando daquele conto em que o cara tá no mercado com a filha e a caixa brinca com ela e a menininha nem olha e o pai não faz questão nenhuma de soltar um "olha filha, a moça tá falando com você". E eu não cheguei assim, tó, lê essa coisa porque vocês vão ficar mais inteligentes. Porque isso É BOM. Porque vai cair na prova. Bobagem. Foram eles que me pediram, mesmo sem saber que o fizeram.

Cara. Há uma molecada ávida por coisas interessantes quase que desistindo que alguém um dia possa lhes mostrar. Assim. Espontânea, informalmente. Questão de linguagem. Aliás me irrita profundamente qualquer tipo de discurso politicamente correto do tipo: poesia é bom, Big Brother é ruim. Pô, sério? Nem tinha reparado... - mas deixa pra lá. Por exemplo. Desde pivete cultivei o hábito extremamente prazeroso de gravar fitas cassetes pros meus amigos e namoradas. E grande parte do que conheço e adoro hoje de poesia foi graças a essas trocas. Nada mais bacana do que um amigo te falar, empolgado, sobre um determinado autor que descobriu. Nada como a alegria - e não há nenhum ato heróico ou edificante nisso, pelo amor de deus - de você ser um dos responsáveis por uma menina de 17 anos conhecer Rimbaud, "que minha professora de Português não conhece", "que me deu D naquela prova sobre O Triste Fim de Policarpo Quaresma". De ver um moleque repetindo "É proibido pisar na grama/ O jeito é deitar e rolar", do Chacal. Da Samanta escrevendo na agenda das amigas que "o homem sem a loucura é apenas um cadáver adiado que procria".

O Eugênio Evtuchenko, na sua Autobiografia Precoce, cita dois caras que apareceram na sua vida que "possuíam grandes conhecimentos que, de coração, partilharam comigo". O problema é que muita gente utiliza "o estudo como um escudo", como já disse uma vez o amigo e poeta Ademir Assunção. O problema é que muita gente se leva a sério demais. O problema é que via de regra pessoas legais, bem informadas, anti-institucionais, tão fora da escola. E aí não adianta nada você despejar uma porrada de bons livros do Drummond, do Bandeira, do Guimarães Rosa e de seja lá quem for nas bibliotecas das escolas. E, sinceramente, não adianta ficar fazendo de conta que a carroça das exceções vai pular na frente dessa imensa regra de bois em que estamos metidos.

Pessoas legais brother. Que estejam a fim de conhecer; que estejam a fim de apresentar coisas. Sei que soa um tanto vago, mas desconfio que vocês entendem perfeitamente o que quero dizer. Educação. Alguma espécie de didática da sinalização.

Olha só. Você tem Casemiro de Abreu, que é genial, mas tem também, sei lá, Paulo Leminski, Mário Quintana, Augusto dos Anjos, Cacaso, Ferreira Gullar, Glauco Matoso. Você tem Nelson Rodrigues, mas se liga ali, fica esperto, tem também um Mário Bortolotto. Chico, Caetano, beleza. Mas tem Itamar Assumpção, Edvaldo Santana, Sérgio Sampaio. Machado de Assis, ótimo. Mas tem também Reinaldo Morais, Campos de Carvalho, Clarice Lispector, Rubem Fonseca, Cortazar, Kerouac, Caio Fernando Abreu. Educação meu chapa. Desde lá. De antes. Um monte de gente legal fazendo isso. Ganhando bem pra fazer isso. Pra puxar essa carroça de informalidade contra a corrente. Atiçando esse troço chamado curiosidade. Relação humana, troca, cumplicidade, busca, descoberta, cair fora. Se há algo que pode aumentar o número de leitores de poesia no Brasil ou seja lá onde for acho que passa, distraidamente, por aí.

Marcelo Montenegro, poeta, é autor de Orfanato Portátil (2003), entre outros títulos.
http://marcelomontenegro.blog.uol.com.br

Um comentário: