sexta-feira, 10 de julho de 2009

moralismo burro ou apenas censura ressuscitada

Fico assustada de imaginar que corremos o risco de regredir em muitas conquistas artísticas e libertárias. Sabe do que eu tô falando?
Voltamos a ter acessos descabidos de moralismo barato em algumas cidades do Brasil. Livros estão sendo retirados das bibliotecas escolares com o argumento de que 'ferem e influenciam negativamente' os jovens por tratarem de assuntos como violência, sexo, morte. O pior disso é que as ações têm sido tomadas de forma autoritária, contra o que se entende por desenvolvimento cultural e educacional e com total falta de argumentos convincentes.
Leia uma das reportagens aqui

Para se ter idéia do absurdo, livros de história foram recolhidos por apresentarem gravuras com rituais indígenas de execução dos adversários. Ah, minha gente... e isso não é justamente a história? Não se costuma estudar isso na escola? Ou ainda precisamos ter os livros didáticos pasteurizados, com modelos sociais determinados, que formam cidadãos convencionados e sem atitude?

Dois livros de literatura foram tirados das prateleiras: uma coletânea de contos chamada Amor à Brasileira; e Um Contrato com Deus, de Will Eisner. Os dois acusados de tratarem assuntos inadequados como estupro, violência e sexo. No caso do Eisner, ironicamente, trata-se de relatos de memórias infantis dele mesmo.

Será que em algum momento se cogitou a idéia de que o estudo crítico de literatura desse tipo é que formará jovens atuantes, conscientes e embasados? O senhor vereador Jair Brugnago (do PSDB, obviamente) e seus colegas de militância pensam em acabar com todas as más influências aos jovens de que forma milagrosa? Proibindo músicas, tirando programas do ar, queimando livros? E como será que pretendem acabar com a péssima influência política que os jovens têm hoje, por conta dos belos exemplos de canalhice em nossas câmaras e senado? Queimando esses políticos na mesma fogueira? Ou agindo apenas dessa forma colonialista e hipócrita?

Sim, estou indignada com tamanho disparate. Um dos maiores motivos de vergonha do nosso passado está sendo ressucitado: a censura.
Daqui há pouco tempo, teremos gente sendo condenada pelo simples fato de pensar e expor, de forma artística, o que pensa sobre a política, sobre a sociedade, sobre a hipocrisia e, principalmente, sobre esse moralismo burro.

Samantha Abreu
GRAU de Intimidade: coisa minha

Desiguais

Todas as manhãs,
divido-me em duas,
gêmeas
tão ímpares quanto as pessoas
apressadasdo expresso 2222 ao forte sem açúcar,
na estação central.
Ilusões, ambições, amores
desiguais.
Brigam, as duas,
incansáveis, entre si.
Uma de cada lado,
a me sussurrar no ouvido
desejos.
Só a noite me salva.
Posso, dona de mim,
dominá-las.
Dormem, as duas crianças, exaustas.
Então posso
ser.
Posso, a mim, servir.

Samantha Abreu
http://samanthaabreu.blogspot.com/

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