quinta-feira, 9 de julho de 2009


amigos na praça são salvador durante coletiva ontem - foto: wellinton cordeiro
avyadores foto de 1985 na Galeria General Osório em Ipanema Rio de Janeiro: Luizz Ribeiro, Edmar Capeta, Artur Gomes, (ao fundo Rosana Buchaul) e Armandinho Ribeiro
abaixo: A lendária Banda Lúcia Lúcifer, João Pimentel Chico Olintho, Wellington e Luizz Ribeiro - 1972 em Atafona





Unidos Pela Música


Nos dias 12 e 13 de julho, Campos vai respirar rock´n roll. O Dia Internacional do Rock, na próxima segunda-feira aqui será comemorado desde domingo com um diferencial: serão dias de “Virada Cultural Solidária”, em homenagem ao Avyador Luizz Ribeiro. O evento acontece no Shopping Estrada, a partir das 15h de domingo dia 12, e segunda dia 13 a partir das 20h. Na programação: Blog In Rock Blues Reggae MPB Poesia & Baratos Afins. No local serão sorteados CD´s da banda Avyaodores do Brazyl.
Os amigos de Luiz Ribeiro preparam um repertório de primeira para uma verdadeira maratona de cultura. Fazem parte do grupo, Lolô, França, Cris Dalana, Kapi, Adriana Medeiros, Álvaro Manhães, Nelsinho Meméia, Blues Band Vidro, Evolição da Espécie, Tribalion, Vibrato, Leo Navarro, Artur Gomes, Reubes Pess Band, Lene Moraes, Kapi, Renato Arpoador, Romualdo Braga, Wellington Cordeiro, Lao Navarro, Dalton Freire, Harlem Pinheiro, Fernando Guru, Betinho Assad, Adriano Lopes, João Felipe, Daniela Passos, Nick Ferreira, Draft Jan, Helvis, Kamikase e Segredo de Estado, entre outros.

CORRENTE DO BEM

Luizz Ribeiro começou sua carreira nos anos 70, quando criou a Banda Lúcia Lúcifer, com João Pimentel(bateria), Wellington(baixo), Chico Olinto(teclado), e ele Luiz Ribeiro(guitarra e vocal), nesta época ele cursava medicina na Faculdade de Medicina de Campos. Defensor da música como código de comunicação, admirador de Janis Joplin e da sua defesa de vida intensa, ele é testemunha das mudanças por que os acordes passaram nas últimas décadas, notadamente em Campos, onde nem sempre a evolução do rock´n roll foi recebida de braços abertos. Ele, por sua vez, acredita apaixonadamente na música, digamos, vigorosa.
- Assumo o suprassumo dessa bagunça organizada chamada rock. O legal é que as coisas mudam sempre e, no começo, quando tocava guitarra, procurando bends e blues com fuzz-o, muitas pessoas diziam que não podia, era barulho-mau-gosto-antibrasileiro, entre outros xingamentos. Mas, vale ressaltar que não acredito em música pela música. Ela é um código de comunicação muito poderoso. Para executá-la verdadieramente, há que se ter atitude, e não pode faltar coragem, porque há de se pagar o preço. Os “certinhos” que me desculpem que me perdoem, ou não, mas tesão musical é fundamental – defende.
Para o poeta Artur Gomes, que é parceiro de Luizz desde 72, - quando o ouvi pela primeira vez cantando: o muro é muito alto e a escada é muito baixa, com a banda Lúcia Lúcifer, nunca tive dúvida que nos tornaríamos parceiros. Frisa ainda, o poeta, que as expectativas para o evento são as melhores possíveis, principalmente pela oportunidade de reunir antigas e novas gerações de músicos da cidade. E tanto são os voluntários que os organizadores: Artur Gomes, Wellinton Cordeiro e Romualdo Braga, estão encontrando dificuldades para montar a programação, que contemplará uma planilha de 30 minutos para cada grupo.
- Aproveitaremos ainda o evento, também para consolidarmos a criação da Nação Goytacá – Associação de Arte e Cultura Esporte e Lazer, da qual Luizz é também um dos mentores, fundadores e sócio. E pretendemos com ela fazer o que ele sempre defendeu: batalhar por espaços para mais cultura, arte, esporte, e música e lazer na cidade – complementa Artur , que tem vários poemas musicados e gravado pelo amigo.

Agitos Na Homenagem ao pai do Rock campista

Luizz Ribeiro é considerado um dos precursores do rock em Campos e seu posto é reconhecido por músicos de diversas gerações. Artista que teve uma vida cultural intensa,sempre fiel ao seu estilo musical, transitou também, nutrindo amizades valiosas, em muitos outros grupos de diferentes gêneros musicais, tendo lutado por espaços, criado eventos não apenas para a sua própria banda, mas, também para colegas, neste 37 anos, o que justifica a participação de tantos jovens na programação da Virada. “Eles têm o Luizz como espelho” frisa Wellington Cordeiro.
A Virada Cultural Solidária” tem como objetivo maior homenageá-lo no Dia Internacional do Rock, e começarmos a partir de agora uma campanha no sentido da criação Do dia Municipal do Rock, e nossa intenção é que este dia seja o dia 6 de maio, dia do aniversário do Luizz – afirma Artur.
Um grande palco com som, e luz será montado para receber os fãs e amigos de Luizz Ribeiro e Avyadores do Brazyl no domingo e segunda. Durante os intervalos dos shows, serão exibidos vídeos com momentos da banda, gravações de shows, trechos do programa “Nota sobre Nota”, que o músico apresentava na UniTV, quando era de Comunicação do Centro Universitário Fluminense, e através do qual entrevistou para posteridade várias personalidades do cenário musical campista.

Jacqueline Deolindo jdeolindo@fmanha.com.br
In Folha da Manahã – http://www.famanha.com.br/
Da realidade dos concursos literários
Rodrigo de Souza Leão
"Tudo está no seu lugar/
Graças a Deus/Graças a Deus/
Não se esqueça de dizer:
Graças a Deus/Graças a Deus".
Música popular
Que a realidade brasileira é dura, isso todos nós sabemos. Que as livrarias - mesmo com a proximidade do Natal - estão às moscas, creio que todo mundo sabe também. Creio que todo mundo sabe o que todo mundo sabe e ninguém sabe o que não sabe. Isto é o óbvio. Mas muita gente não vê nem o óbvio. O fato de o livro não ser um produto tão vendável assim - não me refiro ao livro infantil, que sempre vende -, torna o mercado para o novo autor um caminho difícil de se enfrentar. As editoras não investem em lançamentos duvidosos. Elas só vêem o lucro certo. Naquilo que vai lhes dar o ganha-pão do imediato, do aqui e agora. Não vale a pena para uma editora investir no crescimento de um autor. Este aqui e agora do mercado do lucro fácil desestabiliza toda a cadeia de produção que envolve o livro. O primeiro influenciado é o autor, que deixa de mandar os originais e investe em concursos literários para publicar as suas obras. Há diversos problemas nesta busca. Primeiro: qual concurso literário é o mais apropriado para o tipo de literatura que escreve este autor? De certo que a maioria dos concursos irá premiar obras que não enveredem para o caminho da invenção: claro que os primeiros lugares e as obras premiadas - na maioria das vezes - serão aquelas que chegam perto do quê a academia gosta, do quê as universidades gostam, do quê o main stream da literatura está acostumado a ler. Ou seja, tudo está aí para manter tudo como está no seu lugar, graças a Deus. Qual a saída se encontramos um meio viciado neste tipo de avaliação literária, onde não se busca mais a novidade? Melhor que procurar, talvez fosse exigir certas coisas dos concursos literários. A primeira delas que se revelassem os nomes que compõem a banca de avaliação e a banca de premiação. É certo que se uma banca tem nomes como os de Alexei Bueno e Bruno Tolentino, o resultado será um. Se for composta por Joca Reiners Terron e Glauco Mattoso, o resultado será outro. Divulgar o nome da banca, deveria ser a primeira coisa que um concurso deveria fazer. A segunda medida é a que se refere - numa fase de triagem - àquela hora em que está se separando o joio do trigo, o que apraz e o que não apraz à banca. Pelo menos nesta hora, que fosse feita uma seleção por computador por meio de disquete. Como não se divulga quem é a banca, uma primeira etapa via disquete resolveria o problema dos escritores que não têm secretária, nem dispõem de funcionários, tempo e dinheiro para tirar quinhentas cópias por concurso, para concorrer com apenas um trabalho. Todo o mundo já entrou na era da computação. Sei que é normal nesta área de concurso estarmos atrelados ao que o Brasil tem de mais antigo e atrasado. Mas temos que mudar. Outra medida - esta alguns concursos já tomaram - é a de publicar uma antologia com os melhores trabalhos do concurso. O que acontece na maior parte dos casos é o seguinte: o concurso premia o fácil, depois não divulga o vencedor e nem a obra que venceu. O resultado é que não existe comparação. Não há como se saber se a sua obra está aquém ou além daquela que ganhou. Para que existem concursos então? Se os concursos só premiam o óbvio e não servem como meio de divulgação, de que adianta para a literatura existirem concursos literários? Premiar por premiar, vamos ajudar a uma instituição carente de recursos, que precisa muito mais do que qualquer escritor carente.
in Garganta da Serpente
no coração dos boatos

isso aqui não é a hora da estrela, minha mãe não é Alice,
que apesar de freira, de hábito, só tinha o
vício de me prender por entre o crucifixo
colocado entre as suas pernas

macabea vivia falando sozinha pelos
corredores federais da outra inquisição
conseguia de vez em quando reunir alguns há-
bitantes mal informados sobre a insurreição
das artes aromáticas,
e passava o tempo querendo mostrar seus
dotes culinários nua e crua
estuprada pelos estivadores daquele cais do porto
tentou arrancar o sexo com as unhas
e enlouqueceu uivando como loba amarrada à
santa cruz
de uma Cabrália velha igrejinha
enquanto na primeira missa
o galo camões bem galinha
chocando o ovo do índio
ou
pero vais que caminha

murilindiamendiana

o poeta experimental passeia sua cueca
monossilábica por cima dos pianos da
madrugada devorando amoras
macabea invoca nossa senhora das derrotas
para enfrentar o desvario

o poeta está nu cio
macabea corre
o poeta fala inverso
macabea chora

experimental barroco o poeta sobrevoa palácios
e urubus, macabea tenta mas n]ao consegue ser
pagu
poeta é phoda
macabea pede:
o menino faz que não entende
macabea implora
e o poeta põe na metáfora do cu

Artur Gomes
http://braziliricas.blogspot.com/

todos desejamos resgatar por intermédio da memória cada fragmento de vida que subitamente nos volta, por mais indigno por mais doloroso que seja. E a única maneira de fazê-lo é fixá-lo com a escrita. A literatura, por mais que nos apaixone negá-la, permite resgatar do esquecimento tudo isso sobre o que o olhar contemporâneo cada dia mais imoral, pretende deslizar com a mais profunda indiferença

enrique vila-matas
Revista Coyote 17
revistacoyote@uol.com.br

kitsh
nina rizzi

mamulengos, metais, máscaras.
em cena, um embate com o fígado
: povoar o vazio com um exagero de meios
*
ela remexia solenemente os cabelos pretos. não sei porquê chorava. e é certo que chorasse. umas pintas vermelhas lhe cobria as maçãs, machucadas, e me parecia um exagero de olhos marejados.
remexia os cabelos e lembrava de cavalos, antigos poemas de segunda ordem; entoava uns boleros tristes rindo resignada, ou desencanada, deslocada, como gostava de dizer.
ainda agora não atino significância. misturava uns contos de velhas lacrimejantes da lispector, à infelicidade elevada de dostoiévski. gostava de se afigurar às judias nietzschinianas, exaltando sua condição de pândegas misérias. talvez pra se diferenciar de si mesma. logros e malogros por todos lodos, tantos cantos.
não atino nada, que num repente disse que precisava pegar o beco, picar a mula, voltar às maritimintimidades.
musa, menina, reminiscências de infância, avessitudes ou quebrada asa azul de borboleta? não sei, aluei.


-ix

reencontrar a terra, sabor a vibrar a carne.

saber o frio, franco a tanto rio.

quatro cavalos. raça.

encanto, afeto, raiva, cio

e outros quantos

ânsias, cantares, galopes,

religare: julho é derrama

mento.

nina rizzi

http://ellenismos.blogspot.com/



Poema Estatístico

Tem uma esquina prenha de um latido.

Trechos de pássaros que permanecem

nos muros que ficam. E vice-versa.

Um e-mail anotado às pressas no canhoto do tintureiro.

A cirrose portátil. A síndrome do pânico.

O enroladinho de presunto e queijo.

Tem a Mulher mais Linda da Cidade.

Groupies de cabelo rosa. Poodles

da solidariedade. Alguém chorando lágrimas

de tubaína. Penélopes Charmosas.

Dick Vigaristas. Um cara que já sai desviando

do cinema del arte, evitando ser atingido

por alguma conversa perdida.

Tem a mulher da vídeo-locadora

que não conhece o filme que estou procurando.

Um amigo que diz que escreve só para colocar epígrafes.

Taxistas infláveis. Manicures em chamas.

Um casal que desce a rua na banguela

prolongando a gasolina daquilo tudo

que um dia fora. Eu ando apaixonado

pela mulher da vídeo-locadora.

Lendo revistas na sala de espera

do consultório dentário. Tem uma

que venta. E um que desiste.

De arranhar os vidros do aquário.

Marcelo Montenegro

(de Orfanato Portátil, 2003, Atrito Art Editorial


Dizer que a paixão implica em perda da razão não parece correto. Talvez seja mais apropriado dizer que a paixão carrega uma outra razão. A paixão, para mim, é como a leitura de um poema. Ou nos arrebata ou não é poesia. Nem paixão. A paixão é como uma palavra, num poema, uma palavra que busca uma rima. Quando duas palavras se beijam, nasce a poesia. Para mim, a paixão tem a ver com aquela "realidade ficcional" na qual estamos imersos quando lemos um romance: uma suspensão temporária do descrédito do mundo e do outro.

Rodrigo Garcia Lopes

in Orfanato Portátil

http://marcelomontenegro.blog.uol.com.br/

Um Lugar Para os Sentimentos Abandonados.

Orfanato Portátil: a Poesia de Marcelo Montenegro

Na história literária, o lugar da poesia parece ser o das formas agônicas, o do esforço radical da palavra em superar sua própria mudez, o da entrega absoluta do poeta àquela urgência extremada de comunicação com os seres e as coisas, com os outros homens. A poesia só quer romper uma espécie de crosta de silêncio que se impõe a partir do indivíduo, abrir espaço, tomar contornos, instalar-se nos limites da voz. A poesia só quer dizer tudo o quanto calamos diariamente, nossas dúvidas, nossos anseios, nossos desejos estranhos, dispersos e alheios. A poesia deve ser, antes de tudo, uma forma de nos sentirmos vivos, de nos tomarmos pelas palavras, de nos confundirmos, esteticamente, com as sensações mais adversas que o poema pode despertar. O problema é que, nas últimas décadas, graças a uma herança poética fundamentalmente construtivista, legado da geração de João Cabral de Melo Neto e dos concretistas, a poesia tem se confundido apenas consigo mesma, reclusa no perigoso e asfixiante jogo da auto-referenciação. A poesia metalingüística, cujo matiz é essencialmente o da linguagem que representa a própria linguagem - como o cão que corre inútil e exaustivamente atrás do próprio rabo -, revelou-se uma verdadeira obsessão estética. O rigor das construções, a materialidade da linguagem, a necessidade de tornar aparente as relações entre significante e significado e um certo niilismo artístico, fizeram da poesia algo disforme, vacilante, esquizofrênico, em outras palavras, conceberam uma poesia de autistas, em que as sensações, os desejos, os impulsos naturais e humanos se perdem numa espécie de insensibilidade e alheamento do mundo. O consolo é saber que, apesar dessa tendência narcisística que faz da poesia um modo de representação que se deslumbra com a própria imagem, vão surgindo, com o tempo, poetas cuja produção destoa consideravelmente desse estado de coisas. É o caso de Marcelo Montenegro, poeta paulista nascido em São Caetano do Sul, em 1971, e que acaba de lançar "Orfanato Portátil", seu segundo livro de poesias. Conheci um pouco da poesia de Marcelo Montenegro através de seu blog na internet: www.carrobombanaterradon.blogger.com.br, segundo ele, “uma sitcom literária”. Logo no início, o que me chamou a atenção para a poesia de Marcelo foi o excesso de vida que escapa de seus versos e vai, lentamente, contaminando o mundo a sua volta. A epigrafe do livro, do músico, ator, poeta e escritor californiano Tom Waits, revela, sob muitos aspectos, a natureza mais funda de "Orfanato Portátil":

Bicicletas quebradas, velhas correntes rebentadas

Guidons enferrujados lá fora na chuva

Deveria haver um orfanato

Para estas coisas que ninguém mais quer.

O livro de Marcelo Montenegro é esse lugar imaginário, esse orfanato onde o poeta guarda as miudezas diárias que nos cercam, as idéias, as sensações, tudo o que é pequeno, frágil, que poderia passar despercebido não fosse uma memória lírica que não se dissipa e que, ao contrário, grava em relevo os flagrantes poéticos de uma realidade comovente pelo que tem de simples, natural e intensa. O poema que abre o livro, Semáforos desligados, é um exercício de perspectiva, uma espécie de fotomontagem poética de forte apelo visual:

semáforos

desligados

Piscam

pupilas

de Ninfas

urbanas

madrugada

úmida

no Asfalto

a Lua

na língua

de um Cão

A maioria dos poemas revela essa tendência à descrição, à criação de imagens plásticas de uma visualidade rara, criando uma poesia urbana em que o eu-lírico se perde na liberdade plena dos passeios noturnos, do giro pela cidade, do olhar descompromissado que fixa um mundo feito de fragmentos e estilhaços, pedaços de lugares, coisas, idéias e pessoas que vão cruzando seu caminho e deixando suas marcas. É o caso de "Chiado do disco":

O chiado do disco entre uma música e outra

A gruta onde os lobos dormem

Alguma espécie de amor a cada passo em falso

Um ralo por onde as coisas somem

No metrô, saber qual livro a menina está lendo

A vizinhança é um barulho de panela de pressão

Há um vinho que sempre acaba antes da sede

Um resto de sol que rabisca a parede

Alguma espécie de oração

Como no poema "Geometria Folk", o poeta parece escrever “retirando os excessos de um texto/ como quem tira a importância das coisas”. O segredo é não cair na tentação de um sentimentalismo barato, vulgar, fácil, nem pensar que a poesia é o exercício dos significados cifrados, do hermetismo, da incompreensão. Marcelo Montenegro, em seus versos, sempre deixa entrever a idéia de que a poesia é aquela que se faz dessas coisas e sentimentos que, em geral, vamos jogando fora ao longo da vida. Assim, temos o belíssimo "Buquê de Presságios":

De tudo, talvez, permaneça

o que significa. O que

não interessa. De tudo,

quem sabe, fique aquilo

que passa. Um gerânio

de aflição. Um gosto

de obturação na boca.

Você de cabelo molhado

saindo do banho.

Uma piada. Um provérbio.

Um buquê de presságios.

Sons de gotas na torneira da pia.

Tranqueiras líricas/ na velha caixa de sapato.

De tudo, talvez, restem

bêbadas anotações

no guardanapo.

E aquela música linda

que nunca toca no rádio

As influências de Marcelo Montenegro aparecem no diálogo íntimo e secreto que seus poemas estabelecem com elas: Sam Shepard, Jack Kerouac, Ginsberg, Bukowski, Gregory Corso, Paulo Leminski, Torquato Neto, Wally Salomão, Tom Waits, Rogério Sganzerla, Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção, toda uma geração de poetas, músicos, cineastas e escritores que passaram a vida ou perderam a vida tentando desesperadamente fazer sentido. As personagens de seus versos são estranhas, indefiníveis e deslocadas criaturas: Penélope Charmosa, Clarabela, o Bandido da Luz Vermelha, “groupies de cabelos rosa”, Clara Crocodilo, Buster Keaton, Recruta Zero. Um universo de ícones e símbolos de uma cultura quase anárquica pelo que tem de díspar entre si. Mas Marcelo Montenegro não se importa e segue criando uma poesia necessária nesse mundo de aparências e simulações. É o que sugere Ademir Assunção, escritor e poeta, autor de "A Máquina Peluda" e "Zona Branca", no prefácio do primeiro livro de Marcelo, De Soslaio (1997): “Não será a poesia essa alquimia que transforma novamente a palavra em palavra, corpo-vivo, pulsação uterina, sangue circulando pelo corpo da cultura? Quando palavras se gastam na enxurrada de (des)informações cotidianas de um final de milênio engarrafado, a poesia é que vai explodir colorida a couraça dos cinco mil sentidos. Alguns explicam, outros ousam. A poesia de Marcelo Montenegro ousa fazer sentido aos sentidos”. O Marcelo é essencialmente poeta, acho que até à espinha dorsal. E os poemas do cara refletem um mundo de pequenas coisas, de miudezas, de sentimentos estranhos, mas plenos diante dessa que Drummond chamou um dia de Vida Besta. Uma poesia vital, urgente, que não cai no tom melodramático ou desesperado (esse desespero artificial), patético, que ronda os poemas de alguns contemporâneos. Ao contrário, em meio a tantas (in)definições, há espaço para um humor solto, leve, que toma o cuidado de ficar a um passo da ironia descarada, como podemos perceber em "Espantalho descarado":

ando assim

tipo um erro flácido ambulante

sem êxito, hesitante

disco riscado

fora de catálogo

no pó do instante

(...) ando assim

mais opaco que olímpico

esquivo, íntimo, insípido

um mastodonte pensando

desamparado

(...) ando assim meio buster keaton

um tanto de lágrima hasteando o riso

ando assim raso

indiferente

me divertindo um bocado

eu ando mijando no poste

porque o banheiro

está sempre lotado

Recebi o livro e guardei para ler depois, madrugada adentro, entre um cigarro e um uísque, sozinho, com a luz mortiça tremendo um pouco, pensando que a vida tem muito a ver com essa poesia intensa, feita de esquinas, avenidas, discos riscados, palavras de amor, sentimentos velhos, desejos alheios, paixão e entrega. Nada desse autismo deliberado de ficar escrevendo versos que falam em como fazer versos. É vida mesmo, pulsando, batendo na cara da gente, pedindo um canto pra sentar e chamando logo o garçom. "Orfanato Portátil" é um lugar para os sentimentos abandonados, para as quinquilharias líricas que levamos no peito, assim, entre perdidos e sem jeito, como quem não sabe ao certo o que fazer com tantas lembranças, com tantas paisagens, rostos, imagens, coisas e objetos que, não fosse a poesia, estariam irremediavelmente condenados a perecer. Para terminar, "Fim de Tarde", ponto alto da poesia de Marcelo Montenegro, imagem pura, um tipo de plano-seqüência, daqueles que vemos nesses road movies antigos, alternando quadros que se abrem de uma solidão a outra, sem queixas ou remorsos grandes:

Com a alma e sua data de validade vencida

Contempla, com o chope gelado da vida

O lilás com que as tardes se ferem

Esta brisa que excita e ainda viva se despede

Da rapaziada trocando de assunto

No longa-metragem que deu origem à série

Márcio Sheel

www.usinadasletras.com.br

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