quarta-feira, 10 de junho de 2009



MOSCOU-VARSÓVIA (26 MAIO 1956)
Paulo Mendes Campos

Se este avião caísse, crispado entre os ouros,
as copas e as espadas eu ficaria;
sarrafos nas pálpebras, para que se mantivessem abertas durante o incêndio, colocaria; Se este avião caísse, as madrugadas de meu filho de um terror violeta se elucidariam;
na tarde calcinada, a sombra de minha mulher se inflamaria;
minha filha não me encontraria deitado sobre o feno, escondido atrás da porta,
acima dos cataventos
com os braços carregados de bonecas;
mais do que a minha garra em um livro e um lírio não encontraria; um gesto no espelho, uma espátula de osso, um pensamento; Se este avião caísse, em uma esquina de Ipanema, eu nunca mais esperaria; Se este avião caísse, só uma pessoa não diria "que pena" (a que caía e se esquecia e se consumia, e só se libertaria quando de todo caísse e se esquecesse e se consumisse); Se este avião caísse, de mim o firmamento em torvelinho se afastaria;
os mortos da Lituânia e da Masuria a mim viriam, e no silêncio rodeado de verdura me receberiam;
soldado quase desconhecido, mãos desligadas do corpo - exangues e sem armas - ah, a terra de ninguém eu atravessaria; Se este avião caísse, de arquitetar a condição da criatura um arquiteto a mais desistiria;
certo de que outros chegarão a construir a humana arquitetura (o que se faz há muitos anos e se fará em um dia);
pousado sobre o meu peito, o pássaro cruento do meio-dia;
o criptógrafo egípcio afinal se explicaria;
em fragmentos candentes, a minha carne emigraria;
espantalho em farrapos, só o vento de leve me espantaria; Se este avião caísse, sob as arcadas do pátio a poça de sal se extinguiria;
a minha túnica amarela entre os anjos se sortearia;
sob as telhas dos dragões dourados, os seus flocos,indiferente, a paineira sacudiria;
na colina resplendente, quem soubesse ler, leria: "aqui pousou uma criança que quase nada compreendia";
até que outra morte nos separe, o meu nome no tronco se resignaria; Se este avião caísse, este papel em cinzas arderia;
a estrela rubra do poema nenhum jornal publicaria;
fosse cair daqui a pouco, ainda assim o escreveria;
a vida e a morte são as amantes, são a esposa, da poesia; Se este avião caísse, os meus vizinhos compreenderiam;
lembrando-se dos meus cabelos no elevador,
uma intuição qualquer no ar lhes diria
que só não fui um amigo por falta de tempo ou covardia;
mas pode alguém perfeitamente amar o seu vizinho se apenas, grave, pela manhã lhe diz "bom dia"; e então, sentimentais e sem razão, de mim, coitados, se apie- dariam;
e de se sentirem tão sensíveis, em fino prazer espi- ritual tudo (de mim) enfim se acabaria; Se este avião caísse, a música de meu apartamento ensurdeceria; os volumes nas estantes, de já não ter quem os lesse como eu os lia, pardos e fechados ficariam;
outros mais sábios vir e servir-se poderiam;
mas o meu jeito de ler e pensar desapareceria;
no entanto, se este avião caísse, daquilo que é apenas meu a orgulhar-me não chegaria; Se este avião caísse, já ninguém mais meditaria
na ave que passou gemendo contra o vento na bruma fria;
o segredo que não cheguei a tocar a ninguém mais preocuparia;
só se a meu filho legasse a vocação da tristeza e o heroísmo da alegria; Se este avião caísse decerto me compadeceria
dos que caíssem comigo sem a coragem da poesia;
embora talvez fosse eu quem mais saudades levaria;
poentes roxos de Minas, praias aéreas da Bahia; chapéu de palha de Leda, olhos castanhos de Lília; pubescência de Teresa, experiência de Maria; prosadores da Irlanda, poetas de Andaluzia; Iang- tsê em Nanquim, das Velhas em Santa Luzia; Etna fume- gando em Taormina, em Sienna a Piazza della Signoria; manhãs de iodo na praia, noites etílicas de boemia; bailari- nas de Leningrado, gaivotas da Normandia; sorriso da menina, do menino a euforia; Wagner compondo o Parsifal,Nietzsche uivando em Sils Maria; a mulher que foi comigo, a que não foi mas iria; tantas que, mais houvera, para que de vez caísse, pediria; Se este avião caísse, com ele cairia
um homem que pelo menos entenderia
a fábula da folha que se desprendeu e desaparecia;
e assim seu coração, na terra, no mar e no céu, como de triste e maduro caísse, não se surpreenderia, nem recla- maria;
pois esse aflito coração, de ter amado e sofrido, na amplitude da morte se conformaria; Se este avião caísse, em um domingo azul um peixe até a pedra nadaria;
não encontrando o meu anzol, ao alto-mar regressaria;
desse desencontro tecido de tão lindos equívocos,
a sua carne se salvaria;
e o domingo azul do mar ainda mais azul reluziria.

Em empo de Airbus recebemos este poema através do querido amigo Martinho Santafé, poeta, jornalista, campista radicado desde a década de 80 em Macaé. Editor da Revista Visão Social, e autor do poema Manual Para Assssinar Frangos, poema vencedor do III FestCampos de Poesia Falada - 2003


Olá Amigos

A Amazônia está ameaçada! A medida provisória da regularização fundiária, também conhecida como MP da grilagem, aprovada pelo Congresso, vai regularizar áreas ilegalmente ocupadas na Amazônia. Isso vai estimular, ainda mais, o desmatamento.

Só há uma chance de reverter essa ameaça! Envie uma mensagem ao Presidente, pedindo o veto aos artigos 2, 7 e 13 da MP 458/09.
Acesse o site da Presidência da República, copie e cole o texto abaixo no formulário (use o botão direito do mouse):
"Presidente Lula,

Sou contra o aquecimento global e a favor da Amazônia e do desenvolvimento sustentável. Por isso, peço os seguintes vetos à MP 458/09:
Artigo 2, incisos II e IV
Artigo 7, e
Artigo 13
Presidente Lula, assuma a liderança. Promova o desenvolvimento sustentável. E não a destruição da Amazônia!"

Acesse: https://sistema.planalto.gov.br/falepr2/index.php
(Se o navegador não reconhecer a página e exibir uma mensagem de erro, escolha a opção "Adicionar uma exceção" e o formulário será exibido)
Ajudem a espalhar essa mensagem. Temos pouco tempo para influenciar a decisão do Presidente.

Um abraço do Panda,
WWF-Brasil

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