quarta-feira, 3 de junho de 2009



Bortolotto retoma
teatro de guerrilha
Beth Néspoli (Estadão)

Após elaborada direção de Chapa Quente, esse autor de mais de 40 peças volta à sua linguagem seca em Curta Passagem

Com mais de 40 peças escritas, 36 editadas, o ator, diretor e dramaturgo Mário Bortolotto já foi comparado a Plínio Marcos, talvez pelo perfil de seus personagens. Mas há diferenças. Os marginais de Bortolotto o são porque recusam a integração numa sociedade que valoriza família, segurança e dinheiro, não necessariamente nessa ordem. Os boêmios solitários de suas peças nada têm de competitivos, pouco de violência, no máximo são autodestrutivos.
Sua dramaturgia é veículo para ideias que se atritam em diálogos rápidos, cortantes, bem-humorados. Qualidades presentes até nas mais leves como as três reunidas em Curta Passagem, que estreiou no Espaço dos Satyros. Desta vez, a produção é da dupla Dani Dezan e Eldo Mendes, que está no elenco sob direção de Bortolotto. Billy, a Garota; Faz Frio na Varanda e Garotas Apaixonadas não Usam Aliança tratam do relacionamento amoroso e a simples leitura dos textos provoca boas risadas.
Não por acaso.Bortolotto fundou o seu grupo, Cemitério de Automóveis, em 1982 na cidade de Londrina, no Paraná. Dez anos depois tinha fama de ser autor de peças pesadas. "Daí resolvi mostrar que eu também sabia fazer comédia", diz. Curta Passagem estreou em 1992 em Londrina. Ele se mudou com seu grupo para São Paulo em 1996, e pela primeira vez o espetáculo faz uma outra temporada. Nessa entrevista ao Estado, fala sobre sua dramaturgia e sobre o destino do Cemitério de Automóveis.
Recentemente surgiram em suas peças garotos de classe média - A Frente Fria Que a Chuva Traz - e até executivos - O Que Restou do Sagrado. Antes, só havia bebuns solitários e marginais. Há um novo olhar que se volta para além dos tipos mais identificados com você?
Acho que sim. Sempre escrevi sobre um bando de jovens bêbados, malucos, os caras que conviviam comigo. De uns tempos para cá, isso mudou. Comecei a conviver com pessoas diferentes, gente com grana, e passei a ver qual era a desses caras. Inevitável a interferência na minha dramaturgia. E tem a idade. Em Uma Pilha de Pratos na Cozinha entra uma nova visão da morte. Até os 30 meus amigos não morriam, agora morrem. Alguém falou outro dia que minhas peças tinham a ética de pistoleiro do Velho Oeste e agora a mulher passa a ter um papel mais forte.
Por que essa transformação?
Passei a ter amizades femininas, a sair com amigas para tomar chope e a mulher ganhou outra dimensão na minha dramaturgia. A imagem do pistoleiro é boa metáfora, tenho mesmo muito forte essa ética da honradez do bigode, da palavra que vale. Mas acho que isso não mudou; a essa ética estou agregando outros valores. Há mulheres fortes em A Frente Fria e em Uma Pilha de Pratos e se entram outros elementos a dramaturgia fica mais rica. Talvez eu tenha ganhado mais profundidade, mas mudar não mudei. Sou o mesmo bosta de sempre, só que tentando ir um pouco mais além e com condições para isso, porque mais velho, com mais maturidade para olhar as coisas.
Nessa ética do pistoleiro não há uma supervalorização da solidão?
Há muita poesia na solidão. E isso me interessa, fascina. Acho bonito quando se consegue ser só sem dor. Na verdade, as pessoas que sofrem por causa disso também são muito interessantes dramaturgicamente. Adoro ficar sozinho, mas se bate a vontade, sei onde estão meus amigos, em que bar estão. Gosto de ficar conversando e bebendo até tarde, sou boêmio mesmo, mas às vezes fico o dia todo sozinho em casa e odeio quando o telefone toca.
Mas outra coisa é a incapacidade de manter vínculos, como o Urtigão?
Sim, tem esses personagens que evitam o convívio de qualquer maneira. Mas tanto o Urtigão quanto o protagonista de Homens, Santos e Desertores, embora rejeitem, no fundo gostam da presença dos caras que vão atrás deles, porque são gente bacana. Eles optaram pela solidão porque não conseguiam conviver com a mediocridade, estavam cercados de gente fútil. Isso acontece.
Você já realizou três mostras com dezenas de peças, abriu uma sede para o seu grupo, onde criou A Frente Fria. Com o fim da sede, estreou peças no Satyros, depois Chapa Quente, no Viga. O Cemitério de Automóveis está meio parado, não?
Desde sua fundação em Londrina, o Cemitério de Automóveis se segurava com as próprias pernas. Bastavam duas cadeiras e a roupa do corpo e a gente fazia peças sem nada. Era teatro de guerrilha. Viemos para São Paulo em 1996 e ficamos muito tempo sem apoio. Não éramos aprovados em nada, lei nenhuma. Fizemos em 2000 a primeira mostra com 14 peças sem nenhum dinheiro. Foi bacana, ganhamos os prêmios APCA e o Shell, este por Nossa Vida Não Vale Um Chevrolet. Isso deu visibilidade ao grupo e trouxe apoio financeiro para a gente se estruturar melhor. Mas aí seria preciso continuidade para manter sede e vínculos com os atores. Antes era eu e a Fernanda (D?Umbra, atriz e produtora). Chamávamos dois ou três malucos para trabalhar, dividíamos a parca bilheteria e tudo bem.
O apoio trouxe compromissos, menos peças e mais elaboradas. Sua suspensão obriga a um retrocesso?
A última peça, Chapa Quente, eu fiz com verba do Programa Municipal de Fomento ao Teatro. Tinha uma cenografia difícil, projeções, tudo era coreografado, eu precisei ensaiar mais tempo. Consigo fazer 26 peças em dois meses, como já fiz, se tenho um espaço para isso. Chamo amigos, ensaio três dias cada texto e faço. O que não consigo é produzir desse jeito um espetáculo como Chapa Quente. Queria fazer agora uma adaptação do livro de Jorge Cardoso, Mal pela Raiz, mas precisaria de dinheiro, porque quero trabalhar com 12 atores, ensaiar durante três meses. Depois de 2005 não ganhamos mais nada. Os atores receberam convites e eu mesmo fui trabalhar como ator, diretor. Para retomar o grupo, acho que terei de ter essa atitude de novo, fazer sem dinheiro.
Isso empobrece a criação?
Não empobrece, limita. Levei três anos para fazer Chapa Quente porque precisava de dinheiro. Quando escrevo, já penso na direção, a vida inteira fiz isso. Você pode fazer algo brilhante sem dinheiro nenhum. Nossa Vida não Vale Um Chevrolet não tem nada em cena, não tem cenário, fiz sem dinheiro nenhum. Já pensei a peça assim. Não acho que a falta de dinheiro empobreça, mas obriga, sim, a pensar de maneira diferente. Se tenho uma ideia que pede recursos, sou obrigado a limá-la e a pensar em outra que possa ser realizada sem dinheiro. E dá para fazer. O que não dá é para ficar chorando. Gente que chora porque não tem dinheiro eu acho muito feio. Não estou chorando não. Você perguntou, eu estou contando o que aconteceu com o grupo. Mas não estou reclamando por não ter dinheiro. De jeito nenhum. Se não tenho, vou dar outro jeito.
Serviço
Curta Passagem. 60 min. 16 anos. Satyros Um (70 lug.).
Praça Roosevelt, 124, 3255-0994. Às terças, 21 h. R$ 20. Até 30/6
conheça mais do Bortolotto aqui http://atirenodramaturgo.blog.uol.com.br

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