sexta-feira, 5 de junho de 2009




Mataram
a Poesia
Ademir
Assunção
Jura
que
Não
Foi
ele


Escrito a Sangue

ruas escuras
atravessado
eu atravesso
reviro o avesso
nele me meço
olho de lince
encaro a face
da fera

espelhos se estilhaçam
rasgam minha cara
cai a neblina do vazio
frio na barriga
pago o preço
erva bola cogumelo
volto ao começo
escapo com vida
desconverso
verso escrito a sangue
desapareço
quanto mais
menos
me pareço
eco de bicho homem
ego sem endereço


5 DIAS PARA MORRER

para Hector Babenco

morreremos loucos, Ana
os sapatos
novos
em cima da mala
— mala notte
o dia, a pior
foto: olhos úmidos
no vídeo
flashbacks:
a virilha imunda
do marinheiro
os eletrodos frios
nas têmporas
as pílulas coloridas
peixes
num aquário
cujo vidro
quase se quebra
toda vez
que o tocamos

sim, Ana
morreremos loucos
mas
esta noite
dormiremos
juntos


GIRASSÓIS EM CHAMAS

dorso de touro, tigre
listas camufladas:
um salto súbito e o sangue jorra
vinho na relva, patas em convulsão

carcaça, deserto
chifres contra o fundo

de uma moldura árida

mas a brisa, mesmo seca,
sibila algo, escute:

ali se travou uma batalha.

pior a serpente
com seu veneno diário

gota a gota, amortecendo

a fúria, a força
o roçar de pétalas

até que reste só
o girassol em chamas

no fundo do quintal


OLHOS ELETR1COS

ponta de pedra aguda
faces rasgadas, bétulas amargas

você me diz psiu, violência
no jeito de piscar as pálpebras

pássaros tristes entre cães aprisionados
enfim vivemos num cenário

onde crianças com olhos elétricos
vasculham os bolsos de lady solidão

musas sádicas me acariciam
com unhas de gilete

lábios em came-viva, mil beijos
de medusa — strippers que após a roupa
arrancam a própria pele

e você vira as costas, arrasta-se
como um mamute pelo corredor

arremessando um "boa noite" que me acerta em cheio na testa


A LÁGRIMA DE VAN GOGH

o ar da tarde reflete
as flores do arco-íris

mudas, as cores giram
lisérgica dança de Shiva
sobre o campo de girassóis

centeio embolorado
: auto-retrato da Loucura
nas pupilas em chamas

& uma única lágrima
guardada
na caixinha de jóias


Poemas extraídos de NA VIRADA DO SÉCULO: poesia de invenção no Brasil, organização de Claudio Daniel e Frederico Barbosa. São Paulo: Landy, 2002. 348 p.
ISBN 85-87731-63-7


E ENTÃO?

e então?
Você já encarou a cara da barra de cara?
Já viu o ódio na cara do cara?
Saiu mais louco que um cachorro louco?
(Sem medo do olho do lobo no olho)
E então?
Você já queimou as pestanas em vão?
Vendo a chuva no chão o sangue no chão?
A pata quebrada de um cão?
E então?
Você já ficou mudo de medo?
Você já chorou em segredo?
No canto da cela de uma prisão?
E então?
Você já ouviu Itamar Assumpção?
Já teve coragem de dizer não?
Você que sabe sabe de qual estrela vieste?
Você que sabe sabe com qual roupa a solidão se veste?
E então?
Qual o preço que você paga pra se sentir seguro?
Qual o preço que você paga pra chegar no futuro?
Quantas moedas colocam você em cima do muro?


Quem é que paga por isso?
por Ademir Assunção

Hoje vou participar de um bate-papo e de uma leitura de poemas, ao lado de Marcelo Tápia, com mediação de Donny Correia, na Bienal do Livro. A partir das 19h30, no estande da Volkswagen.

Eu vou lá para falar de coisas que levo muito a sério: linguagem poética, visões (e alucinações) de mundo, e vou ler alguns poemas. Mas eu quero falar também de algumas coisas que continuam me preocupando. Cada vez mais.

Talvez por conta desses megaeventos como Bienal do Livro e Festa Literária de Paraty, muita gente pensa que escritores e poetas vivem num mundo de glamour. Bobagem. Literatura exige talento, vocação, seriedade, e também trabalho. Muito trabalho. Ralação. E escritores e poetas são tratados cada vez mais como trabalhadores altamente desqualificados. São cada vez menos respeitados. Na indústria do livro, todos ganham (do gráfico ao editor), menos o escritor, menos o poeta. Essa é que a verdade. Pergunte a um escritor e a um poeta quais são seus direitos. Nenhum.

Noventa por cento do que é vendido, ou que movimenta a Bienal do Livro, é lixo. Digam a verdade. Não me venham dizer que ler livros de merda é bom, que pelo menos cria o hábito de leitura. Todo mundo sabe que não é verdade. Também não me digam que o aumento das vendas da indústria editorial é bom para os escritores e poetas, porque faz com que as editoras possam investir em literatura e poesia de verdade. Conversa pra boi dormir. Esse lixo editorial atrapalha os escritores, os poetas, o público, o país. O público é enganado. O nível cai à estaca abaixo de zero. Quem é acostumado a ler livros enganadores jamais vai gostar de literatura e de poesia de verdade, porque isso exige maior sofisticação, maior cuidado, tanto de quem faz quanto de quem lê. Literatura não ensina ninguém a ser feliz, não traz promessas artificiais de como se dar bem na vida. Literatura e poesia, ao contrário, trazem questionamentos, visões críticas, desconforto até, principalmente num mundo tão injusto, tão esquizofrênico, tão desconfortável.

É por isso que quando apresentamos nossos livros aos editores, principalmente se for um livro de poesia, freqüentemente ouvimos: isso não vende. Por que? Porque estão acostumando os leitores com coisas fáceis, com coisas imbecis. Então, a lógica funciona ao avesso. Quanto mais os livros imbecis vendem, mais a literatura e a poesia de verdade são estranguladas. Isso está acontecendo em escala escandalosa na música. Liguem o rádio, liguem a TV, pra ver se estou falando bobagem. Quando o nível cai abaixo de zero, isso só é bom para quem se pauta apenas por interesses comerciais.

Ninguém vai me convencer que os enlatados americanos fabricados diariamente por Hollywood vão preparar o espectador para um filme de Cassavetes, de Sérgio Leone, de Jim Jarmush, de Kurosawa. Não vão. Ao contrário, vai ter cada vez menos espaço para diretores como esses.

E quem perde com isso? O país. Que vai tendo sua cultura cada vez mais desmilingüida. O público. Que é enganado. E os artistas de verdade, que têm cada vez menos espaço.

Quando se fala em literatura russa se pensa logo em Dostoievski, em Tolstoi, em Tchecov, em Maiakovski, e certamente tem um punhado de autores contemporâneos, produzindo literatura crítica, densa, profunda, que não conhecemos.

E quando se falar em literatura brasileira perante o mundo, vamos falar de quem?

Na indústria editorial, o elo mais fraco é justamente quem produz. É o escritor. É o poeta. Se for crítico, denso, elaborado, então, aí está condenado ao limbo profundo, ao desespero, ao desrespeito total. Viu, ministro Juca Ferreira. Viu, donos de jornais? Viu, editores? Viu, leitores. Viu Secretários de Cultura, Presidentes de Fundações Culturais. Isso é sério. Nos ouça.

O escritor e o poeta brasileiros estão sendo calados dentro do próprio país. O que fazem não repercute. Não é debatido. Não alcança o espaço público de verdade. Por conta de toda essa embromação. E some-se aí a total irresponsabilidade das mídias tradicionais. E o silêncio da universidade.

E os próprios escritores e poetas também são responsáveis por isso. Porque não se posicionam, não criticam, não apontam o que está errado, não levantam a voz. Não se fazem respeitar. Se nós não nos respeitamos, vamos esperar que os leitores nos respeitem? Nos leiam? Como?

Isso é sério. Isso é grave. Ou não?

Então eu vou lá na Bienal para falar de poesia, daquilo a que me dedico há mais de 30 anos. Mas vou lá para falar disso também. Para dizer que não concordo. Para dizer que é preciso mudar esse quadro.

Aliás, eu vou lá trabalhar (não vou lá me exibir como um pavão). E eu deveria receber por isso. Ou será que a Volkswagen, que tem um estande na Bienal do Livro, não tem dinheiro para pagar os escritores e poetas brasileiros que vão lá trabalhar?

E vou fazer um pedido público aqui: quem achar que não estou falando besteira, quem achar que esse debate merece ser travado, repercuta isso. Fale. Se posicione. Espalhe. Falar com as paredes é a pior das sensações.

Texto, publicado no blogue "espelunca":
http://zonabranca.blog.uol.com.br/

Ademir Assunção é poeta e jornalista, autor dos livros LSD Nô, Zona Branca e Adorável Criatura Frankenstein e do cd Rebelião na Zona Fantasma. É um dos editores da revista Coyote. E-mail: zonabranca@uol.com.br

2 comentários:

  1. Amigos.
    Não sou jornalista nem escrevo bem.
    Sou aposentado, recebendo do INSS e tendo o IR descontado na fonte. Não recebo as benesses de nosso apedeuta mor que tem pensão do INSS acima do máximo, isento de Imposto de Renda por se achar perseguido político, ou melhor, por se anistiado político.
    Luto com as armas que tenho que é um blog, como forma de desabafar ao ver tanta roubalheira, falta de ética, falta de honestidade e principalmente falta de vergonha na cara desta quadrilha que tomou de assalto o Palácio do Planalto.
    Quero convidar os amigos a participarem da minha forma de protesto, o blog Brasil – Liberdade e Democracia - http://brasillivreedemocrata.blogspot.com/.
    Se não levantarmos nossas vozes em protesto o que será deste país para nossos filhos e netos?
    Agora é a hora de lutarmos por uma pátria livre democrática, e sobre todo com governantes honestos e éticos.

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  2. Muito obrigado por seguir o Blog Brasil Liberdade e Democracia.

    Passamos por momentos nunca antes vistos na história do Brasil. Falta de ética, de honestidade e de dignidade na política.

    A conquista de um Brasil com justiça social, com políticos éticos e honestos, com um governo que trata os cidadãos com dignidade, passa pela união de todos em torno destes ideais.

    Nosso trabalho deve ser de conscientizar os eleitores de que um país com o qual sonhamos é possível e que com a remoção do poder destes que aí estão será possível transformar nosso sonho em realidade.

    Seus comentários são benvindos. Peço que se junte a nós nesta luta através de seus comentários nos blogs.

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