quarta-feira, 3 de junho de 2009







9 de Julho Quinta-feira

19h - Abertura Oficial
Local: SESC Laces JK
Rua Caetés, 603 – centro – Belo Horizonte

Homenagem: Personalidades que contribuem ou contribuíram com a poesia brasileira.

Joanyr de Oliveira – Poeta, escritor – um dos fundadores da Academia de Letras de Brasília e da ANE-Associação Nacional de Escritores/DF. Organizador do livro “Poetas de Brasília” (1962), primeira obra literária editada no DF - Brasília/DF

Amadeu Rossi Cocco* - Dono da Livraria do Amadeu, o primeiro e mais tradicional sebo de Belo Horizonte. “Ajudou várias gerações de escritores e leitores a encontrar livros raros e difíceis”. - Belo Horizonte/MG

Luiz Zanotti – Doutorando em Teoria Literária pela UFPR, diretor teatral, dramaturgo, compositor e escritor. Idealizador do Campoesia - Campo Largo/PR

Grupo Lesma – Liga Ecológica Santa Matilde. Idealizadores e realizadores do Abril Poético– Conselheiro Lafaiete/MG

Maria Clara Segobia – Poeta e ativista cultural. Coordenadora geral do Proyecto Cultural Sur/Brasil- Núcleo Porto Alegre. Secretária Executiva do XVII Congresso Brasileiro de Poesia, Bento Gonçalves/Porto Alegre. – Porto Alegre/RS

Mário Jorge (Póstuma) - (1946 -1973) Poeta que através de sua poética lutou contra as desigualdades sociais no Brasil e em parte do mundo, em especial contra a ditadura militar brasileira - Aracaju/SE
*A comunicação da homenagem foi feita ainda em vida, ao Sr. Amadeu, pelo poeta Rogério Salgado. Infelizmente o velho Amadeu encantou-se em abril de 2009.

20h: Apresentações de Abertura
“Retrato do Poeta Enquanto Corpo Inteiro” com o poeta José-Alberto Marques (Portugal)

20h30 “DOS GOTAS y un impermeable” com os poetas Sebastián Moreno e Laia Ferrari (Argentina)

21h Nas Trilhas da Literatura – Momento Musical com Zebeto Correa e Caio Junqueira Maciel - MG

21h30 Coquetel e apreciação da exposição do poeta e artista plástico: Beto Moreira - MG

Durante todo o Encontro estarão abertas ao público as exposições: poemas e fotos do poeta Antônio Roberto Fernandes e exposição de Haikais organizada por Tânia Diniz, poeta e editora do Jornal Mural Mulheres Emergentes.

10 de Julho Sexta-feira

8h às 12h
Manhã Poética

Percurso Turístico e Literário pelo Conjunto Arquitetônico da Pampulha com Lívio Santos Soares (Graduado em Turismo/UFMG).
Início: Casa do Baile – Centro de Urbanismo, Arquitetura e Design.
Um “especial” sairá as 8h da Pça da Estação para transportar os poetas à Pampulha.

Intervalo para o almoço: 12h às 14h

14h às 16h Palestra
Direitos Autorais
Palestra com Ana da Cruz – MG
Poeta, Tradutora e Agente Cultural
LOCAL: SESC LACES JK

16h15 às 18h

Troca de Experiências entre os Poetas Del Mundo Presentes
Articuladora: Bilá Bernardes
LOCAL: SESC LACES JK

Intervalo para o Jantar: 18h às 19h

19h30 Sarau Poético com Mostra de Performances e Lançamento de livros
Local: Rivisitato Restaurante do Sanfrancisco Flat/2º andar.
AV. Álvares Cabral, 967 - Lourdes

Abertura: "Vinte canções desesperadas e um poema de amor", com Luiz Zanotti/PR e Fabiana Lima e Bruno Andrade/MG

Sarau com os poetas En/Cena 3ª edição, intercalado com
Mostra de performances Instantâneas

Lançamento do livro “Poetas En/Cena 3” Reunião de poetas do Belô Poético, com os poetas abaixo:
Amélia Luz (MG*), *Anatália Moreira Freire, Antônio Souza, *Basilina Pereira, Benedito C. G. Lima (MS),
*Brenda Mar(que)s, *Cecy Barbosa Campos, *Cláudio Márcio Barbosa, Cicinho Barbosa (AL), *Cristina Carone
Diego Mendes de Sousa (PI), *Dionísio Silvares, Dora Dimolitsas (AC), *Elaine Bueno, Elizabeth Cury B. Watanabe (SP), * Elza Teixeira de Freitas, *Euna Brito, Fátima Borchert (RJ), *Geraldo Afonso, Gilberto Maha (RJ), Gertrudes Greco (SP), *Grupo Gato Pingado,
*Iara Alves, *Irineu Barone, *Isabella Calijorne, *Josenir Baciliere,
*J. Franco, *João Batista Mariano, *L. Rafael Nolli, Luiz Zanotti (PR),
*Márcia Araújo, *Márcio Adriano Moraes, Marcos Freitas (PI),
Maria Clara Segobia (RS), Maria Goreti Rocha (ES) , *Maria Morais, *Marta Reis,
*Nídia Maria de Jesus, Paulina Vissoky (RS), *Paulo Aguiar, *Rogério Salgado & Virgilene Araújo,
*Sebastião Mello, Sônia Maria Ditzel Martelo (PR), Soninha Porto (RS), *Vanderlei Lourenço, Waldemar Alves (CE), Walnélia Pederneiras(SC)

Performances com:
*Aroldo Pereira/MG
Poeta e Idealizador do Psiu Poético Salão
Nacional de Poesia de Montes Claros
*José – Alberto Marques/Portugal
Poeta e Performer
*Gilberto de Abreu e Luando de Abreu/MG
Poetas e Músicos
*Deomídio Macedo/BA
Poeta e Ator
*Márcio Moraes/MG
Poeta e Músico
*Grupo Gato Pingado/MG
(com Bilá Bernardes, Karol Penido e Deivid do Barkaça)
Poetas e performers
*Tanussi Cardoso/RJ
Poeta e Presidente do Sindicato dos Escritores do RJ
* Rogério Salgado & Virgilene Araújo/MG
Poetas e Articuladores do Belô
* Grupo Pasárgada
Poetas e performer
* Artur Gomes “LeminskiArte da Palavra Em Cena”
Poeta e Performer

Na seqüência os poetas inscritos no Belô Poético/2009.

Lançamento dos seguintes livros:

*Poesia Sonora: História e Desdobramentos de uma vanguarda poética.
Autora: Brenda Marques/MG
Editora: Tradição Planalto
* Memórias Infames
Autor: Antonio Miranda/DF
Editora: Anome Livros
*Íman
Autor: José-Alberto Marques (Portugal)
Editora: Pangeia
*Genuínos
Autor: Márcio Moraes/MG
Editora: Unimontes
* Rasgando o Véu
Autora: Cristina Carone/MG
Editora: Edição do Autor
* Homem Nu Vestido de Afeto
Autor: Deomídio Macedo/BA
Editora: Edição do Autor
* "50 Poemas Escolhidos Pelo Autor", Edições Galo Branco;
*"Del Aprendizaje del Aire" - "Do Aprendizado do Ar" (Editora Fivestar. Obra bilíngue, português-espanhol, tradução do poeta chileno Leo Lobos e da poeta mexicana Angélica Santa Olaya.

11 de julho Sábado (atividades paralelas)

9h Belôzinho: crianças e jovens aprimoram o gosto pela poesia
Seguido do lançamento dos livros Infantis:

Adriel – Autora: Elza Teixeira de Freitas/Ilustrações Aldaísa Cardoso de Freitas. Aline Editora e Artes Gráficas Ltda
Rainha Vitória – Autora: Iara Alves/ilustração: Amanda Sousa de Oliveira.
Mamãe, Amanhã é Hoje? – Autora: Iara Alves/ilustração: Beatriz Lacerda Morais. Ambos pela Editora Álamo.
Articuladoras: Graça Faisão, Iara Alves e Isabela Calijorne - MG
LOCAL: SESC LACES JK.

A Poesia como um Exercício de Cidadania
Participantes: Deomídio Macedo, Léa Lu, Mavot Sirc e Cristovam Tadeu Martins, Kedma O´liver, Jaques Franco, Bilá Bernardes, Lis Monteiro, entre outros.
Local: Hospital das Clínicas da UFMG - pediatria

Intervalo para o almoço: 12h às 14h

14h às 16h
Mini Seminário
LOCAL: SESC LACES JK

Tema: A poesia pode curar?
Na sequência relatos dos poetas presentes, sobre seu bem-estar, após participarem de movimentos poéticos.
Coordenação: Luiz Carlos de Oliveira Cerqueira – DF
Poeta e Membro da ANE – Associação Nacional de Escritores/DF
Debatedores:
Inez Alves – MG
Terapeuta Floral
Walnélia Pederneiras – SC
Poeta e Professora de Yoga
Marco Alexandre Cunha – MG
Orientador Espiritual e Membro do Centro de Fraternidade Espírita Irmão Vitor
Gertrudes Greco – SP
Poeta e Enfermeira
Heleide O. Santos – MG
Poeta e Membro da Seicho-No-Ie
Cláudio Márcio Barbosa – MG
Poeta e Voluntário do Alô Vida
Bilá Bernardes – MG
Poeta e Psicopedagoga

16h às 16h30
Intervalo: chá da tarde

16h30 às 18h30
Circuito de Opiniões e Conhecimentos
LOCAL: SESC LACES JK

A dinâmica: Participarão 2 grupos.
Um grupo faz perguntas para o outro e vice-versa, além da participação do público.
Tema: Há limite para a emoção e técnica nas produções poéticas?
Mediador: Eugênio Magno – MG/
Poeta, Jornalista e Mestre em Artes Visuais

Grupo 1:
Fernando Fábio Fiorese Furtado – MG
Poeta e Doutor em Semiologia
Cecy Barbosa Campos – MG
Poeta e Mestre em Teoria da Literatura
Sérgio Fantini – MG
Escritor
Brenda Marques Pena – MG
Poeta e Mestre em Literatura e outros
Sistemas Semióticos
Marcos Freitas – DF
Poeta, Pesquisador e
Professor Universitário
José-Alberto Marques – Portugal
Poeta, escritor, historiador, antologiador, crítico literário, ator e Performer

Grupo 2:

Vera Casa Nova – MG
Poeta, Pesquisadora e Pós-doutora
em Antropologia Visual
Iacyr Anderson Freitas – MG
Poeta e Mestre em Teoria da Literatura
Luiz Edmundo Alves – MG
Poeta e Videomaker
José Edward - MG
Poeta e Jornalista
Rodrigo Starling – MG
Poeta e Filósofo

Intervalo para o jantar: 18h30 às 20h

20h
Teia Poética
LOCAL: SESC LACES JK

Abertura: Lecy Pereira – MG

Teia Poética: Intervenções poéticas e performáticas dos poetas que desejarem se expressar e forem sorteados durante o Sarau Poético – premiação para a melhor intervenção e brindes literários para demais participantes.
O Regulamento será entregue durante o Sarau.

MESA DE JURADOS:

Rodrigo Starling – MG
Poeta e Presidente da OPA! – Oficina de Produção Artística
Lecy Pereira Souza – MG
Poeta e Performer
Deomídio Macedo – BA
Poeta e Ator
Fátima Borchet – RJ
Poeta e Professora de Língua Portuguesa e Literatura
Arlindo Nóbrega - SP
Poeta e Presidente da Febac – Federação Brasileira dos Alternativos Culturais

12 de Julho Domingo

9h às 11h (Encerramento)
Oficina: A prática de fazer mandalas poéticas: Regina Ximenes (Artista plástica) – MG
LOCAL: SESC LACES JK

Almoço: 11h às 12h

12h Passeio turístico – Passeio turístico – Centro Histórico de Ouro Preto/MG – com recepção do Poeta Beto Moreira, na Pousada: “ Pouso de Santo Amaro” (Atividade extra programação) Custo:R$ 25,00 (ida e volta)
Concentração em frente ao Sesc Laces JK, às 12h
Mataram a Poesia Gregório de
Mattos Jura Que Não Foi ele
Aos capitulares do seu tempo
A nossa Sé da Bahia,
com ser um mapa de festas,
é um presépio de bestas,
se não for estrebaria:
varias bestas cada dia vemos,
que o sino congrega,
Caveira mula galega,
o Deão burrinha parda,
Pereira besta de albarda,
tudo para a Sé se agrega.
Den Kapitularenseiner Zeit
(versão em alemão)
In Bahia unser Dom ist
als Festtagsfibel Weihnachtsstall
der Bibel, wenn nicht Hippodrom:
Sammelt doch penibel
Kirchglockgeschepper,
Totenkopf, den Klepper,
braunes Maultier, den Dechanten,
den Pereira, Rosinanten,
All das sich zusammenläppert.

À CIDADE DA BAHIA
Triste Bahia!
ó quão dessemelhante
Estás e estou do nosso antigo estado!
Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado,
Rica te vi eu já, tu a mi abundante.
A ti trocou-te a máquina mercante,
Que em tua larga barra tem entrado,
A mim foi-me trocando, e tem trocado,
Tanto negócio e tanto negociante.
Deste em dar tanto açúcar excelente,
Pelas drogas inúteis, que abelhuda,
Simples aceitas do sagaz Brichote.
Oh se quisera Deus, que de repente,
Um dia amanheceras tão sisuda
Que fôra de algodão o teu capote.
(Gregório de Mattos. Poemas escolhidos.
Ed.de José Miguel Wisnik. São Paulo:Culrix,
1975. p.40; 42)

ALLA CITTÀ DI BAHIA
(versão em italiano)
Triste Bahia!
così dissomigliante sei tu
e son'io dal nostro antico stato!
Scarsa ti vedo ora, tu me spiantato,
ricca ti vidi già, tu me abbondante.
Ti cambiaron la macchina e il mercante
che nel tuo porto aperto è penetrato,
mi cambiarono, e cambiano crucciato
tanti maneggi e tanto negoziante.
E quanto doni zucchero eccellente
per droghe inutili, che truffaldina
sciocca tu accetti dal furbo straniero!
Oh Dio volesse, che improvvisamente
ti risvegliassi saggia una mattina col
tuo mantello di cotone mero!
Tradução inédita de Silvia La Regina.

CONTEMPLANDO NAS COUSAS DO MUNDO
DESDE O SEU RETIRO, LHE ATIRA COM O SEU
APAGE, COMO QUEM A NADO ESCAPOU DA TORMEN'I'A
Neste mundo é mais rico o que mais rapa:
quem mais limpo se faz, tem mais carepa;
Com sua língua, ao nobre o vil decepa.
O velhaco maior sempre tem capa.
Mostra o patife da nobreza o mapa:
Quem tem mão de agarrar, ligeiro trepa;
Quem menos falar pode, mais increpa:
Quem dinheiro tiver, pode ser Papa.
A flor baixa se inculca por tulipa;
Bengala hoje na mão, ontem garlopa:
Mais isento se mostra o que mais chupa.
Para a tropa do trapo vazo a tripa,
E mais não digo, porque a Musa topa
Em apa, epa, ipa, opa, upa.
(Gregório de Mattos. Poemas escolhidos.
Ed.de José Miguel Wisnik. São Paulo: Cultrix,
1975. p.40)
CONTEMPLANDO LE COSE DEL MONDO
DAL SUO RITIRO, LE INVES'l'E COL SUO DISPREZZO,
COME CHI SI È SALVATO A NUOTO DALLA BUFERA
Nel mondo ingrassa soltanto chi attrappa:
si mostra urbano chi vien dalla teppa;
con lingua il vile al nobile riceppa:
il vigliacco maggior sempre ha gualdrappa.
Mostra il furfante dell'arme la mappa:
chi mani ha per rubar, veloce acceppa;
chi meno può parlar, l'udito inzeppa;
oggi lo scettro, ieri era la zappa.
La gramigna alla rosa il nome scippa;
papa sarai se hai quattrini in groppa:
sorride santo chi ai peggior s'ingruppa.
Alla truppa di stracci svuoto trippa,
e altro non dico, ché la Musa popp
ain appa, eppa, ippa, oppa, uppa.
Tradução inédita de Silvia La Regina.

DESCREVE O QUE ERA NAQUELE TEMPO A CIDADE DA BAHIA
A cada canto um grande conselheiro,
Que nos quer governar cabana e vinha;
Não sabem governar sua cozinha,
E podem governar o mundo inteiro.
Em cada porta um bem freqüente olheiro,
Que a vida do vizinho e da vizinha Pesquisa, ]
escuta, espreita e esquadrinha,
Para o levar à praça e ao terreiro.
Muitos mulatos desavergonhados,
Trazidos sob os pés os homens nobres,
Posta nas palmas toda a picardia,
Estupendas usuras nos mercados,
Todos os que não furtam muito pobres
E eis aqui a cidade da Bahia.

Um Poeta Afortunado
por Silvia La Regina
Hoje em dia, após muitos anos de uma intensa querelle, Gregório de Mattos e Guerra é unanimemente reconhecido como o maior poeta brasileiro do século XVII, assim como um dos mais importantes escritores barrocos de expressão portuguesa. A bibliografia sobre o autor inclui mais de trezentos títulos e, alem de numerosas edições nacionais das obras do poeta, existem traduções para vários idiomas, como o alemão, o francês, o italiano e até o chinês.
Infelizmente, apesar de sua importância, a obra de Gregório de Mattos ainda não foi objeto de uma edição crítica, ou seja, não nos é possível saber exatamente quanto do que leva o seu nome realmente foi escrito por ele; assim como existem várias versões, ou variantes, de muitos dos poemas. Isso porque Gregório não editou nada durante sua vida (assim como o grande espanhol Quevedo, um de seus mestres ideais) e seus poemas circularam manuscritos no Brasil (onde não podia haver imprensa) e em Portugal, onde possivelmente a censura tenha impedido a publicação de obras por muitos lados irreverentes e muitas vezes obscenas.
Assim posteriormente admiradores da obra gregoriana reuniram os poemas em códices manuscritos, hoje espalhados entre o Brasil, Portugal e os Estados Unidos (atualmente, existem 22 códices em 35 volumes), porém sem que houvesse controle sobre o que era e o que não era verdadeiramente do autor, cuja fama póstuma permitia que se lhe atribuíssem algumas obras talvez de outros poetas menos conhecidos.
Com certeza porém muitíssimas das obras que levam o seu nome foram escritas por ele, e caracterizam um versejador versátil e fluente, extremamente talentoso, de grande cultura, supostamente autor de mais de 700 poemas que, com a exceção da épica, abrangem praticamente todos os gêneros e estilos poéticos.
A poesia satírica - a que o tornou mais famoso - a religiosa, a amorosa, a encomiástica, os relatos de pequenos ou grandes acontecimentos da vida colonial: todos estes gêneros foram praticados pelo poeta com êxitos igualmente válidos, ainda que se conheça mais a vertente satírica, especialmente quando aliada à componente erótica (que alguns no passado já chamaram de "pornográfica").
Neste âmbito, são justamente famosas suas sátiras a cidade da Bahia, aos governantes corruptos e, entrando aqui na esfera erótica, a freiras e padres muito licenciosos, assim como há uma série de poemas dedicados a diferentes prostitutas da cidade. Sua linguagem neste contexto torna-se particularmente crua e às vezes violenta.
Gregório compôs sonetos, décimas, motes e glosas, romances, só para citar os métodos mais conhecidos, com grande variedade de rimas e ritmos, introduzindo na linguagem poética termos tupi e africanos ao mesmo tempo em que não renunciava às referências clássicas e eruditas indispensáveis para o bom poeta da época .
Como era inevitável, foi muito influenciado pela obra dos castelhanos Góngora e Quevedo, e traduziu obras dos dois mestres, assim como, fiel ao cânon retórico, imitou e recriou composições deles . Por isso durante muito tempo, e até poucos anos atrás, foi chamado de plagiário por quem não levava em conta o fato disto ser prática plenamente lícita e comum naquela época, e aliás indispensável para o poeta culto .

Notação Biográfica
Fernando da Rocha Peres
Nasceu Gregório de Mattos e Guerra , conhecido como "Boca do Inferno", em Salvador , Bahia , em 23/12/1636 [1]. Neto de Pedro Gonçalves de Mattos ( familiar do Santo Ofício da Inquisição, em 1618) , morador na Bahia [2] , e filho de Gregório de Mattos , ambos naturais de Guimarães , Portugal , com Maria da Guerra . Pertencente a uma família , os Mattos da Bahia , de proprietários rurais , arrematadores de obras (empreiteiros) , de funcionários da administração na colônia , Gregório de Mattos vai estudar no célebre Colégio dos Jesuítas (1642) , na Bahia , e seguir para Lisboa , em 1650 . Dois anos depois (1652) vamos encontrá-lo matriculado na veneranda Universidade de Coimbra , de onde sai graduado em Canones no ano de 1661 .
Casa-se em Lisboa , no ano da formatura , com D. Michaela de Andrade , pertencente a uma família de magistrados . Vendo o seu caminho facilitado para uma carreira jurídica , em Portugal , no ano de 1663 é nomeado Juiz de Fora de Alcácer do Sal, depois de constatada a sua "pureza de sangue" [3]. Naquela Vila , vai exercer a função de Provedor da Santa Casa de Misericórdia , para o período1665-1666 [4].
Dois anos mais tarde (1668) , vamos saber que Gregório de Mattos vai ser investido da honrosa incumbência de representar a Bahia nas Cortes , em Lisboa , realizadas em 27 de Janeiro . Três anos após (1671) o magistrado ascende ao cargo de Juiz do Cível em Lisboa , para , no ano seguinte (1672) , ser indicado pelo Senado da Câmara da Bahia na condição de Procurador .
Em 1674 novamente vamos sabê-lo representante da Bahia nas Cortes (20 de Janeiro) e no mesmo ano destituído do mandato de Procurador . Batiza o magistrado uma filha natural em Lisboa , em 1674 , chamada Francisca , na Freguesia de S. Sebastião da Pedreira . Fica viúvo em 1678, e não temos notícia de filho seu nascido de D. Michaela de Andrade . Já em 1679 é nomeado por D. Gaspar Barata de Mendonça para Desembargador da Relação Eclesiástica da Bahia e Tesoureiro-Mór da Sé , em 1682 , por D. Pedro II , tendo recebido a tonsura (ordens menores) no ano anterior (1681) .
Reconhecido como magistrado de importância e renome, vê suas sentenças publicadas pelo jurisconsulto Emanuel Alvarez Pegas nos anos de 1682 e 1685 [5] ,e embarca Gregório de Mattos para a Bahia , aqui chegando no início do ano de 1683, depois de trinta e dois anos vividos em Portugal . D. Gaspar Barata havia renunciado ao cargo de Arcebispo , sem vir ocupá-lo na Bahia , o que fez o clérigo Gregório de Mattos retornar apressado para entrar na posse de suas prebendas eclesiásticas . Em 1683 , meses após a sua chegada , é destituído dos cargos junto a cúria baiana , pelo novo Arcebispo D. Fr. João da Madre de Deus [6] , por não querer usar batina e por não aceitar a imposição das ordens maiores necessárias para o exercício das suas funções junto ao Arcebispado .
Já na Bahia , após sua chegada vamos ver atiçada a sua veia de poeta satírico diante da vida relaxada e promíscua na Cidade de Salvador . Como os padres não davam o bom exemplo (os da Sé vão ser chamados de "presépio de bestas ") , com algumas exceções, resolve Gregório de Mattos ser o cronista dos seus costumes e de toda a sociedade baiana : dos ricos e governantes , dos brancos e negros , dos colonos e escravos , da nobreza nativa e da sua galeria de mulatas .
Despido da sua identidade clerical , como já havia feito com a de magistrado , Gregório de Mattos vai desenvolver então a sua veia poética ( uma nova identidade ) para o caminho da sátira ( chama os habitantes da Bahia de "canalha infernal "), do erotismo , da pornografia, da poesia grotesca , lírica e sacra . Dentro da melhor tradição da poesia medieval ibérica , da poesia popular , e leitor dos poetas do Século de Ouro Espanhol [7], Gregório de Mattos vai encordoar a sua lira e afiar a sátira .
Em 1684 dá início o poeta a suas andanças pelo Recôncavo da Bahia de Todos os Santos , nas raízes telúricas de seus maiores , em companhia de amigos, dentre os quais o poeta português Tomás Pinto Brandão (1664-1743) . Nesta década de 1680 vai casar , na Bahia , com Maria de Póvoas (ou dos Povos ?), com quem terá um filho chamado Gonçalo . Por sua vida livre de "homem solto sem modo de cristão " será denunciado à Inquisição em Lisboa , no ano de 1685 , por Antonio Roiz da Costa , promotor do Eclesiástico na Bahia e personagem que será satirizado pelo poeta [8] .
A peça ou carta decorrente da denúncia de heresia ( fala mal de Jesus Cristo e não tira barrete da cabeça quando uma procissão passa na porta de sua casa ) não tem seguimento , pois uma testemunha havia partido da Bahia e outra morrido . Acreditamos que foi o prestígio da família dos Mattos , dentre outros fatores , que fez esvaziar-se a denúncia contra o poeta . No ano de 1691 entra Gregório de Mattos para a condição de Irmão da Santa Casa de Misericórdia da Bahia , e no ano seguinte paga uma dívida em dinheiro contraída junto a Santa Casa de Lisboa .
Por seus poemas satíricos contra tudo e contra muitos , principalmente pelos retratos que faz do Governador Antonio Luiz Gonçalves da CÂmara Coutinho [9], o " fanchono beato " vê-se ameaçado pelos filhos desta autoridade , os quais prometem matá-lo . O Governador João de Alencastro [10], seu amigo, com outros companheiros do poeta , promove um complô para prendê-lo e enviá-lo para Angola no ano de 1694 , sem direito de voltar para a Bahia, o que sucede para enorme desgosto do poeta .
Em Luanda , no ano de sua chegada , em 1694, envolve-se o poeta em uma conspiração de militares , por questão do soldo e mudança do padrão monetário , e vai favorecer o governo local , na pessoa do Governador Henrique Jacques de Magalhães , colaborando com a prisão e condenação dos cabeças da sedição [11] . Como recompensa recebe o poeta a permissão de voltar ao Brasil , para ficar em Recife - longe da Bahia e dos seus desafetos - onde vai morrer em 1695 , de uma febre contraída na África , com 59 anos , no dia 26 de novembro e seis dias após a morte de Zumbi dos Palmares.
A poesia apógrafa ( reprodução de um manuscrito original ) de Gregório de Mattos e Guerra (1636-1695) permaneceu guardada em códices existentes em Portugal (o mais importante é da Biblioteca Nacional de Lisboa , Secção de Reservados , número 3.576) no Brasil e nos USA . Foi o historiador Francisco Adolfo Varnhagen , em 1850 , que publicou um conjunto de 39 poemas no "Florilégio da Poesia Brasileira ", editado em Lisboa .
Daí em diante Gregório de Mattos passa a constar de várias antologias e "Parnasos", até hoje , tendo a sua obra apógrafa publicada , em parte , por Alfredo do Valle Cabral (1882) , Afrânio Peixoto (1923 - 1933) , em 6 volumes ( Edição da Academia Brasileira de Letras ) e James Amado (1968) , que edita as suas "completas ", em 7 volumes ,reeditada em 2 volumes, Record,1990, com o título de Obra Poética, contendo toda a parte erótica, pornográfica e grotesca , até então desconhecida e que Afrânio Peixoto havia censurado.
A fortuna crítica do poeta inicia-se no século XVIII com uma biografia manuscrita que aparece anexa a alguns códices , com variantes , e da autoria de Manuel Pereira Rabelo . Foi esta biografia uma peça importante para que nós pudéssemos promover a revisão da vida do poeta , na busca incessante de fontes documentais . A partir do século XIX, e até hoje , o poeta Gregório de Mattos teve avolumada sua biografia e os estudos a respeito de sua vida e sua obra .
No momento estamos concluindo uma mais extensa indicação de fontes bibliográficas e documentais sobre o poeta satírico mais importante da literatura de língua portuguesa no período barroco . A obra apógrafa de Gregório de Mattos mais cedo ou mais tarde será objeto de uma edição crítica, contando a sua realização com uma equipe de especialistas . Como disse o Mestre Antonio Houaiss, "o fato é que a pesquisa histórica em torno da vida de Gregório já atingiu um inesperável grau de documentação , pois há duas décadas a documentabilidade de sua vida era algo de que não se esperava muito ".
Em verdade, a pesquisa , no sentido biográfico, muito tem ajudado e pode ajudar , com a localização de documentos e códices poéticos, para o retrato do poeta vagante Gregório de Mattos e para o conhecimento da sua obra . Temos nos dedicado a localizar, no Brasil e em Portugal , essas fontes documentais (vida e obra), que abrem caminho para uma compreensão do poeta brasileiro e das suas identidades como magistrado, em Portugal , e clérigo e poeta na sua terra natural , o Brasil , que ele vai chamar, certa feita, de "peste do pátrio solar".
NOTAS
Fixamos o ano de nascimento do poeta para 1636 a partir de documento : Sumários Matrimoniais da Câmara Eclesiástica de Lisboa , 1661 , Maço 2 , número 69 , manuscrito da Biblioteca Nacional de Lisboa , Secção de Reservados . Em 1986 o Centro de Estudos Baianos da UFBA organizou um Simpósio sobre a vida e obra de Gregório de Mattos e Guerra , nos seus 350 anos de nascimento . Na oportunidade a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos lançou um selo comemorativo , a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro realizou uma amostra documental sobre o poeta e a Biblioteca Nacional de Lisboa mandou imprimir um cartão postal para registrar o evento. Em 1996 o mesmo Centro de Estudos Baianos organizou um Encontro Internacional "O Poeta Renasce a Cada Ano", comemorativo dos 360 anos de nascimento de Gregório de Mattos e Guerra.
Novinsky , Anita . Cristãos Novos na Bahia . S. Paulo , Perspectiva , 1972 , p. 115 e p. 138 .
Habilitações de Genere ; "Leitura de Bacharel ", Arquivo Nacional da Torre do Tombo , Maço 2 , número 6 , letra G.
Conforme Nome dos Provedores da Santa Casa de Misericórdia de Alcácer do Sal , edição da Santa Casa de Misericórdia , Alcácer do Sal , 1957 . Também no livro manuscrito "Termo de eleitação de irmãos (Actas) , 1660-1708" , depositado na SCM de Alcácer do Sal . Devo esta informação ao Dr. João Carlos Lázaro Faria, do Museu Nacional de Pedro Nunes em Alcácer do Sal .
São duas as sentenças do juiz Gregório de Mattos e Guerra , lavradas em 1671 e 1672 , e publicadas em : Pegas , Emanuellis Alvarez ; Commentaria ad Ordinationes Regni Portugalliae , Ulyssipone, 1682. Tomus Septimus, pp.290 a 303 - sentença da p. 294 ap. 296 - e pp. 638 a 647 . Outra sentença de Gregório de Mattos e Guerra está publicada em Pegas, Tractus de Exclusione, Inclusione, Successione,et Eredictione Maioratus, Pars Primas, Ulyssipone, 1685, págs 569 e 570 .
Arcebispo da Bahia de 1683 a 1686 .
A impregnação de Gregório de Mattos como leitor de Quevedo e Gongora levou a crítica a considerá-lo um plagiário . Recentemente , o livro de Gomes , João Carlos Teixeira . Gregório de Mattos : o Boca de Brasa , Rio Vozes , 1985, situa a problemática dentro de um estudo de intertextualidade .
Mattos ,Gregório de ; Obras Completas (edição James Amado) , Salvador , Janaína , 1968 , 3º vol. , p. 716 a p. 727 . São três sátiras ou retratos grotescos contra o doutor Antonio Roiz da Costa , Cavalheiro do Hábito de Cristo .
Governador da Bahia , capital do Brasil côlonia , de 1690 a 1694 .
Amigo do poeta e Governador (1694 - 1702) cuja "lenda" diz ter mandado deixar em Palácio , na Bahia , um livro para que as pessoas copiassem poemas de Gregório de Mattos . Infelizmente este códice manuscrito jamais foi localizado.
Sobre o tema escrevemos artigo : Peres , Fernando da Rocha , Gregório de Matos e Guerra em Angola , "Afro-Ásia", nº 6-7 , CEAO da UFBA , Salvador , 1968 , pp. 17-40 . Vide também Peres, Fernando da Rocha . Gregorio de Mattos e Guerra : uma revisão biográfica . Salvador, Edições Macunaíma, 1983.

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