sábado, 23 de maio de 2009


Seleção de autores revela o mercado

O Estado de S. Paulo - 22/05/2009 - Por Antonio Gonçalves Filho

Dos 50 primeiros finalistas do Prêmio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa anunciados, em cerimônia no Consulado de Portugal no Rio, quase a metade está nas mãos de dois dos maiores grupos editoriais do País, Record (13 autores) e Companhia das Letras (12 autores). É um dado importante, considerando que a edição atual do prêmio teve 100 editoras inscritas, das quais apenas 13 chegaram a essa primeira lista de finalistas, da qual fazem parte premiados escritores como Milton Hatoum, colunista do Estado, o português Gonçalo Tavares, além de representantes da nova geração de autores - Daniel Galera e Carola Saavedra -, e um dos maiores nomes das artes plásticas no Brasil, Nuno Ramos, revelado também como autor em Ó, classificado como livro de contos.

Veja lista completa dos finalistas

Este ano foram inscritos 501 títulos. Na análise da curadora-coordenadora do prêmio, Selma Caetano, isso atesta o interesse das editoras e a repercussão do Portugal Telecom entre novos autores independentes. Esses já buscam o registro no ISBN (International Standard Book Number ou Número Padrão Internacional de Livro) para poder participar do prêmio, que contempla três vencedores: o primeiro colocado com R$ 100 mil, o segundo com R$ 35 mil e o terceiro com R$ 15 mil.

Os independentes finalistas são quase todos poetas. É um gênero cada vez menos presente no prêmio. Com apenas 172 inscrições e 12 livros selecionados entre as cinco centenas de títulos, a poesia, contudo, está bem representada por nomes como os de Eucanaã Ferraz (pelo livro Cinemateca, da Companhia das Letras), Paula Glenadel (A Fábrica do Feminino, da editora 7 Letras) e o poeta de Cabo Verde José Luís Tavares (Lisbon Blues, da Escrituras), que tem uma carreira curta de cinco anos, mas já ganhou um prêmio da Fundação Calouste Gulbenkian pelo livro de estreia, Paraíso Apagado por Um Trovão (2004).

Outro gênero com poucos finalistas foi o da crônica. Apenas três autores figuram entre eles: Luís Nassif (A Casa da Minha Infância, da Agir), Fabrício Carpinejar (Canalha!, da Bertrand Brasil) e Vanessa Barbara (O Livro Amarelo do Terminal). A contrapartida ficou com o romance, gênero que predominou tanto nas inscrições como na lista dos selecionados para a final de setembro. Do total de 501 livros inscritos, 197 são romances. Dos 50 finalistas, 28 são romancistas. Os contistas tiveram apenas quatro obras selecionadas pelo júri, formado pelos curadores Flora Sussekind, José Castello, Maria Lúcia Dal Farra e Selma Caetano.

A professora de Literatura Flora Sussekind, ao falar na cerimônia que anunciou os 50 finalistas no Rio de Janeiro, deu margem a uma discussão sobre a qualidade da literatura brasileira contemporânea, afirmando que ela está “cada vez mais convencional”. Mesmo assim, observou, “o júri conseguiu eleger alguns livros que quebram o conservadorismo literário e merecem reconhecimento”.


Regresso
Walnize Carvalho

Era um regresso diferente do que fazia de costume a cada mês.
Com dias de antecedência (mais precisamente uma semana) a mulher dirigiu-se à estação rodoviária a fim de adquirir a passagem.
Um misto de ansiedade, nostalgia e até curiosidade povoou dias e dias a sua mente.
Como iria encontrá-la? A olharia com ares de indignação? Não, por certo não... De pena? Improvável! Quem sabe de preocupação com a incerteza dos dias futuros?
Dia do embarque.
Acordou cedo. Desceu à rua. Fez sinal para o primeiro táxi que passou. Nas mãos uma valise onde levava uma única muda de roupa. Nos ombros um casaco leve para aquecer o frio que trazia no corpo e na alma.
Foi despertada pela pergunta do taxista: - Para onde, senhora? – Para Campos, digo, para a Rodoviária – respondeu com olhar distante.
Chegara com antecedência, o que permitiu que comprasse jornais e revistas, que seguiram intactos – como ela, sentada sem se mexer na poltrona.
O sol corria junto ao ônibus e vinha espiá-la por entre as árvores que ladeavam a estrada.
Se deu conta que o passageiro ao lado lhe fazia um pedido: - Poderia fechar um pouco as cortinas? O que o fez de forma automática, assim como respondeu com breve aceno de cabeça ao agradecimento do senhor.
Tentava disfarçar sua inquietação durante todo o trajeto que para ela representava muito mais do que as quatro horas habituais.
Na parada do ônibus no meio do caminho fez questão de ali ficar – talvez a única passageira que não descera.
Diante do mutismo suas pálpebras pesaram e cochilou.
Abriu os olhos sobressaltada. O coração disparado veio fazer coro ao som do celular que tocava insistente no fundo de sua bolsa. “Uma chamada perdida”. Depois retorno a ligação, murmurou.
Olhou para o relógio. Faltavam dez minutos para o término da viagem.
Descerrou as cortinas. Ao longe avistou os verdes canaviais, a Usina do Queimado, a planície, prédios como pano de fundo no cenário que tantas vezes significava alegria de seu retorno à terra natal.
Cheia de curiosidade e apreensão esperou ver o ônibus atingir a Estrada do Contorno. Fixou o olhar na placa: SEJAM BEM VINDOS.
Suspirou, aliviada, pois pressentia encontrar em seu lugar uma tabuleta grafada: FECHADA PARA BALANÇO.

Dentro da Noite Veloz
VIII

A vida muda como a cor dos frutos
lentamente e para sempre
A vida muda como a flor
em fruto velozmente
A vida muda como a água
em folhas o sonho em luz elétrica
a rosa desembrulha do carbono
o pássaro da boca
mas quando for tempo
E é tempo todo o tempo
mas não basta um século
para fazer a pétala
que um só minuto faz
ou não mas a vida muda
a vida muda o morto em multidão.

Ferreira Gullar


Procura da Poesia

Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários,
os incidentes pessoais não contam.

Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo,
tão infenso à efusão lírica.
Tua gota de bile, tua careta de gozo
ou dor no escurosão indiferentes.

Não me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem de equívoco
e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas
nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem,
rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.

O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite,
fadiga e esperança nada significam.

A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.
Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.

Não te aborreças.Teu iate de marfim,
teu sapato de diamante,vossas mazurcas e abusões,
vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo,
é algo imprestável.

Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho
e a memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.

Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.

Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva
e concentradano espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma tem mil faces secretas
sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível que lhe deres:

Trouxeste a chave? Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.

Carlos Drummond de Andrade

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