segunda-feira, 4 de maio de 2009



Poesia presente:
Fabiano Calixto

Por Heitor Ferraz

Autor de “Fábrica” busca o lirismo possível num cotidiano vertiginoso e massacrante
Nos primeiros poemas de Fabiano Calixto podia se perceber uma forte influência da poesia de Paulo Leminski, com seus graciosos e inesperados jogos de palavras, com suas rimas mordazes, e a da poesia minimalista, ou da l=a=n=g=u=a=g=e norte-americana, com versos enxutos ao extremo, quase elípticos, flagrando, com algumas pinceladas, cenas urbanas e cotidianas.
Neste momento, que se refere aos seus dois primeiros livros -a plaquette “Algum” e o volume “Fábrica” (publicado em 2000, pela Alpharrabio)-, já se notava a presença marcante da cidade nos poemas. O poeta, porém, com sua caixa de ferramentas, procurava a sua maneira de falar das coisas, de expressar liricamente a sua experiência no mundo.
Além da cidade, a música também tinha uma grande importância, e surgia como que pautando, aqui e ali, o caminho de sua poesia. Não poderia ser diferente, já que Calixto desde a adolescência é um aficionado em música, principalmente na canção popular brasileira, além de suas duas grandes paixões: Beatles e Bob Dylan.
Foi na adolescência que este pernambucano, nascido em Garanhuns, em 1973, e que com menos de um ano de idade veio com sua família para Santo André (SP), resolveu se embrenhar pelos caminhos da música pop. Chegou a ter uma banda de heavy metal, com o esquisito nome de “Scatter Terror”. Ele mesmo compunha algumas das letras, tocava guitarra e cantava, em inglês... “um inglês estropiado”, como ele mesmo lembra.
O sonho de ser astro do rock não frutificou, mas o levou, sem querer, para o caminho da poesia. Na turbulenta adolescência, largou a escola e passou três anos com a cabeça curvada sobre as cordas da guitarra. Nesta época, como ele mesmo conta, foi trabalhar como balconista na lanchonete de seu pai, em Santo André. Seu Antonio, pai do poeta, é dono do Bar do Alemão. E era atrás daquele balcão que Calixto costumava passar horas servindo a freguesia e ouvindo o lero-lero dos fregueses. Como ele diz, eram mestres da narrativa oral, contavam basicamente a mesma história, de como conquistaram uma mulher. “Mas o melhor não era história em si, sempre igual, mas a maneira como contavam, o recheio que enfiavam no enredo, toda aquela invenção divertida”, lembra.
O poeta acha que talvez daí tenha nascido sua curiosidade pela maneira de se contar uma história, de segurar o ouvinte, mantendo-o atento do começo ao fim. Em poesia, a abordagem do assunto e maneira de dizer também têm extrema importância (mesmo quando se pega nas mãos um velho tema literário): o poeta procura a forma adequada de reunir as palavras e, principalmente, de transformar a experiência pessoal, intransferível, em algo que ultrapasse o limite de si mesmo e chegue ao coração do leitor.
No caso da cidade, da vivência urbana, muitos poetas da nova geração vêm procurando uma forma de captar este nosso cotidiano tão vertiginoso e tão massacrante. O que não é pouco e envolve muitos riscos e tentativas. Em alguns autores, como o caso de Tarso de Melo, também de Santo André e que surgiu na mesma época de Calixto, essa procura, hoje, leva para caminhos arriscados, espinhosos, mas com resultados surpreendentes, como o de encontrar uma notação entre o lirismo e a crônica de observação das coisas.
Calixto começou a se interessar verdadeiramente pela poesia quando resolveu voltar a estudar, depois de três anos longe dos bancos escolares. Ficou fascinado com a música “Geni e o Zepelim”, de Chico Buarque, que ele ouviu durante uma aula de educação artística. “Foi um choque”, conta. Começou, então, a rabiscar algumas coisas que ele “achava que era poesia”; depois, começou a ler, numa antologia emprestada por um amigo de classe, os poemas de Manuel Bandeira. Outro choque. Acabou virando um rato de sebos, procurando livros de poesia e manuais escolares. “Acho que tinha uma tendência classicista, pois só fazia sonetos”, brinca.
Mas aos poucos foi tomando contato com outras formas da poesia, como a poesia concreta, a poesia marginal dos anos 70 e a poesia contemporânea. Calixto, neste momento, fazia alguns poemas, copiava e os guardava em envelopes que ele mesmo confeccionava, um pouco ao estilo dos poetas marginais com seus poemas mimeógrafos. Um dia soube que haveria um lançamento da revista “A Cigarra”, lá de Santo André, e uma das mais antigas em circulação no país. Enfiou seus livros-envelopes na mochila e foi para a livraria, a Alpharrabio, importante ponto de encontro da nova geração de poetas da região.
Lá, conheceu Tarso de Melo e Kleber Mantovani. Os três logo se tornaram amigos e costumavam passar o dia falando de poesia. “A gente chegava a ficar das dez da manhã à meia-noite conversando no bar e falando de literatura.” Com eles, Calixto participou da revista “Monturo”, que teve apenas três números, mas que publicou poetas importantes, brasileiros e estrangeiros, como Wilson Bueno, Régis Bonvicino, Cláudia Roquette-Pinto, Manoel Ricardo de Lima, Claude-Royet Journoud, Douglas Messerli e muitos outros.
Em 2000, Calixto lançou, o livro “Fábrica”. Nele, percebia-se que sua linguagem poética começava a ser filtrada pela linguagem da própria cidade. O que não é muito fácil de se explicar. É como se ele vestisse o lirismo com a roupa -ou os trapos e farrapos- da própria vida urbana. A experiência pessoal surgia filtrada por calçadas, telhados, ratos, baratas, óleo, “engrenagens rústicas”, domingos chuvosos, “asfalto/ pneus e motores”. Em “Fábrica” talvez esta tentativa ainda não estivesse tão clara para o poeta como está hoje, mas suas “caixas metálicas”, como dizia num poema, já deixavam notar essa procura. Nos poemas, poucas vezes o “eu” habitava os versos: ele estava sempre à espreita, presente, mas encoberto.
Esse livro, como Calixto conta, nasceu de sua própria experiência como funcionário de uma fábrica de peças de automóveis, a Cofap. Não que o livro inteiro seja resultado dessa experiência, mas alguns poemas, como os primeiros que abrem o volume o são. Nessa época, conta ele, além da influência da l=a=n=g=u=a=g=e, que ele tomara conhecimento em conversas com Bonvicino, muitos poemas foram influenciados pelo ritmo do trabalho na fábrica. “Eu fazia as bandejas de roda de carro. Era uma prensa. Colocava uma bucha na bandeja e apertava o botão, isso das 7 às 17 horas. O barulho da máquina era horrível, mas havia naquilo um tipo de beleza, uns ruídos. E acho que o livro tinha essa idéia de ruído. Fiz um poema, por exemplo, para João Cabral. Um poema metrificado, mas todo ruidoso.”
No primeiro poema e que dá título ao livro, “Fábrica”, isso parecia bastante claro:

eco de canção
(de esguelha)
no protetor
de orelha
o pé inoxidável

retalhando odores
constantes
durante o turno
uma leve sensação
de chumbo cavalga
as vértebras
-o pássaro pousa
num único lembrar
de galho de árvore
-uma gota de suor
suspensa no óleo
reafirma uma
reação química

Logo de saída, o poeta fala de um “eco de canção”. Como se a canção, que se ouve com o “ouvido de dentro” (expressão que Tom Jobim costumava usar referindo-se ao Villa-Lobos), fosse apenas um eco diante do barulho de fora, um barulho que esmaga o lirismo. Isso vai ficando claro aos poucos.
O peso de fora é enorme: é “pé inoxidável” (a imagem o aproxima do “aço”), é “uma leve sensação/ de chumbo (que) cavalga/ as vértebras”. Esse peso se contrapõe à leveza efêmera do pássaro que pousa num galho que nem mesmo existe, é apenas um “lembrar”. O ambiente se torna pesado, carregado. E, finalmente, é marcado pelo embate entre o suor do rosto e o óleo da máquina. Há uma tentativa, mesmo que fragilizada, de salvaguardar o que resta deste “eu”, nem que seja apenas uma “gota de suor”.
O poema, dessa forma, parece apontar para este esmagamento do homem e também da natureza (já que esta se transforma num simples “lembrar da galho”). A própria canção, que, tradicionalmente, seria uma forma de expressão lírica, da subjetividade, é apenas um “eco”, também um “lembrar”... A força da sua poesia parece residir neste tipo de construção poética, com poucas e precisas imagens, flagrando a fragilidade do sujeito moderno. De certa forma, e não há exagero nisso, toda a poesia do século XX (e também a de agora) testemunha esta mesma fragilidade.
Não há dúvida de que a melancolia vai abrindo seus veios dentro dos poemas. Porém, neste livro, isto ainda não está totalmente claro. Há poemas que são tipicamente de contemplação. Mas, se em alguns momentos ela circula solta e aberta, como em “coisas do coração”, no qual o poeta acorda provavelmente ao lado da mulher amada e tudo transpira calma e beleza (“Você dormindo sob/ as pálpebras enfloradas/ da primavera), em outros ela vem marcada por uma paisagem urbana que parece se deteriorar, como em “dia de chuva”, no qual ele diz: “um pardal no telhado/ escondido/ na telha que/ não mais segura/ a secura do estuque// na porta do bar/ apenas/ fiapos de garoa/ ameaçam entrar”.
Esta percepção ficará mais poderosa no seu terceiro livro, publicado recentemente. O título não poderia ser mais sintomático da poética de Calixto: “Música Possível”. Ele junta aí a sua paixão pela música, citando-a na capa da obra, mas com uma espécie de restrição: é a “música possível”, não plena.
“É o livro da crise”, diz. “Comecei a escrever os poemas em 2000 e não sabia direito o que fazer; fui experimentando várias formas. No começo, a crise era controlada, depois eu já não sabia como escrever um poema. Fui escrevendo e rasgando. Acho que fiz uns 300 poemas. Em 2003, ganhei a bolsa da Vitae e fui obrigado a pensar no livro. Procurei algumas formas, trabalhar com o corte do verso, buscar o ritmo certo. As pessoas dizem que é um livro triste, mas acho que é o mais lírico que fiz. Ele é mais doce do que o anterior.”
Doce, mas sem deixar de ser amargo. Seus poemas se tornaram mais densos, mais fortes. Para ele, um passo importante foi a publicação, em 2001, do livro “Um Mundo Só Para Cada Par”, de poemas amorosos, feito em parceria com Tarso e Kleber: “A gente não queria mais a poesia elíptica e pensamos em algo que se chamaria ‘poemas de amor’. Mas esta idéia durou só uma noite; fomos buscar outras formas para os poemas. Acho que ‘A Lapso’, do Tarso, ‘Sombras em Relevo’, do Kleber, e o meu ‘Fábrica’ dialogam entre si, explorando uma poesia mais enxuta. Neste livro, a gente queria fazer algo diferente”.
Nos poemas deste “Um Mundo Só Para Cada Par”, sua poesia procura uma respiração mais ampla, sem perder a referência à vida urbana, abrindo caminho para a poética madura de


“Música Possível”:

há a chuva guardada sobre a cidade
-no mais é espera e ofício
-há o itinerário (repetido)
dentro do ônibus.


coisas para parecer coisas.
tosses. mau hálito. existência conjugada.
muitas vezes o olhar tem peso.
o vazio lhe cobre de cor.

não sinto nada e, às vezes,
penso que isso é amor.

Neste poema, a própria dimensão do amor se encontra perdida, para não dizer embaralhada nas coisas do cotidiano. A própria anulação do sentido, como diz o poeta, faz com que ele pense que “isso é amor”. A entrega se dá como que no vazio. Este viés da experiência, um viés doloroso, marca também os poemas de “Música Possível”.
Há uma beleza que brota nos seus versos, mas esta beleza chega marcada por uma melancolia, uma falta seca de perspectiva. O primeiro poema do livro, “Da Cidade”, faz uma espécie de ponte com o poema “Fábrica”, que abria o livro anterior. A mesma impossibilidade de contemplação, a mesma sensação de “um exagerado estrangulamento de tempo”, como ele diz:

na pior das hipóteses
ainda há uma chuva
que, de vez em quando,
cai sobre esse declínio civilizado.


sobre essas palavras que saem ocas.
sobre essas máquinas.
mas a chuva ainda não é nada.
a chuva atrasa, sempre.
o distúrbio dos espaços em
nosso campo de visão minimizado.
um exagerado estrangulamento do tempo.
essa é a língua. pior: essa é a linguagem.
(ainda hoje,no estacionamento da faculdade,
as árvores floridas
seqüestraram,
por um momento menos que mínimo,
minha atenção. e nada ficou.
nem uma cor. nem uma brisa.)

A idéia de “estrangulamento” é tão potente que repercute por dentro do livro, em outras imagens. Em “Canção Natural do Mundo”, a própria visão de futuro é invertida pelo poeta. Normalmente, em poesia, esta visão vem atrelada à imagem da manhã, da claridade do dia (basta pensar em Drummond de “A Rosa do Povo”, com tantas “manhãs” e “amanhãs” luminosas, como uma esperança que surge sempre após uma noite trágica). Em Calixto, este futuro não se apresenta com luminosidade intensa, mas vem bruto, “antipático” e no ocaso do dia -um futuro que se apresenta ao lusco-fusco, na indeterminação entre o dia e a noite:

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