segunda-feira, 4 de maio de 2009



Nós poetas, atores, jornalistas, fotógrafos, skatistas, estas outras tantas profissões ligadas a escrita e a reflexão desses assuntos mundanos que multiplicam-se cotidianamente pela Campos dos Goytacazes, a minha musa corrompida, não passamos de um Bando de Desocupados, como frisou em recente reunião da Câmara Municipal, o seu digníssimo Presidente, Nelson Naim.
Assim, nada mais jutos, do qude a criação da nossa Associação de Blogueiros Desocupados, já que não temos mesmo outras coisas a fazer nesta cidade, do que escrever escrever escrever... É lamentável constatar que mesmo, já vivendo ao final de uma década do século XXI nossa cidade ainda se encontre mergulhada nas trevas do obscurantismo político, sem a mínima possibilidade de enchegarmos uma luz no fim do túnel.
O que nos resta então a não ser a poesia, o teatro, o blog, a desocupação enfim. Já que para os nossos nobres edis, estas são apenas funções para os desocupados da cidade, gente que não sabe fazer outra coisa a não ser falar ou escrever, coisa que para eles se torna muito difícil.
Tendal

Entre a terra e o céu está o outono
- asa ferida, agrimensor do sono
no delírio da queda estende estrelas
para proteger quem regressa da vida.
Ponho sobre os plátamos os cansaços
inefáveis. Perdoa-me o medo de sofrer
busquei novos rios de regresso
à casa de nomes apenas ornados
para a grinalda com raiva e tempo.
O poeta abre no poema o outono
e mede com seu rosto o abandono
das coisas amadas. O silêncio ajudou
a desatar o crepúsculo junto
à árvore na dureza agressiva
das raízes. Aqui está o vestígio estranho
da cantiga movida dos ninhos e
das flores. Não passes o outono
sem uma dádiva, celeiro ogival,
desigualdado templo de portas
abertas. Aqui está o longo outono
de todo em tuas mãos.


Velhice

Não é voltar que entristece – é não poder
reter nas mãos o sol o chão a lembrança,
sondo turvadoramente os próprios passos,
o caminho de reaver a sombra
durante horas a fio os velhos
cinamomos que não vemos mais.
O meu anjo da guarda banido de ternura
mais do que diante da morte
confunde a hera e o musgo, colhe
as rosas do amor e do vento.
De repente, o vento faz-se humano.
As sombras são sandálias
Portadoras de amplidão estendida
para dentro do nome. A aldeia
guardou intactas as coisas tímidas,
desde ontem a infância existe
só para querer revê-la novamente.
E há de ser o limiar de cada um que nos ouça
sem disfarces, quando a noite chegar
como quem folheia um livro de figuras.
Não é a volta que entristece... É pertencer
às lembranças sem poder atapetar
o silêncio de quem volta.


Oração Por Um Corpo

Não há lugar para o texto, só o corpo.
Mas o corpo cadente é espada no meio
das mãos. Agora é tarde a palavra,
desapareceu a posse das coisas amadas.
O vento que vergara os teus cabelos
construiu a nostalgia de regressar à casa.
Nós somos só pó. Nada mais é texto,
o corpo existe desamparado
campo de tributos. Sem nome cato
o esquecimento. Corpo é texto
cada um joga o corpo para o lado
que quer. De repente o corpo é
conduzido ao mundo mal o vento
rompe o sol e as asas dos pássaros
encaram o dia com o mesmo espanto
possível da infância, o corpo é
sempre só. Trago dentro do texto
o cansaço. Sinto a noite corrompida
dizer teu nome, devagar...
Nenhuma estrela lembra o sexo grunhindo
feito morte escrava. Não há lugar
para o corpo. Se alguém vier, há de
tarjar o texto como sempre


Tema da Menina Amada

Como eram imensos os verdes olhos
da menina que levava a vaca
a pastar no vale sempre contínuo de
paciência. Provavelmente
alguém a tomaria por um anjo
da guarda com os pés nus no chão
e os seios entumescidos pelo vento
perfumado. Não há nada
de postiço na menina que apanha
flores agrestes, exibindo-as sem
cuidado algum aos seus sentimentos
de silêncio. Não se houve mais
do que o bando das flores colhidas
cirandando os vedados limites
dos olhos verdes da menina
que leva a vaca a pastar a domicílio.
Só o amor sabe povoar o vale
atarefado onde tudo é rígido,
ávido de mãos e inumeráveis
lendas de viagens tão antigas.
Como eram diligentes os olhos
da menina que sabe estar só
e sofre sem disfarces.


Topografia

Abro o vale e dele vou retirando
em longo sulco a dor de possuir
colhendo além da flor o fruto./Aqui
existe a seiva fiel até o fim,
cavo o poema: o que consola um pouco.
Não direi que os ventos desplumam
o sono da madrugada. A cousa mais
cúmplice é possuir um vale amado,
crescer junto, sem estar desbotado / de tédio
e colher a solidão e a noite
insinuando uma ânfora mínima
de estrelas. Existo para lavrar a palavra.
Ninguém reparou os primeiros cabelos
brancos como teias de aranha em torno
à ternura que intimamente convive
com as rugas do rosto.
É meu reboco o cansaço e célere / carrego
o feixe das sombras para a morte.
Abro o vale, torno-o íntimo quando for
o momento do fruto. Romperei com
o (ridículo) animal que me acompanha depois
do desgaste de chegar arduamente
ao vale como ao amor.


Terra do Poema

Logo estarei vendo a olho nu
as montanhas, odorosas mamas
vedadas em neblina todas as manhãs.
vou espalhar o horizonte,
apóio os ruídos das mãos
com os tomos dos meus anos.
O perigo é catar enganos.
Saúdo o vale percorrido
de suores misturados aos frutos,
vale descalçado pelos seres alados,
pranto didático e sem máscara
o outono rompe a aurora
e os cascos calmos das vacas
emergem dos baldes de leite cru
desfraldado entre os dedos nus.
Recheamos os olhos de seiva,
o vento abre as casas, incita
em nomes brandos as crianças
e o amor é quem segreda
de noite as palavras usuais
e os desejos todas as manhãs.
Eis o sinal: mal a noite se faz
todos se deitam simultâneos
alma em vigília.
Oscar Bertold - poeta gaúcho
assassinado em 1992
Poema em Linha Reta

nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes vil, tantas vezes porco,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita.
Indescupavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda,
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido
Emprestado sem pagar,
Eu, que quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco
Eu, que tenho sofrido a angústia de pequenas
coisas ridículas,
eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu um enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia,
Que contasse, não uma violência, mas uma covardia!
Não, são todos o Ideal, e os ouço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos, mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, .literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Fernando Poessoa – poeta português

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