sexta-feira, 8 de maio de 2009

Cultura Urbana Câmera Indiscreta - um filme de Artur Gomes produzido na Oficina de Cine Vídeo - Sesc Campos. Com trilha sonora de Madan, sobre poemas de Ademir Assunção e participação especial de Cintia de Andrade.

Tabacaria
Fernando Pessoa

Não sou nada
Nunca serei nada
Não posso querer ser nada
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que
ninguém sabe quem é
(e se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada
constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente
certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras
e dos seres,
Com a morte a pôr umidade nas paredes e cabelos
brancos dos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo
pela estrada do nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E se não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e
este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma
partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger
de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e
achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real
por fora
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real
por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo
fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sentou-me numa cadeira. Em que
hei de pensar?

Que sei eu do que serei,eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que
não pode haver tantos!

Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonhos gênios
como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas
Futuras
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos
com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais
certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos
sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas –
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão
ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo,
ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais
humanidades do que Cristo
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum
Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta
ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado,
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrama-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o
cabelo,
e o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou
não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos
levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena:
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo
senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais
que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma
verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de
folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um
desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos ao gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu, que consolas, que não existes e por isso
consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que
fosse viva,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e
longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno – não concebo bem o
quê –
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode
inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam
espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez
absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que
passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam.
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao
degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei, e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só
por não ser eu.

Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses
nem amasses nem cresses
(porque é possível fazer a realidade de tudo isso
sem fazer nada disso);
talvez tenhas existido apenas, como um lagarto
(a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.

Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não
Desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi no espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que
não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever estar história para provar que sou
sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte, da Tabacaria de defronte,
Calcando os pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou â porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os
versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve
a tabuleta,
e a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer
coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo
Por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono
de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa
nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para
comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.

Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que
digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma
conseqüência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás a cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu cassasse com a filha da minha lavadeira
talvez fosse feliz.)
visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.

O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na
algibeira das calças?)
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta)
Como por um instinto divino o Esteves
voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves! e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o
Dono da Tabacaria sorriu.

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