segunda-feira, 4 de maio de 2009



Nahim, Blogs e democracia

Tem lá as suas razões o vereador Nelson Nahim, presidente da Câmara Municipal de Campos, ao sentir-se incomodado com as críticas que a instituição vem recebendo na mídia, especialmente nos Blogs.Mas quem manda suas excelências darem tantos motivos?Uma “Casa de Leis” que nos últimos anos se acomodou no subalterno papel de mera homologadora da vontade do prefeito (qualquer prefeito!!!), e que praticamente abdicou de sua missão constitucional de fiscalizar os atos do Poder Executivo, deve estar preparada para absorver críticas. É o preço que paga pela opção preferencial da maioria pela adesão obsequiosa ao governo (qualquer governo!!!) em troca de emendas, empregos para afilhados e outros favores.No ano passado, por exemplo, a Câmara Municipal teve a oportunidade de sair do atoleiro e preferiu afundar-se ainda mais: as duas comissões processantes criadas para investigar o governo Mocaiber foram arquivadas por “falta de provas”. Conclusão vergonhosa diante da montanha de provas e indícios disponíveis nos processos oriundos da “Operação Telhado de Vidro”, quando os principais assessores do prefeito foram presos, e o próprio, afastado por 43 dias.O desabafo do presidente da Câmara em relação aos que chamou de “bloguistas desocupados” e aos quais ameaçou com processos judiciais, não deve ser entendido como nada mais que um arroubo de retórica. Democrata como é, Nahim sabe que no estado democrático de direito, prevalece a livre manifestação do pensamento e a liberdade de expressão nos limites da lei. Qualquer cidadão, pois, que entender-se atingido em sua honra pode e deve buscar no Judiciário a reparação do dano.
Nada mais que isso.Cabe aos jornalistas e “bloguistas” exercerem o seu sagrado direito de informar e opinar com o mesmo decoro e responsabilidade que se espera de suas excelências.

Rciardo André
http://ricandrevasconcelos.blogspot.com/
Celso Borges e a poesia do atrito
por Flávio Reis e Reuben da Cunha


A agulha não risca mais o disco, a página não prende mais a palavra.
O poeta Celso Borges escreveu Música. Babel de linguagens:
há muito mais em Música do que música.
Também não é apenas um livro, é um livro-limite, uma obra de risco.
Poesia é risco. Seria fácil se fosse um livro com um disco encartado.
Não é fácil.
Música é uma fina malha de linguagens, um intrincado jogo intersemiótico
cuja via fundamental de construção é o som.
Ouvinte compulsivo, Celso Borges coloca o headphone
para revolver o texto. A poesia (certa poesia) desde o século XIX
percorre um perigoso caminho até a implosão.
Até o silêncio. Aqui é outra coisa, o avesso do silêncio,
a perseguição de uma linha de atrito entre canto e fala.
Como anuncia o poeta: dar uma estrutura sonora ao poema,
além de sua sonoridade natural.
No lugar do silêncio, então, atrito.
Através das apropriações de clichês da poesia, da música e do cinema,
sentidos são reinventados, pulsam nos momentos de encontro entre palavra,
som e projeto gráfico. Drummond, João Cabral, Oswald, Vinícius, Bressane,
Bob Dylan, Nauro Machado, Euclides da Cunha, Dona Teté e Verlaine,
Augusto de Campos e o boizinho de Dona Camélia.
Tudo misturado, muitas vezes triturado e cuspido, satirizado.
As letras se misturam, as palavras se interpenetram,
os ditos se confundem. Um tom de colagem atravessa
Música, não apenas nos detalhes da programação visual
ou nas superposições de sons, aparece principalmente como texto.
Americana: bela balada costurada com versos de Celso e traduções de Bob Dylan.
O silêncio dos poetas: poema escrito para acabar nas palavras de Alberto Pimenta.
Mural: texto-montagem composto a partir de matérias de jornal,
versos de Celso e de outros poetas.
A profusão de referências, que ao longo das últimas décadas
tem se refletido no acúmulo crescente de autômatos desatentos
na fileira dos humanos, aparece na poesia de Celso
com alto grau de concentração, expondo impasses da cultura contemporânea,
dando porrada na palavra anódina da “prosa com prazo de vencimento”
e dos “verbos de plástico” de rimas gastas e radicalismos de proveta.
A palavra banal e fragmentada que se tornou nossa regra de comunicação
vira galáxia de significados na poesia de Celso Borges. D
o caos de citações Celso fabrica sentido.
Volta à lição de velhos iconoclastas da cultura:
contra a especialização dos fazeres e a mumificação das formas,
o antídoto da experimentação.
As manifestações da memória afetiva que liga o poeta a São Luís,
cidade amada e odiada com esquizofrênica intensidade,
também são peça fundamental neste trabalho.
Pedaços da cidade espalham-se pelos textos e sons.
São paisagens, melodias, endereços que se friccionam
violentamente com os signos da experiência paulistana do autor,
seu presente ausente. Quanto mais pensa ainda ser um retirante
com o eterno sentimento da volta, mais Celso se vê “emaranhado em Sampa”.
Uma poesia dependente deste afeto e desta dor por
uma cidade perdida no passado e ao mesmo tempo uma poesia
de procedimentos absolutamente contemporâneos.
A rua da infância e o futuro.
Olhos sem idade, despidos de saudosismo.
S.Luís: segundo movimento: a
“ilha cercada de inveja por todos os lados”
ridicularizada em seu altivo provincianismo,
metralhada pela ira dos versos colados aos de Nauro Machado
e pela pancada crua da banda T.A Calibre

1. Compondo o quadro, closes terríveis das carrancas da fonte do Ribeirão.
O projeto conta com a participação de alguns nomes
conhecidos da música popular, como Chico César, Zeca Baleiro e Cordel do Fogo Encantado. Outros, como o do ótimo Otávio Rodrigues, DJ e compositor,
e Vitor Ramil, compositor precioso que quase apenas o sul do país conhece.
Sem falar na pequena multidão que participa do livro/disco
em diferentes dosagens, uma rede de poetas, músicos,
sonhadores e doidos de vários matizes belamente
apresentada na faixa Celebração.
Os encontros produzem resultados variados, da palavra cantada
à palavra sonorizada.
Samplers, fragmentos chapados de significado,
ritmos, melodias, cantos e falas.
Trabalho de muitas mãos. Verso de muitas vozes.

postado por Zema Ribeiro

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