terça-feira, 12 de maio de 2009






































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Sesc Campos
Mataram A Poesia e Ferreira Gullar Jura Que Não Foi Ele

Lendo a nota sobre a vinda a Campos da poeta e filósofa Viviane Mosé, não poderia deixar de nos lembrar dos tempos áureos do FestCampos de Poesia Falada. Em 2oo2 Viviane Mosé foi a vencedora do Festival com o poema Receita Para Lavar Palavra Suja, o que confere bem uma mostra da importância do evento, como citamos abaixo. Além de Viviane Mosé, outro poeta brasileiro de renome internacional, Sérgio de Castro Pinto, também foi concorrente e vencedor no ano de 2000 na segunda Edição do evento com o poema Camões/Lampião. Relendo o poema em questão dá perfeitamente para se entender o que é cegueira e miopia, duas deficiências visuais encontrada em larga escala nessa nossa Sucupira dos Goytacazes.


camões/lampião

camões ao habitar-seno olho cego
sentia-se íntimo,
mais interno
que o habitar-se
no olho aberto.

lampião ao habitar-se
nos dois olhos
a eles dividia:
o olho aberto matava
e o outro se arrependia.

camões ao habitar-se
no olho cego
polia as palavras
e usava-as absorto
como se apalpasse
e possuísse o próprio corpo.

lampião ao habitar-se
no olho cego
chorava os mortos
do seu interno,
mas o olho aberto
era castoe via no matar
um gesto beato.

camões ao habitar-se
no olho aberto
via-se todo ao inverso(pelo lado de fora)
mas rápido se devolvia
e fechava o olho aberto
pra ser total a miopia.

lampião ao habitar-seno olho murcho
via o olho abertoe
strábico e rústico
e compreendiao olho aberto
mais murcho
que o olho cego.

camões ao habitar-se
no olho murcho
via o mundo claro
dentro do escuro
e o olho aberto
era inútil
ao habitar-se
no olho murcho.

lampião atrás dos óculos
sentia-se acrescido, somado
e era mais lampião
naqueles óculos de aro.

os óculoslhe eram binóculos
íntimos sobre a miopia
e quando os óculos tirava
lampião se decrescia:
o olho cego somavae o aberto diminuía.

camões molhava a pena
como se no tinteiro
molhasse o olho cego
e tateando, cuidadoso,
saía do seu interno.

(no tinteiro as palavra
sem forma líquida
juntam-se uma a uma
à retina, à pupila).

camões escrevia com o olho cego
por sentí-lo mais seu
do que o olho aberto
e por poder o olho cego
infiltrar-se, ir mais dentro
e externar o seu inverso.


SÉRGIO DE CASTRO PINTO

O poeta, professor e jornalista Sérgio Castro Pinto nasceu em João Pessoa, na Paraíba, é formado em Direito e exerce a docência de Literatura Brasileira na Universidade Federal da Paraíba – UFPB. O seu doutoramento ocorreu abordando temática alusiva a Manuel Bandeira e Mário Quintana. E hoje ocupa a cadeira de número 39 na Academia Paraibana de Letras, cujo patrono é o escritor José Lins do Rego. Dentre suas obras estão: Gestos lúcidos, edições Sanhauá, 1967; A ilha na ostra, edições Sanhauá, 1970; Domicílio em trânsito, Civilização Brasileira, 1983; O cerco da memória, UFPB, 1993; A quatro mãos, 1996 (poesias, com ilustração de Flávio Tavares); Longe daqui, aqui mesmo(tese de doutorado – Mário Quintana); e Os paralelos insólitos, discurso de posse na APL.

Como poeta já participou de antologias poéticas publicadas em Portugal e Espanha. Nos Estados Unidos teve trechos do poema “Camões/Lampião” traduzidos por Fred Ellison, professor emérito da Universidade do Texas, e incluídos na coletânea “Camões Feast”. No Brasil participou de várias antologias como “Os cem melhores poetas brasileiros do século” e “Sincretismo: a poesia da geração 60”. Sérgio de Castro Pinto também foi agraciado com prêmios em nível nacional e o mais recente deles foi o “Guilherme de Almeida”, promovido pela União Brasileira de Escritores, pela obra “Zôo imaginário”, considerada pela comissão julgadora o melhor livro de poesia do ano de 2005. A sua poesia é bastante elogiada e obteve sucesso de crítica e público.
Sem essa de dizer que a pressa
É inimiga da perfeição
Eu sou amigo da pressa
Perfeição não me interessa
O que é perfeito está morto
Eu quero o falho o feio o torto
Quero os pecados da alma
E as imperfeições do corpo
Se a pressa inimiga da perfeição
É amiga da mudança
Irmão da revolução

Boca fechada não entra mosca
Mas também não sai palavra
Quem cala consente
Quem sente fala
O silêncio pode ser uma jaula
É preciso estar atento
É preciso ter cuidado
Uma coisa é silêncio
Outra é ser silenciado

Lei do silêncio não faz sentido
O mundo sem palavras é quadrado
Boca fechada não faz meu tipo
O meu estilo é ser articulado

Eliakin Rufino
Poeta filósofo. Professor da Universidade Estadual de Roraima. Autor de Cavalo Selvagem, interpretação que lhe conferiu prêmio de segundo melhor intérprete no IV FestCampos de Poesia Falada - 2003

GUARDAR

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
.Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.
Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro
Do que um pássaro sem vôos.
Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.

Antonio Cicero
poeta.filósofo.letrista,
de grandes canções
em parcerias com Marina Lima(irmã)
e Adriana Calcanhoto

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