quarta-feira, 27 de maio de 2009


blog and roll - fotos: wellington cordeiro e armandinho ribeiro
A banda Evolução da Espécie, por mais de uma hora levou a galera ao delírio, com uma performance primorosa do seu vocalista Felipe.


































































































Manifesto Antropofágico
Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente.
Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz.
Tupi, or not tupi that is the question.
Contra todas as catequeses. E contra a mãe dos Gracos.
Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago.
Estamos fatigados de todos os maridos católicos suspeitosos postos em drama. Freud acabou com o enigma mulher e com outros sustos da psicologia impressa.
O que atropelava a verdade era a roupa, o impermeável entre o mundo interior e o mundo exterior. A reação contra o homem vestido. O cinema americano informará.
Filhos do sol, mãe dos viventes. Encontrados e amados ferozmente, com toda a hipocrisia da saudade, pelos imigrados, pelos traficados e pelos touristes. No país da cobra grande.
Foi porque nunca tivemos gramáticas, nem coleções de velhos vegetais. E nunca soubemos o que era urbano, suburbano, fronteiriço e continental. Preguiçosos no mapa-múndi do Brasil.
Uma consciência participante, uma rítmica religiosa.
Contra todos os importadores de consciência enlatada. A existência palpável da vida. E a mentalidade pré-lógica para o Sr. Lévy-Bruhl estudar.
Queremos a Revolução Caraiba. Maior que a Revolução Francesa. A unificação de todas as revoltas eficazes na direção do homem. Sem n6s a Europa não teria sequer a sua pobre declaração dos direitos do homem.
A idade de ouro anunciada pela América. A idade de ouro. E todas as girls.
Filiação. O contato com o Brasil Caraíba. Ori Villegaignon print terre. Montaig-ne. O homem natural. Rousseau. Da Revolução Francesa ao Romantismo, à Revolução Bolchevista, à Revolução Surrealista e ao bárbaro tecnizado de Keyserling. Caminhamos..
Nunca fomos catequizados. Vivemos através de um direito sonâmbulo. Fizemos Cristo nascer na Bahia. Ou em Belém do Pará.
Mas nunca admitimos o nascimento da lógica entre nós.
Contra o Padre Vieira. Autor do nosso primeiro empréstimo, para ganhar comissão. O rei-analfabeto dissera-lhe : ponha isso no papel mas sem muita lábia. Fez-se o empréstimo. Gravou-se o açúcar brasileiro. Vieira deixou o dinheiro em Portugal e nos trouxe a lábia.
O espírito recusa-se a conceber o espírito sem o corpo. O antropomorfismo. Necessidade da vacina antropofágica. Para o equilíbrio contra as religiões de meridiano. E as inquisições exteriores.
Só podemos atender ao mundo orecular.
Tínhamos a justiça codificação da vingança. A ciência codificação da Magia. Antropofagia. A transformação permanente do Tabu em totem.
Contra o mundo reversível e as idéias objetivadas. Cadaverizadas. O stop do pensamento que é dinâmico. O indivíduo vitima do sistema. Fonte das injustiças clássicas. Das injustiças românticas. E o esquecimento das conquistas interiores.
Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros.
O instinto Caraíba.
Morte e vida das hipóteses. Da equação eu parte do Cosmos ao axioma Cosmos parte do eu. Subsistência. Conhecimento. Antropofagia.
Contra as elites vegetais. Em comunicação com o solo.
Nunca fomos catequizados. Fizemos foi Carnaval. O índio vestido de senador do Império. Fingindo de Pitt. Ou figurando nas óperas de Alencar cheio de bons sentimentos portugueses.
Já tínhamos o comunismo. Já tínhamos a língua surrealista. A idade de ouro.
Catiti Catiti
Imara Notiá
Notiá Imara
Ipeju*
A magia e a vida. Tínhamos a relação e a distribuição dos bens físicos, dos bens morais, dos bens dignários. E sabíamos transpor o mistério e a morte com o auxílio de algumas formas gramaticais.
Perguntei a um homem o que era o Direito. Ele me respondeu que era a garantia do exercício da possibilidade. Esse homem chamava-se Galli Mathias. Comia.
Só não há determinismo onde há mistério. Mas que temos nós com isso?
Contra as histórias do homem que começam no Cabo Finisterra. O mundo não datado. Não rubricado. Sem Napoleão. Sem César.
A fixação do progresso por meio de catálogos e aparelhos de televisão. Só a maquinaria. E os transfusores de sangue.
Contra as sublimações antagônicas. Trazidas nas caravelas.
Contra a verdade dos povos missionários, definida pela sagacidade de um antropófago, o Visconde de Cairu: – É mentira muitas vezes repetida.
Mas não foram cruzados que vieram. Foram fugitivos de uma civilização que estamos comendo, porque somos fortes e vingativos como o Jabuti.
Se Deus é a consciênda do Universo Incriado, Guaraci é a mãe dos viventes. Jaci é a mãe dos vegetais.
Não tivemos especulação. Mas tínhamos adivinhação. Tínhamos Política que é a ciência da distribuição. E um sistema social-planetário.
As migrações. A fuga dos estados tediosos. Contra as escleroses urbanas. Contra os Conservatórios e o tédio especulativo.
De William James e Voronoff. A transfiguração do Tabu em totem. Antropofagia.
O pater famílias e a criação da Moral da Cegonha: Ignorância real das coisas+ fala de imaginação + sentimento de autoridade ante a prole curiosa.
É preciso partir de um profundo ateísmo para se chegar à idéia de Deus. Mas a caraíba não precisava. Porque tinha Guaraci.
O objetivo criado reage com os Anjos da Queda. Depois Moisés divaga. Que temos nós com isso?
Antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade.
Contra o índio de tocheiro. O índio filho de Maria, afilhado de Catarina de Médicis e genro de D. Antônio de Mariz.
A alegria é a prova dos nove.
No matriarcado de Pindorama.
Contra a Memória fonte do costume. A experiência pessoal renovada.
Somos concretistas. As idéias tomam conta, reagem, queimam gente nas praças públicas. Suprimarnos as idéias e as outras paralisias. Pelos roteiros. Acreditar nos sinais, acreditar nos instrumentos e nas estrelas.
Contra Goethe, a mãe dos Gracos, e a Corte de D. João VI.
A alegria é a prova dos nove.
A luta entre o que se chamaria Incriado e a Criatura – ilustrada pela contradição permanente do homem e o seu Tabu. O amor cotidiano e o modusvivendi capitalista. Antropofagia. Absorção do inimigo sacro. Para transformá-lo em totem. A humana aventura. A terrena finalidade. Porém, só as puras elites conseguiram realizar a antropofagia carnal, que traz em si o mais alto sentido da vida e evita todos os males identificados por Freud, males catequistas. O que se dá não é uma sublimação do instinto sexual. É a escala termométrica do instinto antropofágico. De carnal, ele se torna eletivo e cria a amizade. Afetivo, o amor. Especulativo, a ciência. Desvia-se e transfere-se. Chegamos ao aviltamento. A baixa antropofagia aglomerada nos pecados de catecismo – a inveja, a usura, a calúnia, o assassinato. Peste dos chamados povos cultos e cristianizados, é contra ela que estamos agindo. Antropófagos.
Contra Anchieta cantando as onze mil virgens do céu, na terra de Iracema, – o patriarca João Ramalho fundador de São Paulo.
A nossa independência ainda não foi proclamada. Frape típica de D. João VI: – Meu filho, põe essa coroa na tua cabeça, antes que algum aventureiro o faça! Expulsamos a dinastia. É preciso expulsar o espírito bragantino, as ordenações e o rapé de Maria da Fonte.
Contra a realidade social, vestida e opressora, cadastrada por Freud – a realidade sem complexos, sem loucura, sem prostituições e sem penitenciárias do matriarcado de Pindorama.
OSWALD DE ANDRADE Em Piratininga Ano 374 da Deglutição do Bispo Sardinha." (Revista de Antropofagia, Ano 1, No. 1, maio de 1928.)
* "Lua Nova, ó Lua Nova, assopra em Fulano lembranças de mim", in O Selvagem, de Couto Magalhães
Oswald de Andrade alude ironicamente a um episódio da história do Brasil: o naufrágio do navio em que viajava um bispo português, seguido da morte do mesmo bispo, devorado por índios antropófagos.
Poesia Pau Brasil
A poesia existe nos fatos. Os casebres de açafrão e de ocre nos verdes da Favela, sob o azul cabralino, são fatos estéticos.
O Carnaval no Rio é o acontecimento religioso da raça. Pau-Brasil. Wagner submerge ante os cordões de Botafogo. Bárbaro e nosso. A formação étnica rica. Riqueza vegetal. O minério. A cozinha. O vatapá, o ouro e a dança.
Toda a história bandeirante e a história comercial do Brasil. O lado doutor, o lado citações, o lado autores conhecidos. Comovente. Rui Barbosa: uma cartola na Senegâmbia. Tudo revertendo em riqueza. A riqueza dos bailes e das frases feitas. Negras de Jockey. Odaliscas no Catumbi. Falar difícil.
O lado doutor. Fatalidade do primeiro branco aportado e dominando politicamente as selvas selvagens. O bacharel. Não podemos deixar de ser doutos. Doutores. País de dores anônimas, de doutores anônimos. O Império foi assim. Eruditamos tudo. Esquecemos o gavião de penacho.
A nunca exportação de poesia. A poesia anda oculta nos cipós maliciosos da sabedoria. Nas lianas da saudade universitária.
Mas houve um estouro nos aprendimentos. Os homens que sabiam tudo se deformaram como borrachas sopradas. Rebentaram.
A volta à especialização. Filósofos fazendo filosofia, críticos, critica, donas de casa tratando de cozinha.
A Poesia para os poetas. Alegria dos que não sabem e descobrem.
Tinha havido a inversão de tudo, a invasão de tudo : o teatro de tese e a luta no palco entre morais e imorais. A tese deve ser decidida em guerra de sociólogos, de homens de lei, gordos e dourados como Corpus Juris.
Ágil o teatro, filho do saltimbanco. Agil e ilógico. Ágil o romance, nascido da invenção. Ágil a poesia.
A poesia Pau-Brasil. Ágil e cândida. Como uma criança.
Uma sugestão de Blaise Cendrars : – Tendes as locomotivas cheias, ides partir. Um negro gira a manivela do desvio rotativo em que estais. O menor descuido vos fará partir na direção oposta ao vosso destino.
Contra o gabinetismo, a prática culta da vida. Engenheiros em vez de jurisconsultos, perdidos como chineses na genealogia das idéias.
A língua sem arcaísmos, sem erudição. Natural e neológica. A contribuição milionária de todos os erros. Como falamos. Como somos.
Não há luta na terra de vocações acadêmicas. Há só fardas. Os futuristas e os outros.
Uma única luta – a luta pelo caminho. Dividamos: Poesia de importação. E a Poesia Pau-Brasil, de exportação.
Houve um fenômeno de democratização estética nas cinco partes sábias do mundo. Instituíra-se o naturalismo. Copiar. Quadros de carneiros que não fosse lã mesmo, não prestava. A interpretação no dicionário oral das Escolas de Belas Artes queria dizer reproduzir igualzinho... Veio a pirogravura. As meninas de todos os lares ficaram artistas. Apareceu a máquina fotográfica. E com todas as prerrogativas do cabelo grande, da caspa e da misteriosa genialidade de olho virado – o artista fotógrafo.
Na música, o piano invadiu as saletas nuas, de folhinha na parede. Todas as meninas ficaram pianistas. Surgiu o piano de manivela, o piano de patas. A pleyela. E a ironia eslava compôs para a pleyela. Stravinski.
A estatuária andou atrás. As procissões saíram novinhas das fábricas.
Só não se inventou uma máquina de fazer versos – já havia o poeta parnasiano.
Ora, a revolução indicou apenas que a arte voltava para as elites. E as elites começaram desmanchando. Duas fases: 10) a deformação através do impressionismo, a fragmentação, o caos voluntário. De Cézanne e Malarmé, Rodin e Debussy até agora. 20) o lirismo, a apresentação no templo, os materiais, a inocência construtiva.
O Brasil profiteur. O Brasil doutor. E a coincidência da primeira construção brasileira no movimento de reconstrução geral. Poesia Pau-Brasil.
Como a época é miraculosa, as leis nasceram do próprio rotamento dinâmico dos fatores destrutivos.
A síntese
O equilíbrio
O acabamento de carrosserie
A invenção
A surpresa
Uma nova perspectiva
Uma nova escala.
Qualquer esforço natural nesse sentido será bom. Poesia Pau-Brasil
O trabalho contra o detalhe naturalista – pela síntese; contra a morbidez romântica – pelo equilíbrio geômetra e pelo acabamento técnico; contra a cópia, pela invenção e pela surpresa.
Uma nova perspectiva.
A outra, a de Paolo Ucello criou o naturalismo de apogeu. Era uma ilusão ética. Os objetos distantes não diminuíam. Era uma lei de aparência. Ora, o momento é de reação à aparência. Reação à cópia. Substituir a perspectiva visual e naturalista por uma perspectiva de outra ordem: sentimental, intelectual, irônica, ingênua.
Uma nova escala:
A outra, a de um mundo proporcionado e catalogado com letras nos livros, crianças nos colos. O redame produzindo letras maiores que torres. E as novas formas da indústria, da viação, da aviação. Postes. Gasômetros Rails. Laboratórios e oficinas técnicas. Vozes e tics de fios e ondas e fulgurações. Estrelas familiarizadas com negativos fotográficos. O correspondente da surpresa física em arte.
A reação contra o assunto invasor, diverso da finalidade. A peça de tese era um arranjo monstruoso. O romance de idéias, uma mistura. O quadro histórico, uma aberração. A escultura eloquente, um pavor sem sentido.
Nossa época anuncia a volta ao sentido puro.
Um quadro são linhas e cores. A estatuária são volumes sob a luz.
A Poesia Pau-Brasil é uma sala de jantar domingueira, com passarinhos cantando na mata resumida das gaiolas, um sujeito magro compondo uma valsa para flauta e a Maricota lendo o jornal. No jornal anda todo o presente.
Nenhuma fórmula para a contemporânea expressão do mundo. Ver com olhos livres.
Temos a base dupla e presente – a floresta e a escola. A raça crédula e dualista e a geometria, a algebra e a química logo depois da mamadeira e do chá de erva-doce. Um misto de "dorme nenê que o bicho vem pegá" e de equações.
Uma visão que bata nos cilindros dos moinhos, nas turbinas elétricas; nas usinas produtoras, nas questões cambiais, sem perder de vista o Museu Nacional. Pau-Brasil.
Obuses de elevadores, cubos de arranha-céus e a sábia preguiça solar. A reza. O Carnaval. A energia íntima. O sabiá. A hospitalidade um pouco sensual, amorosa. A saudade dos pajés e os campos de aviação militar. Pau-Brasil.
O trabalho da geração futurista foi ciclópico. Acertar o relógio império da literatura nacional.
Realizada essa etapa, o problema é outro. Ser regional e puro em sua época.
O estado de inocência substituindo o estada de graça que pode ser uma atitude do espírito.
O contrapeso da originalidade nativa para inutilizar a adesão acadêmica.
A reação contra todas as indigestões de sabedoria. O melhor de nossa tradição lírica. O melhor de nossa demonstração moderna.
Apenas brasileiros de nossa época. O necessário de química, de mecânica, de economia e de balística. Tudo digerido. Sem meeting cultural. Práticos. Experimentais. Poetas. Sem reminiscências livrescas. Sem comparações de apoio. Sem pesquisa etimológica. Sem ontologia.
Bárbaros, crédulos, pitorescos e meigos. Leitores de jornais. Pau-Brasil. A floresta e a escola. O Museu Nacional. A cozinha, o minério e a dança. A vegetação. Pau-Brasil.
OSWALD DE ANDRADE (Correio da Manhã, 18 de março de 1924.)
Antropofagia é o ato de consumir uma parte, várias partes ou a totalidade de um ser humano. O sentido etimológico original da palavra "antropófago" (do grego anthropos, "homem" e phagein, "comer") foi sendo substituído pelo uso comum, que designa o caso particular de canibalismo na espécie humana.
A diferença entre antropofagia e canibalismo é que o canibal come porque necessita, porque está com fome. Já na antropofagia o homem come porque acredita que os poderes da "pessoa alimento" vão passar para ele.
O Manifesto Antropófago (ou Manifesto Antropofágico) foi escrito por Oswald de Andrade. Foi lido em 1928 para seus amigos na casa de Mário de Andrade. Foi publicado na Revista de Antropofagia, que ajudou a fundar com os amigos Raul Bopp e Antônio de Alcântara Machado.
A antropofagia foi tematizada por Oswald nesse Manifesto, mas também reapareceu outras vezes em sua obra. Em Marco Zero I (1943), romance de Oswald escrito sob influência do
marxismo e da arte realista mexicana, surgiu o personagem Jack de São Cristóvão, relembrando a antropofagia e celebrando-a como uma saída para o problema de identidade brasileiro e mesmo como antídoto contra o imperialismo. Na maturidade, Oswald buscou fundamentação filosófica para a antropofagia, ligando-a a Nietzsche, Engels, Bachofen, Briffault e outros autores, tendo escrito a respeito até teses, como a Decadência da Filosofia Messiânica, incluído em A Utopia Antropofágica e outras utopias, lançado, como toda sua obra, pela editora Globo a partir dos anos 80.
Estilhaços no lago de púrpura
Uma leitura teriomórfica

Feliz posfácio de Ronald Polito para o poema de um só fôlego de Wilmar Silva intitulado Estilhaços no lago de púrpura. Além de motivar a recepção pelo leitor mediante focos eivados de surrealismo, contra-cultura beatnik, hiper-realismo ou laivos hodiernos de um neo-barroco, o crítico detém-se na vertente que aponta para uma “tentativa de organização de uma para-realidade”, a qual, por sua vez, “pressupõe uma organicidade primeira, anterior ao “eu” e seus “objetos”, que talvez a poesia possa reencontrar reencantando o mundo e a si mesma.”
A leitura crítica é também esclarecedora ao assinalar, no livro, um posicionamento “para além da natureza porque um “eu” precisa devorar mitologias, reproduzi-las ou fundar outras, investindo com faunos e curupiras ao sair para a guerra que é a vida.”
É esse foco que sobremaneira interessa-me esclarecer, consciente de haver em Estilhaços no lago de púrpura umas tantas outras incursões igualmente merecedoras de olhares verticais. Essa visão abrangente agrega desde a purgação telúrica a uma sertanização da experiência subjetiva de um poeta devoto às raízes dos cerrados de Rio Paranaíba, região agreste compósita de uma mineiridade incomum na poesia.
Como incorpora uma estética da repetição que trabalha palavras-situações freqüentes em um memorialismo da terra de origem e, ainda, uma aventura narcísico-erótica que torna a alteridade procurada o êxtase de si mesma.
Ao eleger “afetividades seletivas”, Wilmar Silva está inteirado de que pós-moderno é o que tem raiz e de que essa é a conditio da fragmentação epistêmico-poética a exigir do autor, hoje, a neuedichte – nova densidade na produção do estranhamento. É aí que o poeta esperneia para (se) dizer, donde justificar-se, na produção contemporânea, a pluralidade de diretrizes norteadoras de escolhas também múltiplas.
Os desdobramentos neo-barrocos de Wilmar Silva expõem descrições fraturadas oriundas de muitas tradições, desde cânones que inclusive evocam para si cantares medievais, a rupturas imprescindíveis com as vanguardas históricas, em função da sobrevivência da própria poesia.
O autor se coloca, como indica Perloff, como “o falante isolado numa paisagem específica [diante/dentro/a favor/contra] a qual medita ou rumina sobre algum aspecto de sua relação exterior, chegando por fim a alguma sorte de epifania, um momento de percepção em que o poema se encerra.”
Nesse sentido, Estilhaços no lago de púrpura inclui-se entre as publicações recentes que intentam (e conseguem) trabalhar uma linguagem revitalizada de sentido. E cabe a ela, para justificar sua raridade, apud Rodrigo Garcia Lopes, “ser crítica, exploratória, surpreendente, revelatória, celebratória.”

O homem bicho do homem
O reencantamento do mundo almejado por Wilmar Silva pressupõe assumir o poeta os riscos de elaborar um imaginário complexo.
Observe-se os fragmentos seguintes: “sou este cavalo com escamas nas crinas” (1) – “coiote eu/eu hiena” (2) – “sonho caçar as mulas que habitam pântanos nas orelhas” – “um lobo eu faminto” – “sou este que brame no desespero de cigarra – um grilo com aquele cricri” (3) – “eu gambá” (4) – “eu murmuro salmos para suspender as jias” (5) – “sou eu as barbatanas que cingem minhas pálpebras de algas e arcos” (7) – “eu disse serpentes com a voz contida” (10) – “sou esta tarântula aninhada nas axilas” – “sou esta mula que debate bestas nos olhos” – “sou este mulo que apenas você há de desvendar” (11) – “eu/uma semente que tem cabeça e faz dormir uma onça com um leão e uma jandaia em meu ventre” (14) – “sou esta novilha com êxtase de égua no curral” (17) – “sou este corcel/eu um corço entre avestruz e seriemas – sou esta ema com onze penas de pavão – (...) – eu e minha fazenda de poemas” (19) – “um animal com rimas que dizem líricas” (24) – “sou esta represa onde peixes nascem da terra” – “eu este wilmar silva que vira cavala” (28).
O bestiário constitui sobremaneira a intentio auctoris de Wilmar Silva e da poesia de Estilhaços. Trata-se de procedimento usual na literatura do mundo, cujo primeiro livro em verso de caráter religioso é o de título homônimo, de Philippe de Thaon (século XII); em nível profano é apontado também o homônimo de Richard de Fournival. Há considerável bibliografia referente ao tema, caso de Manoel de Barros, o Borges de “O livro dos seres imaginários”; Júlio Cortazar em “Bestiário”; do poeta paraguaio radicado no México, Victor Sosa, autor, entre outros, de “Los animales furiosos”; do mexicano Juan José Arreola, autor de “Bestiário”; do carioca Marco Luchesi de “Meridiano celeste & bestiário”, do Augusto de Campos também de “Bestiário em poesia é risco”; de Astrud Cabral em “Jaula”, a prosa do mineiro Abelardo de Carvalho, também em “Bestiário”; na tradição surrealista “O bestiário ou cortejo de Orfeu”, de Apollinaire; de algumas parábolas de Kafka.
O poema de um só fôlego de Wilmar Silva inscreve-se entre os que têm “algo em sua imagem que se harmoniza com a imaginação dos homens”, como afirma Borges.
Esse bestiário reflete a (convivência do poeta com a dura vida rural, que é, em contrapartida, encantatória e esterco do imaginário. Parece ele querer “resgatar o pertencimento humano à natureza”, como opor-se ao “recalcamento progressivo do sentido das metáforas.” Por sua linguagem surrealírica, o livro é um libelo crítico à razão aristotélica, questiona a si mesma e propõe uma nomeação que se não é inusitada em nível semântico-lingüístico, surpreende pela contingência do pensar.
Poder-se-ia até admitir Estilhaços como de tendência a um darwinismo cultural, no stricto sensu de traduzir a evolução da vida poética através de nomes e conceitos genéticos da linguagem, ou da luta pela vida, como em Euclides da Cunha.
Animais são componentes do imaginário real transposto à poética por uma dinâmica organizadora de mitologemas, que cria um plano locutório o qual, diz Durand, “assegura uma certa universalidade nas intenções da linguagem e coloca a estruturação simbólica na raiz de qualquer pensamento.”
Nesse sentido, o que a priori resultaria apenas surrealismo (e não seria pouco) em ser “esta lontra com pele de cigarra” (5), “este corpo que segrega mil canários de pedra no azul” (10), “um cavalo indomável” (16) – “este pomar de relevos (...) que alimentem um fauno, uma fauna, um camaleão” (22) etc, evoca a “potência fundamental dos símbolos que é a de ligarem, para lá das contradições naturais, os elementos inconciliáveis, as compartimentações sociais e as segregações dos períodos da história (...), categorias motivantes dos símbolos nos comportamentos elementares do psiquismo humano” (Durand:1977:38). Donde a imaginação ser, no imaginário poético, originária de libertação (défoulement).
A assertiva ressoa em Bachelard quando o mestre fenomenológico assevera serem os eixos das intensões (com S) fundamentais da imaginação os trajetos dos gestos principais do animal humano em direção ao seu meio natural, prolongado pelas instituições primitivas tecnológicas e sociais do homo faber.
Estilhaços seria um longopoema de mitologia pessoal? Exercício de isomorfismo com polarização de imagens? Uma leitura pertinente do livro de Wilmar Silva está em tomar suas metáforas como símbolos teriomórficos. “São as imagens animais as mais freqüentes e comuns”, diz Durand, que acrescenta: “Podemos dizer que nada nos é mais familiar, desde a infância, que as representações animais. O bestiário parece, portanto, solidamente instalado na língua, na mentalidade coletiva e na fantasia individual.”
Por sua vez, Krappe reconhece que “o homem tem assim tendência para a animalização do seu pensamento e uma troca constante faz-se por essa assimilação entre os sentimentos humanos e a animação do animal.”
Pela análise antropológica das estruturas imaginárias de Gilbert Durand, esses símbolos teriomórficos remetem a mitos emblemáticos. E uma razão para isso existir está no fato de que “a imaginação mascara tudo que não a serve.” “O animal, diz Durand, apresenta-se, portanto, como um abstrato espontâneo, o objeto de uma assimilação simbólica, como mostra a universalidade e a pluralidade da sua presença tanto numa consciência civilizada como na mentalidade primitiva. (...) O bestiário parece, portanto, solidamente instalado na língua, na mentalidade coletiva e na fantasia individual.”
Texto ferótico, Estilhaços elenca animais que, pela ótica junguiana, são antigos símbolos fálicos, caso do pássaro, peixe, serpente, burro, touro e cavalo. E Durand adverte: “É por isso necessário ligar a imaginação teriomórfica a uma camada ontogenética mais primitiva que o Édipo, e sobretudo a uma motivação mais universalizável.”
O livro de Wilmar Silva tem uma capacidade envolvente do leitor, que se torna o “eu”-bicho do narrador-poeta e que faz na alteridade o seu igual em todo ser humano que pensa, poeticamente, no zoológico das palavras.
Márcio Almeida é mestre em Literatura, jornalista, poeta, criador do Movimento de Resgate do Autor Inédito e Anônimo de Oliveira. marcioal@vertentes.com.br







Nenhum comentário:

Postar um comentário