sábado, 23 de maio de 2009


Beatriz a Faustino

pudesse eu divagar pelos teus poros
bosque do teu reino em teus pêlos mergulhar contigo o mar da fonte
atravessar da carne a pele a ponte
penetrar no orgasmo dos teus selos.

pudesse eu cavalgar por tuas crinas
no dorso cavalar onde deflora
deixando assim então de ser menina
e me tornar mulher por toda sina
no inferno céu da tua hora



bolero blue
beber desse conhac
em tua boca
para matar a febre
nas entranhas entre dentes
indecente
é a forma que te como
bebo ou calo
e se não falo quando quero
na balada ou no bolero
não é por falta de desejo
é que a fome desse beijo
furta qualquer outra
palavra presa
como caça indefesa
dentro da carne
que não sai


Engenho 484
p/Jiddu Saldanha


arrancar do gesto
a palavra chave
da palavra a imagem xis
tudo por um risco
tudo por um triz


o trem bala cospe esqueletos
no depósito da central
fuzil pode ser nosso brinquedo
novo enredo
para o próximo
carNAval


Flor do Pampa


essa flor aqui em minha boca
vermelha rosa que floriu nos pampas
traz a seiva de uma terra santa
que todo mês
fazendo sol ou chuva
floresce em vinho a uva
e tudo mais
que o amor fizer


esta rosa aqui agora
que espelha fina estampa
entre os meus dentes
pele e presente de uma musa
que traz nos belos seios
um poema em tua blusa
e na flor da pele
um nome de mulher




não.
não bastaria a poesia de algum bonde
que despenca lua nos meus cílios
num trapézio de pingentes onde a Lapa
carregada de pivetes nos teus arcos
ferindo a fria noite como um tapa
vai fazendo amor por entre os trilhos


não.
não bastaria a poesia cristalina
se rasgando o corpo estão muitas meninas
tentando a sorte em cada porta de metrô
e nós poetas desvendando palavrinhas
vamos dançando uma vertigem
no tal circo voador

não bastaria todo riso pelas praças
nem o amor que os pombos tecem pelos milhos
com os pardais despedaçando nas vidraças
e as mulheres cuidando dos seus filhos

não.
não bastaria delirar Copacabana
e esta coisa de sal que não me engana
a lua na carne navalhando um charme gay
e um cheiro de fêmea no ar devorador
aparentando realismo hiper moderno
num corpo de anjo que não foi meu deus quem fez
esse gosto de coisa do inferno
como provar do amor no posto seis
numa cósmica e profana poesia
entre as pedras e o mar do Arpoador
mistura de feitiço e fantasia
em altas ondas de mistérios que são vossos


não.
não bastaria toda poesia que eu trago
em minha alma um tanto porca
este postal com uma imagem meio Lorca
um bondinho aterrisando lá na Urca
e esta cidade deitando água em meus destroços
pois se o Cristo Redentor deixasse a pedra
na certa nunca mais rezaria padre nossos
e na certa só faria poesia com os meus ossos
Artur Gomes



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