segunda-feira, 4 de maio de 2009



















soluços & soluções

a pressa é o fruto do atraso, portanto o atraso é o verdadeiro inimigo da perfeição.se é que existe perfeição, e se existe, por que haveria de ter inimigo? como aqui o espaço é curto, vamos adiante. a vida sobre rodas torna-se cada vez mais lenta nas grandes cidades. tudo é congestionamento. ninguém parece também mais ser dono de suas próprias pernas, pois caminhamos sem saber ao certo, onde estamos indo realmente. a grande maioria comumente diz estar correndo atrás do prejuízo.não deveria ser o lucro o interesse geral? e que lucro, seria este? o planeta parece ter perdido, não só a direção, mas também o rumo. catástrofes. atentados de todas as espécies.violação dos direitos. indiferença. descasos e abusos. o imenso pacote desumano é pauta de muitas discussões. gerando sempre outras, inevitavelmente. onde residem as soluções? qual será a cor desta primavera que se inicia neste contratempo das estações? haverá flores? a poesia mora ao lado? segundo as leis de causas e efeitos, nenhuma dor vem sozinha. sabemos o que realmente julgamos saber? o futuro vem de onde? tudo soluça expectativas mesclando possibilidades e competitividades. até a própria reciclagem é fator de concorrência e outros interesses. há muitas promessas, mas infelizmente a memória é curta. o absurdo maior é que estamos testemunhando, na preguiça e no progresso do dia-a-dia, o grande desastre da natureza e do ser humano: o esquecimento global.

zhô bertholini
santo andré-sp


À janela dos dias comenta o filme
A Janela

Hoje assisti a um filme memorável, que estreou esta semana em São Paulo: A Janela, do realizador argentino Carlos Sorin. Ao que parece, os argentinos são mestres na abordagem da velhice. Lembro-me de, pelo menos, dois excelentes filmes, o Filho da Noiva (Juan José Campanella) e Elsa e Fred (Marcos Carnevale) onde a velhice é tratada sempre com muita delicadeza e, no caso de Elsa e Fred, também com bom humor.
O filme é muito mais do que o anunciado na divulgação: “homem velho e doente espera chegada do filho que há muito não vê”. Estética de roteiro literário (a ação se passa em apenas um dia e num único cenário), esta “Janela” do título não só remete à janela que o velho Antonio tem à sua frente, em seu leito de morte, mas também àquela que descortina para a memória, a decrepitude, a natureza e o próprio sentido de beleza, constituída pelas cenas de inigualável plasticidade dos campos da Patagônia, onde está situada a fazenda onde vive o personagem, um escritor octogenário.
Tudo no filme convence e arrebata, a começar pelo personagem Antonio, surpreendentemente interpretado por um escritor uruguaio na vida real, também octogenário, em seu primeiro papel no cinema (que, não por acaso, também se chama Antonio, Antonio Larreta) e que empresta ao personagem uma tal dignidade e realismo que talvez fosse difícil de obter até mesmo num ator experimentado. Os outros cineastas argentinos citados (coincidência ou uma tendência?) também utilizaram atores com idades compatíveis às dos personagens, inclusive o próprio Sorin em uma de suas "histórias mínimas". Paralelamente ao drama do velho diante da morte iminente, dúvidas (praticamente nada é revelado do passado dos personagens), delicadezas (a "filmagem" do sonho do personagem e a memória da mãe) bem como críticas sociais, surgem como possibilidades de dramas inseridos no drama.
Uma cena patética, protagonizada pela mulher do pianista, que, na chegada à fazenda (onde não há telefone e tudo é bucolismo e ritmo lento), pergunta ao marido quando é que voltarão, pois não consegue receber ligações no seu telefone celular e entra em desespero quase histérico. Aí está colocado o drama de alguém refém do seu próprio cotidiano, da comunicação instantânea e da tecnologia, que simplesmente não mais consegue “desligar” ou criar um intervalo com outra alternativa, nem mesmo diante de uma paisagem de rara beleza ou de um doente à beira da morte.
Pouco ali é mostrado, mas muito é sugerido, como num bom conto de Bioy Casares ou de Borges, autores argentinos referidos pelo personagem. Concisão e harmonia, diálogo entre imagem (muitas vezes temos a impressão de que estamos diante de pinturas) e palavra (o mínimo que diz muito).
Nota máxima também para a arrebatadora música (a vida) de Nicolas Sorin, filho do cineasta, contrastante com as monótonas batidas de um relógio antigo (o lento caminhar rumo à morte) também a assinalar um tempo rural incompatível com os nossos citadinos e desenfreados dias. Um filme pelo qual valeu ter saído de casa, enfrentado a Via Anchieta e o congestionamento decorrente (presumo eu) não só das atrações da Virada Cultural, mas também do comércio em decorrência do próximo Dias das Mães.

Dalila Teles Veras
http://dalilatelesveras.zip.net/



Ando muito desocupado com blogs

O vereador Nelson Nahim incendiou a blogosfera campista nesta semana com a afirmação de que não iria pautar as suas ações pelo que os blogs publicam. Também afirmou que determinou ao departamento jurídico da Câmara para que fique atento ao que se publica por aí em relação aos nobres e ilibados edis desta igualmente honrada planície. E, não satisfeito, disse ainda que escrever em blogs é coisa de desocupados.Se uma autoridade do município, eleito pelo voto popular, e, no caso da sessão da última terça-feira, no exercício da presidência do Legislativo, assim se refere ao mais interessante fenômeno da comunicação dos últimos tempos, o que esperar da qualidade da sua representação?Começa pelo conceito de desocupado, que é autoritário por princípio. Faz bastante tempo que a ética do trabalho é questionável e o conceito de ocupado ou não ocupado é bastante relativizado. Além do mais, estar ocupado é um atributo que não pode ser confundido com a relevância daquilo com o que se ocupa. Por exemplo: a se ocupar com os tipos de atividades que muitos políticos se ocupam, prefiro mesmo ser um desocupado.Não tenho dúvida, ainda a título de ilustração didática, que o senhor Nelson Nanhim é um homem muito ocupado. No entanto, depois das suas declarações, começo a ter dúvidas acerca da relevância do que ele faz. O que este episódio demonstra é que tanto o vereador Nanhim quanto muitos outros vereadores e integrantes do governo municipal - e não somente em Campos, claro - não estão habituados a entenderem o exercício das suas atribuições públicas como de fato o são: públicas. Têm horror a qualquer incômodo fiscalizatório e, de modo arrogante, se imaginam iluminados no exercício do poder.Fico imaginando se chegasse aqui a campanha do "adote um vereador", onde um internauta escolhe um parlamentar para ficar no seu pé, fiscalizar todos os seus atos, e divulgar para a população pelos meios possíveis. Mesmo prestando serviço de tamanha importância pública, provavelmente estes fiscais comunitários seriam considerados desocupados por personagens como Nanhim.Este caso também confirma a hipótese de que a democracia existe apenas na medida em que são oferecidas forças contrárias ao exercício de um determinado poder. Dito de outro modo: se pudesse, todo governo fecharia o Congresso, todo comerciante mataria o fiscal, todo ser humano retiraria todas as barreiras existentes entre ele e o que deseja fazer.Mas a idéia de vida em civilização consiste justamente em conviver com os limites dos interesses da coletividade, do contrário facilmente nos renderíamos à lei do mais forte. Para alguém como um vereador pouco afeito à liberdade de expressão este cenário deve ser mesmo angustiante. Mas ainda bem que nem todo mundo pensa como ele, e se ocupa de fazer valer o seu direito de dizer o que pensa.

Artigo publicado na edição de ontem do Monitor Campista
Postado por Vitor Menezes às 10:02 8 comentários
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