domingo, 31 de maio de 2009


Descarto-me da tronga, que me chupa,
Corro por um conchego todo o mapa,
O ar da feia me arrebata a capa,
O gadanho da limpa até a garupa.
Busco uma freira, que me desemtupa
A via, que o desuso às vezes tapa,
Topo-a, topando-a todo o bolo rapa,
Que as cartas lhe dão sempre com chalupa.
Que hei de fazer, se sou de boa cepa,
E na hora de ver repleta a tripa,
Darei por quem mo vase toda Europa?
Amigo, quem se alimpa da carepa,
Ou sofre uma muchacha, que o dissipa,
Ou faz da mão sua cachopa.
Gregório de Matos

XXI FECAM – Algumas Considerações

Leiam texto, letras de canções, premiadas e algumas fotos do XXI FECAM Festival da Canção de Cardoso Moreira, no blog Nação Goytacá http://goytacity.blogspot.com/ breve vídeo com a canção Nó do Tempo, de Cris Dalana na página http://youtube.com/fulinaima
Mataram a Poesia Artur Gumes
jura que não foi ele

Matilha

como cães sem dono
mordemos as madrugadas
catando restos de poesia
que restaram
das noites
e dos dias


com a boca no trombone
a língua na ferida
os ratos já estão
fora dos esgotos
e atentam contra a vida

esta cidade fede
a podridão
mata mais
que gripe suína

mendigos
vivem de esmolas
nas calçadas
nas esquinas

cadê bolsa família
bolsa emprego
bolsa escola
?

os milhões escorrem
para outras Bolsas
disfarçadas em programas de sacola
(matilha: coletivo de cães, lobos, hienas famintos de arte e justiça)
Artur Gomes
http://youtube.com/fulinaima

FRATURA EXPOSTA

IV
a poeta late mais que morde
arde faz alarde fere maltrata
o tiro nunca sai pela culatra
o veneno dribla o único acorde

VI
a poeta metralhou meu coração
no meio o seu não e o meu fim
tem o lírico cemitério do bonfim
a mais concreta avenida são João

X
a poeta respirou na minha nuca
a cartomante sorriu e gargalhou
o único crime é ser superficial
a desumanidade do amor deixa vestígios

XII
a poeta descansa os pés no peito ébrio
infeliz incursão por baixo da superfície
explosão de vozes versos e pequenas mortes
feridas silenciosas no cemitério dos pulmões

XIII
a poeta atravessou o impulso lúdico do artista
rincão do universo cintilante que se derrama
em um sem número de loucos e outonos tristes
as estacas do limite foram todas arrancadas

XVI
a poeta cortou o pulso no caco do poema
flor sangrenta de sua máquina de pensar
oceanos de nuvens cachoeiras de dilúvios
cartas para amar e não ter mais saudades

XXI
a poeta envenenou a minha existência
como uma criança roubou a minha alegria
o meu desespero é a infância de minha arte
este poema é o primogênito da minha desgraça

XXVII
a poeta tem olhos de poemas nunca lidos
é a primeira primata expulsa da costela
é uma pancada na cabeça de um dinossauro
é um arranhão distraído no breu das horas

XLVII
a poeta tem a palavra derradeira
laudas amassadas, dores encardidas
sua alma é formada por labirintos
a poesia é seu abismo consistente

JOVINO MACHADO


CONCURSO DE CRIAÇÃO DA ASSINATURA
VISUAL DA ASSOCIAÇÃO DE ARTE E CULTURA
ESPORTE E LAZER NAÇÃO GOYTACÁ

REGULAMENTO -
Associação de Arte e Cultura Esporte e Lazer – Nação Goytacá, em fase de fundação, é uma sociedade civil de direito privado, sem fins lucrativos, de âmbito nacional, com sede e foro na cidade de Campos dos Goytacazes, RJ, criada com os objetivos que visam a fomentação, produção e execução de atividades, projetos, cursos, oficinas, mostras, festivais, nas áreas de Cinema, Música, Literatura, Teatro, Circo e Artes Plásticas, bem como de todas as modalidades esportivas, como futebol, basquete, futsal, vôley, natação, skate.

Tendo como objetivo a formação de profissionais para estas áreas, bem como o resgate do patrimônio cultural da cidade de Campos dos Goytacazes,, divulga a abertura do período de inscrições para CONCURSO DE CRIAÇÃO DA ASSINATURA VISUAL DA NAÇÃO GOYTACÁ, que será regido pelas condições constantes no presente regulamento.

1. OBJETIVO
1.1. O objetivo do “CONCURSO DE CRIAÇÃO DA ASSINATURA VISUAL DA NAÇÃO GOYTACÁ” é selecionar a melhor proposta de ASSINATURA VISUAL para representar a Associação de Arte e Cultura Esporte e Lazer – Nação Goytacá.

1.2. A proposta de criação da ASSINATURA VISUAL da NAÇÃO GOYTACÁ deverá permitir a identificação visual das atividades desenvolvidas pela Instituição, considerando a descrição abaixo:

“A Assinatura Visual da Associação de Arte e Cultura Esporte e Lazer – Nação Goytacá deve ser arrojada e remeter aos seguintes temas: Layout, associação e conhecimento.”

1.3. A Assinatura Visual escolhida será adotada como a marca oficial da Associação de Arte e Cultura Esporte e Lazer – Nação Goytacá, como identidade visual de caráter multiaplicativo, permitindo sua utilização nas mais variadas peças e meios de comunicação: papelaria, peças impressas em geral, “outdoors”, “banners”, páginas na “internet”, cartazes etc., definidos pela NAÇÃO GOYTACÁ.

2. CONDIÇÕES DE PARTICIPAÇÃO
2.1. Poderão participar do concurso quaisquer pessoas físicas ou jurídicas, que produzam a proposta de nova marca da NAÇÃO GOYTACÁ em conformidade com este Regulamento.

2.2. Considera-se participante do Concurso todo aquele que tiver seu trabalho recebidoem conformidade com as normas estabelecidas neste regulamento.

2.3. É vedada a participação, neste concurso, de membros da Comissão Julgadora, bem como de seus parentes até o terceiro grau.

3. INSCRIÇÃO NO CONCURSO
3.1. A inscrição dar-se-á mediante a entrega via e-mail para: blogueirodesocupado@bol.com.br
Devendo ser enviado a Assinatura Visual, o Formulário de Inscrição e Termo de Cessão dos Direitos Autorais, devidamente preenchidos e assinados.
A critério de cada participante poderá ser enviado um memorial descritivo dissertando sobre a sua proposta de Assinatura Visual e sobre o processo de criação.

3.2. A inscrição poderá ser feita período de 03/06/2009 a 30/06/2009, sendo recusadas as inscrições realizadas fora deste período.

3.3. A inscrição é gratuita.

4. APRESENTAÇÃO DAS PROPOSTAS
4.1. A apresentação da Assinatura Visual deve obedecer aos requisitos estabelecidos no item 5 deste Regulamento.

4.2. Cada participante poderá apresentar apenas um trabalho.

5. FORMA DE APRESENTAÇÃO DOS TRABALHOS
5.1. Serão apreciados os trabalhos que forem:
desenvolvidos a partir da descrição contida no item 1.2 deste regulamento.
a) Assinatura Visual em cores, em tamanho que se inscreveria em um quadrado
de 18 x 18 cm.
b) Assinatura Visual em preto e branco, em preto e branco invertido, em tons de cinza e em negativo, inscritos e num quadrado de 12 x 12cm, cada uma.
c) Sugestões livres de aplicações, sendo pelo menos uma reduzida, inscrita
em um quadrado de 2,5 x 2,5cm.

5.2. Não serão apreciados os trabalhos que não observarem as exigências estabelecidas neste Regulamento.

6. JULGAMENTO DOS TRABALHOS
6.1. A Assinatura Visual vencedora será selecionada por uma Comissão Julgadora, designada pela Diretoria da NAÇÃO GOYTACÁ, que será soberana em suas decisões, a ser composta por 5 (cinco) pessoas.

6.2. A Comissão Julgadora escolherá um vencedor mediante a avaliação das propostas de Assinatura Visual da NAÇÃO GOYTACÁ, atribuindo notas de 0 (zero) a 10 (dez), levando em consideração os seguintes itens: item 1.2 deste Regulamento, clareza de comunicação, conceito, originalidade, aplicabilidade (seja em cores, em preto e branco, em variadas dimensões e sobre diferentes fundos), viabilidade técnica, econômica e qualidade estética.

6.3. Compete à Comissão Julgadora escolher o trabalho vencedor, bem como impugnar propostas que não se enquadrem no Regulamento do Concurso.

6.4. Se a Comissão Julgadora decidir que nenhum dos trabalhos apresenta os requisitos exigidos, lavrará ata sucinta, esclarecendo as razões de sua decisão.

6.5. As decisões da Comissão serão encaminhadas à Diretoria da NAÇÃO GOYTACÁ.

6.6. A Comissão Julgadora conhecerá os trabalhos sem ter acesso aos nomes dos autores até que seja selecionada a proposta vencedora.

7. CLASSIFICAÇÃO
7.1. O resultado do Concurso será anunciado pela Diretoria da NAÇÃO GOYTACÁ no dia 10 de julho de 2009, através do blog da associação:
http://blogueirosdesocupados.blogspot.com/ e comunicado via e-mail aos candidatos.

7.2. A verificação, em qualquer etapa do concurso, de irregularidade, inexatidão de dados ou falsidade de declaração implicará a eliminação do candidato e a anulação de todos os atos dela decorrentes, sem prejuízo das sanções civis e penais cabíveis.

7.3. São irrecorríveis as decisões da Comissão Julgadora.

8. PREMIAÇÃO
8.1. O vencedor receberá pela criação da Assinatura Visual da Associação de Arte e Cultura Esporte e Lazer – Nação Goytacá um certificado de vencedor do Concurso, além de se tornar sócio benemérito da Associação

8.2 O prêmio será entregue pela Diretoria da NAÇÃO GOYTACÁ em solenidade com data previamente definida, para a qual será dada ampla cobertura.

9. DISPOSIÇÕES FINAIS
9.1. O participante vencedor do Concurso compromete-se a garantir, formalmente, a cessão e a transferência para a Associação de Arte e Cultura Esporte e Lazer – Nação Goytacá, sem qualquer ônus e em caráter definitivo, plena e totalmente, todos os direitos autorais referentes a Assinatura Visual vencedora para qualquer tipo de utilização, publicação, exposição ou reprodução.

9.2. A NAÇÂO GOYTACÁ poderá cancelar o concurso de que trata este Regulamento, em razão de caso fortuito ou de força maior, ou, ainda, por insuficiência de inscrições, a seu critério, sem que isso importe em qualquer direito indenizatório para os candidatos inscritos.

9.3. Os casos omissos neste Regulamento serão analisados pela Comissão Julgadora e, em última instância, pela Assembléia Geral da Associação de Arte e Cultura Esporte e Lazer – Nação Goytacá.

10. INFORMAÇÕES
10.1. Informações no blog http://associaodosblogueirosdesocupados.blogspot.com/.

Campos dos Goytacazes, 01 de junho de 2009


(ANEXO 1)
FORMULÁRIO DE INSCRIÇÃO PARA O CONCURSO DA ASSINATURA VISUAL DA ASSOCIAÇÃO DE ARTE E CULTURA ESPORTE E LAZER – NAÇÃO GOYTACÁ

Nome ou Razão Social: ________________________________________________
RG: __________________
CPF ou CNPJ: _____________________________
Endereço: ___________________________________________________________
CEP: ___________ Cidade: _____________________________ Estado: ________
Telefone: ______________________________ Fax: _________________________
E-mail: ___________________________ Celular: ___________________________
Pseudônimo: ________________________________________________________
Data de Nascimento (no caso de pessoa física): _______/_______/_______
Formação Acadêmica ou Curso (no caso de estudantes): _____________________
Ano de Conclusão ou Período (caso ainda esteja cursando): ___________________

Declaro conhecer e estar de acordo com o Regulamento do Concurso para
Recriação da Logomarca da Associação de Arte e Cultura Esporte e Lazer – Nação Goytacá.
Local: ___________________________________ Data: _____/_____/______
Assinatura


(ANEXO 2)
TERMO DE AUTORIZAÇÃO PARA PUBLICAÇÃO E CESSÃO DE DIREITOS DE AUTOR
Eu, ________________________________________________________, portador do
RG

____________________, emitido em ___/___/______, pela __________________,

li e aceito o Regulamento do Concurso de Criação da Assinatura Visual da Associação de Arte e Cultura Esporte e Lazer – Nação Goytacá e, dessa forma, transfiro a essa Instituição, para o uso que julgar necessário, os direitos autorais referentes ao trabalho com o qual concorro.
Local/data: _____________________, _____de __________________ de 2009__.

______________________________________________
Assinatura do Candidato
___________________________________________________

sexta-feira, 29 de maio de 2009




Orávio comenta “Todos os homens do presidente” neste sábado na AIC

“Todos os homens do presidente” (EUA,1976) é o filme deste mês no projeto Cine Jornalismo AIC, da Associação de Imprensa Campista. A exibição será neste sábado, 30, às 16h, na sede da entidade, e terá como comentador o jornalista e professor Orávio de Campos Soares, secretário de Cultura de Campos e presidente da AIC.
O projeto Cine Jornalismo AIC consiste na exibição, sempre no último sábado de cada mês — entre março e novembro — de um filme que tenha como tema o universo jornalístico ou contenha significativa participação de personagens jornalistas. O objetivo é promover uma integração entre profissionais da área, estudantes e demais interessados na discussão das práticas e dos dilemas éticos do jornalismo.
Dirigido por Alan J. Pakula, “Todos os homens do presidente” mostra a saga de dois repórteres do jornal norte-americano Washington Post durante a investigação do lendário caso Watergate, que culminou com a queda do presidente Richard Nixon. O filme é baseado no livro dos jornalistas Bob Woodward e Carl Bernstein, que foram os responsáveis pela série de matérias investigativas, e são interpretados por Robert Redford e Dustin Hoffman.

A AIC fica na rua Tenente Coronel Cardoso, 460, Centro. A programação completa do Cine Jornalismo AIC e outras informações sobre a Associação estão disponíveis em http://associacaodeimprensa.blogspot.com/

E a obra vai para... (I)

Fontes informam que a Companhia Brasileira de Projetos e Obras (CBPO), incorporada ao Grupo Odebrecht, será a vencedora, às 9h da manhã de hoje, da concorrência pública nº 004/2009, para construção de 5.100 casas populares, no valor de R$ 357.963.677,57. No anexo VIII do edital da concorrência pública é exigido que as empresas participantes tenham executado edificações, simultaneamente, em pelo menos 10 diferentes localidades, critério estipulado para eliminar as construtoras de Campos da concorrência.
E a obra vai para... (II)

O Sindicato da Indústria da Construção Civil de Campos e a Associação dos Empresários da Construção Civil do Norte e Noroeste Fluminense ingressaram com ações no Ministério Público Estadual, alegando a ilegalidade dos critérios de exclusão, baseados na lei 8666/93, que rege as licitações. Ex-secretário de Obras e atual coordenador da mesma secretaria, Antonio José Petrucci Terra, o Tom Zé, trabalhou na Odebrecht antes de ingressar no governo municipal de Rosinha.
fonte: Ponto Final: http://www.fmanha.com.br/


Roupas e calçados doados "encalham" em Itajaí (SC);
toneladas vão para o lixo
Gabriela Sylos
Enviada especial do UOL NotíciasEm Itajaí (SC)
(fotos: acima)

As ruas de Itajaí (90 km de Florianópolis) guardam poucos sinais dos estragos causados pelas chuvas e enchentes de novembro e dezembro do ano passado. As avenidas tomadas pelas águas e as casas cheias de entulhos nas portas já estão limpas. Após seis meses, porém, uma situação persiste: ainda há pilhas de roupas e sapatos doadas sem dono. São nove contêineres cheios de donativos, volume que chega a aproximadamente 125 toneladas. Destas, cerca de 70 toneladas vão para o lixo, pois foram consideradas "podres" pela prefeitura. Parte destas roupas estava armazenada em um parque onde se realizava uma festa tradicional da região. O espaço, localizado na zona rural, costuma abrigar vacas e bois.
"As doações foram jogadas diretamente na terra. Aquela camada de roupa não foi aproveitada", afirma a secretária de Desenvolvimento Social, Rosane Casas, que culpa a gestão anterior, do prefeito Volnei Morastoni (PT), pelo mau armazenamento. "O galpão estava coberto apenas com uma lona, e não tinha paredes. Chovia, secava, chovia, secava", diz, referindo-se à exposição das peças. De acordo com a secretaria, um laudo da Vigilância Sanitária atestou que as roupas estavam sem condições de uso.

O presidente do diretório municipal do PT, Felipe Damo, afirma que, no fim do governo de Morastoni, as roupas foram mantidas menos de 15 dias na área rural porque "todos os outros possíveis locais estavam lotados". "A questão era provisória, o atual governo que manteve a roupa lá por mais quatro meses, até elas apodrecerem", acusa. O desperdício já causou polêmica no começo de maio, quando parte das peças estragadas foram encontradas em uma área destinada ao descarte de entulhos da construção civil. O governo afirma agora que aguarda autorização da secretaria de Obras para enterrar as peças em aterros sanitários. No auge da tragédia em Santa Catarina, cerca de 1.000 toneladas de roupas e calçados chegaram a ficar acumulados em 41 prédios públicos da cidade.
Acredita-se que as doações se concentraram em Itajaí devido ao acesso restrito a cidades vizinhas, como Ilhota e Blumenau. Em janeiro, as roupas foram reunidas em um galpão, que foi aberto não só aos atingidos pelas chuvas, mas a quem quisesse pegar os itens. Cerca de 50 municípios vizinhos se beneficiaram com os donativos, além de outros Estados do país, como São Paulo e Espírito Santo. Mesmo assim as pilhas persistiram. No final de março, uma empresa foi contratada para organizar as roupas. Selecionadas e dobradas, as peças ocupam agora dois contêineres.
Segundo Rosane Casas, um deles foi enviado ao Piauí - apenas um dos 11 Estados atualmente castigados pelas enchentes. O outro será "guardado" para futuras campanhas de doação, como a campanha do agasalho.
Além das roupas, ainda restam os sapatos. Eles lotam dois contêineres, totalizando cerca de 28 toneladas. Durante o trabalho que realizaram na seleção das peças, 30 mulheres, muitas no alto de uma pilha, tentavam encontrar um par no meio de tantos calçados. O galpão está aberto até o dia 30 deste mês para qualquer morador que queira procurar o seu. "O pessoal chega, pergunta se pode pegar. A gente permite, eles entram e vão pegando. E eles conseguem achar os pares", afirma Elisângela Pereira, 35 anos. Ela também trabalhou na triagem das roupas. "Tinha muita roupa suja, muito cheiro de mofo, roupa estragada, foi difícil", lembra.
As próprias trabalhadoras, moradoras de Itajaí e também vítimas das enchentes, já se beneficiaram das doações. "É tudo da enchente: esta calça, esta blusa", mostra Maria das Neves de Souza, 40 anos. Ela perdeu tudo: roupa, armário, cama, colchão, televisão. "Eu ainda estou dormindo no chão", conta. Questionada se as condições das roupas e sapatos são precárias, Maria nega. "Tem muita roupa boa, sapato bom. Eu achei uma aliança, teve gente que achou até ouro por aqui", relata.
Segundo a prefeitura, os sapatos que não forem recolhidos até este fim de semana serão encaminhados a empresas de reciclagem. Mas estas empresas ainda não foram encontradas.

Mataram a Poesia Álvaro Marcos Jura que Não Foi ele

Ligação
Teu beijo, marginal
Tua boca, imortal
Saliva doce, canibal.
Instinto seco, imoral.
Indecente, sensacional.
Ardente, animal.
Pedaços de nós no varal.
Só desejo, atemporal.
Sinal da cruz, espiritual.
Sinal de vida, lamaçal.
Olhar vermelho, castiçal.
Despojado, ritual.

Álvaro Marcos – 29-05-2009




quarta-feira, 27 de maio de 2009



CONFRONTO
(Sangrenta Madrugada Sangrenta)

um espetáculo de
DOMINGOS OLIVEIRA

Quintas a Sábados às 21h
Domingos às 19h30
Até 14 de junho

Espaço SESC
Rua Domingos Ferreira 160, Copacabana - RJ

242 lugares
Classificação 18 anos
R$ 16,00 inteira



Jura Secreta 76

faca não tem perfume
rosa sem espinho
é planta falsa
quando quero
ando sem calça
gosto de estar NU

passando a língua na relva
os dentes mordendo a Eva
em carne viva
& couro cru

Artur Gomes
http://goytacity.blogspot.com/



Estive hoje no local da total distância, no tempo da absoluta indiferença. São estas as viagens que qualquer um pode fazer, não saindo de casa, encerrado no confinado de um quarto, encerrado no interior de si. Há quem o faça pela madrugada, enquanto a cidade dorme, ou domingo à tarde, que é quando a tristeza dói mais, por parecer única. Estive hoje suspenso a rever-te, antiga fotografia de uma viagem que eu não fiz a um destino onde nunca estarei. Há momentos assim: ferem-nos a retina, arquivam-se no cérebro, ficam, como as gravuras dos velhos livros de um parente morto, amarelecidos e para sempre esquecidos, no alto de uma estante, na prateleira do nunca mais.

José António Barreiros


por falar em sexo
quem anda me comendo é o tempo
na verdade faz tempo
mas eu escondia
porque ele me pegava à força
e por trás
um dia resolvi encará-lo
de frente e disse: tempo
se você tem que me comer
que seja com o meu consentimento
e me olhando nos olhos
acho que ganhei o tempo
de lá pra cá ele tem sido bom comigo
dizem que ando até remoçando


Viviane Mosé

Mataram a Poesia Leminski Jura Que Não Foi ele
Três Metades

Meio dia,
um dia e meio,
meio dia, meio noite,
metade deste poema
não sai na fotografia,
metade, metade foi-se.

Mas eis que a terça metade,
aquela que é menos dose
de matemática verdade
do que soco, tiro, ou coice,
vai e vem como coisa de ou, de nem, ou de quase.
Como se a gente tivesse
metades que não combinam, três partes,
destempestades,três vezes ou vezes três,
como se quase, existindo,
só nos faltasse o talvez.

Paulo Leminski
(do livro Distraídos Venceremos)


II SIMPÓSIO DE POESIA CONTEMPORÂNEA - SIMPOESIA

Experiência literária de quatro dias, que reunirá entre 4 a 7 de junho de 2009, poetas e críticos literários do Brasil e exterior, além de uma feira de editoras independentes de poesia do Brasil e Argentina promovida pela revista Grumo.Um encontro que envolve a troca de idéias, a exposição da diversidade intelectual e o intercâmbio artístico e cultural entre diversas expressões da poesia contemporânea.Curadoria: Virna TeixeiraRealização: Secretaria de Cultura do Estado de São PauloProdução: Casa das Rosas e Organização Social POIESIS de CulturaPatrocínio: Instituto Cervantes, Consulado do México e Centro Cultural da Espanha em São PauloProgramação completa no site http://www.simpoesia.wordpress.com.
Email para contato: simpoesia2009@yahoo.com.br.

Pelos Trilhos Urbanos

A noite de ontem, 26 de maio de 12009 no Bar Fórmula 1 - Av. Alberto Torres, logo depois do Sesc, com o evento Blog And Roll & Poesia e Outros Bratos Afins, serviu também para sedimentar a fundação da ONG Nação Goytacá - Associação de Arte e Cultura Esporte e Lazer, que dentro de mais algumas semanas estará elegendo a sua primeira Diretoria.

O Blog And Roll foi idealizado por Luiz Ribeiro, músico, compositor, vocalista e fundador da banda Avyadores do Brazyl. A idéia surgiu na primeira reunião da Associação de Blogueiros Desocupados, acontecida lá mesmo no Bar Fórmula 1, e das discussões sobre a blogsfera, nasceu a Nação Goytacá.

Dentro de mais alguns dias estaremos divulgado o regulamento para o Concurso que escolherá a logomarca Nação Goytacá, e a data e local da Assembléia que elegerá a sua primeira Diretoria. Um outro evento para junho/julho já está sendo pensado pelos mentores da NG que além de Rock, Poesia e outros Baratos Afins, poderá ter ainda em sua programação musical atrações com Jazz, Blues e Mostra de Vídeos produzidos na Goyta City.
O pior analfabeto é o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão,
do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio
dependem das decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro que se orgulha
e estufa o peito dizendo que odeia a política.
Não sabe o imbecil que da sua ignorância política
nasce a prostituta, o menor abandonado,
e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista,
pilantra, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo."
Nada é impossível de Mudar
Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente:
não aceiteis o que é de hábito como coisa natural,
pois em tempo de desordem sangrenta,
de confusão organizada, de arbitrariedade consciente,
de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural
nada deve parecer impossível de mudar.
Privatizado
Privatizaram sua vida, seu trabalho,
sua hora de amar e seu direito de pensar.
É da empresa privada o seu passo em frente,
seu pão e seu salário.
E agora não contente querem privatizar o conhecimento,
a sabedoria, o pensamento, que só à humanidade pertence.
Eu cresci como filho
De gente abastada. Meus pais
Me colocaram um colarinho, e me educaram
No hábito de ser servido
E me ensinaram a dar ordens. Mas quando
Já crescido, olhei em torno de mim
Não me agradaram as pessoas da minha classe e me juntei
À gente pequena.
Assim
Eles criaram um traidor, ensinaram-lhe
Suas artes, e ele
Denuncia-os ao inimigo.
Sim, eu conto seus segredos. Fico
Entre o povo e explico
Como eles trapaceiam, e digo o que virá, pois
Estou instruído em seus planos.
O latim de seus clérigos corruptos
Traduzo palavra por palavra em linguagem comum,
Então
Ele se revela uma farsa. Tomo
A balança da sua justiça e mostro
Os pesos falsos. E os seus informantes relatam
Que me encontro entre os despossuídos, quando
Tramam a revolta.
Eles me advertiram e me tomaram
O que ganhei com meu trabalho. E quando me corrigi
Eles foram me caçar, mas
Em minha casa
Encontraram apenas escritos que expunham
Suas tramas contra o povo. Então
Enviaram uma ordem de prisão
Acusando-me de ter idéias baixas, isto é
As idéias da gente baixa.
Aonde vou sou marcado
Aos olhos dos possuidores. Mas os despossuídos
Lêem a ordem de prisão
E me oferecem abrigo. Você, dizem
Foi expulso por bom motivo.

Antologia Poética de Bertolt Brecht
Se os tubarões fossem homens
O Analfabeto Político
A Máscara Do Mal
Perguntas De Um Operário Que Lê
A Troca da Roda
Esse Desemprego
Aos que virão depois de nós
O Vosso Tanque General, É Um Carro Forte
Elogio da Dialética
O Maneta No Bosque
A Exceção e a Regra
Não Necessito De Pedra Tumular
O Nascido Depois
No Segundo Ano De Minha Fuga
Para Ler De Manhã e à Noite
A Minha Mãe
A Fumaça
A Cruz de Giz
Os Esperançosos
Acredite Apenas
Expulso Por Bom Motivo
Epitáfio Para Gorki
Quem Se Defende
Se Fossemos Infinitos
Esse Desemprego!
Tempos Sombrios
Nada É Impossível De Mudar
Ferro
Refletindo Sobre O Inferno
Sobre a Violência
Os que lutam
As Boas Ações
Poesia do Exílio
Os maus e os bons
Precisamos De Você.
Privatizado
Com Cuidado Examino
Como Bem Sei
De Que Serve A Bondade
Quem Não Sabe De Ajuda
Epístola Sobre O Suicídio
Das Elegias De Buckow
Da Sedução Dos Anjos
No Muro Estava Escrito Com Giz
Elogio do Revolucionário
Jamais Te Amei Tanto
Eu Sempre Pensei
Soube
Um Homem Pessimista
Lendo Horácio
Na Morte De Um Combatente Da Paz
Louvor ao Estudo
Também O Céu
Na Guerra Muitas Coisas Crescerão

A Cruz de Giz
Eu sou uma criada. Eu tive um romance
Com um homem que era da SA.
Um dia, antes de ir
Ele me mostrou, sorrindo, como fazem
Para pegar os insatisfeitos.
Com um giz tirado do bolso do casaco
Ele fez uma pequena cruz na palma da mão.
Ele contou que assim, e vestido à paisana
anda pelas repartições do trabalho
Onde os empregados fazem fila e xingam
E xinga junto com eles, e fazendo isso
Em sinal de aprovação e solidariedade
Dá um tapinha nas costas do homem que xinga
E este, marcado com a cruz branca
ë apanhado pela SA. Nós rimos com isso.
Andei com ele um ano, então descobri
Que ele havia retirado dinheiro
Da minha caderneta de poupança.
Havia dito que a guardaria para mim
Pois os tempos eram incertos.
Quando lhe tomei satisfações, ele jurou
Que suas intenções eram honestas. Dizendo isso
Pôs a mão em meu ombro para me acalmar.
Eu corri, aterrorizada. Em casa
Olhei minhas costas no espelho, para ver
Se não havia uma cruz branca.

A Exceção e a Regra
Estranhem o que não for estranho.
Tomem por inexplicável o habitual.
Sintam-se perplexos ante o cotidiano.
Tratem de achar um remédio para o abuso
Mas não se esqueçam de que o abuso é sempre a regra.

A fumaça
A pequena casa entre árvores no lago.
Do telhado sobe fumaça
Sem ela
Quão tristes seriam
Casa, árvores e lago.

A Máscara Do Mal
Em minha parede há uma escultura de madeira japonesa
Máscara de um demônio mau, coberta de esmalte dourado.
Compreensivo observo
As veias dilatadas da fronte, indicando
Como é cansativo ser mal

A Minha Mãe
Quando ela acabou, foi colocada na terra
Flores nascem, borboletas esvoejam por cima...
Ela, leve, não fez pressão sobre a terra
Quanta dor foi preciso para que ficasse tão leve!
Acredite apenas no que seus olhos vêem e seus ouvidos
Ouvem!
Também não acredite no que seus olhos vêem e seus
Ouvidos ouvem!
Saiba também que não crer algo significa algo crer!
Estou sentado á beira da estrada,
o condutor muda a roda.
Não me agrada o lugar de onde venho.
Não me agrada o lugar para onde vou.
Por que olho a troca da rodacom impaciência?

As Boas Ações
Esmagar sempre o próximo
não acaba por cansar?
Invejar provoca um esforço
que inchas as veias da fronte.
A mão que se estende naturalmente
dá e recebe com a mesma facilidade.
Mas a mão que agarra com avidez
rapidamente endurece.
Ah! que delicioso é dar!
Ser generoso que bela tentação!
Uma boa palavra brota suavemente
como um suspiro de felicidade!

Aos que virão depois de nós
I
Eu vivo em tempos sombrios.
Uma linguagem sem malícia é sinal de
estupidez,
uma testa sem rugas é sinal de indiferença.
Aquele que ainda ri é porque ainda não
recebeu a terrível notícia.
Que tempos são esses, quando
falar sobre flores é quase um crime.
Pois significa silenciar sobre tanta injustiça?
Aquele que cruza tranqüilamente a rua
já está então inacessível aos amigos
que se encontram necessitados?
É verdade: eu ainda ganho o bastante para viver.
Mas acreditem: é por acaso. Nada do que eu faço
Dá-me o direito de comer quando eu tenho fome.
Por acaso estou sendo poupado.
(Se a minha sorte me deixa estou perdido!)
Dizem-me: come e bebe!
Fica feliz por teres o que tens!
Mas como é que posso comer e beber,
se a comida que eu como, eu tiro de quem tem fome?
se o copo de água que eu bebo, faz falta aquem tem sede?
Mas apesar disso, eu continuo comendo e bebendo.
Eu queria ser um sábio.
Nos livros antigos está escrito o que é a sabedoria:
Manter-se afastado dos problemas do mundo
e sem medo passar o tempo que se tem para
viver na terra;
Seguir seu caminho sem violência,
pagar o mal com o bem,
não satisfazer os desejos, mas esquecê-los.
Sabedoria é isso!
Mas eu não consigo agir assim.
É verdade, eu vivo em tempos sombrios!
II
Eu vim para a cidade no tempo da desordem,
quando a fome reinava.
Eu vim para o convívio dos homens no tempo
da revolta
e me revoltei ao lado deles.
Assim se passou o tempo
que me foi dado viver sobre a terra.
Eu comi o meu pão no meio das batalhas,
deitei-me entre os assassinos para dormir,
Fiz amor sem muita atençãoe não tive paciência com a natureza.
Assim se passou o tempo
que me foi dado viver sobre a terra.
III
Vocês, que vão emergir das ondas
em que nós perecemos, pensem,
quando falarem das nossas fraquezas,
nos tempos sombrios
de que vocês tiveram a sorte de escapar.
Nós existíamos através da luta de classes,
mudando mais seguidamente de países que de
sapatos, desesperados!
quando só havia injustiça e não havia revolta.
Nós sabemos:
o ódio contra a baixeza
também endurece os rostos!
A cólera contra a injustiça
faz a voz ficar rouca!
Infelizmente, nós,
que queríamos preparar o caminho para aamizade,
não pudemos ser, nós mesmos, bons amigos.
Mas vocês, quando chegar o tempo
em que o homem seja amigo do homem,
pensem em nósc
om um pouco de compreensão.

Com Cuidado Examino
Com cuidado examino
Meu plano: ele é
Grande, ele é
Irrealizável.

Como Bem Sei
Como bem sei
Os impuros viajam para o inferno
Através do céu inteiro.
São levados em carruagens transparentes:
Isto embaixo de vocês, lhe dizem
É o céu.
Eu sei que lhes dizem isso
Pois imagino
Que justamente entre eles
Há muitos que não o reconheceriam, pois eles
Precisamente
Imaginavam-no mais radiante
Anjos seduzem-se: nunca ou a matar.
Puxa-o só para dentro de casa e mete-lhe
a língua na boca e os dedos sem frete
Por baixo da saia até se molhar
Vira-o contra a parede, ergue-lhe a saia
E fode-o. Se gemer, algo crispado
Segura-o bem, fá-lo vir-se em dobrado
Para que do choque no fim te não caia.
Exorta-o a que agite bem o cú
Manda-o tocar-te os guizos atrevido
Diz que ousar na queda lhe é permitido
Desde que entre o céu e a terra flutue –
Mas não o olhes na cara enquanto fodes
E as asas, rapaz, não lhas amarrotes.
Viesse um vento
Eu poderia alçar vela.
Faltasse vela
Faria uma de pano e pau.
1
De que serve a bondade
Se os bons são imediatamente liquidados,
ou são liquidados
Aqueles para os quais eles são bons?
De que serve a liberdade
Se os livres têm que viver entre os não-livres?
De que serve a razão
Se somente a desrazão consegue o alimento de que todos necessitam?
2
Em vez de serem apenas bons,
esforcem-se
Para criar um estado de coisas que torne possível a bondade
Ou melhor:
que a torne supérflua!
Em vez de serem apenas livres,
esforcem-se
Para criar um estado de coisas que liberte a todos
E também o amor à liberdade
Torne supérfluo!
Em vez de serem apenas razoáveis,
esforcem-se
Para criar um estado de coisas que torne a desrazão de um indivíduo
Um mau negócio.
A injustiça passeia pelas ruas com passos seguros.
Os dominadores se estabelecem por dez mil anos.
Só a força os garante.
Tudo ficará como está.
Nenhuma voz se levanta além da voz dos dominadores.
No mercado da exploração se diz em voz alta:
Agora acaba de começar:
E entre os oprimidos muitos dizem:
Não se realizará jamais o que queremos!
O que ainda vive não diga: jamais!
O seguro não é seguro. Como está não ficará.
Quando os dominadores falarem falarão também os dominados.
Quem se atreve a dizer: jamais?
De quem depende a continuação desse domínio?
De quem depende a sua destruição?
Igualmente de nós.
Os caídos que se levantem!
Os que estão perdidos que lutem!
Quem reconhece a situação como pode calar-se?
Os vencidos de agora serão os vencedores de amanhã.
E o "hoje" nascerá do "jamais".
Quando aumenta a repressão, muitos desanimam.
Mas a coragem dele aumenta.
Organiza sua luta pelo salário, pelo pão
e pela conquista do poder.
Interroga a propriedade:
De onde vens?
Pergunta a cada idéia:
Serves a quem?
Ali onde todos calam, ele fala
E onde reina a opressão e se acusa o destino,
ele cita os nomes.
À mesa onde ele se sentase senta a insatisfação.
À comida sabe mal e a sala se torna estreita.
Aonde o vai a revolta
e de onde o expulsam
persiste a agitação.

Matar-se
É coisa banal.
Pode-se conversar com a lavadeira sobre isso.
Discutir com um amigo os prós e os contras.
Um certo pathos, que atrai
Deve ser evitado.
Embora isto não precise absolutamente ser um dogma.
Mas melhor me parece, porém
Uma pequena mentira como de costume:
Você está cheio de trocar a roupa de cama, ou melhor
Ainda:
Sua mulher foi infiel
(Isto funciona com aqueles que ficam surpresos comessas coisas
E não é muito impressionante.)
De qualquer modo
Não deve parecer
Que a pessoa dava
Importância demais a si mesmo

Epitáfio Para Gorki
Aqui jaz
O enviado dos bairros da miséria
O que descreveu os atormentadores do povo
E aqueles que os combateram
O que foi educado nas ruas
O de baixa extração
Que ajudou a abolir o sistema de Alto a Baixo
O mestre do povo
Que aprendeu com o povo.

Esse Desemprego!
Meus senhores, é mesmo um problema
Esse desemprego!
Com satisfação acolhemos
Toda oportunidade
De discutir a questão.
Quando queiram os senhores! A todo momento!
Pois o desemprego é para o povo
Um enfraquecimento.
Para nós é inexplicável
Tanto desemprego.
Algo realmente lamentável
Que só traz desassossego.
Mas não se deve na verdade
Dizer que é inexplicável
Pois pode ser fatal
Dificilmente nos pode trazer
A confiança das massas
Para nós imprescindível.
É preciso que nos deixem valer
Pois seria mais que temível
Permitir ao caos vencer
Num tempo tão pouco esclarecido!
Algo assim não se pode conceber
Com esse desemprego!
Ou qual a sua opinião?
Só nos pode convir
Esta opinião: o problema
Assim como veio, deve sumir.
Mas a questão é: nosso desemprego
Não será solucionado
Enquanto os senhores não
Ficarem desempregados!
E eu sempre pensei: as mais simples palavras
Devem bastar.
Quando eu disser como e
O coração de cada um ficara dilacerado.
Que sucumbiras se não te defenderes
Isso logo verás.
Bertold Brecht


blog and roll - fotos: wellington cordeiro e armandinho ribeiro
A banda Evolução da Espécie, por mais de uma hora levou a galera ao delírio, com uma performance primorosa do seu vocalista Felipe.


































































































Manifesto Antropofágico
Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente.
Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz.
Tupi, or not tupi that is the question.
Contra todas as catequeses. E contra a mãe dos Gracos.
Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago.
Estamos fatigados de todos os maridos católicos suspeitosos postos em drama. Freud acabou com o enigma mulher e com outros sustos da psicologia impressa.
O que atropelava a verdade era a roupa, o impermeável entre o mundo interior e o mundo exterior. A reação contra o homem vestido. O cinema americano informará.
Filhos do sol, mãe dos viventes. Encontrados e amados ferozmente, com toda a hipocrisia da saudade, pelos imigrados, pelos traficados e pelos touristes. No país da cobra grande.
Foi porque nunca tivemos gramáticas, nem coleções de velhos vegetais. E nunca soubemos o que era urbano, suburbano, fronteiriço e continental. Preguiçosos no mapa-múndi do Brasil.
Uma consciência participante, uma rítmica religiosa.
Contra todos os importadores de consciência enlatada. A existência palpável da vida. E a mentalidade pré-lógica para o Sr. Lévy-Bruhl estudar.
Queremos a Revolução Caraiba. Maior que a Revolução Francesa. A unificação de todas as revoltas eficazes na direção do homem. Sem n6s a Europa não teria sequer a sua pobre declaração dos direitos do homem.
A idade de ouro anunciada pela América. A idade de ouro. E todas as girls.
Filiação. O contato com o Brasil Caraíba. Ori Villegaignon print terre. Montaig-ne. O homem natural. Rousseau. Da Revolução Francesa ao Romantismo, à Revolução Bolchevista, à Revolução Surrealista e ao bárbaro tecnizado de Keyserling. Caminhamos..
Nunca fomos catequizados. Vivemos através de um direito sonâmbulo. Fizemos Cristo nascer na Bahia. Ou em Belém do Pará.
Mas nunca admitimos o nascimento da lógica entre nós.
Contra o Padre Vieira. Autor do nosso primeiro empréstimo, para ganhar comissão. O rei-analfabeto dissera-lhe : ponha isso no papel mas sem muita lábia. Fez-se o empréstimo. Gravou-se o açúcar brasileiro. Vieira deixou o dinheiro em Portugal e nos trouxe a lábia.
O espírito recusa-se a conceber o espírito sem o corpo. O antropomorfismo. Necessidade da vacina antropofágica. Para o equilíbrio contra as religiões de meridiano. E as inquisições exteriores.
Só podemos atender ao mundo orecular.
Tínhamos a justiça codificação da vingança. A ciência codificação da Magia. Antropofagia. A transformação permanente do Tabu em totem.
Contra o mundo reversível e as idéias objetivadas. Cadaverizadas. O stop do pensamento que é dinâmico. O indivíduo vitima do sistema. Fonte das injustiças clássicas. Das injustiças românticas. E o esquecimento das conquistas interiores.
Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros.
O instinto Caraíba.
Morte e vida das hipóteses. Da equação eu parte do Cosmos ao axioma Cosmos parte do eu. Subsistência. Conhecimento. Antropofagia.
Contra as elites vegetais. Em comunicação com o solo.
Nunca fomos catequizados. Fizemos foi Carnaval. O índio vestido de senador do Império. Fingindo de Pitt. Ou figurando nas óperas de Alencar cheio de bons sentimentos portugueses.
Já tínhamos o comunismo. Já tínhamos a língua surrealista. A idade de ouro.
Catiti Catiti
Imara Notiá
Notiá Imara
Ipeju*
A magia e a vida. Tínhamos a relação e a distribuição dos bens físicos, dos bens morais, dos bens dignários. E sabíamos transpor o mistério e a morte com o auxílio de algumas formas gramaticais.
Perguntei a um homem o que era o Direito. Ele me respondeu que era a garantia do exercício da possibilidade. Esse homem chamava-se Galli Mathias. Comia.
Só não há determinismo onde há mistério. Mas que temos nós com isso?
Contra as histórias do homem que começam no Cabo Finisterra. O mundo não datado. Não rubricado. Sem Napoleão. Sem César.
A fixação do progresso por meio de catálogos e aparelhos de televisão. Só a maquinaria. E os transfusores de sangue.
Contra as sublimações antagônicas. Trazidas nas caravelas.
Contra a verdade dos povos missionários, definida pela sagacidade de um antropófago, o Visconde de Cairu: – É mentira muitas vezes repetida.
Mas não foram cruzados que vieram. Foram fugitivos de uma civilização que estamos comendo, porque somos fortes e vingativos como o Jabuti.
Se Deus é a consciênda do Universo Incriado, Guaraci é a mãe dos viventes. Jaci é a mãe dos vegetais.
Não tivemos especulação. Mas tínhamos adivinhação. Tínhamos Política que é a ciência da distribuição. E um sistema social-planetário.
As migrações. A fuga dos estados tediosos. Contra as escleroses urbanas. Contra os Conservatórios e o tédio especulativo.
De William James e Voronoff. A transfiguração do Tabu em totem. Antropofagia.
O pater famílias e a criação da Moral da Cegonha: Ignorância real das coisas+ fala de imaginação + sentimento de autoridade ante a prole curiosa.
É preciso partir de um profundo ateísmo para se chegar à idéia de Deus. Mas a caraíba não precisava. Porque tinha Guaraci.
O objetivo criado reage com os Anjos da Queda. Depois Moisés divaga. Que temos nós com isso?
Antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade.
Contra o índio de tocheiro. O índio filho de Maria, afilhado de Catarina de Médicis e genro de D. Antônio de Mariz.
A alegria é a prova dos nove.
No matriarcado de Pindorama.
Contra a Memória fonte do costume. A experiência pessoal renovada.
Somos concretistas. As idéias tomam conta, reagem, queimam gente nas praças públicas. Suprimarnos as idéias e as outras paralisias. Pelos roteiros. Acreditar nos sinais, acreditar nos instrumentos e nas estrelas.
Contra Goethe, a mãe dos Gracos, e a Corte de D. João VI.
A alegria é a prova dos nove.
A luta entre o que se chamaria Incriado e a Criatura – ilustrada pela contradição permanente do homem e o seu Tabu. O amor cotidiano e o modusvivendi capitalista. Antropofagia. Absorção do inimigo sacro. Para transformá-lo em totem. A humana aventura. A terrena finalidade. Porém, só as puras elites conseguiram realizar a antropofagia carnal, que traz em si o mais alto sentido da vida e evita todos os males identificados por Freud, males catequistas. O que se dá não é uma sublimação do instinto sexual. É a escala termométrica do instinto antropofágico. De carnal, ele se torna eletivo e cria a amizade. Afetivo, o amor. Especulativo, a ciência. Desvia-se e transfere-se. Chegamos ao aviltamento. A baixa antropofagia aglomerada nos pecados de catecismo – a inveja, a usura, a calúnia, o assassinato. Peste dos chamados povos cultos e cristianizados, é contra ela que estamos agindo. Antropófagos.
Contra Anchieta cantando as onze mil virgens do céu, na terra de Iracema, – o patriarca João Ramalho fundador de São Paulo.
A nossa independência ainda não foi proclamada. Frape típica de D. João VI: – Meu filho, põe essa coroa na tua cabeça, antes que algum aventureiro o faça! Expulsamos a dinastia. É preciso expulsar o espírito bragantino, as ordenações e o rapé de Maria da Fonte.
Contra a realidade social, vestida e opressora, cadastrada por Freud – a realidade sem complexos, sem loucura, sem prostituições e sem penitenciárias do matriarcado de Pindorama.
OSWALD DE ANDRADE Em Piratininga Ano 374 da Deglutição do Bispo Sardinha." (Revista de Antropofagia, Ano 1, No. 1, maio de 1928.)
* "Lua Nova, ó Lua Nova, assopra em Fulano lembranças de mim", in O Selvagem, de Couto Magalhães
Oswald de Andrade alude ironicamente a um episódio da história do Brasil: o naufrágio do navio em que viajava um bispo português, seguido da morte do mesmo bispo, devorado por índios antropófagos.
Poesia Pau Brasil
A poesia existe nos fatos. Os casebres de açafrão e de ocre nos verdes da Favela, sob o azul cabralino, são fatos estéticos.
O Carnaval no Rio é o acontecimento religioso da raça. Pau-Brasil. Wagner submerge ante os cordões de Botafogo. Bárbaro e nosso. A formação étnica rica. Riqueza vegetal. O minério. A cozinha. O vatapá, o ouro e a dança.
Toda a história bandeirante e a história comercial do Brasil. O lado doutor, o lado citações, o lado autores conhecidos. Comovente. Rui Barbosa: uma cartola na Senegâmbia. Tudo revertendo em riqueza. A riqueza dos bailes e das frases feitas. Negras de Jockey. Odaliscas no Catumbi. Falar difícil.
O lado doutor. Fatalidade do primeiro branco aportado e dominando politicamente as selvas selvagens. O bacharel. Não podemos deixar de ser doutos. Doutores. País de dores anônimas, de doutores anônimos. O Império foi assim. Eruditamos tudo. Esquecemos o gavião de penacho.
A nunca exportação de poesia. A poesia anda oculta nos cipós maliciosos da sabedoria. Nas lianas da saudade universitária.
Mas houve um estouro nos aprendimentos. Os homens que sabiam tudo se deformaram como borrachas sopradas. Rebentaram.
A volta à especialização. Filósofos fazendo filosofia, críticos, critica, donas de casa tratando de cozinha.
A Poesia para os poetas. Alegria dos que não sabem e descobrem.
Tinha havido a inversão de tudo, a invasão de tudo : o teatro de tese e a luta no palco entre morais e imorais. A tese deve ser decidida em guerra de sociólogos, de homens de lei, gordos e dourados como Corpus Juris.
Ágil o teatro, filho do saltimbanco. Agil e ilógico. Ágil o romance, nascido da invenção. Ágil a poesia.
A poesia Pau-Brasil. Ágil e cândida. Como uma criança.
Uma sugestão de Blaise Cendrars : – Tendes as locomotivas cheias, ides partir. Um negro gira a manivela do desvio rotativo em que estais. O menor descuido vos fará partir na direção oposta ao vosso destino.
Contra o gabinetismo, a prática culta da vida. Engenheiros em vez de jurisconsultos, perdidos como chineses na genealogia das idéias.
A língua sem arcaísmos, sem erudição. Natural e neológica. A contribuição milionária de todos os erros. Como falamos. Como somos.
Não há luta na terra de vocações acadêmicas. Há só fardas. Os futuristas e os outros.
Uma única luta – a luta pelo caminho. Dividamos: Poesia de importação. E a Poesia Pau-Brasil, de exportação.
Houve um fenômeno de democratização estética nas cinco partes sábias do mundo. Instituíra-se o naturalismo. Copiar. Quadros de carneiros que não fosse lã mesmo, não prestava. A interpretação no dicionário oral das Escolas de Belas Artes queria dizer reproduzir igualzinho... Veio a pirogravura. As meninas de todos os lares ficaram artistas. Apareceu a máquina fotográfica. E com todas as prerrogativas do cabelo grande, da caspa e da misteriosa genialidade de olho virado – o artista fotógrafo.
Na música, o piano invadiu as saletas nuas, de folhinha na parede. Todas as meninas ficaram pianistas. Surgiu o piano de manivela, o piano de patas. A pleyela. E a ironia eslava compôs para a pleyela. Stravinski.
A estatuária andou atrás. As procissões saíram novinhas das fábricas.
Só não se inventou uma máquina de fazer versos – já havia o poeta parnasiano.
Ora, a revolução indicou apenas que a arte voltava para as elites. E as elites começaram desmanchando. Duas fases: 10) a deformação através do impressionismo, a fragmentação, o caos voluntário. De Cézanne e Malarmé, Rodin e Debussy até agora. 20) o lirismo, a apresentação no templo, os materiais, a inocência construtiva.
O Brasil profiteur. O Brasil doutor. E a coincidência da primeira construção brasileira no movimento de reconstrução geral. Poesia Pau-Brasil.
Como a época é miraculosa, as leis nasceram do próprio rotamento dinâmico dos fatores destrutivos.
A síntese
O equilíbrio
O acabamento de carrosserie
A invenção
A surpresa
Uma nova perspectiva
Uma nova escala.
Qualquer esforço natural nesse sentido será bom. Poesia Pau-Brasil
O trabalho contra o detalhe naturalista – pela síntese; contra a morbidez romântica – pelo equilíbrio geômetra e pelo acabamento técnico; contra a cópia, pela invenção e pela surpresa.
Uma nova perspectiva.
A outra, a de Paolo Ucello criou o naturalismo de apogeu. Era uma ilusão ética. Os objetos distantes não diminuíam. Era uma lei de aparência. Ora, o momento é de reação à aparência. Reação à cópia. Substituir a perspectiva visual e naturalista por uma perspectiva de outra ordem: sentimental, intelectual, irônica, ingênua.
Uma nova escala:
A outra, a de um mundo proporcionado e catalogado com letras nos livros, crianças nos colos. O redame produzindo letras maiores que torres. E as novas formas da indústria, da viação, da aviação. Postes. Gasômetros Rails. Laboratórios e oficinas técnicas. Vozes e tics de fios e ondas e fulgurações. Estrelas familiarizadas com negativos fotográficos. O correspondente da surpresa física em arte.
A reação contra o assunto invasor, diverso da finalidade. A peça de tese era um arranjo monstruoso. O romance de idéias, uma mistura. O quadro histórico, uma aberração. A escultura eloquente, um pavor sem sentido.
Nossa época anuncia a volta ao sentido puro.
Um quadro são linhas e cores. A estatuária são volumes sob a luz.
A Poesia Pau-Brasil é uma sala de jantar domingueira, com passarinhos cantando na mata resumida das gaiolas, um sujeito magro compondo uma valsa para flauta e a Maricota lendo o jornal. No jornal anda todo o presente.
Nenhuma fórmula para a contemporânea expressão do mundo. Ver com olhos livres.
Temos a base dupla e presente – a floresta e a escola. A raça crédula e dualista e a geometria, a algebra e a química logo depois da mamadeira e do chá de erva-doce. Um misto de "dorme nenê que o bicho vem pegá" e de equações.
Uma visão que bata nos cilindros dos moinhos, nas turbinas elétricas; nas usinas produtoras, nas questões cambiais, sem perder de vista o Museu Nacional. Pau-Brasil.
Obuses de elevadores, cubos de arranha-céus e a sábia preguiça solar. A reza. O Carnaval. A energia íntima. O sabiá. A hospitalidade um pouco sensual, amorosa. A saudade dos pajés e os campos de aviação militar. Pau-Brasil.
O trabalho da geração futurista foi ciclópico. Acertar o relógio império da literatura nacional.
Realizada essa etapa, o problema é outro. Ser regional e puro em sua época.
O estado de inocência substituindo o estada de graça que pode ser uma atitude do espírito.
O contrapeso da originalidade nativa para inutilizar a adesão acadêmica.
A reação contra todas as indigestões de sabedoria. O melhor de nossa tradição lírica. O melhor de nossa demonstração moderna.
Apenas brasileiros de nossa época. O necessário de química, de mecânica, de economia e de balística. Tudo digerido. Sem meeting cultural. Práticos. Experimentais. Poetas. Sem reminiscências livrescas. Sem comparações de apoio. Sem pesquisa etimológica. Sem ontologia.
Bárbaros, crédulos, pitorescos e meigos. Leitores de jornais. Pau-Brasil. A floresta e a escola. O Museu Nacional. A cozinha, o minério e a dança. A vegetação. Pau-Brasil.
OSWALD DE ANDRADE (Correio da Manhã, 18 de março de 1924.)
Antropofagia é o ato de consumir uma parte, várias partes ou a totalidade de um ser humano. O sentido etimológico original da palavra "antropófago" (do grego anthropos, "homem" e phagein, "comer") foi sendo substituído pelo uso comum, que designa o caso particular de canibalismo na espécie humana.
A diferença entre antropofagia e canibalismo é que o canibal come porque necessita, porque está com fome. Já na antropofagia o homem come porque acredita que os poderes da "pessoa alimento" vão passar para ele.
O Manifesto Antropófago (ou Manifesto Antropofágico) foi escrito por Oswald de Andrade. Foi lido em 1928 para seus amigos na casa de Mário de Andrade. Foi publicado na Revista de Antropofagia, que ajudou a fundar com os amigos Raul Bopp e Antônio de Alcântara Machado.
A antropofagia foi tematizada por Oswald nesse Manifesto, mas também reapareceu outras vezes em sua obra. Em Marco Zero I (1943), romance de Oswald escrito sob influência do
marxismo e da arte realista mexicana, surgiu o personagem Jack de São Cristóvão, relembrando a antropofagia e celebrando-a como uma saída para o problema de identidade brasileiro e mesmo como antídoto contra o imperialismo. Na maturidade, Oswald buscou fundamentação filosófica para a antropofagia, ligando-a a Nietzsche, Engels, Bachofen, Briffault e outros autores, tendo escrito a respeito até teses, como a Decadência da Filosofia Messiânica, incluído em A Utopia Antropofágica e outras utopias, lançado, como toda sua obra, pela editora Globo a partir dos anos 80.
Estilhaços no lago de púrpura
Uma leitura teriomórfica

Feliz posfácio de Ronald Polito para o poema de um só fôlego de Wilmar Silva intitulado Estilhaços no lago de púrpura. Além de motivar a recepção pelo leitor mediante focos eivados de surrealismo, contra-cultura beatnik, hiper-realismo ou laivos hodiernos de um neo-barroco, o crítico detém-se na vertente que aponta para uma “tentativa de organização de uma para-realidade”, a qual, por sua vez, “pressupõe uma organicidade primeira, anterior ao “eu” e seus “objetos”, que talvez a poesia possa reencontrar reencantando o mundo e a si mesma.”
A leitura crítica é também esclarecedora ao assinalar, no livro, um posicionamento “para além da natureza porque um “eu” precisa devorar mitologias, reproduzi-las ou fundar outras, investindo com faunos e curupiras ao sair para a guerra que é a vida.”
É esse foco que sobremaneira interessa-me esclarecer, consciente de haver em Estilhaços no lago de púrpura umas tantas outras incursões igualmente merecedoras de olhares verticais. Essa visão abrangente agrega desde a purgação telúrica a uma sertanização da experiência subjetiva de um poeta devoto às raízes dos cerrados de Rio Paranaíba, região agreste compósita de uma mineiridade incomum na poesia.
Como incorpora uma estética da repetição que trabalha palavras-situações freqüentes em um memorialismo da terra de origem e, ainda, uma aventura narcísico-erótica que torna a alteridade procurada o êxtase de si mesma.
Ao eleger “afetividades seletivas”, Wilmar Silva está inteirado de que pós-moderno é o que tem raiz e de que essa é a conditio da fragmentação epistêmico-poética a exigir do autor, hoje, a neuedichte – nova densidade na produção do estranhamento. É aí que o poeta esperneia para (se) dizer, donde justificar-se, na produção contemporânea, a pluralidade de diretrizes norteadoras de escolhas também múltiplas.
Os desdobramentos neo-barrocos de Wilmar Silva expõem descrições fraturadas oriundas de muitas tradições, desde cânones que inclusive evocam para si cantares medievais, a rupturas imprescindíveis com as vanguardas históricas, em função da sobrevivência da própria poesia.
O autor se coloca, como indica Perloff, como “o falante isolado numa paisagem específica [diante/dentro/a favor/contra] a qual medita ou rumina sobre algum aspecto de sua relação exterior, chegando por fim a alguma sorte de epifania, um momento de percepção em que o poema se encerra.”
Nesse sentido, Estilhaços no lago de púrpura inclui-se entre as publicações recentes que intentam (e conseguem) trabalhar uma linguagem revitalizada de sentido. E cabe a ela, para justificar sua raridade, apud Rodrigo Garcia Lopes, “ser crítica, exploratória, surpreendente, revelatória, celebratória.”

O homem bicho do homem
O reencantamento do mundo almejado por Wilmar Silva pressupõe assumir o poeta os riscos de elaborar um imaginário complexo.
Observe-se os fragmentos seguintes: “sou este cavalo com escamas nas crinas” (1) – “coiote eu/eu hiena” (2) – “sonho caçar as mulas que habitam pântanos nas orelhas” – “um lobo eu faminto” – “sou este que brame no desespero de cigarra – um grilo com aquele cricri” (3) – “eu gambá” (4) – “eu murmuro salmos para suspender as jias” (5) – “sou eu as barbatanas que cingem minhas pálpebras de algas e arcos” (7) – “eu disse serpentes com a voz contida” (10) – “sou esta tarântula aninhada nas axilas” – “sou esta mula que debate bestas nos olhos” – “sou este mulo que apenas você há de desvendar” (11) – “eu/uma semente que tem cabeça e faz dormir uma onça com um leão e uma jandaia em meu ventre” (14) – “sou esta novilha com êxtase de égua no curral” (17) – “sou este corcel/eu um corço entre avestruz e seriemas – sou esta ema com onze penas de pavão – (...) – eu e minha fazenda de poemas” (19) – “um animal com rimas que dizem líricas” (24) – “sou esta represa onde peixes nascem da terra” – “eu este wilmar silva que vira cavala” (28).
O bestiário constitui sobremaneira a intentio auctoris de Wilmar Silva e da poesia de Estilhaços. Trata-se de procedimento usual na literatura do mundo, cujo primeiro livro em verso de caráter religioso é o de título homônimo, de Philippe de Thaon (século XII); em nível profano é apontado também o homônimo de Richard de Fournival. Há considerável bibliografia referente ao tema, caso de Manoel de Barros, o Borges de “O livro dos seres imaginários”; Júlio Cortazar em “Bestiário”; do poeta paraguaio radicado no México, Victor Sosa, autor, entre outros, de “Los animales furiosos”; do mexicano Juan José Arreola, autor de “Bestiário”; do carioca Marco Luchesi de “Meridiano celeste & bestiário”, do Augusto de Campos também de “Bestiário em poesia é risco”; de Astrud Cabral em “Jaula”, a prosa do mineiro Abelardo de Carvalho, também em “Bestiário”; na tradição surrealista “O bestiário ou cortejo de Orfeu”, de Apollinaire; de algumas parábolas de Kafka.
O poema de um só fôlego de Wilmar Silva inscreve-se entre os que têm “algo em sua imagem que se harmoniza com a imaginação dos homens”, como afirma Borges.
Esse bestiário reflete a (convivência do poeta com a dura vida rural, que é, em contrapartida, encantatória e esterco do imaginário. Parece ele querer “resgatar o pertencimento humano à natureza”, como opor-se ao “recalcamento progressivo do sentido das metáforas.” Por sua linguagem surrealírica, o livro é um libelo crítico à razão aristotélica, questiona a si mesma e propõe uma nomeação que se não é inusitada em nível semântico-lingüístico, surpreende pela contingência do pensar.
Poder-se-ia até admitir Estilhaços como de tendência a um darwinismo cultural, no stricto sensu de traduzir a evolução da vida poética através de nomes e conceitos genéticos da linguagem, ou da luta pela vida, como em Euclides da Cunha.
Animais são componentes do imaginário real transposto à poética por uma dinâmica organizadora de mitologemas, que cria um plano locutório o qual, diz Durand, “assegura uma certa universalidade nas intenções da linguagem e coloca a estruturação simbólica na raiz de qualquer pensamento.”
Nesse sentido, o que a priori resultaria apenas surrealismo (e não seria pouco) em ser “esta lontra com pele de cigarra” (5), “este corpo que segrega mil canários de pedra no azul” (10), “um cavalo indomável” (16) – “este pomar de relevos (...) que alimentem um fauno, uma fauna, um camaleão” (22) etc, evoca a “potência fundamental dos símbolos que é a de ligarem, para lá das contradições naturais, os elementos inconciliáveis, as compartimentações sociais e as segregações dos períodos da história (...), categorias motivantes dos símbolos nos comportamentos elementares do psiquismo humano” (Durand:1977:38). Donde a imaginação ser, no imaginário poético, originária de libertação (défoulement).
A assertiva ressoa em Bachelard quando o mestre fenomenológico assevera serem os eixos das intensões (com S) fundamentais da imaginação os trajetos dos gestos principais do animal humano em direção ao seu meio natural, prolongado pelas instituições primitivas tecnológicas e sociais do homo faber.
Estilhaços seria um longopoema de mitologia pessoal? Exercício de isomorfismo com polarização de imagens? Uma leitura pertinente do livro de Wilmar Silva está em tomar suas metáforas como símbolos teriomórficos. “São as imagens animais as mais freqüentes e comuns”, diz Durand, que acrescenta: “Podemos dizer que nada nos é mais familiar, desde a infância, que as representações animais. O bestiário parece, portanto, solidamente instalado na língua, na mentalidade coletiva e na fantasia individual.”
Por sua vez, Krappe reconhece que “o homem tem assim tendência para a animalização do seu pensamento e uma troca constante faz-se por essa assimilação entre os sentimentos humanos e a animação do animal.”
Pela análise antropológica das estruturas imaginárias de Gilbert Durand, esses símbolos teriomórficos remetem a mitos emblemáticos. E uma razão para isso existir está no fato de que “a imaginação mascara tudo que não a serve.” “O animal, diz Durand, apresenta-se, portanto, como um abstrato espontâneo, o objeto de uma assimilação simbólica, como mostra a universalidade e a pluralidade da sua presença tanto numa consciência civilizada como na mentalidade primitiva. (...) O bestiário parece, portanto, solidamente instalado na língua, na mentalidade coletiva e na fantasia individual.”
Texto ferótico, Estilhaços elenca animais que, pela ótica junguiana, são antigos símbolos fálicos, caso do pássaro, peixe, serpente, burro, touro e cavalo. E Durand adverte: “É por isso necessário ligar a imaginação teriomórfica a uma camada ontogenética mais primitiva que o Édipo, e sobretudo a uma motivação mais universalizável.”
O livro de Wilmar Silva tem uma capacidade envolvente do leitor, que se torna o “eu”-bicho do narrador-poeta e que faz na alteridade o seu igual em todo ser humano que pensa, poeticamente, no zoológico das palavras.
Márcio Almeida é mestre em Literatura, jornalista, poeta, criador do Movimento de Resgate do Autor Inédito e Anônimo de Oliveira. marcioal@vertentes.com.br








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