quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Mário Faustino De Votla ao Eterno



No dia 22 deste mês de outubro [2002], se vivo fosse, Mário Faustino, nascido em Teresina e criado no Rio, completaria 72 anos. Poderia ainda estar a produzir maravilhas. Outros com essa mesma idade têm maiores e mais graves responsabilidades de curto prazo do que aquelas reservadas a um poeta. Mas talvez tenham menos compromisso com a eternidade.
Ocorre que Faustino não está vivo, não! No dia 27 de novembro de 1962, de madrugada, embarcou num Boeing da Varig, no aeroporto do Galeão, no Rio, com destino à Cidade do México. Eram 5h30 da manhã quando o avião espatifou-se no cerro de la Cruz, perto de Lima, no Peru. Os registros daquele dia apontam a morte de oitenta passageiros e dezesseis tripulantes. De Faustino, que se foi aos 32 anos e cujos restos mortais não puderam ser reconhecidos, havia um único livro de poesias, O Homem e Sua Hora (Livros de Portugal, 1955), alguns inéditos e poemas traduzidos, que foram depois reunidos pelo crítico e amigo Benedito Nunes.
“Bateu-se delicado e fino, com/
Tanta violência, mas tanta ternura!”
Os leitores menos habituados à poesia ou os mais jovens talvez nunca tenham ouvido falar no seu nome. Têm agora mais uma oportunidade, com a publicação, pela Companhia das Letras, de O Homem e Sua Hora e Outros Poemas. Depois daquela edição de 1955, hoje raríssima, reeditada em 1966 pela Civilização Brasileira com acréscimo de alguns poemas, a editora Max Limonad publicou, em 1985, Mário Faustino: Poesia Completa, Poesia Traduzida.
Há longuíssimos dezessete anos, portanto, têm sido escassas as notícias sobre aquele que foi, em muitos sentidos, o mais criativo, inventivo e culto (com perdão de essa palavra parecer pernóstica nestes tempos de proselitismo antiintelectualista) poeta brasileiro da geração pós-1945. Segundo a Companhia das Letras, a nova edição trará ainda alguns poemas inéditos.
Os que eventualmente já conhecem sua obra se espantam — e os que vão conhecê-la agora hão de espantar-se — que se tenha criado em torno de Faustino uma bolha de silêncio, enquanto nulidades que vagam entre o prosaísmo mais vagabundo e a poesia-como-arte-plástica — ou, ainda, de pretensões ideogramáticas — ocupem os cadernos de cultura dos jornais e tomem o tempo dos professores universitários das faculdades de letras, gastando com inutilidades os já parcos recursos públicos.
Jornalistas e mestres fazem crer a seus leitores e alunos que o verso se esgotou com Carlos Drummond de Andrade ou João Cabral de Melo Neto e que tudo o mais ou é a empulhação dos epígonos do Concretismo, ainda valorizado como etapa intermediária entre a civilização e a barbárie, ou é confessionalismo feminil de moças arredias à autoridade paterna ou de rapazes desligados do sentido do épico.
(Leitor, farei em seguida um parêntese sobre a política da poesia. Se quiser entrar já no universo de Faustino, pule o trecho abaixo e continue a leitura a partir do intertítulo “Tradição e Vanguarda”.)
O tom em que escrevo é mesmo algo agressivo. Está na hora de, também na cultura, desafinar esse coro da camaradagem e da conciliação que entroniza nulidades influentes, que acabam reconhecidas como gênios porque outros, tão estúpidos quanto elas próprias, sentem-se bem em entender o que dizem. Sustento, em suma, que o silêncio a respeito de Faustino e até mesmo a demora em republicar a sua obra — merecedora de uma cátedra em qualquer faculdade de letras que se prezasse — constituem uma espécie de decisão política.
Já escrevi uma vez na revista Bravo!, para escândalo de certa casta universitária, que a poesia brasileira se divide em partidos: à esquerda, um Roberto Schwarz, aquele das idéias fora do lugar, é capaz de pegar um livro como Elefante, de Francisco Alvim, e submetê-lo a um trabalho de desconstrução à luz do marxismo. Fragmentos do cotidiano, observações tolas do dia-a-dia, anotações feitas no joelho do descompromisso, dispostos na forma de versos, mereceram do crítico um longuíssimo texto que refaz a trajetória das classes populares do inferno à redenção, publicado parcialmente no Jornal de Resenhas e, mais tarde, na íntegra, no suplemento Mais!, da Folha de S. Paulo. Só lendo!
Para Schwarz, a poesia de Alvim é uma espécie de comentário ou ilustração de uma ideologia redentora. Como os, por assim dizer, versos são por demais anêmicos para sustentar a dialética marxista-schwarziana, o professor não tem receio de recorrer a perífrases para preencher os claros do original. O fantasma ainda é o da arte engajada, em que o poeta entra com o fato revolucionário — como se a poesia tivesse força instrumental para mudar o mundo —, e o crítico, com a exegese. Pfui…
No centro, fica a turma da verborragia oca, que só quer ser feliz e se livrar das amarras, dos convencionalismos, dos formalismos. Sua realização plena é a poesia como confissão, o texto como diário, a banalidade dita com solenidade fingidamente distraída, como se fosse fácil ser simples. Todos leram A Teus Pés, de Ana Cristina Cesar, e nunca mais se levantaram da genuflexão. Nesse caso, poesia nada mais é do que citação marcada pelo testemunho. Algo como: “O que aconteceu comigo depois que li, sei lá, Elizabeth Bishop”. E tome sub-bishopices a pretexto de fazer texto literariamente informado.
E, julgando-se à esquerda, ainda resiste a turma do tatibitate (por favor, vejam no dicionário o sentido dessa palavra para saber quão precisa é sua escolha neste texto), que pretende emprestar a aliterações sofríveis, a trocadilhos ginasianos, a desenhos imprestáveis, a gravidade humana de hesitações verdadeiramente hamletianas.
Entre eles, pode-se ouvir: “Viu o último Arnaldo Antunes?”. É a turma que usa livros para ver, quando não os “pendura” na parede. Junto com os criadores de instalações do Partido das Artes Plásticas, vivem em busca de um novo suporte. Dos três Partidos da Poesia, esse é o mais visível. Seu “trabalho” (como eles chamam aquilo…) carrega certa aura de complexidade, e eles sempre têm um “olhar” (adoram substantivar verbos) benevolente para aqueles que não entendem “a proposta”.
Como considero truque sujo chamar algo de “incompreensível” — porque pretendo ser pouco complacente com a minha própria ignorância —, sempre que posso, convido-os a dissertar sobre a tal “proposta”. Declinam do convite. Acostumados à imagem que se impõe pelo silêncio, consideram que o mundo se divide entre os que já entenderam e os que nunca vão entender. Haroldo de Campos, Augusto de Campos e Décio Pignatari são, por assim dizer, a tríade, os três coronéis desse sertão mental ainda poderoso. A exemplo do coronelismo político ressuscitado pelo PT, o Concretismo resiste cada vez mais nos grotões das mentalidades, mas ainda tem lá o seu poder.
Faustino sobreviveu à arte como capítulo do engajamento redentor, ao prosaísmo distraído de gente preguiçosa o bastante para estudar o verso e ao coronelismo concretista. Importante tentar entender por quê.
Tradição e vanguarda
O jovem Mário Faustino incomodava já as vanguardas suas contemporâneas — e, depois, morto, sua obra como testemunho de sua genialidade continuou a perturbar, daí que tenha sido banida — porque ele mesmo nunca reivindicou para si tal estatuto. E incomodava não porque as rejeitasse, mas porque era capaz de compreender o código que elas compreendiam e ter um talento que jamais tiveram.
Foi o responsável, entre 1956 e 1959, pela página Poesia-Experiência, do Jornal do Brasil, cujo lema era “Repetir para aprender, criar para renovar” (não deixa de ser miserável que o Brasil viva, até na política, quarenta anos depois, tempos que fazem a apologia do improviso). Ali publicou tanto jovens poetas — alguns de vanguarda, sim, a exemplo dos concretistas — como nomes já consagrados da literatura. Numa única página podiam-se encontrar o então iniciante José Lino Grunewald, um experimentalista como Antonin Artaud e ninguém menos que Sá de Miranda.
Sá de Miranda, poeta português, nasceu pelo menos três décadas antes de Camões na mesma Coimbra, em fins do século XV. Foi um dos mestres do criador de Os Lusíadas e o verdadeiro introdutor das formas italianas de verso em Portugal, como o soneto.
Na história, sua bela obra foi esmagada pelo gigante que o sucedeu. Ao recuperá-la, Faustino buscava o diálogo com a tradição, o que as vanguardas — qualquer vanguarda tem sempre um lado boçal e obscurantista — nunca souberam fazer. Repetir para aprender. Criar para renovar. Como Sá de Miranda fez com Petrarca. Como Camões fez com Petrarca e Sá de Miranda.
Poesia-Experiência foi a página literária de maior prestígio de seu tempo, e Faustino a conduzia sem poupar reputações. Paulo Francis — outro que não tinha medo de fazer inimigos e de não influenciar pessoas, que está a fazer falta — contou a história de um poetastro que foi buscar a intercessão da condessa Pereira Carneiro, dona do jornal, para que ela impedisse Faustino de criticar um livro seu que ainda seria lançado.
Delicada, mas firme, a altiva senhora teve espírito para perguntar como o autor sabia de antemão que Faustino não gostaria do livro se ele ainda nem o havia publicado.
O tal poetastro certamente sabia o que o aguardava, e o melhor testemunho das exigências do crítico era o que já estava escrito em O Homem e Sua Hora.
Impressiona que um jovem de 25 anos tenha, como diria o poeta latino Horácio, criado um monumento mais perene do que o bronze, evidenciando a um só tempo tal riqueza de conceitos, tal virtuosismo melódico e complexidade técnica e tal variedade de imagens.
Entrelaçados os três procedimentos, o conceito, o rigor formal (ainda que variado) e as imagens — categorias que o poeta americano Ezra Pound chamava, respectivamente, logopéia, melopéia e fanopéia —, fica evidente, como afirmou Benedito Nunes, que Faustino desenvolveu uma “poética que aceita a tríade de Pound”.
Ezra Pound foi, indubitavelmente, um daqueles que ele tentou repetir para aprender e que inspiraram a sua vertiginosa criação de novidades. Caso se quisesse aqui voltar a comprar mais algumas boas confusões, seria de lembrar que, bem antes de Os Cantos de Pound se tornarem uma espécie de livro sagrado com que os fariseus do Concretismo buscavam justificar a morte do verso, Faustino já os havia devorado para “aprender” e, então, poder “criar para renovar”. Deu-nos poesia, não um discurso ideológico sobre o verso.
“Ego de Mona Kateudo”
Faustino explorou como poucos — certamente atingindo resultado único — a chamada intertextualidade, que, numa definição rápida para tema tão abrangente, poderia se contentar com, vá lá, o mínimo de palavras com o máximo de significação, de maneira que o verbo informe, mas também evoque, designe e seja capaz de suscitar inferências.
Reparem, a propósito da intertextualidade e das categorias poundianas, o poema “Ego de Mona Kateudo”, que segue adiante (sirva o texto de caso exemplar para que apenas se comece a entender Faustino, que é o propósito deste texto; impossível ser suficiente nesse caso). Vamos ao poema, que integra o grupo “Sete Sonetos de Amor e Morte”:
Dor, dor de minha alma, é madrugada
E aportam-me lembranças de quem amo.
E dobram sonhos na mal-estrelada
Memória arfante donde alguém que chamo
Para outros braços cardiais me nega
Restos de rosa entre lençóis de olvido.
Ao longe ladra um coração na cega
Noite ambulante. E escuto-te o mugido,
Oh vento que meu cérebro aleitaste,
Tempo que meu destino ruminaste.
Amor, amo, enquanto luzes, puro,
Dormido e claro, eu velo em vasto escuro,
Ouvindo as asas roucas de outro dia
Cantar sem despertar minha alegria.
O título, que Faustino escreve em grego no manuscrito, é uma citação de um verso de Safo de Lesbos, uma de suas referências constantes:
“Déduke mèn a selánna/
kái Pléiades; mésai dè/
núktes, parà d’ erchet’ óra,/
égo dè móna katéudo”
(“A lua já se pôs, as Plêiades também;/
Émeia-noite;/ A hora passa, e estou deitada, sozinha”).
A solidão expressa no verso sáfico, que nomina o poema, será então desenvolvida no soneto, cujo título em português seria, na tradução escolhida, “E Estou Deitada, Sozinha”. As palavras que pontuam o poema informam a condição do “eu” cuja dor não pode ser percebida por ninguém: madrugada, lembranças, memória, vento, tempo, escuro. Por mais confessional e passional que se mostre o poema, mantém intacto o eixo de significados. Não pode haver bom poema com seleção ruim de palavras.
Nesse, como em outros poemas, ninguém como Faustino usou tão belamente o enjambement, aquele recurso em que o sentido de um verso, traduzido mesmo por sua complementação sintática, se realiza no verso seguinte:
“E dobram sonhos na mal-estrelada/
Memória arfante donde alguém que chamo”.
No papel, as rimas estão dispostas ao fim de cada verso, num entrelaçamento que tem história na literatura, mas convencional de qualquer modo. Se o poema for declamado segundo a demanda da sintaxe e do sentido, o que é rima final assume a característica de rimas internas, que, por sua vez, vão se compondo com rimas e assonâncias internas a cada verso, num ritmo vertiginoso:
minha alma/ madrugada; aportam-me/
lembranças; dobram/ arfante/chamo.
O ritmo que Faustino impõe a seus versos vai constituindo, por assim dizer, uma espécie de base harmônica sobre a qual ele superpõe uma melodia do estranhamento, que se dá já no terreno das imagens: outros podem ter feito sonetos tão técnicos quanto ele; outros podem ter sido tão rigorosos na escolha do eixo vocabular quanto ele, mas ninguém soube ser tão original na elaboração das figuras, na composição de metáforas de tal sorte únicas, que sua poesia corresponde mesmo a uma verdadeira reeducação da percepção. Vejamos:
“aportam-me lembranças”; “mal-estrelada memória arfante”; “braços cardiais”; “noite ambulante”; “vento que (…) aleitaste”; “tempo que (…) ruminaste”; “ouvindo as asas roucas”.
Curiosamente, a metaforização que reeduca o ouvido, que instaura um novo sentido para as palavras, também as devolve a seu sentido original. Em Faustino, o extremo da subjetividade encontra a plena objetividade.
Lírico, não banal
Caso se faça um inventário dos temas e das preocupações constantes de Faustino, fica difícil fugir à categorização de Benedito Nunes no pequeno e excelente ensaio que abre a edição de 1966: “amor e morte, sexo, carne e espírito, vida agônica, salvação e perdição, pureza e impureza, Deus e o homem, tempo e eternidade”. Leitor de várias línguas, o que incluía o latim e o grego clássicos, e tradutor dos mais promissores, sua voracidade intelectual reunia, como fez no poema “O Homem e Sua Hora”, emblemas e símbolos do cristianismo e do paganismo, fundindo a vocação dionisíaca que hauria deste à culpa e ao remorso que experimentava daquele. Por isso, acrescentaria à lista de Nunes a palavra “perdão”, o mais alto vocábulo da hierarquia de valores cristãos.
Os opostos parecem sempre prontos a se reconhecer e a se fundir. Leia-se, a propósito, o soneto “Estava lá Aquiles, que Abraçava”:
Estava lá Aquiles, que abraçava
Enfim Heitor, secreto personagem
Do sonho que na tenda o torturava;
Estava lá Saul, tendo por pajem
Davi, que ao som da cítara cantava;
E estavam lá seteiros que pensavam
Sebastião e as chagas que o mataram.
Nesse jardim, quantos as mãos deixavam
Levar aos lábios que os atraiçoaram!
Era a cidade exata, aberta, clara:
Estava lá o arcanjo incendiado
Sentado aos pés de quem desafiara;
E estava lá um deus crucificado
Beijando uma vez mais o enforcado.
Se, da lista de Nunes, tivéssemos de escolher dois temas preponderantes em sua curta mas intensa obra, o sexo e a morte mereceram, sem dúvida, maior número de referências. Com esta teve uma relação que ia da investigação intelectual ao fatalismo místico, passando pelo anedótico, com conclusão trágica. Consta que, em Nova York, insistentes ligações para a casa de um amigo caíam por engano no número da casa de uma astróloga, que teria previsto uma tragédia nos anos vindouros. Faustino contou o fato a amigos em tom de pilhéria. Tentou adiar a viagem que teria de fazer, já de volta ao Jornal do Brasil como editorialista. Não conseguiu.
“(…) Os derradeiros astros nascem tortos/
E o tempo na verdade tem domínio/
Sobre o morto que enterra os próprios mortos/
O tempo na verdade tem domínio,/
Amém, amém vos digo, tem domínio/
E ri do que desfere verbos, dardos/
De falso eterno que retornam para/
Assassinar-nos num mês assassino”.
O sexo, igualmente, ocupa lugar central em sua lírica. Faustino não apenas cultuava o amor que, no seu caso, ousava dizer seu nome como o prodigalizava em praticamente todos os poemas em que a tentação erótica é vivida como imposição da matéria, como caminho da transcendência, mas também como queda e perdição romântica, como em “Balatetta”.
Por não ter esperança de beijá-lo
Eu mesmo, ou de abraçá-lo,
Ou contar-lhe do amor que me corrói
O coração vassalo,
Vai tu, poema, ao meu
Amado, vai ao seu
Quarto dizer-lhe quanto, quanto dói
Amar sem ser amado,
Amar calado.
Beijai-o vós, felizes
Palavras que levíssimas envio
Rumo aos quentes países
De seu corpo dormente, rumo ao frio
Vale onde vaga a alma
Liberta que na calma
Da noite vai sonhando, indiferente
À fonte que, de ardente,
Gera em meu rosto um rio
Resplandecente.
No sonolento ramo
Pousai, palavras minhas, e cantai
Repetindo: eu te amo.
Ele, que dorme, e vai
De reino em reino cavalgando sua
Beleza sob a lua,
Encontrará na voz de vosso canto
Motivo de acalanto;
E dormirá mais longe ainda, enquanto
Eu, carregando só, por esta rua
Difícil, meu pesado
Coração recusado,
Verei, nesse seu sono renovado,
Razão de desencanto
E de mais pranto.
Entretanto cantai, palavras: quem
Vos disse que chorásseis, vós também?
Celebração e derrota, tentação dionisíaca e pessimismo filosófico, vontade de ordenar a criatura e egoísmo radical são exemplos de uma poesia que se move entre extremos, cuja expressão perfeita está no poema “Carpe Diem” (aproveite o dia), irônico já desde o título. Nos três primeiros versos, o poeta indaga:
“Que faço deste dia, que me adora?/
Pegá-lo pela cauda, antes da hora/
Vermelha de furtar-se ao meu festim?”.
E nos dois últimos conclui:
“Já nele a luz da lua — a morte — mora,/
De traição foi feito: vai-se embora”.
Aspirações épicas
O poema que dá título ao único livro que Faustino escreveu em vida, O Homem e Sua Hora, pode, sem dúvida, ser lido como fragmento de um poema épico. Feita tal leitura, a propósito, todos os textos do autor parecem apelar para a busca de uma dimensão da existência humana que a lírica, por si mesma, não comporta.
Morto aos 32 anos e tendo deixado o que deixou, é justo supor que Faustino teria ousadia o bastante para se aventurar pelos caminhos do épico. Quando Eliot, um dos poetas da primeira infância intelectual de Faustino, pensa Virgílio como autor completo, supõe não apenas aquele que traduziu o sumo de uma civilização triunfante, mas também aquele que pôde narrar a sua essência, digamos, metafísica numa grande e poderosa narrativa em versos, Eneida.
É quase truísmo afirmar que a civilização contemporânea não suporta o poema épico porque, para usar expressão de Faustino, talvez lhe falte o “cálice que una” tamanha desordem filosófica. O gênero também supõe, em que pesem tanta desdita e desgraça, um sentido de triunfo. Faustino, em “O Homem e Sua Hora”, ensaia uma ousada história da civilização que funde símbolos de várias mitologias, mas que tem como pilares a mitologia grega (Delfos) e o cristianismo (João). O poema se realiza em estações, em mininarrativas. Mas oh desdita: Faustino ainda não encontrara o sentido do triunfo.
Os heróis antigos que desfilam em O Homem e Sua Hora vão se esfarelando no choque com o tempo. Uma espécie de melancolia cósmica percorre o texto, e o fatalismo cristão se impõe sobre a vontade augusta:
“Uma cruz, um talento de ouro, um preço,/
Um prêmio, uma sanção… Desaba a noite,/
A noite tomba, Iésus, e no céu/ Da tarde,
onde os revôos de mil pombas/
Soltas pelo desejo de teu reino?/
Todo este caos, Homem, para dizer-te/
Não seres deus nem rei nem sol nem sino/
Dos animais, das pedras — ou dizer-te/
Ser débil cana o cetro que não podes/
Quebrar, ser de ervas más o diadema/
Que não podes cortar com teus cabelos! (…)”.
Se Mário Faustino tivesse sobrevivido ao “mês que o assassinou”, outros certamente teriam sido os destinos da poesia brasileira. Era também um crítico de primeira qualidade, ofício que exerceu com brilho em Poesia-Experiência. Tinha um sentido claro de militância cultural, mas tendo a literatura como centro, não o proselitismo ideológico, que considerava uma das madrastas más do talento. Entre outras impertinências, cobrou do já santificado Carlos Drummond de Andrade que participasse do debate cultural. Traduziu de várias línguas, tinha como referências alguns dos autores que se tornaram oráculos do coronelismo concretista que tomou a produção poética de um só golpe.
Lembra Benedito Nunes no já referido ensaio: “Por volta de 1959, após haver repensado Mallarmé e Pound, Jorge de Lima e os concretistas, Mário Faustino escrevia:
‘A cibernética, graças aos deuses, nunca poderá produzir poesia: a área multifária de cada palavra é incomensurável; célula de N átomos, incalculável, imponderável, indirigível. A poesia será sempre mágica, metafísica, jamais uma ciência exata, pura ou aplicada. Isto eu já sei, profundamente. Um saber para toda a existência, irretifícável, confundindo-se com a própria existência, agindo sobre ela e modificando-a à sua imagem’”.
Dizer o que mais?
Entenderam por que os coronéis da poesia, a turma do tatibitate e aqueles que vivem aos pés da mediocridade tentaram esconder Mário Faustino? Mas ele ressurge, gigante diante de nossos olhos, resistindo “à pulhice dominante à nossa volta”, para lembrar Francis outra vez.
Reinaldo Azevedo
* Texto originalmente publicado na revista Primeira Leitura nº 8, de outubro de 2002, e que integra o livro Contra o Consenso (Editora Barracuda).

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

o mundo que venci deu-me um amor

O mundo que venci deu-me um amor,
Um troféu perigoso, este cavalo
Carregado de infantes couraçados.

O mundo que venci deu-me um amor
Alado galopando em céus irados,
Por cima de qualquer muro de credo,
Por cima de qualquer fosso de sexo.

O mundo que venci deu-me um amor
Amor feito de insulto e pranto e riso,
Amor que força as portas dos infernos,
Amor que galga o cume ao paraíso.

Amor que dorme e treme.
Que desperta
E torna contra mim, e me devora
E me rumina em campos de vitória...

Mário Faustino(1930-1962)
Mais sobre Mário Faustino em
http://pt.wikipedia.org/wiki/M%C3%A1rio_Faustino

silêncio gritos & sussurros

o seu corpo do poema
pede-me silêncio
ou algazarra?

farra
de bocas pernas coxas
línguas e dedos
nos recantos mais profundos
por onde dorme o teu desejo?

carícias delicadas
pela nuca em torno da orelha
lábios deslizando
ao redor do teu umbigo?

o que o seu corpo do poema
quer viver comigo?

o seu corpo do poema
no deserto das delícias
é escorpião ou percevejo?

é calmaria ou tempestade
no alto mar da liberdade
pede-me noite ou claridade
ou

implora-me desesperadamente
os mais selvagens beijos?

arturgomes
sampleAndo
http://artur-gomes.blogspot.com/

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Babilak Bah lança Enxadigmas



Babilak Bah tem apoio cultural do teatro Dom Silvério
Babilak Bah lança os Enxadigmas: novos instrumentos criados a partir do icone "enxada", o livro de poemas "Corpoletrado" e o vídeo "Curacoes".
Sábado, 5 de dezembro, teatro do OI Futuro Klauss Vianna.

21 hs.R$15,00(inteira).

"No bater da enxada, da colheita de timbres, brota o alimento sonoro - verbo eletrônico: vibra o gesto musical em palavras, sons e imagens!"

Consultem o novo site do Artista.


55 31 92011670 55 31 92011670

segunda-feira, 30 de novembro de 2009



Estou lançando meu primeiro álbum gravado ao vivo na choperia do Sesc Pompéia dia 10 de dezembro 21h acompanhado da banda, são músicas gravadas em estudio de meus álbuns anteriores que ganharam arranjos novos e o beat espontâneo de um show registrado ao vivo, apresentaremos canções inéditas e algumas já conhecidas do público. Aguardo voces um abraço de Edvaldo Santana

Hasta la vista !!!Acesse o site: http://www.edvaldosantana.com.br



Lady Gumes está na área se derrubar é penalti. em goyta city a memória está no lixo e tem um monstrengo na porta principal, e prezepada na placa oficial, enquanto isso aqui http://goytacity.blogspot.com respira-se um pouquinho de Mário Faustino, e amanhã a partir das 19h Marko Andrade comanda o poesia no poste na Praça Mauá.


VeraCidade

Porque trancar as portas
tentar proibir as entradas
se eu já habito os teus cinco sentidos
e as janelas estão escancaradas?

um beija flor risca no espaço
algumas letras de um alfabeto grego
signo de comunicação indecifrável

eu tenho fome de terra
e este asfalto sob a sola dos meus pés:
agulha nos meus dedos

quando piso na Augusta
o poema dá um tapa na cara da Paulista
flutuar na zona do perigo
entre o real e o imaginário:
João Guimarães Rosa Martins Fontes Caio Prado
um bacanal de ruas tortas

eu não sou flor que se cheire
nem mofo de língua morta
o correto deixei na cacomanga
matagal onde nasci

com os seus dentes de concreto
São Paulo é quem me devora
e selvagem devolvo a dentada
na carne da rua aurora

Artur Gomes
SampleAndo

domingo, 29 de novembro de 2009

Mataram o FestCampos de Poesia Falada - Lady Gumes Jura Que Não Foi Ela

enigma tropical

a luz do sol mergulha a espinha central nas costas do equadro ela clara caminha em minha frente na calçada cabelos longos at[e o cóxix nu percebe-me a seu encalço vira o rosto não consigo ver teus olhos está de óculos escuros e não consigo tirar os meus daquela visão que é bela cintra ia dobrar na esquina próxima e resolvi seguir e continuar me deliciando com o movimento das duas pêras em minha frente sobressaltada pegou um ônibus deixando-me seguir em meus delírios e paixão por frutas que não são

Artur Gomes
http://braziliricas.blogspot.com/

silêncio gritos& sussurros

o seu corpo do poema
pede-me silêncio
ou algazarra?

farra
de bocas pernas coxas
línguas e dedos
nos recantos mais profundos
por onde dorme o teu desejo?

carícias delicadas
pela nuca
em torno da orelha
lábios deslizando
ao redor do teu umbigo?

o que o seu corpo do poema
quer viver comigo?

o seu corpo do poema
no deserto das delicícias
é escorpião ou percevejo?

é calmaria ou tempestade
no alto mar da liberdade
pede-me noite ou claridade
ou

implora-me desesperadamente
os mais selvagens beijos?

arturgomes
CrNAvalhaGumes
http://carnavalhagumes.blogspot.com
No twitter
http://twitter.com/fulinaima
No my space
http://www.myspace.com/317911079
cine.vídeo.poesia
http://youtube.com/fulinaima
juras secretas
http://poeticasfulinaimicas.blogspot.com/

VeraCidade 2

quando piso na paulista
o poema é só um corpo
que se chama carolina
e por mais que se defina
a esfinge sob a roupa
o delírio é só metáfora
e mesmo fosse concreto
sendo menos abstrato
esse corpo é uma seta
apontada em direção

flecha de fogo
ou neon
como placas luminosas
nos meus olhos de dragão

e a lâmina acesa de vênus
na camisa aberta de marte
a palavra vinda dos poros
brota do corpo em que piso
na casa das rosas em que passo
subindo a calçada levito
já estou na estação paraíso
e na geografia no corpo gravito
quando piso na paulista me sinto
o amante do silêncio e do grito

artur gomes
SampleAndo
http://artur-gomes.blogpsot.com


Mário Faustino, o amor e a hora do desastre

1

Publicado originalmente por Sérgio Alcides em 13/01/03.

Ninguém exigiu tanto da poesia no Brasil da segunda metade do século XX quanto Mário Faustino. Para ele, fiel aos ensinamentos de Orfeu, o poeta deveria ser um demiurgo, intermediário entre os homens e os deuses. Mais do que um organizador da linguagem, seria aquele que a torna orgânica, vivente, ao mesmo tempo em que transmuta o vivido em escrito: "Vida toda linguagem" – é a fórmula mágica que abre um de seus poemas mais conhecidos. Em plena onda desenvolvimentista dos anos 1950, quando o país ingressava na era da televisão e das auto-estradas, Faustino trazia de volta à vanguarda o mito do poeta visionário, capaz de fazer da poesia "o mais exato, o mais perene e o mais eficaz meio de comunicação".

É claro que o defensor de tão vigorosas proposições era então um jovem. Muito infelizmente, o destino impediu que ele realizasse sua grande aspiração. Confirmou-se em sua fulgurante trajetória de jornalista, poeta e crítico literário o velho adágio: os amados dos deuses morrem cedo. Tinha 32 anos quando, em 1962, o avião em que viajava para o México bateu no Cerro de la Cruz, nos Andes, a poucos quilômetros da primeira escala, em Lima.

Quarenta anos depois, sua obra inacabada retorna às livrarias – pela primeira vez remetendo ao título do seu único livro publicado em vida: "O homem e sua hora e outros poemas" (Companhia das Letras). Segundo a organizadora da edição, Maria Eugenia Boaventura, da Unicamp, trata-se do primeiro volume de uma série de cinco, que também recolherá os textos de crítica, teoria e tradução do autor. O projeto é grandioso: teremos finalmente uma vista de conjunto da obra completa de uma figura tão apaixonante. E é possível que isso estimule a publicação da correspondência do poeta, importantíssima, sobretudo a trocada com o filósofo Benedito Nunes, seu mais próximo interlocutor e amigo.

É difícil imaginar o efeito que o reencontro com Mário Faustino pode ter sobre as novas gerações, e principalmente sobre os "novíssimos". Na verdade, ele nunca perdeu o grande poder de atração e a autoridade que conquistou entre os poetas mais jovens, desde que se tornou conhecido em todo o país como organizador da página intitulada "Poesia-Experiência", no hoje lendário (e quase inacreditável) Suplemento Dominical do Jornal do Brasil. Encarnação do que os vanguardistas chamavam de "poeta-crítico", ele ainda estava para completar os 26 anos quando começou a editar semanalmente, entre 1956 e 1958, seu workshop em papel-jornal. Tinha chegado pouco antes ao Rio – tendo nascido no Piauí e se formado em Belém do Pará – e já era respeitado pela publicação, em 1955, de "O homem e sua hora".

Sob o lema (inspirado em Ezra Pound) "Repetir para aprender, criar para renovar", a página semanal de Faustino incluía várias seções dedicadas à divulgação, à crítica e à tradução de poesia de todos os tempos e de poetas contemporâneos. Só uma parte desse vasto esforço chegou a ser publicada em livro – nos volumes "Poesia-Experiência" (Perspectiva) e "Evolução da poesia brasileira" (Casa de Jorge Amado). Quanto às traduções de poemas, também apenas algumas apareceram na primorosa edição de 1985, "Poesia completa, poesia traduzida" (Max Limonad), organizada por Benedito Nunes.Enquanto esperamos o lançamento dos próximos volumes da série, "O homem e sua hora e outros poemas" já nos dá bastante material para reflexão. Por um lado, é inevitável uma especulação sobre o prejuízo deixado pelo desastre aéreo de 1962 para a poesia brasileira. Com ele, fechou-se para sempre o caminho estritamente pessoal aberto por Faustino; em tempos de crise e polêmica, era um caminho alternativo entre o concretismo e a reação anticoncreta – tola querela que até hoje polariza o debate poético no país. Por outro lado, nota-se agora um paradoxo em relação à poesia faustiniana: boa parte dela ressurge simultaneamente envelhecida e rejuvenescida. Muito tempo (de passado) e pouco tempo (de idade) deixaram aqui a sua marca.A solene grandiloqüência dos versos cadenciados e impecáveis de "O homem e sua hora" não disfarça, hoje, o sabor de coisa antiga, a ser admirada com reverencial distanciamento.

Por exemplo, no poema-título do livro: "(...) Aqui, / Sábia sombra de João, fumo sacro de Febo, / Venho a Delfos e Patmos consultar-vos, / Vós que sabeis que conjunções de agouros / E astros forma esta Hora". Pretendendo elevar-se acima do mundo e do tempo, os versos acabam soando como se datassem de outro tempo e de outro mundo. Já com os poemas mais experimentais da segunda fase, contemporâneos da militância na página "Poesia-Experiência" e tributários do diálogo com a vanguarda concretista, o carimbo da data não marca tanto o desejo de atemporalidade quanto o engajamento num projetado tempo futuro; por exemplo nos jogos verbais de versos como "e pelos pêlos do cão do chão" e "as uvas e as luvas / alvas da nuvem".Paradoxalmente, a mesma grandiloqüência, numa fase, e o mesmo engajamento, na outra, traem um certo entusiasmo juvenil, a excitação pela descoberta do próprio talento, com aquela ânsia de elevar a voz à altura de seus grandes ídolos de leitor de poesia, desde Homero a Mallarmé, de Píndaro a Eliot.

O excesso de alusões literárias e citações em latim e grego demonstra a admiração pela obra pantagruélica de Pound, mas não deixa de indicar a fantasia de participação direta nesse universo livresco, o que no fundo afasta o poeta de seus melhores temas – que são o amor (ou, sobretudo, a falta dele) e a morte (a literal, não a "literária" dos clássicos). De certo modo, o que Haroldo de Campos chamou de "impaciência órfica" de Mário Faustino, "contra o espírito do tempo", é exatamente o que envelheceu e rejuvenesceu na sua sempre comovente poesia.Mais paradoxal ainda é que esse orfismo afetado e imaturo, com a decorrente opção pelo tom sublime e às vezes preciosista, permitiu ao poeta alguns acertos que permanecem impressionantes – porque de fato não têm idade. Seja na expectativa de completude amorosa –

"Amor feito de insulto e pranto e riso, /
Amor que força as portas dos infernos, /
Amor que galga o cume ao paraíso" –

seja no pressentimento da finitude mortal –

"Eis a quinta estação, quando um mês tomba, /
O décimo-terceiro, o Mais-Que-Agosto".

É o Faustino ávido por amor que, no entanto, corteja a morte, como único meio de acesso real ao absoluto, numa espécie de erotismo cósmico:

"Não morri de mala sorte, /
Morri de amor pela Morte".

Também é tão solene quanto certeira a
"Balada (em memória de um poeta suicida)" que é o mais antológico poema de Faustino, desde que serviu de inspiração e epígrafe para uma das obras-primas de Glauber Rocha, "Terra em transe", de 1967.

"Não conseguiu firmar o nobre pacto /
Entre o cosmos sangrento e a alma pura. /
Porém, não se dobrou perante o fato /
Da vitória do caos sobre a vontade /
Augusta de ordenar a criatura /
Ao menos: luz ao sul da tempestade. /
Gladiador defunto, mas intato /
(Tanta violência, mas tanta ternura)".

Esta primeira estrofe resume o lirismo feito de exaltação e fracasso que marca o melhor da poesia faustiniana. O caos revém contra o afã de ordem e beleza próprio da forma poética. Mas a violenta frustração do "nobre pacto" é justamente a garantia final de cumprimento da missão da poesia enquanto meio de conhecimento do mundo, do cosmos e de si. O fracasso de Orfeu completa o mito. Como explica Benedito Nunes em seus ensaios sobre a obra do amigo, opera aí o princípio clássico do amor fati – uma aceitação do destino e da necessidade que representa, no dizer de Nietzsche, um grande "sim" à vida e suas contingências.

Mas essa afirmação perde o fôlego sempre que precisa competir, na poesia, com outra mística: a da forma acabada e da tradição literária. Isso talvez explique por que Faustino não chegou a publicar um segundo livro nos sete anos de vida – tão ativa! – que teve após o lançamento de "O homem e sua hora". O poeta-crítico que assinava combativos artigos no "Jornal do Brasil" parecia perfeitamente seguro sobre o melhor a fazer. Mas o poeta-mesmo era bem mais hesitante: seus "Esparsos e inéditos" reunidos em livro pela primeira vez em 1966 mostram alguns poemas realmente memoráveis, mas o conjunto aponta para várias direções diferentes, e não é fácil enxergar ali um projeto de livro próximo do acabamento.

Pelo menos não com a organicidade e o rígido planejamento reclamado pelo poeta-crítico, sob forte influência do proselitismo de Pound.A monumentalidade in progress dos "Cantos" do poeta americano, poliglóticos e eruditíssimos, impressionou Faustino. Junto com o núcleo concretista de São Paulo – os irmãos Campos e Décio Pignatari – o piauiense estava entre os primeiros leitores brasileiros que mostraram uma compreensão mais ampla da experiência poundiana. Ao mesmo tempo, também se deixara impactar pela publicação, em 1952, de outro projeto monumentalizante, a "Invenção de Orfeu", de Jorge de Lima, com seu profuso desfile de imagens entre o barroco e o Kitsch. Esses dois modelos de gigantismo fizeram sombra ao rapaz que, no entanto, escreveria em módicas 14 linhas alguns dos sonetos mais bonitos da lírica brasileira.

E ele se convenceu, então, da necessidade do largo fôlego versificador: "Toda a minha obra tende à criação de poemas longos", declarou, mais de uma vez. Hoje, cabem as perguntas: era mesmo uma tendência ou uma auto-exigência? tal inclinação partia da sua escrita ou das suas leituras? tratava-se, para ele, de uma questão realmente poética ou apenas "literária"?

Os inéditos divulgados por Benedito Nunes em 1966 mostram algumas tentativas, sempre inacabadas, de prolongar o canto das Musas. Junto com elas, ficamos conhecendo alguns dos planos redigidos pelo autor. Como nessa espécie de "pauta" anotada em 1959: "1º) Conferir à poesia uma vasta medida, uma dignidade que lhe permita competir com as outras formas de cultura contemporâneas, sobretudo a arquitetura e a ciência; 2º) Fazer com que a poesia possa satisfazer de algum modo as necessidades, digamos, metafísicas do homem contemporâneo". É o poeta-crítico da página dominical em ação sobre si mesmo: a poesia se tornava uma verdadeira tarefa de Hércules para ele.

A mesma ambição desmesurada aparece em "A reconstrução" – poema que, abandonado, não chegou a ficar tão longo quanto seu minucioso plano. Depois de invocar toda uma academia de ídolos – Virgílio, Dante, Camões e cia. – o planejador anota: "Identificar a procura da poesia com a procura do graal". Essa demanda, no fim, aparece também associada ao desejo amoroso: "Descrever minha busca do amor, todas as minhas tentativas. O caminho. Recordar a Divina Comédia. Recordar D. Quixote". Por um lado, a escrita de um simples poema se converte numa epopéia, sendo a poesia comparada a um vaso santo, tão raro quanto desaparecido. Por outro, espera-se encontrar o amor só depois de atravessar os círculos do inferno e combater os moinhos de vento.

Não deve ser um acaso que os poemas mais belos e acabados de Faustino, escapando ao plano, tratem exatamente do amor fracassado, da rejeição, do abandono e do anseio (real, sexual) de amar.

É o caso da "Ballatetta" ("Por não ter esperança de beijá-lo / Eu mesmo, ou de abraçá-lo, / Vai tu, poema, ao meu / Amado, vai ao seu / Quarto dizer-lhe quanto, quanto dói / Amar sem ser amado, / Amar calado"). E também dessa pequena jóia que é o "Soneto": "Necessito de um ser, um ser humano / Que me envolva de ser / Contra o não ser universal, arcano / Impossível de ler".

Em ambos os casos, são poemas que não deixam de remeter aos acervos eruditos do autor, em particular ao lirismo medieval italiano (a escola toscana, Guido Cavalcanti, o Dante da "Ballatetta dolente"). Mas, neles, a remota evocação de formas tradicionais vem acrescentar ao sofrimento amoroso o distanciamento por onde se instila a suave ironia que é sua marca moderna.

Essas peças que ele próprio talvez considerasse "menores" formam hoje a parte realizada da curta obra de Mário Faustino, e contrastam com a sua perseguida aspiração ao poema longo, à medida épica e ao tom grandioso. É por causa delas, com sua bem-trabalhada despretensão, que se pode dizer também dele que "a vida é curta, a arte é longa". Nos seus últimos anos, porém, o poeta parece ter antevisto uma possibilidade de conciliação entre o lirismo breve e as estruturas de largo fôlego, com a proposta de uma obra-em-progresso composta de fragmentos a serem encadeados por meio de uma técnica inspirada na montagem cinematográfica. "Se tenho lápis e papel à mão, vou escrevendo em bruto da maneira que em cinema se tomam takes que mais tarde serão montados" – escreveu ele em carta de 1960 a Benedito Nunes.

Foi o filósofo quem transmitiu a idéia para os leitores: "seria a forma total nascendo do intercurso de formas parciais, (...) num processo de recorrência, no qual cada parte ensejasse o todo e o todo preexistisse em cada parte". Restaram apenas 18 fragmentos, sem indicações seguras sobre sua montagem. Considerados isoladamente, eles finalmente superam a adolescência órfica do poeta: são poemas muito mais espontâneos do que tudo o que ele jamais escrevera antes, mais livres de figuras mitológicas e bíblicas, bem como do cânone em peso da poesia ocidental.

Mas nem por isso serão composições menos experimentais, deixando de lado a megalomania de Pound, mas incorporando o seu princípio de escrita ideogrâmica (também reivindicado na época pelos concretistas): "meninada apostando corrida com chuva / menino adiante / atrás a chuva oblíqua". Ocasionalmente, a nota erudita reaparece, mas (como em Manuel Bandeira) nunca como decoração exterior; por exemplo no dístico "Gaivota, vais e voltas, / gaivota, vais – e não voltas", que ecoa distantes cancioneiros. Pelo menos um desses fragmentos – "Juventude – / a jusante a maré entrega tudo" – pode ser considerado uma obra-prima, com todo o seu ar de coisa inacabada, aberta, em movimento, incapaz de monumentalismo.Por uma ironia do destino, o poeta que tanto sonhou com o poema longo deixou uma obra em fragmentos.

Apaixonado pela idéia de perfeição, mas fadado ao imperfeito, acabou se voltando para essa busca do perfeito na imperfeição que é a escrita fragmentária: segundo Schlegel, "um fragmento deve ser como uma pequena obra de arte, separado do mundo ao redor e em si mesmo perfeito e acabado como um ouriço". O desastre interrompeu o já pensado antes como obra de interrupção e retomada, impedindo o autor de experimentar a idéia da montagem. Faustino, que tanto almejou como poeta-crítico um poema absoluto e cabal, terminou aproximado à concepção bem menos retumbante de um poeta que ele parece não ter conhecido, pois estava fora das prescrições da vanguarda brasileira no momento. Escreveu Paul Celan, seu contemporâneo: "O poema absoluto – não, com certeza ele não existe. Mas em todo verdadeiro poema, mesmo no menos ambicioso, existe essa questão inelutável, essa demanda exorbitante". Mas, se até um fragmento participa em potencial do almejado poema absoluto, então estamos livres da obrigação de atingi-lo sozinhos. O caráter fragmentário da obra faustiniana dificulta bastante a tarefa de seus editores: não pode haver uma edição definitiva de uma obra inacabada. O volume agora lançado nos deixa ainda mais ansiosos por uma edição crítica, que indique e comente de maneira mais rigorosa suas fontes e as variantes. Maria Eugenia Boaventura presta um bom serviço ao acrescentar 13 poemas ao corpus do autor, mas infelizmente não escreve uma palavra sequer sobre sua origem e estado de acabamento. Também o problema da ordem dos textos mereceria uma reflexão mais detida – não sendo de todo satisfatório o critério de ordem decrescente da data para uma obra que, além de inacabada, se pretendeu "em progresso".Algumas falhas de revisão prejudicam o resultado final. Há muitas gralhas espalhadas pelo texto, como em "Prefácio" ("as traduções" em vez de "a traduções"), "O homem e sua hora" (uma vírgula na expressão "turris eburnea", "rumos ao" em vez de "rumo ao", "autora" em vez de "aurora") e "Rupestre africano" ("acorda" em vez de "a corda"). O texto mais comprometido é o da famosa "Balada", que teve a estrofação confundida e ganhou uma vírgula inexistente nas edições anteriores, sem o devido esclarecimento; o subtítulo incorporou erro da edição de 1985 ("uma poeta suicida" em vez de "um"). Por fim, pela terceira vez se perdeu a oportunidade de grafar corretamente o título de "Ballatetta".

Sérgio Alcides é poeta e ensaísta, autor de "Nada a ver com a Lua" (Sette Letras, 1996) e "O ar das cidades" (Nankin, 2000).